Depois das minhas tentativas frustradas de fazer
parte de uma organização fina com programas no estrangeiro, cruzei-me com uma
iniciativa mais doméstica. Lidava com crianças com "dificuldades no
desenvolvimento pessoal", o que é por si só engraçado uma vez que me
parece que todos temos dificuldades no desenvolvimento pessoal. A mim ninguém
me quer oferecer tutoria e deus sabe que desde que a puberdade começou que a
minha vida é um terror existencial ininterrupto.
Enfim, este desenvolvimento pessoal que fazia
falta às crianças tinha mais a ver com o facto de serem pobres e de o sistema
educativo português não estar particularmente bem equipado para lidar com isso.
De qualquer forma, fui falar com a senhora responsável pela seleção dos
voluntários. A senhora era extremamente loura e extremamente bem vestida e
marcou o encontro numa parte extremamente fina de Lisboa. Ora, eu tentei manter
a mente aberta e não discriminar ninguém e diria que, tendo em consideração o
sítio e as circunstâncias, me portei bastante bem. Normalmente, se me chega ao
nariz cheiro a yuppie dá-me logo vontade de antagonizar as pessoas.
Com a senhora estava um jovem com um camisolão
ligeiramente náutico, um monte de livros sobre direito e um sotaque arrastado
que soava um bocado a Cascais. Sentei-me ao lado dele, com os óculos embaciados
e toda molhada da chuva, acabadinha de sair do metro, e ouvi-o falar das suas
experiências como tutor de uma dessas crianças desfavorecidas (das quais ele só
tinha ouvido falar mas com as quais nunca tinha andado na escola).
Aparentemente, ele tinha-se distraído e dado
demasiada confiança à criança. Tinha-se sentado no estrado de uma sala de aula
(uma daquelas estruturas de madeira que tresandam a antigo regime e que
o meu pai me garante que serviam para os professores mostrarem a sua
superioridade) e a criança sentou-se ao lado dele. A partir daí "estava
tudo estragado". Infelizmente, não consegui apurar exatamente como é
que se estragou tudo mas pareceu-me por bem não perguntar.
O grande problema de gente assim é que parece
esquecer-se que, quando alguém (especialmente uma criança) é pobre e/ou tem
problemas comportamentais ou educativos, não se torna automaticamente um bicho-do-mato.
Continua a ter interesses de pessoa e motivações de pessoa e a
fazer e a pensar as coisas que as pessoas pensam (incluindo os
estudantes de direito).
Esquecem-se também que as crianças são pessoas e
que devem ser tratadas como tal. Se se está a tentar ensinar alguma coisa a uma
pequena juventude, podem ter a certeza de que ela responde melhor a alguém que
a trata como igual do que a alguém que ergue uma torre de cristal de mil
metros à frente dela (por muito impressionante que isso seja).
A minha mãe tratou três filhos como gente desde pequenos e, modéstia
à parte, diria que funcionou bastante bem.
Depois disto, confesso, devia-me ter ido embora.
Mas, perdido por cem, perdido por mil. Decidi ficar e ouvir o que a senhora me
tinha para dizer. Ela parecia estupefacta com o estado da educação em Portugal
(estamos todos) e com o facto de alguns professores ainda não terem sido
colocados (apeteceu-me dizer-lhe que isso, normalmente, só acontece com
governos de direita) mas queixou-se principalmente dos pais. A criança do rapaz
do camisolão náutico tinha uns pais extremamente irresponsáveis que se
recusavam a ir buscá-la às 19h à escola.
Eu sugeri que, como as crianças hoje em dia
têm cargas horárias ridículas, talvez os pais achassem que ela estava a passar
demasiado tempo na escola. Mas não, o problema não era esse. Os pais não tinham
carro e tinham que ir buscá-la de transportes. Às 19h. Apeteceu-me chorar um
bocadinho. Como é que uma pessoa gere sair do trabalho e fazer o jantar e
passear o cão e ir buscar a criança às 19h sem carro? Provavelmente não gere.
Mas isso não impede uma senhora loura muito bem vestida de a julgar em frente a
desconhecidos num café muito fino.
Escusado será dizer que não participei no projeto
(mais por falta de disponibilidade do que outra coisa) mas estas coisas
deixa-me um bocado mal disposta.
Não me parece que estas crianças precisem de
gente de classe média-alta a ensinarem-lhes métodos de estudo convencionais que
claramente não fizeram nada por elas até agora mas sim de uma reforma profunda
do sistema educativo que faça com que o percurso escolar das juventudes não se
baseie apenas em aprender a lamber botas e rabos e a regurgitar
informação.
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