sábado, 22 de novembro de 2014

Os probrezinhos: Parte II (Edição Nacional)

Depois das minhas tentativas frustradas de fazer parte de uma organização fina com programas no estrangeiro, cruzei-me com uma iniciativa mais doméstica. Lidava com crianças com "dificuldades no desenvolvimento pessoal", o que é por si só engraçado uma vez que me parece que todos temos dificuldades no desenvolvimento pessoal. A mim ninguém me quer oferecer tutoria e deus sabe que desde que a puberdade começou que a minha vida é um terror existencial ininterrupto.
Enfim, este desenvolvimento pessoal que fazia falta às crianças tinha mais a ver com o facto de serem pobres e de o sistema educativo português não estar particularmente bem equipado para lidar com isso. De qualquer forma, fui falar com a senhora responsável pela seleção dos voluntários. A senhora era extremamente loura e extremamente bem vestida e marcou o encontro numa parte extremamente fina de Lisboa. Ora, eu tentei manter a mente aberta e não discriminar ninguém e diria que, tendo em consideração o sítio e as circunstâncias, me portei bastante bem. Normalmente, se me chega ao nariz cheiro a yuppie dá-me logo vontade de antagonizar as pessoas.
 
Com a senhora estava um jovem com um camisolão ligeiramente náutico, um monte de livros sobre direito e um sotaque arrastado que soava um bocado a Cascais. Sentei-me ao lado dele, com os óculos embaciados e toda molhada da chuva, acabadinha de sair do metro, e ouvi-o falar das suas experiências como tutor de uma dessas crianças desfavorecidas (das quais ele só tinha ouvido falar mas com as quais nunca tinha andado na escola).
Aparentemente, ele tinha-se distraído e dado demasiada confiança à criança. Tinha-se sentado no estrado de uma sala de aula (uma daquelas estruturas de madeira que tresandam a antigo regime e que o meu pai me garante que serviam para os professores mostrarem a sua superioridade) e a criança sentou-se ao lado dele. A partir daí "estava tudo estragado". Infelizmente, não consegui apurar exatamente como é que se estragou tudo mas pareceu-me por bem não perguntar.
O grande problema de gente assim é que parece esquecer-se que, quando alguém (especialmente uma criança) é pobre e/ou tem problemas comportamentais ou educativos, não se torna automaticamente um bicho-do-mato. Continua a ter interesses de pessoa e motivações de pessoa e a fazer e a pensar as coisas que as pessoas pensam (incluindo os estudantes de direito). 
 
Esquecem-se também que as crianças são pessoas e que devem ser tratadas como tal. Se se está a tentar ensinar alguma coisa a uma pequena juventude, podem ter a certeza de que ela responde melhor a alguém que a trata como igual do que a alguém que ergue uma torre de cristal de mil metros à frente dela (por muito impressionante que isso seja). A minha mãe tratou três filhos como gente desde pequenos e, modéstia à parte, diria que funcionou bastante bem.
 
Depois disto, confesso, devia-me ter ido embora. Mas, perdido por cem, perdido por mil. Decidi ficar e ouvir o que a senhora me tinha para dizer. Ela parecia estupefacta com o estado da educação em Portugal (estamos todos) e com o facto de alguns professores ainda não terem sido colocados (apeteceu-me dizer-lhe que isso, normalmente, só acontece com governos de direita) mas queixou-se principalmente dos pais. A criança do rapaz do camisolão náutico tinha uns pais extremamente irresponsáveis que se recusavam a ir buscá-la às 19h à escola.
 
Eu sugeri que, como as crianças hoje em dia têm cargas horárias ridículas, talvez os pais achassem que ela estava a passar demasiado tempo na escola. Mas não, o problema não era esse. Os pais não tinham carro e tinham que ir buscá-la de transportes. Às 19h. Apeteceu-me chorar um bocadinho. Como é que uma pessoa gere sair do trabalho e fazer o jantar e passear o cão e ir buscar a criança às 19h sem carro? Provavelmente não gere. Mas isso não impede uma senhora loura muito bem vestida de a julgar em frente a desconhecidos num café muito fino.
 
Escusado será dizer que não participei no projeto (mais por falta de disponibilidade do que outra coisa) mas estas coisas deixa-me um bocado mal disposta.
 
Não me parece que estas crianças precisem de gente de classe média-alta a ensinarem-lhes métodos de estudo convencionais que claramente não fizeram nada por elas até agora mas sim de uma reforma profunda do sistema educativo que faça com que o percurso escolar das juventudes não se baseie apenas em aprender a lamber botas e rabos e a regurgitar informação.   
 

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