quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Graves problemas de cariz constitucional (parte 3687)

Ultimamente tem havido muita confusão sobre o que é que constitui humor, o que é que constitui ameaças à liberdade de expressão e o que é que distingue uma piada de uma demonstração de intuito de violar alguém num futuro mais ou menos próximo. Enfim, quem nunca confundiu tal coisa que atire a primeira pedra, não é? Acontece a todos.

Os senhores portugueses que fazem comédia, ou que tentam, deusa abençoe as suas cabecinhas de asno, volta e meia saem-se com coisas tão estapafúrdias que até fico admirada como é que conseguiram funcionar em sociedade até agora sem apanharem na boca. Se calhar o segredo é esse, não conseguiram. Há um jovem dessa laia, cujo o nome não tinha ouvido até recentemente, tal a sua relevância na cultura portuguesa, que começa por dizer que vai violar as moças que fizerem queixa dele por assédio sexual (atenção, como se isto fosse uma coisa inédita, nunca antes dita ou concretizada por ninguém) e acaba a gozar com celebridades que têm cancro da mama. Quando sujeito a críticas perfeitamente  compreensíveis, esta juventude refugia-se no “ai ui e a liberdade de expressão?” o que até seria engraçado se não fosse já tão recorrente. É Pedro e o lobo mas com Cordes e conceitos mal compreendidos da constituição. 

Ser criticado ou ter posts bloqueados pelo facebook não é nenhuma violação de direitos constitucionais. É que se querem andar a atirar “estás-me a oprimir os direitos”, eu também podia dizer que ao estarem a criticar a minha crítica estava a violar a minha liberdade de expressão e depois como é que era? Era um ciclo infinito de estupidez era o que era. Mas não faço isso porque a) sou adulta e estou habituada a que nem toda a gente concorde comigo b) não sou um whiny pissbaby.

É que nem sequer é um fenómeno português, todos os “humoristas” adoram queixar-se que o politicamente correto lhes está a arruinar a vida e o emprego e que já nem sequer conseguem suster uma ereção. Uma calamidade autêntica. O problema, no entanto, é deles e não da sociedade ou do politicamente correto. Se sentem a sua arte ameaçada porque as pessoas já não acham graça a piadas cuja punchline é basicamente “as mulheres são tão burras” ou “os pr*tos são diferentes e também inferiores” ou mesmo só “panilas” então eles simplesmente não têm graça, nem nunca tiveram. Quando apelar ao menor denominador comum deixa de funcionar, a primeira coisa que fazem não é tentarem ser realmente engraçados, é simplesmente chorar. E muito.

 Esta gente não compreende que lá porque podem ser horrivelmente ofensivos para grupos marginalizados não quer dizer que devam. Pode-se ser ofensivo, é óbvio que sim, mas porquê escolher alvos que estão já saturados de levar porrada? Porque não virar a ofensa contra opressores e não contra oprimidos?

Mas mesmo se fizermos questão de ser uns búfalos sem consciência social, a maior parte da comédia realmente engraçada não tem qualquer componente ordinária. Observem:


O que é um tromport? Por que é que este cão está a usar óculos escuros quando está claramente dentro de casa? Uma composição clássica e multifacetada.
 
Por que é que eu haveria de conhecer alguém chamado Nipples? E por que é que temos 2 amigos em comum? Aquilo é um boneco insuflável do Knuckles? Adoro.

 

Não tenho nada a acrescentar a esta, um exemplo brilhante de neo-dadaísmo que será preservado para a posteridade.

Isto tudo para ilustrar que só não é engraçado quem não é criativo. O facto de tantos comediantes assentarem os seus números em ofender mulheres e minorias a esta altura já nem sequer mexe com o meu lado humanitário, só acho desrespeitoso que cobrem dinheiro a boa gente para os ver fazer algo que não chega sequer aos calcanhares dos dankest memes que a internet tem para oferecer.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Vam'lá ver

Ainda há muita confusão sobre a “lei do piropo”. Ainda oiço muito choro e não me agrada porque, ok, choro é uma coisa mas choro ignorante e intelectualmente desonesto é outra e irrita imenso.

A lei que passou não ilegalizou o “piropo”, ninguém vai preso por dizer “ó menina, está muito bonita hoje”. Quem insiste que sim só faz para chatear e devia parar com isso porque não estou nem aí, ok? Vamos lá ler a dita cuja para tirar isto a limpo.

Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
- Artigo 170 do código penal

Assim sim, dá para ver que é uma coisa séria. O que parece estar a confundir muita gente é aqui a parte de “formulando propostas de teor sexual”. Mas se não formos uma gosma de ser humano, até é fácil de interpretar. Quando um homem-senhor-masculino pratica a antiquíssima e muy nobre arte do piropo raramente é uma coisa que possa sequer ser interpretada como um elogio, é sempre fazia-te e acontecia-te, comia-te isto, rebentava-te aquilo. Uma loucura. Este tipo de afirmações demonstra intenção de atuar sobre outra pessoa e pôr em causa a sua segurança, tal como ameaçar alguém de morte. É por isso que se fez uma lei sobre isso, porque, quando se demonstra intenção de, sei lá, praticar atos sexuais em alguém sem consentimento está-se a ameaçar essa pessoa de, hmm, como é que se diz, ah, sim, violação. E violar alguém, meninos e meninas, é muito (mas mesmo muito) grave. São anos e anos a lidar com trauma, para não falar das moças (e moços) que são mortas no processo ou que se suicidam mais tarde, gente cuja vida é completamente hijacked por um tipo de violência profundamente desumanizante.  

E não, também não vos estão a atacar as liberdades de expressão. Continuam a poder dizer que as mulheres são umas badalhocas e que gostavam de lhes fazer isto e aquilo, só não podem dizer isso a uma senhora diretamente na rua. Será isto difícil de compreender? Um conceito tão puro, tão simples. Não manifestem intenção de molestar pessoas sexualmente! Só! Mais nada!

Observem como é fácil:

“Acho as mulheres inerentemente inferiores aos homens e deviam estar acorrentadas ao fogão. Sinto uma grande vontade de lhes bater a todas porque as suas caras são tão estúpidas e também violáveis” – Opinião deplorável mas protegida pelo direito à liberdade de expressão

“Hey! Tu aí! Fodia-te essa cona toda!!” – Ameaça de cariz sexual que pressupõe intenção de violar alguém: ilegal porque não há razão nenhuma para não ser.

“Oi gata, tens facebook?” – Excelente frase de engate, claramente legal.

Pronto. Mais claro que isto só mesmo um livro de colorir temático.

Mas em vez de sermos todos meninos crescidos e dizer que estamos a impedir que se ameace violar mulheres na rua, que é o que está a acontecer, não tenham ilusões, diz-se que o piropo é ilegal. Talvez se reformulássemos a linguagem um bocadinho as reações seriam menos “2/10 não gosto” e mais “ah pensei que isso já era assim”. A partir do momento em que começamos a formular as coisas de maneira a que parece assim mais ou menos que estamos a atacar um problema que afeta desproporcionalmente as mulheres passa-se tudo e é só “ai as minhas liberdades” para aqui e “ai que o politicamente correto me veio roubar as chinelas” para ali e eu estou saturadíssima.

Também não é uma lei que assume que as mulheres precisam de proteção ou o diabo que o valha. Não é nada disso. Quanto muito a lei assume que os homens não se sabem comportar em público porque não lhes disseram que não que chegue quando eram pequeninos e agora têm dúvidas sobre socialização básica. Se formos por aí, que isto assume que as mulheres são fraquinhas do joelhos porque precisam de mariquices como leis para as proteger, onde é que paramos? No limite, todas as leis servem para nos infantilizar. “Ah toda a gente sabe que roubar está errado, eu não roubo e se os meus filhos roubassem punha-os de castigo!” Ah pronto então ok, my bad, não é preciso nada que regule este tipo de coisa, zero. Acabem com esta parvoíce toda, fechem os tribunais, assunto encerrado.

As leis servem como guidelines sobre como nos devemos comportar em sociedade e sobretudo, minha nossa, esta lei ajuda a mostrar a muitos senhores (e senhoras também! olhem para mim, tão inclusiva) que as suas ações têm consequências. É lixado, eu sei.

O meu pai costuma dizer que os governantes de um país devem ser a sua elite intelectual, ou seja, devem ter insight que vá para além do comum mortal. Será isto elitista? Talvez. Acontece muitas vezes? Lol. Este tipo de leis anda muito nessa linha, pode até parecer incompreensível a muita gente mas tem um objetivo muito específico e pertinente, visa acabar com desigualdades sociais artificiais dizendo muito claramente “hey, fazem isto há muito tempo e nunca ninguém vos disse nada ou se disse vocês não ouviram portanto nós, o governo (olá), estamos aqui para vos informar que esta merda já não voa, se não respeitam as pessoas a bem respeitam a mal seus cornichons de um caralho”.

Sim? Ok? Posso nunca mais ter que ouvir falar disto? Obrigada.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Cologne-nizando

2016 foi inaugurado com o debate mais antigo do mundo, um debate extremamente pertinente que se resume a: “ será que odiamos mais mulheres ou minorias?”. Depois de haver assédio sexual em massa em sítios como Cologne no ano novo, toda a gente se apressou a tentar distribuir a culpa. Será das mulheres? Que deviam estar em casa a cozinhar e a ter filhos, de preferência ao mesmo tempo, em vez de saírem à rua que nem umas badalhocas? Será dos refugiados? Que são todos uns animais e não se sabem comportar?

A senhora que quer distribuir um código de boa conduta às mulheres para não serem molestadas sexualmente já decidiu que aqui a culpa é claramente das suas irmãs. Assunto encerrado. Muitos outros jovens, no entanto, decidiram aproveitar esta oportunidade para demonstrar a sua superioridade cultural relativamente às populações do além-mar, dizendo coisas como “o multiculturalismo claramente não funciona, olhem como eles tratam as nossas mulheres” enquanto ignoram o facto de que não é preciso vir ninguém de fora para oprimir as “suas” mulheres, elas já estavam oprimidas que chegue antes, obrigada.

E eu? Onde é que me insiro nestas duas categorias? Como não sou nada se não consistente, não me alinho com nenhuma delas. A culpa, amigos, como não podia deixar de ser, é dos homens. Mas quais deles? Todos, como de costume. Se há coisa que isto prova é que os homens são entitled pieces of shit em qualquer lado do mundo. A única nuance é a maneira como o expressam.

Andrea Dworkin, cujos livros deviam ser estudados em formação cívica a partir do quinto ano, tem uma abordagem interessante a fenómenos destes. A ideia é que não se trata de uma coisa “cultural”, embora a religião sempre tenha desempenhado um papel fundamental na discriminação sistemática das mulheres, mas sim da resposta dos homens à sua própria, até à data inédita, opressão. Neste caso, temos a classe dominante dentro da classe dominante, o homem branco ocidental, a desempossar e a desumanizar uma outra classe que estava anteriormente no topo da hierarquia social do seu círculo.

A narrativa do homem branco ocidental sobre os refugiados é muito semelhante a que se usou (e ainda usa) contra os judeus e pessoas de cor. Não é por acaso que o Pedro Arroja diz coisas como “os negros não trabalham porque gostam muito de sexo”, o primeiro sítio que o homem ocidental ataca é o comportamento sexual das minorias. Ele só se preocupa com assédio sexual ou violação quando o afeta diretamente a ele ou à sua propriedade, quando põe em causa a sua masculinidade. As primeiras coisas que se ouviram dos círculos conservadores quando se falou na entrada dos refugiados na europa foi preocupação relativamente às mulheres brancas europeias. O que é que nos iam fazer? Iam molestar-nos por andarmos de calções no verão? Iam obrigar-nos a andar de burqa? É só preocupação superficial e calculista, no fundo o único objetivo é usar-nos como munição na sua xenofobia. Preocupação pelas mulheres de cor raramente se ouve, a não ser quando dá jeito.

Também não é por acaso que aquele jovem nos estados unidos matou oito pessoas de cor numa igreja sob o pretexto de estarem “a violar as nossas mulheres”. Este tipo de homem só expressa preocupação por mulheres quando tentar justificar o seu racismo. Está firmemente acampado no lado “odeio mulheres mas odeio mais minorias”.

O homem branco ocidental retrata o homem refugiado como violento, selvagem e violador numa tentativa de o desumanizar e de o manter inferior a si, salvaguardando a sua posição de poder. O homem refugiado, no entanto, não está habituado a estas andanças e refugia-se na única coisa que lhe deixaram, a sua masculinidade. Se ele é mais violento e mais selvagem é também mais viril e pode demonstrá-lo através da violência que comete contra mulheres, especialmente contra as que “pertencem” ao seu opressor.

Isto acontece mesmo dentro uma comunidade. No documentário da BBC “India’s Daughter”, sobre a violação e homicídio de Jyoti Singh, uma jovem estudante de medicina, falam sobre motivações semelhantes. Os homens condenados pelo crime são de uma zona extremamente pobre, especialistas alegam que os atos deles são motivados pela falta de controlo que sentem em comparação com os homens mais ricos da sua comunidade. Como não têm dinheiro nem status, cometem este tipo de crime horrendo para se sentirem ao mesmo nível dos outros homens mais acima na hierarquia social. É uma linha de pensamento extremamente mesquinha e só mostra como o patriarcado faz de tantos homens débeis mentais.

Pode parecer que estou a tentar desculpar este comportamento mas muito longe disso. O dia em que desculpar o comportamento de um homem é o dia em que inauguro uma performance piece sobre como eu seria num universo alternativo. Isto não é uma desculpa, é uma explicação. Não é a mesma coisa. Assédio sexual nunca pode ser desculpado porque não há desculpa, não há nenhuma razão para nós, as mulheres, apanharmos por tabela porque os homens às vezes se sentem inadequados. Os homens jogam os seus jogos mesquinhos e nós, quê?, somos a bola? Acho que não.

Mas, no fundo, mesmo depois de ter em consideração todo o contexto social e todas as explicações possíveis e imaginárias, as pessoas continuam a ser pessoas e a ser capazes de tomar as suas próprias decisões. Os homens em Cologne escolheram assediar sexualmente aquelas mulheres, tal como imensos outros homens tomam essa decisão todos os dias e não há nada, mesmo NADA, que justifique isso.