Escrevi uma coisa
há uns tempos sobre a importância de ter a liberdade de definir as nossas
próprias experiências e como o facto de estarem a surgir montes de termos para
definir diferentes géneros ser fundamentalmente bom. Mas, olhando para trás, se
calhar sou capaz de ter compreendido mal a direção do movimento. Estava
convencida, na minha ingenuidade, que o end goal era abolir efetivamente o
conceito de género, reconhecendo-o como uma criação patriarcal que tem como
objetivo final beneficiar os homens, que estes termos novos eram uma expressão
da vida interior rica de todas as mulheres por esse mundo fora, uma tentativa
de explicar o que se sente e não o que se é.
O problema com o binário de género nunca foi o facto de ser
limitado no sentido em que não abrange todos os géneros com que se pode nascer
já hardwired mas sim o simples facto de existir, de criar uma distinção
artificial baseada em mentiras. Porque, não se iludam, o patriarcado está
assente apenas em mentiras. Anos e anos de mentiras que se auto-propagam apenas
por interesse e uma boa dose de ignorância.
Quando se admite que o género não é binário mas que o binário
em si é válido não estamos a ser progressivos. Para aceitar que ser não-binário
é de certa forma essencialista e intrínseco temos que aceitar que ser binário
também o é, e isso é o que o feminismo tem andado a tentar desconstruir há
imenso tempo. Eu compreendo e aceito qualquer necessidade em
usar descritivos como genderqueer ou genderfluir para explicar uma identidade
pessoal em termos práticos mas não para determinar uma verdade imutável. O
género não se sente, é uma fabricação. Eu não me sinto como uma mulher nem
penso, respiro, vivo como uma mulher. Vivo como eu própria. Eu não conheço
mulheres, conheço a Joana, a Ana, a Margarida. E nenhuma se experiencia a ela
própria como mulher mas sim como Joana, Ana e Margarida, como sendo
essencialmente seres humanos com consciências humanas, uma mistura de tudo o que
viveram.
O género tem mais a ver como a maneira como nos tratam do que
efetivamente com a nossa vida interior. A nossa opressão não desaparece
magicamente só porque decidimos identificar-nos para fora dela, começou desde
que nascemos, desde que nos disseram que éramos meninas, raparigas, mulheres.
Começou na escola, na maneira como olham para nós na rua desde que temos doze
anos, começou quando começámos a duvidar de nós próprias só por causa da nossa
herança genética.
Li num artigo algures que a esmagadora maioria (pensem mais de
80%, migos) das pessoas que se identificam como não-binário são assigned female
at birth. O que, se pensarmos bem, faz todo o sentido. Se somos nós, as
mulheres, que ficámos com o raw end of the deal relativamente ao conceito de
género é perfeitamente normal que queiramos escapar às suas imposições de uma
maneira ou de outra. Somos de tal maneira bombardeadas com uma imagem fixa do
que é ser mulher, de como é suposto sentirmos e vivermos o mundo, que quando não
nos revemos em nada disso, quando vemos que grande parte da experiência humana
nos está vedada simplesmente por causa da bagagem do género que nos atribuíram,
a única explicação só pode ser “não sou isto, não esta coisa que dizem que eu
sou”.
Mas não há nada de proprietário em ser mulher ou em ser homem,
não há nada capaz de diferenciar uma coisa da outra fundamentalmente, onde
interessa. A tragédia nunca foi a incapacidade de reconhecer que há um mundo
para além do binário, mas sim a incapacidade de reconhecer que o binário nunca
foi mais nada do que amarras para as mulheres, que tem um propósito sinistro de
raiz, que nunca devia ter existido e que não devemos deixar que continue a
existir.