domingo, 9 de novembro de 2014

Só sei que tenho uma módica quantia de certezas relativamente a uma menos módica quantia de assuntos


Há uns dias a minha mãe veio ter comigo e disse-me: "Estou muito chateada hoje". E eu, como boa e dedicada filha que sou, perguntei-lhe porquê e se havia alguma coisa que eu pudesse fazer para minimizar o desconforto que a vida lhe estava a provocar. Ela respondeu-me o seguinte:

 

"As mulheres se fossem espertas não se deixavam levar pelo marketing".

 

Assim, sem mais nem menos. E ainda dizem que as pessoas de meia idade são aborrecidas.

 

Já não é a primeira vez que oiço a minha mãe queixar-se que as raparigas hoje em dia se maquilham demasiado, que usam saltos altos demasiado novas e malas de senhora quando deviam usar mochilas.

Não é que ela ache que antigamente é que era bom, longe disso, ela sempre me tentou passar a ideia de que quando ela tinha a minha idade (e especialmente antes do 25 de Abril) não só era tudo péssimo, como a preto e branco (tanto literalmente como metaforicamente).

 

Eu diria que a minha mãe é uma feminista de segunda vaga (ou, pelo menos, o equivalente português/europeu da coisa). Ela nunca se deu muito a títulos ou coisas desse género mas de vez em quando diz-me que era feminista antes de eu sequer existir por isso não vale a pena armar-me em esperta. Faz-me bem ouvir estas coisas de vez em quando. Keeps me grounded.

 

Mas a verdade é que este tipo de coisa também me deixa um bocado dividida. Já passou a febre da igualdade pós 25 de Abril e agora temos que lidar com um monte de coisas que não sabíamos que existia antes da poeira assentar.

 

Por um lado, acho que muitas mulheres são apáticas relativamente à sua situação. Não sei se é porque se recusam a aceitar que são oprimidas porque têm medo que isso automaticamente lhes atribua o título de vítimas (o que não é verdade). Por outro, tenho a plena consciência de que nem toda a gente tem a minha vida para andar por aí pensar em como combater o patriarcado, uma vez que andam demasiado ocupadas a trabalhar/estudar/sobreviver.

 

Também acho que as mulheres deviam estar no seu direito de usar maquilhagem e saltos e vestidos curtos mas, ao mesmo tempo, devíamos ter mais consciência de que não vivemos num vácuo cultural e que padrões convencionais de beleza são tóxicos. Idealmente, devíamos iniciar uma guerrilha contra os cosméticos. É complicado.

 

Acho que o movimento feminista devia ser mais académico e menos "de pacotilha", menos complacente, acho que devia haver mais líderes intelectuais proeminentes. Mas também acho que isso se tornou um bocado obsoleto com a internet. Em vez de um único foco luminoso mega brilhante, temos vários mais pequeninos que brilham com intensidades variadas.

 

Muitas vezes acho que as coisas não mudam até chegar o dia em que fazemos algo drástico. Em que rapamos metade da cabeça e rosnamos aos homens que passam por nós na rua. Em que andamos com uma faca de mato no cinto, em que agarramos a sociedade pelos tomates e dizemos que ninguém vai a lado nenhum até sermos todos gente.

 

Mas também acho que devemos ser persistentes e pacientes, que está tudo a melhorar pouco a pouco. Estamos a atirar uma pedra de cada vez ao glass ceiling e o dia em que ele se desfaz completamente está para chegar.

 

Depois do último velho caquético da última instituição/partido/empresa morrer, quem vai herdar o mundo são mulheres altamente qualificadas.


Acho muita coisa e ao mesmo tempo não acho nada. Sou um autêntico Sócrates às vezes.
 
 
 

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