domingo, 1 de julho de 2018

Sobre racistas e uniformes

Há pouca coisa mais perigosa nesta terra do que um racista de uniforme. Se bem se lembram os nazis eram racistas de uniforme e pouco mais que isso. As cruzadas? Racistas de uniforme. Guerra no Iraque? Racistas de uniforme. Literalmente qualquer religião organizada? Racistas de uniforme. 

É por isso que se olharmos para a notícia da semana passada sobre uma jovem que foi agredida por um segurança da empresa 2045 podemos ficar seriamente indignados mas surpreendidos? Não particularmente, pelo menos não se andarmos minimamente atentos. 

Portugal é ainda um país muito racista e tem tradição de ser muito complacente com racismo no dia-a-dia. O problema com que nos estamos a deparar cada vez mais é que, afinal, este racismo corriqueiro também permeia os estratos mais institucionais e organizados da sociedade. Que, ao longo destes anos todos, tem andado a sangrar e a tingir a polícia, a educação, os tribunais, a medicina.

 Nicol Quinayas, 21 anos - Jovem perfeitamente justificada se alguma vez decidir pegar fogo a um homem

O homem que brutalizou esta mulher fê-lo porque quis e porque podia. Não há nada de extraordinário nele, não possui nenhuma malvadez intrínseca acima da média. Ele é o taxista, os rapazolas de 18-25 anos a falar com os amigos no café, a mulher reformada na cabeleireira e qualquer outra pessoa que já tenha usado as suas cordas vocais merdosas para dizer "não tenho nada contra pretos mas acho que faziam melhor em voltar para a terra deles" (incluíndo o meu professor de teatro do sétimo ao nono ano). Ele é todas estas pessoas e todas elas são cúmplices em criar o clima de esterco ideológico perfeito para que uma inocente seja agredida. A única coisa que as separa dele é um uniforme. 

Os uniformes têm imenso poder e isso vê-se bem no vídeo do incidente. Aqui está um homem desfazendo a cara a uma mulher, aqui está o sangue dela na calçada portuguesa, aqui estão bem mais do que dez pessoas e nenhuma delas é capaz de o tirar de cima dela. Não há nenhuma interpretação benigna do que está a acontecer mas ainda assim ninguém é capaz de furar a carapaça da autoridade, real ou imaginária. 

E por fim temos a PSP que, talvez por solidariedade ao racista-de-uniforme, só três dias depois da queixa formal é que abriu um auto. Ignorando completamente que havia testemunhas, provas, sangue ainda no pavimento e nas mãos do racista-de-uniforme e uma rapariga com a cara desfeita. Ignorando, certamente, que aqui não há "alegadamente" ou "terá sido agredida" quando está ali tudo para toda a gente ver, uma prova triste do país que ainda temos e do que ainda estamos dispostos a deixar homens de uniforme fazer.