O algoritmo do facebook que decide o que há de anunciar é realmente uma coisa extraordinária. Deve ter um código de tal maneira sofisticado que só pode ter sido programado por um aluno de engenharia informática que ainda nem sequer passou o primeiro semestre e já acha que é o Alan Turing. Algures na internet, flutuando por aí, há um filho da mãe de um código que olhou para o meu perfil de facebook e fez as seguintes contas: mulher + idade fértil = posts sobre bebés. Mereço? Talvez. Mas preferia não.
Não é que posts sobre bebés me repugnem muito. Não são, sei lá, coisas a anunciar comícios da JSD. Sou bastante indiferente à coisa. Mas de todos os posts calhou-me na rifa um chamado “
coisas que só as mães de meninos sabem”. Claramente, como sou patologicamente masoquista, fiz questão de clicar no link. E, depois de conseguir reagir ao horror que estava a ler, fiz questão de ler mais uma dezena de posts e de clicar em mais blogues e de ficar com cerca de 30 tabs abertas de mommy blogs portugueses. Moderação não é algo que me assista.
Mas pronto, este primeiro chamado
My Baby Blue Blog é, aparentemente apenas a ponta do iceberg do horror show que é mommy bloggers de upper class que adoram heteronormatividade e colorcoding das crianças consoante o sexo. O post que citei tem milhares de partilhas e até tem uma sequela! E um post passivo-agressivo a dizer que lamenta que certas mães se tinham sentido ofendidas com o post original. Pessoalmente adoro este tipo de drama, até porque alimenta a minha fúria feminista. E quanto maior é a minha fúria feminista mais forte eu fico.
Assim de repente não tenho nada contra estas senhoras. A minha mãe é uma dona de casa e, embora eu ache que estas mommy bloggers parecem terem uma atitude muito pouco prática e, vá, um bocado supérflua (a minha mãe é uma dona de casa assim um bocado mais proletária), à questão toda de criar crianças e cozinhar e whatnot, não tenho nada se não respeito por mulheres que, ou decidiram ficar em casa, ou têm como interesse fundamental criar crianças e decoração de interiores. Acho que qualquer escolha que uma mulher faça, desde que seja informada, livre e em prol do seu bem-estar físico ou psicológico, é uma boa escolha.
Nenhuma crítica minha será sobre isso.
Dito isto, estas senhoras estão completamente passadas do miolo.
Para já, as que encontrei, parecem ter desbloqueado um gene qualquer que as parece fazer só produzir rapazes ou, pelo menos, raparigas em menor quantidade. A maioria das que encontrei ou têm só meninos ou têm uma menina e o resto rapazes. Pronto ok, por mim tudo bem, a lotaria genética faz o que quer e ninguém manda nela e, mais do que secretamente, fico feliz por terem tão poucas meninas. Quando há gente que acha que ter rapazes em vez de raparigas é “muito mais dinâmico”, que subescrevem à noção de que as raparigas são x e os meninos y, que acham que as meninas são só para as barbies e para o cor-de-rosa e os meninos para os carrinhos e os dinossauros, não fico nada se não aliviada por demonstrarem tão pouco interesse no género feminino.
Estas senhoras acreditam mesmo que as meninas pequenas são espécies à parte, com interesses e temperamentos radicalmente diferentes. É-lhes inconcebível pensar que há por aí algures meninas que também se sujam e também gritam e pulam e correm e que têm uma imaginação fértil. Ah não. Para elas qualquer filha que produzissem seria algo semelhante a uma boneca: dócil e estática. Muito menos “dinâmica”, portanto. Até vão ao ponto de achar que as raparigas comem menos por design. Nunca viram, certamente, a minha irmã mais nova comer 10 salsichas de uma vez só, nem as amigas dela a comer 4 almôndegas do tamanho de um punho ao almoço.
E depois disto tudo ainda cultivam um culto da vitimização bizarro em que se queixam das inúmeras e extremamente reais (tenho a certeza) pessoas que as fazem sentir mal por só terem rapazes e lamentam a falta de conteúdo para mães de meninos na internet. Realmente é verdade, as necessidades dos meninos são tão desprezadas nesta nossa sociedade.
As que efetivamente têm raparigas são outro susto completamente diferente. É tudo princesa para aqui, “cada vez mais menina” para ali, penteados, roupas e passerelles. Perfeitamente assustador. E fotos! Fotos das meninas na praia, antes de saírem para o colégio (é sempre um colégio com esta gente), a pousarem ao pé de um cavalo, nas saídas de família. Sempre com local de compra dos ensambles em baixo, como é óbvio.
O que eu acho, muito sinceramente, é que, embora estas senhoras amem claramente as filhas, não gostam particularmente delas. Não gostam das filhas da mesma que maneira que não gostam de si mesmas. Infligem nas filhas o que a sociedade inflige nelas, qual vítima tornando-se bully. Mas temos que tomar responsabilidade pela violência que infligimos umas às outras. A minha mãe certificou-se de que se tinha libertado de todos os ideais cristãos e conservadores que lhe tinham sido incutidos antes de ensinar o que quer que fosse às filhas (e ao filho). E, tal como a minha mãe, elas têm uma responsabilidade para com as suas filhas, em protege-las de tudo o que as vão tentar obrigar a ser e a fazer. Não podem ser, em nenhuma circunstância, aliadas dos seus opressores. Não podem ser mais um agente que as mói gradualmente a vida toda.
Mas nem é o só o outlook em relação a diferenças entre géneros que me mete nojo. É tudo. Das fotos de batizado, da insistência em que as crianças rezem (especialmente as meninas, ai as meninas, afastem-se disso o mais depressa possível), aos desfiles de moda com crianças e à óbvio prostituição da imagem dos filhos. É bizarro.
E o pior é que, apesar da minha imagem de megacabra-3000, adoro crianças. São como os cães, muito puras e maleáveis a ideais socialistas. São boas e curiosas. O pior é quando crescem e a influência contínua dos adultos à sua volta as arruína completamente.
Já vi acontecer em primeira mão e é uma coisa horrivelmente deprimente, crianças cheias de potencial a degenerarem em adolescentes fúteis que, por sua vez, hão de degenerar em adultos irrelevantes. Assim nada muda.
Acho que precisamos de mudar a maneira como vemos a maternidade. Temos que dar espaço às nossas irmãs para se encontrarem antes de irem por aí produzir mais gente. Ser pessoa é difícil, criar uma pessoa enquanto se tenta ser uma como deve ser deve ser ainda mais difícil. Acho que devíamos parar de empurrar as mulheres para a maternidade, mesmo que seja de uma maneira subtil. Não há nada de automaticamente louvável em ter filhos, especialmente quando, ao se revelarem ser pessoas a sério e não um sentido-da-vida™ instantâneo, frustram infinitamente as mães (e talvez os pais também mas onde é que andam esses palhaços? A julgar pelas senhoras bloggers não muito perto). Vamos cuidar dos que temos antes de ir fazer mais, pode ser? Dizer às mulheres que o seu valor depende dos seus filhos é uma violência, uma injustiça para as mães e para as crianças que nos mantém a todas sem recurso para sair do ciclo de opressão e ignorância.