segunda-feira, 24 de agosto de 2015

As peripécias das peripécias dos PT

Uma das coisas que me deixa mais triste nesta terra é quando algo demonstra ter imenso potencial e depois auto-destrói-se numa bola de merda. Então quando é produto nacional, ui, até me vem uma lágrima ao olho.

Um destes casos infelizes é a página “Peripécias dos PT”.

Embora nunca tenha sido grande fã, admito que ia lá de vez em quando e achava muita coisa francamente engraçada. Sempre foi um bocado hit and miss (há por ali muito elitismo e muita coisa a descair para o “porca” e “baleia”), mas as screenshots de comentários nojentos a  fotos de moças são hilariantes e sempre adorei ver as fotos de perfil que eram fotos de fotos emolduradas de senhores da altura em que ainda andavam na guerra colonial. Brilhante. Às vezes fazia lembrar o subreddit creepyPMs e isso deixava-me muito orgulhosa.

Sinceramente não sei se só reparei agora ou se sempre foi assim mas, de qualquer forma, parece que ultimamente tem tomado uma direção que é, ao mesmo tempo, completamente previsível e muitíssimo deprimente. Agora apela consistentemente ao menor denominador comum e os responsáveis pela páginas em vez de tentarem dar uma direção apropriada à coisa parecem querer fomentar este tipo de comportamento, o que, infelizmente para eles, só vai resultar no colapso da página porque o tipo de coisa que eles têm para lá não é sustentável a longo prazo (faz lembrar aquela página das “pitas” cujo nome não me recordo mas que também desapareceu por razões semelhantes).

Os posts mais engraçados sempre foram aqueles em que o achincalhamento era dirigido para cima. Ou seja, pessoas eram buéde gross na internet para outras pessoas e depois eram achincalhadas. Fair enough. Nestes casos não há nenhum grupo oprimido a ser gozado simplesmente por fazer parte desse grupo oprimido. É clean wholesome fun para toda a família.  Mas pegar em fotos de pessoas que não estão a magoar ninguém nem a ser desagradáveis e gozar com elas porque se vestem ou agem de maneira menos comum tem literalmente zero graça.

Um dos casos mais recentes é o de um jovem gay (pelo menos foi o que me pareceu pela conversa) que tem uma expressão de género mais colorida cuja foto está a ser usada como foto de perfil da página das Peripécias. A sua única ofensa é literalmente expressar a sua individualidade. O cachopo está obviamente confortável consigo próprio mas mesmo assim têm que ir cagar postas de pescada para cima dele.

Vamos ler comentários.

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Demonstrámos apoio pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo e agora esta gente quer tirar fotos na paz do senhor e ter facebooks e divertir-se! When will the madness end????

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Pessoalmente, nunca consigo perceber nada do que os senhores do PNR dizem porque, juro pela deusa, que sempre que um deles começa a falar só oiço isto.

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Sim, por mitose e tudo. Tenham medo, tenham muito medo.

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Breaking news! Opressão violenta de pessoal da comunidade LGBT é buéde fixe! E o seu comportamento pode ser corrigido! NICEEE!

Há muitos outros comentários engraçados, basta ir à página, há imenso por onde escolher. Atirem uma pedra, de certeza que acertam em merda.

Este tipo de coisa tem zero graça porque está a cagar num grupo que já está bastante habituado a que lhe caguem em cima. Nem sequer estamos a falar de “aha esta pessoa é pateta e está a fazer coisas patetas” estamos a falar de comentários violentamente homofóbicos. Dirigir o achincalhamento para baixo é o tipo mais preguiçoso de humor, o que ainda por cima é tipo o mais pequeno chapéu do mundo num bisonte de nojice. Ofende-me enquanto feminista e enquanto apreciadora de bom humor.

Gente com expressões de género diversas precisam de ser celebradas e não postas on display de forma a que possam ser gozadas por um circlejerk homofóbico em que cada um tenta mostrar o seu nojo da forma mais excessiva possível para estar in. Ninguém aprende nada com isto, é deprimente e francamente provinciano.

Depois temos um post dos senhores que gerem a página sobre como as “feminazis” (adoro quando alguém usa este termo não ironicamente porque o feminismo é LITERALMENTE o mesmo que o holocausto??? Adoro, isto sim é humor) estão a fazer muitos reports e, consequentemente, harshing os swags todos deles. Não há nenhum swag que esteja un-harshed. Não é que eu não ache o histerismo deles hilariante, é só que isto faz-me lembrar aqueles senhores de há mil anos atrás que achavam que o Thomas Edison era feiticeiro, que a matemática era bruxaria e que ficavam muito confusos com as estações do ano. Para além disso andam a partilhar a página do facebook da moça que eles acham que é responsável pelas denúncias e tenho quase a certeza que isso é uma forma qualquer de doxxing e nem o Reddit tolera coisas destas, que falta de classe.

No futuro, onde alguns de nós vivem, há consequências para este tipo de comportamento. Denunciar a página por homofobia e transfobia e todo o tipo de fobias é perfeitamente natural e civilizado, não é um atentado a nada a não ser à falta de decência e de sentido de humor.

O problema deste tipo de discurso é que fomenta a discriminação e não vale de nada igualdade perante a lei se no dia-a-dia há tanto pessoal a negar o direito à humanidade a gente com a qual não se identificam.

Espero mesmo que daqui a uns anos, quando formos todos mais crescidos, esta gente consiga olhar para trás e orgulhar-se de ter deixado de ser um trambolho. Estou a torcer por toda a gente, pela segurança das juventudes LGBT e pela sua liberdade de expressão e pelas juventudes que fazem estes comentários claramente desinformados, espero que cresçam e aprendam um bocadinho, que não se deixem levar tanto pelo que é supostamente “normal”. Ficávamos todos tão mais confortáveis.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Os bois pelos nomes

Como qualquer misandra a tempo inteiro que se preze, estou mais ou menos familiarizada com os ensinamentos da misandra-mor, mestre da opressão máxima masculina: Andrea Dworkin. Ao contrário do que se pensa, ela nunca chegou sequer a tratar os homens como os homens tratam mulheres, não é nenhum bicho-papão e está muito MUITO longe das histórias de horror que ouvi sobre ela antes de me dar ao trabalho de ler os seus livros. É verdade que tem algumas lacunas graves (por exemplo, descai-lhe muito o pé para a transfobia, que é uma marca muito triste de muitas feministas da sua geração) mas é como tudo na vida, deita-se fora o mau, fica-se com o bom e constrói-se em cima disso.

Andrea Dworkin tem ideias muito interessantes sobre muita coisa e é preciso reconhecê-lo. Uma dessas ideais tem a ver com uma das ferramentas mais eficazes na opressão das mulheres: o poder de dar nomes e definir conceitos. O homem enquanto entidade coletiva tem sido responsável por definir basicamente tudo: o que é ser mulher, o que é ser homem, o que é que é aceitável dentro desses parâmetros, o que se deve chamar aos rebeldes que se desviam do que ele próprio definiu. Enquanto não formos capazes de definir as nossas próprias experiências nos nossos próprios termos nunca seremos livres. Qualquer abordagem feminista, por muito radical que seja, estará sempre definida num contexto patriarcal e, por isso, nunca será perfeitamente eficaz.

No livro “Pornography: Men Possessing Women” há uma passagem que ilustra isso perfeitamente:

It is the naming by decree that is power over and
against those who are forbidden to name their own experience; it is
the decree backed up by violence that writes the name indelibly in
blood in male-dominated culture. The male does not merely name
women evil; he exterminates nine million women as witches
because he has named women evil. He does not merely name
women weak; he mutilates the female body, binds it up so that it
cannot move freely, uses it as toy or ornament, keeps it caged and
stunted because he has named women weak. He says that the
female wants to be raped; he rapes. She resists rape; he must beat
her, threaten her with death, forcibly carry her off, attack her in the
night, use knife or fist; and still he says she wants it, they all do.
She says no; he claims it means yes. He names her ignorant, then
forbids her education. He does not allow her to use her mind or
body rigorously, then names her intuitive and emotional. He
defines femininity and when she does not conform he names her
deviant, sick, beats her up, slices off her clitoris (repository of
pathological masculinity), tears out her womb (source of her
personality), lobotomizes or narcotizes her (perverse recognition
that she can think, though thinking in a woman is named deviant).
He names antagonism and violence, mixed in varying degrees,
“sex”; he beats her and names it variously “proof of love” (if she is
wife) or “eroticism” (if she is mistress). If she wants him sexually he
names her slut; if she does not want him he rapes her and says she
does; if she would rather study or paint he names her repressed and
brags he can cure her pathological interests with the apocryphal
“good fuck. ” He names her housewife, fit only for the house, keeps
her poor and utterly dependent, only to buy her with his money
should she leave the house and then he calls her whore. He names
her whatever suits him. He does what he wants and calls it what he
likes. He actively maintains the power of naming through force and
he justifies force through the power of naming. The world is his
because he has named everything in it, including her. She uses this
language against herself because it cannot be used any other way.

 

As mulheres lutam todos os dias contra isto. O direito à auto-determinação e às nossas próprias experiências é constantemente minado, seja a completa negação das estatísticas sobre violação e assédio sexual ou a recusa em aceitar aquilo que escolhemos para nós próprias: se queremos ser alguma coisa tem que ser num contexto muito específico pré-determinado.

Não podemos ser engenheiras nem matemáticas nem físicas, pelo menos não como eles nem como os seus heróis, nunca como eles porque o génio e a predisposição egomaníaca que são necessários para ser bem sucedido não tocam às mulheres. Não podemos ser artistas a não ser de uma forma detached e pouco ameaçadora porque não foi isso que eles escolheram para nós, porque não temos nada para dizer. Não podemos definir a nossa própria sexualidade, não podemos explorar a nossa identidade como quisermos porque da introspeção vem a auto-determinação e daí vem uma ameaça ao status quo.

Andrea Dworkin profetizou que as feministas terão que reclamar o direito de nomear e de definir se querem realmente libertar-se da influência de um sistema opressivo. Acho que é isso que temos agora de forma mais ou menos mainstream e isso deixa muitos homens muito irritados. Temos agora juventudes a usar palavras como demissexual, assexual, pansexual, não-binário, genderfluid, genderqueer, demigirl, demiboy, agender e muitas outras. Se estas palavras descrevem algo válido no paradigma anterior é irrelevante, trata-se de gente que vinha de uma posição em que não tinha maneira de expressar a sua identidade passar a usar linguagem que está completamente fora do controlo da classe dominante, não faz sentido tentarmos sequer julgar isto com as mesmas regras.

As mulheres transgénero são vítimas de violência e de uma ostracização particularmente cruel por razões semelhantes. Elas são a epítome da rejeição das normas do sistema patriarcal, o facto de elas ousarem afirmar que são mulheres distorce por completo a narrativa que os homens inventaram para o que é ser mulher. A violência que sofrem é prova de que apenas a sua existência, o facto de se auto-afirmarem enquanto as mulheres que são e de definirem as suas experiências nos seus próprios termos, chega para pôr em causa o seu precioso sistema. Insegurança gera medo, medo gera violência.

Encontramos oposição também quando se pega em palavras que já existem (tipo slut) que são usadas como armas de arremesso e se faz uma tentativa de as reapropriar. Pegar em algo que já foi definido pela classe dominante e redefini-lo de acordo com as necessidades de outros abre também a porta para a quebra da hierarquia estabelecida. 

Se os homens deixarem de ter poder sobre o que é uma mulher, sobre como elas se veem a si mesmas e se afinal são mulheres a tempo inteiro ou nem por isso, deixam de viver de maneira privilegiada. Deixa de haver “O Homem”, o modelo para experiência humana, e os outros. Se “O Homem” deixar de ser o standard então terá que reavaliar a sua posição nesta nova sociedade, algo perfeitamente inédito.

He can theorize,
fantasize, call it science or art; whatever he says about women is
true because he says it. He is the authority on what she is because
he has made her, cut away at her as if she were a piece of stone until
the prized inanimate object is extracted.

domingo, 9 de agosto de 2015

Responsabilidades

Já há algum tempo que tenho estado a aproximar-me de uma posição mais anti-pornografia mas acho que finalmente solidifiquei a minha opinião.

A pornografia é perfeitamente aceitável na teoria, não tenho nada contra. O problema está quando passamos à prática. Recentemente vi um documentário que ilustra bem quão mal a coisa pode correr, chama-se Hot Girls Wanted e é produzido pela Rashida Jones que, para além de ser super gatona, é super inteligente e só tem boas ideias.

hotgirls

O documentário é sobre umas moças que, como muitas outras, decidem ir para Miami ser amateur porn stars. Aparentemente isto é uma coisa que acontece muito lá nas Américas. Elas são muito MUITO novas, tipo 18-anos-novas, e, embora saibam ao que vão, acabam por ser sujeitas a um monte de coisas menos agradáveis, algumas das quais apenas liminarmente consensuais.

A verdade é que elas já são maiores e vacinadas e, supostamente, entram neste tipo de indústria de livre vontade. Mas temos que reconhecer que elas (e muitas outras) foram criadas num clima muito violento de constante sexualização de mulheres, muitas vezes sem o amortecimento de pais cultos e bem equipados para servir de buffer a este tipo de coisa. Este tipo de clima, especialmente direcionado para meninas com menos acesso à educação e/ou mais pobres, cria a noção de que a única marketable skill que têm e, consequentemente, a única maneira que têm de sair da situação em que estão é usando a única coisa que a sociedade valoriza nelas: o seu sex appeal, quão fuckable são, quão dispostas estão a ser partidas em bocadinhos pequeninos e repackaged para servirem o desejo masculino.

É perfeitamente compreensível que muitas mulheres prefiram sex work à violência da pobreza e concordo que, quando tomam esta decisão, devem ser protegidas legalmente. Mas também acho que deve haver uma razão qualquer para haver tanta oferta de moças de 18 anos que querem entrar no mundo da pornografia.

Embora eu ache bem termo-nos libertado de muitas noções puritanas que só serviam para oprimir a liberdade sexual das mulheres, parece-me que a suposta revolução sexual foi reapropriada pelo patriarcado e acabou por servir exatamente para a mesma coisa. As mulheres libertaram-se de uma coisa para apenas se encontrarem presas noutra pouco depois. Não quero dizer que estávamos melhor antigamente, longe disso, mas não sei até que ponto este novo tipo de opressão será melhor.

As meninas são sexualizadas desde tão pequeninas e formatadas para pensarem que o seu valor está intrinsecamente ligado a quão sexualmente desejáveis são que não é particularmente surpreendente se começarem a expressar a sua sexualidade de maneiras menos saudáveis.

A pornografia, supostamente, deveria ser uma extensão positiva da libertação sexual das mulheres (e, consequentemente, dos homens também mas meh) mas, em vez de facilitar o discurso sobre a sexualidade e tornar a relação de toda a gente com o sexo mais saudável, temos esta abominação, este braço particularmente fálico do patriarcado que é um reflexo exagerado de todo o sexismo que já existe por aí.

É que depois forma-se um ciclo vicioso em que como a internet é tão boa e informativa, a pornografia acaba por ser ferramenta de aprendizagem relativamente à intimidade (o que poderia muito bem ser mas enfim, os homens estragam sempre tudo), mas depois a única coisa que faz é ensinar os meninos que humilhação sexual é buéde fixe e às meninas que é só isso que podem esperar dos seus parceiros sexuais, o que, por sua vez, as empurra para o mundo da pornografia mais tarde porque aprenderam desde jovens a achar este tipo de coisa excitante e perfeitamente normal.

A ideia de que a pornografia, sendo legal, é perfeitamente regulamentada é também falsa. Há pouquíssima legislação sobre pornografia e o tratamento das atrizes é perfeitamente atroz, muitas são sujeitas sem consentimento prévio a atos sexuais com os quais não estão confortáveis, desenvolvem problemas de saúde graves cujo tratamento têm que ser elas a pagar e a prevenção de DSTs e de gravidezes indesejadas é mínima…

A pornografia, portanto, não só não é inofensiva como é ativamente nociva. Não se trata apenas de fantasia uma vez que toda a violência sexual que vemos está efetivamente a acontecer a alguém. Isto não quer dizer que eu ache que devesse ser ilegal, se fosse provavelmente seria ainda pior, mas sou decididamente anti-pornografia no sentido em que não a consumo, não apoio o consumo e não acho que ninguém devesse apoiar a sua produção no paradigma atual. Sou a favor de mais leis que protejam as atrizes e de um discurso mais saudável à volta da sexualidade feminina para que as raparigas mais jovens possam tomar decisões 100% informadas e despoluídas sobre o seu futuro.

Por favor vejam o documentário, vomitem-se todos e depois juntem-se a mim numa cruzada puritana para oprimir a sexualidade masculina. Ámen.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Feminismos do além #1–Decoração

 
Há uns tempos decidi que ia fazer uma espécie de showcase de fellow feminists: basicamente tudo o que seja arte, artigos ou gravações de cantos de baleias auto-tuned usadas como peças de intervenção política…  
A primeira contribuição de forças alheias chegou hoje! 
  
“entre peças silenciosas a conversa é séria para defensores do bruto têm gostos delicados olhares ferozes gritam sobre argumentos razoáveis só com o café vêm as tréguas o café tem espírito e anda os mesmos olhos aguçados juram que tem corpo e pose a pausa é breve, retomam-se os ataques as peças dão ambiente mas a conversa é séria podem ter gostos delicados mas há que defender o bruto“

- Encontrado num guardanapo, no café da esquina




domingo, 2 de agosto de 2015

Telhados de vidro

Eu gosto tanto de dizer mal de coisas que agora até já digo mal da maneira como as pessoas dizem mal de coisas. Acho que, se alguém se vai dar ao trabalho de cagar postas de pescada, que ao menos o tente fazer de forma mais ou menos construtiva.

 
Por exemplo, eu adoro dizer e ouvir dizer mal do 50 Shades of Grey mas, ultimamente, há imensa gente (sobretudo homens, são sempre homens) que me tem arruinado este prazer muito simples. Diria que podemos distribuir os críticos em duas categorias distintas consoante a sua abordagem à coisa:
 
1. O 50 Shades of Grey é um livro estúpido escrito de uma maneira estúpida e as suas fãs são estúpidas e fúteis e só mostra como as mulheres gostam de homens alfa que as tratam mal.
 
2. Embora eu respeite as fantasias sexuais de todas as mulheres e confie inteiramente na sua capacidade de distinguir a realidade da ficção, acho que o 50 Shades of Grey só ajuda a normalizar relações abusivas e o seu sucesso é um sintoma de um sistema opressor que diz às mulheres que este tipo de coisa é desejável.

 
São coisas diferentes. Acho que a primeira abordagem vem, sobretudo, de uma falta de capacidade crónica de fazer um bocadinho de introspeção e ninguém, NINGUÉM neste mundo é menos capaz de introspeção do que o pseudo-intelectual. O meu ódio por pseudo-intelectuais corre tão fundo que, se pudesse, ressuscitava o Bukowski só para poder lutar com ele até à morte e mandá-lo direitinho de volta para a campa.
 
Há uns tempo deparei-me com declarações do Alejandro Iñarritu sobre filmes de super-heróis e o senhor basicamente catapultou para o topo da minha lista de gente com quem teria que lutar se alguma vez visse na rua por uma questão de imperativo de moral. Este senhor disse, em público e de forma totalmente não irónica, o seguinte:
“I sometimes enjoy them because they are basic and simple and go well with popcorn,the problem is that sometimes they purport to be profound, based on some Greek mythological kind of thing. And they are honestly very right wing. I always see them as killing people because they do not believe in what you believe, or they are not being who you want them to be. I hate that, and don’t respond to those characters. They have been poison, this cultural genocide, because the audience is so overexposed to plot and explosions and shit that doesn’t mean nothing about the experience of being human.”  
Nada produtivo, na minha opinião. Um típico caso 1. Incrivelmente trágico.
 
Mas o que me mata mesmo nesta situação é que, embora ele tenha razão nalguns pontos, o Birdman (que lhe valeu a adoração de sabe deus quantos basic white breads) sofre exatamente dos mesmo defeitos.
 
É que é verdade que os filmes de super-heróis são repetitivos, pouco imaginativos, culturalmente irrelevantes e horrivelmente limitados no que toca a representação de mulheres e minorias, mas o Birdman também é isso tudo e até consegue ser pior porque finge não ser. A história do homem branco cishetero que tem uma crise existencial e quer vingar no mundo não só já foi contada um milhão de vezes como foi sistematicamente contada de uma maneira tão preguiçosa e francamente masturbatória que deixou de ser culturalmente relevante há muito tempo (se é que alguma vez foi). O senhor Iñarritu pode gritar ao vento o que quiser que os filmes dele são sobre a experiência humana mas a última coisa que produziu é tão unrelatable e pretensiosa que me custa acreditar que faça alguém neste mundo pensar sobre o que quer que seja.
 
Se calhar a ideia é essa. Se calhar é tão semelhante a todos os filmes de super-heróis porque é suposto ser uma crítica ao género. Se calhar. Mas, mesmo se for, não acho bem ele ande por aí a apontar o dedo ao pessoal por fazer filmes “right wing” quando a sua crowning jewel é um pedaço de lixo apolítico com zero carga moral que, no melhor dos casos, é uma sátira convoluted e sobre produzida de um género que nunca teve pretensões a ser uma superior art form e, no pior, é a história de um homem extremamente desagradável que se acha artisticamente superior a toda a gente e a sua luta para que isto seja universalmente reconhecido (o que, pensando bem, se calhar é mais autobiográfico do que seria de esperar).
 
Até porque ele próprio diz primeiro que o problema é quando os filmes de super-heróis tentam ser profundos. O problema dele é, portanto, quando tentam fazer o que ele faz mas de uma maneira mas acessível. Depois mais no final da citação temos um backtracking parvo e afinal já é tudo sobre a juventude estar perdida e já ninguém querer ver filmes profundos. Sinceramente já não tenho paciência para isto. O pseudo-intelectual é, por definição, um cobarde e intelectualmente desonesto, ele torce tudo para caber numa narrativa estúpida que ele criou em que as massas são ovelhas por escolha própria enquanto ele faz parte dos poucos iluminados que ainda não sucumbiram ao veneno que as grandes indústrias do cinema nos querem obrigar a consumir.
 
O que o Iñarritu não consegue ver é que, se o que ele descreve é um genocídio cultural, então ele é um participante ativo. Eu pessoalmente acho que ele está só salty porque não se fazer lembrou de fazer o Mad Max antes do George Miller.