Há uns dias a minha mãe veio ter comigo e
disse-me: "Estou muito chateada hoje". E eu, como boa e dedicada
filha que sou, perguntei-lhe porquê e se havia alguma coisa que eu pudesse
fazer para minimizar o desconforto que a vida lhe estava a provocar. Ela
respondeu-me o seguinte:
"As mulheres se fossem espertas não se
deixavam levar pelo marketing".
Assim, sem mais nem menos. E ainda dizem que as
pessoas de meia idade são aborrecidas.
Já não é a primeira vez que oiço a minha mãe
queixar-se que as raparigas hoje em dia se maquilham demasiado, que usam saltos
altos demasiado novas e malas de senhora quando deviam usar mochilas.
Não é que ela ache que antigamente é que era bom,
longe disso, ela sempre me tentou passar a ideia de que quando ela tinha a
minha idade (e especialmente antes do 25 de Abril) não só era tudo péssimo,
como a preto e branco (tanto literalmente como metaforicamente).
Eu diria que a minha mãe é uma feminista de
segunda vaga (ou, pelo menos, o equivalente português/europeu da coisa). Ela
nunca se deu muito a títulos ou coisas desse género mas de vez em
quando diz-me que era feminista antes de eu sequer existir por isso não
vale a pena armar-me em esperta. Faz-me bem ouvir estas coisas de vez em
quando. Keeps me grounded.
Mas a verdade é que este tipo de coisa também me
deixa um bocado dividida. Já passou a febre da igualdade pós 25 de Abril e
agora temos que lidar com um monte de coisas que não sabíamos que existia antes
da poeira assentar.
Por um lado, acho que muitas mulheres são
apáticas relativamente à sua situação. Não sei se é porque se recusam a aceitar
que são oprimidas porque têm medo que isso automaticamente lhes atribua o título
de vítimas (o que não é verdade). Por outro, tenho a plena consciência de que
nem toda a gente tem a minha vida para andar por aí pensar em como combater o
patriarcado, uma vez que andam demasiado ocupadas a
trabalhar/estudar/sobreviver.
Também acho que as mulheres deviam estar no seu
direito de usar maquilhagem e saltos e vestidos curtos mas, ao mesmo tempo,
devíamos ter mais consciência de que não vivemos num vácuo cultural e que padrões
convencionais de beleza são tóxicos. Idealmente, devíamos iniciar uma
guerrilha contra os cosméticos. É complicado.
Acho que o movimento feminista devia ser mais
académico e menos "de pacotilha", menos complacente, acho que devia haver mais líderes
intelectuais proeminentes. Mas também acho que isso se tornou um bocado
obsoleto com a internet. Em vez de um único foco luminoso mega brilhante, temos
vários mais pequeninos que brilham com intensidades variadas.
Muitas vezes acho que as coisas não mudam até
chegar o dia em que fazemos algo drástico. Em que rapamos metade da cabeça
e rosnamos aos homens que passam por nós na rua. Em que andamos com uma faca de
mato no cinto, em que agarramos a sociedade pelos tomates e dizemos
que ninguém vai a lado nenhum até sermos todos gente.
Mas também acho que devemos ser persistentes e
pacientes, que está tudo a melhorar pouco a pouco. Estamos a atirar
uma pedra de cada vez ao glass ceiling e o dia em que ele se desfaz completamente está
para chegar.
Depois do último velho caquético da última instituição/partido/empresa
morrer, quem vai herdar o mundo são mulheres altamente qualificadas.
Acho muita coisa e ao mesmo tempo não acho nada. Sou um autêntico Sócrates às vezes.
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