domingo, 1 de julho de 2018

Sobre racistas e uniformes

Há pouca coisa mais perigosa nesta terra do que um racista de uniforme. Se bem se lembram os nazis eram racistas de uniforme e pouco mais que isso. As cruzadas? Racistas de uniforme. Guerra no Iraque? Racistas de uniforme. Literalmente qualquer religião organizada? Racistas de uniforme. 

É por isso que se olharmos para a notícia da semana passada sobre uma jovem que foi agredida por um segurança da empresa 2045 podemos ficar seriamente indignados mas surpreendidos? Não particularmente, pelo menos não se andarmos minimamente atentos. 

Portugal é ainda um país muito racista e tem tradição de ser muito complacente com racismo no dia-a-dia. O problema com que nos estamos a deparar cada vez mais é que, afinal, este racismo corriqueiro também permeia os estratos mais institucionais e organizados da sociedade. Que, ao longo destes anos todos, tem andado a sangrar e a tingir a polícia, a educação, os tribunais, a medicina.

 Nicol Quinayas, 21 anos - Jovem perfeitamente justificada se alguma vez decidir pegar fogo a um homem

O homem que brutalizou esta mulher fê-lo porque quis e porque podia. Não há nada de extraordinário nele, não possui nenhuma malvadez intrínseca acima da média. Ele é o taxista, os rapazolas de 18-25 anos a falar com os amigos no café, a mulher reformada na cabeleireira e qualquer outra pessoa que já tenha usado as suas cordas vocais merdosas para dizer "não tenho nada contra pretos mas acho que faziam melhor em voltar para a terra deles" (incluíndo o meu professor de teatro do sétimo ao nono ano). Ele é todas estas pessoas e todas elas são cúmplices em criar o clima de esterco ideológico perfeito para que uma inocente seja agredida. A única coisa que as separa dele é um uniforme. 

Os uniformes têm imenso poder e isso vê-se bem no vídeo do incidente. Aqui está um homem desfazendo a cara a uma mulher, aqui está o sangue dela na calçada portuguesa, aqui estão bem mais do que dez pessoas e nenhuma delas é capaz de o tirar de cima dela. Não há nenhuma interpretação benigna do que está a acontecer mas ainda assim ninguém é capaz de furar a carapaça da autoridade, real ou imaginária. 

E por fim temos a PSP que, talvez por solidariedade ao racista-de-uniforme, só três dias depois da queixa formal é que abriu um auto. Ignorando completamente que havia testemunhas, provas, sangue ainda no pavimento e nas mãos do racista-de-uniforme e uma rapariga com a cara desfeita. Ignorando, certamente, que aqui não há "alegadamente" ou "terá sido agredida" quando está ali tudo para toda a gente ver, uma prova triste do país que ainda temos e do que ainda estamos dispostos a deixar homens de uniforme fazer. 


segunda-feira, 25 de junho de 2018

Não é terrível nem podia ser melhor

Sou grande fã de podcasts. Normalmente oiço This American Life ou uma coisa sobre true crime (Serial e In the Dark são grandes favoritos) a caminho da faculdade e, quanto mais deprimentes, melhor. Se não estou quase em lágrimas ao sair da camioneta será que valeu a pena? A resposta é não. No entanto, acabei de ouvir recentemente o episódio do "Perguntar não ofende" com a Fernanda Câncio e, não só não chorei, como achei realmente positivo e de maneira geral nada irritante. 

Normalmente, quando vou ouvir ou ler uma entrevista qualquer com alguém que se autoproclama feminista acabo por ficar triste. Não porque as pessoas fazem mau trabalho mas sim porque fico sempre com a noção de que tudo o que disseram foi em vão e perfeitamente deturpável por um badameco qualquer mal intencionado e intelectualmente desonesto. Com a Fernanda Câncio isso não acontece. Todos os argumentos por ela apresentados e a forma como ela os apresenta são completamente ironclad. É tudo apresentado de forma calma (o que normalmente é prezado acima de tudo por homens histéricos) mas com a urgência necessária, demonstrando como tudo o que ela está a dizer não só é perfeitamente evidente, como também lógico e demonstrável de forma empírica. Basicamente gostei muito e quero que a Fernanda Câncio venha ao meu jantar de aniversário. Será pedir demasiado? Acho que não.

Uma das intervenções de que mais gostei demonstra como o feminismo radical e a desconstrução do género como a hierarquia que é podem existir perfeitamente numa discussão aparentemente banal sobre os direitos das mulheres e bem longe de contextos mais académicos ou… vá…. místicos. 
Sobre a fúria demonstrada pelo público em geral quando criticou os infames livros da Porto Editora e os brinquedos do McDonalds divididos por sexo, temos isto:

"Acreditam realmente que existem diferenças essenciais e biológicas entre rapazes e raparigas? Ou acreditam que é preciso que acha? e que é preciso haver uma separação completamente estanque entre aquilo que nós dizemos aos meninos e às meninas, os brinquedos que damos aos meninos às meninas e aos meninos, aos papeis que lhes atribuímos. Se fosse assim tão óbvio que existem diferenças então não havia problema nenhum em as crianças brincarem com aquilo que querem" 

Tumbas. Apesar de estar longe de ser um símbolo do feminismo radical, Fernanda Câncio mostra que o backlash contra estes assuntos aparentemente irrelevantes apenas demonstra a insegurança das pessoas relativamente à ideia francamente periclitante de que os sexos têm que ter de alguma maneira inclinações naturalmente diferentes.Ouve-se muita vez que estas feministas doidas querem acabar com a distinção entre rapazes e raparigas e criar um mundo em que somos todos perfeitamente andrógenos. Mas se tudo o que é preciso fazer para isso acontecer é dar a escolher às crianças se querem uma hello kitty ou um hot wheels com o happy meal e acabar com os corredores rosa e azuis na secção dos brinquedos então, se calhar, nosso senhor jesus cristo entendeu que era assim que devia ser. Pessoalmente, não vejo nada de mal em ser perfeitamente andrógena, acho que deve dar imenso jeito. 

Há toda uma abundância de pérolas e sabedorias no podcast, desde um comentário perfeitamente blasé sobre como as identidades feminina e masculina são inteiramente pessoais e não inatas até ao uso perfeitamente justificado da frase "coitadinhos dos homens". Aconselho vivamente ouvirem tudo. 

Apesar de não ter achado a troca de palavras nada irritante, não posso dizer que tenha achado grande piada ao entrevistador. Por uma questão de princípio não acho graça aos homens em geral, mas o Daniel Oliveira aqui parece oscilar entre ser propositadamente obtuso (e não de maneira minimamente engraçada) e exibir cerca de cinco camadas de esquerdo-machice. A insistência em perguntar se o movimento #metoo, uma iniciativa francamente inócua, não terá contaminado a sedução (como se fosse um conceito que precisasse de ser contaminado) é francamente infantil e muito pouco produtiva. É também absolutamente desnecessário obrigar o feminismo ou, neste caso, uma feminista, a responder a todas as falhas minúsculas ou imaginadas do movimento. "Ah mas o feminismo não devia tratar de coisas mais sérias?" "Ah mas os homens sentem-se perdidos e sem identidade" "Ah mas e as burqas?? O feminismo não devia resolver a questão das burqas??" Credo, é tão triste ver um entrevistador desperdiçar uma convidada tão eloquente e articulada fazendo-lhe perguntas que se podem ir buscar às secções de comentários do youtube em vez de lhe dar assim umas perguntonas bem sumarentas e filosóficas.  A recusa do Daniel Oliveira em conhecer o tópico de forma honesta é ainda mais flagrante quando a própria Fernanda Câncio admite que há conceitos no movimento feminista moderno que ela ainda não domina mas que (nossa!) está a tentar aprender e que compreende a necessidade aparentemente exagerada de grupos perseguidos se categorizarem e etiquetarem. Pode-se ter dúvidas e questões à vontade mas é também preciso haver vontade de compreender. 

Concluindo, isto é tudo uma apreciação muito parcial da entrevista uma vez que eu quero mostrar à Fernanda Câncio a minha coleção de catos. Se alguém a conhecer dêem-lhe o meu número, acho que temos muito em comum. 


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Hillaryante

Se a Hillary Clinton perder as eleições será apenas e unicamente porque é mulher. Não vai ser pela sua agenda pseudo-neoliberal nem pela sua posição na altura da guerra no Iraque, que tem sido vastamente mal interpretada, nem mesmo pelas suscetibilidades que a libertinagem do marido possa ter ferido há vinte anos. Vai ser por ser mulher e quem não concordar pode literalmente lutar comigo porque é verdade e toda a gente sabe que é verdade, mas ninguém quer admitir.

Numa sociedade saudável nunca teríamos a situação com que nos deparamos agora nos Estados Unidos. Só no contexto em que vivemos é que faz sentido ter a Hillary Clinton a concorrer contra um homem que é essencialmente três oompa-loompas racistas dentro de uma gabardine roubada. Se o candidato republicano fosse outra pessoa qualquer até podia não me fazer tanta impressão, mas assim é escandalosamente óbvio que qualquer coisa que um homem faça, especialmente num meio político, é valorizado infinitas vezes mais do que a contribuição de uma mulher, por muito qualificada que seja. A situação nunca poderia ser invertida. Nunca vamos ver uma mulher com o perfil e educação do Trump chegar onde ele chegou, mesmo com uma fortuna idêntica. 

Para a maioria da população, os dois candidatos estão em pé de igualdade. Não porque são igualmente qualificados apesar de divergências ideológicas, mas porque a Hillary Clinton, apenas por virtude do seu sexo, tem sido sistematicamente rebaixada até a opinião pública a considerar ao nível do Trump. 

O que é particularmente chocante nem é que existam pessoas dispostas a votar no Trump, não é assim tão estranho querer votar em candidatos objetivamente terríveis, acontece a toda a hora. O mais triste não é quererem votar no Trump, é não quererem votar na Hillary. E não querem mesmo. Dá para ver em todos os artigos que preferem falar das baboseiras que o Trump disse do que na política séria que ela anda a tentar fazer, ou nos artigos em revistas supostamente progressivas que preferem discutir se uma experiência pessoal da Hillary Clinton será verdade ou não.

Não é que eu ache que não se deva escrutinar figuras públicas de todo, acho que é positivo e valioso, mas também me parece que, se calhar, há uma altura e um lugar para estas coisas e não estamos nem perto nem longe de estarmos por aí. A esta altura já não dá para escolher alguém “melhor” do que a Hillary, é literalmente ela ou o Trump. Mas, em vez de estarem a cerrar fileiras à volta dela, ainda está tudo numa tentativa de fingir que não há nenhuma diferença entre os dois candidatos, que o equilíbrio deve ser preservado. Haveria uma obrigação moral para ser equilibrado se um dos candidatos não fosse literalmente fascista e quisesse pôr em causa pontos importantes da constituição e da declaração universal dos direitos humanos. 

Temos uma situação inédita, em que há a oportunidade de eleger uma mulher competente e qualificada como líder de uma das nações mais poderosas do mundo, mas, em vez de haver um esforço coletivo para que isso aconteça, está tudo distraído com as gracinhas de alguém que é, essencialmente, mais de cem quilos de macarrão com queijo estragado. Se, por um lado, temos uma campanha baseada praticamente só em misoginia e em trazer o pior das pessoas ao de cima, por outro temos uma aparente maioria pouco vocal que até agora parece conseguir oferecer pouco mais do que apoio tépido e uma quantidade alarmante de artigos que só vão servir para alimentar o canhão daqueles que, numa tentativa de proteger todas (mas mesmo todas) as suas suscetibilidades de esquerda, decidiram que são demasiado bons para votar na Hillary Clinton.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Burkini Faso

Há uns tempos, o povo francês teve um colapso coletivo e lembrou-se que o que faltava mesmo para garantir a segurança nacional era banir o burkini, uma vestimenta usada maioritariamente por senhoras muçulmanas na praia para preservar a sua modéstia. Felizmente passou-lhes depressa e rapidamente apareceram assim umas pessoas mais entendidas no assunto que refrearam a questão. 

Mas a burqa, por exemplo, continua a ser ilegal em França e as mulheres que a usam podem ser sujeitas a uma multa substancial. Há duas grandes razões para se querer banir este tipo de coisa e, enquanto uma é um-bocado-parva, a outra é mesmo turbo-parva. 

A razão um-bocado-parva é quando se ouve alguém dizer que é por causa dos direitos das senhoras que usam a burqa. Mas, vamos lá ver, a burqa não existe por nenhum razão válida ou de intenção pura, é uma ferramenta horrorosa de opressão e é profundamente desumanizante. Se o ocidente tem a tendência a tornar o corpo da mulher propriedade pública então a burqa mostra a tendência oposta, torna a mulher propriedade privada do marido, pai, tio ou irmão. A mulher é propriedade de uma maneira ou de outra, mas uma é mais insidiosa e, para a mulher ocidental, mais facilmente navegável. A burqa é mais do estilo balls-out-nem-vou-tentar-fingir. 

É uma ferramenta altamente eficaz se se quiser negar a humanidade da mulher, quando olham para um grupo de mulheres de burqa os homens não vêm indivíduos, vêm um grupo homogéneo, vêm um rebanho, uma massa uniforme sem identidade própria de componentes indistinguíveis uns dos outros. O primeiro passo para justificar a violência contra um grupo é negar-lhe a humanidade e uniformizar-lhe a aparência seja de que maneira for é uma estratégia bastante eficaz. 

Mas, ao banir a burqa, estamos a punir o oprimido e não o opressor. Não podemos responsabilizar as mulheres que usam a burqa pela marca de opressão que outros lhe impõem. Não há dúvida de que a religião favorece desproporcionalmente os homens e toda a narrativa de subserviência feminina que se encontra nas principais religiões não surgiu do nada e sem um interesse claro do patriarcado em arranjar uma divina justificação para os horrores a que sempre submeteu as mulheres. 

Concordo plenamente que se condene publicamente a prática, mas não aceito que se castigue as mulheres que participam nela. Histórica e socialmente a ideia nunca foi nossa, não foi inventada ou posta em ação por mulheres, independentemente se agora a ajudam a perpetuar-se ou não. Há imensos exemplos em que as mulheres, quando sujeitas à obrigatoriedade de qualquer tipo de véu, quer institucionalizada e consagrada na lei, quer por pressão social, se manifestaram publicamente e revindicaram o direito a saírem-lhes de cima, obrigada. 



Senhoras no Irão, 1979, manifestando a sua alegria por serem obrigadas a usar véu e terem finalmente oportunidade de ferir suscetibilidades ocidentais



Por isso pronto, não faz sentido. Ganhem mas é juízo e parem de castigar mulheres por pelas circunstâncias em que se encontram e pela maneira como escolheram sobreviver. 

A razão turbo-parva para banir a burqa e o burkini é a questão da segurança nacional. Em Nice quem ia a conduzir o camião não era uma senhora de burkini, em Bruxelas não foram senhoras de burkini que mataram mais de trinta pessoas e, em Paris, não foram senhoras (muito menos de burkini) que andaram a aterrorizar multidões e abateram a tiro mais de uma centena de pessoas. Chamem os bois pelos nomes: foram homens. Querem praias e centros turísticos mais seguros? Resolvam o que quer que seja que leva homens frustrados com os seus próprios falhanços pessoais a cometerem atos de violência indiscritível para justificar a sua existência miserável. 


A polícia francesa, praticando a muy importante tarefa de neutralizar uma muy perigosa ameaça para a segurança pública


Fazia muito mais sentido simplesmente banir todos os homens de zonas com grandes concentrações de pessoas. Deixava-se os moços sair de casa aí uma hora e meia para irem às compras e pronto, se quisessem rebentar com alguma coisa rebentavam-se uns aos outros e deixavam as senhoras que só querem levar os filhos à praia em paz.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dicotomias

As pessoas mentem muito e, às vezes, se se repetir uma mentira vezes que chegue, embora esta não se torne verdade, torna-se autossuficiente e autopropagável. O que é quase a mesma coisa.

A smear campaign contra a Hillary Clinton é um bom exemplo de que se pode deturpar tudo e nada para se obter exatamente o que se quer (ou, neste caso, o que se chega à conclusão de que na verdade não se quer, mas depois já é demasiado tarde). A Hillary Clinton está muito longe de ser uma política ideal mas é uma política competente e séria, embora pareça que isso é vastamente irrelevante para a maioria das pessoas.

É que se por um lado temos a direita nossa de cada dia a cagar a sua posta de pescada, temos até mesmo os círculos liberais relutantes em apoiá-la porque atrelaram o reboque ao Bernie Sanders e a alguma ideia extremamente confusa e mal compreendida do que mudança política realmente implica e agora não podem voltar atrás.

Portanto, se por um lado ela quer híper-liberalizar os Estados Unidos, destruir o conceito tradicional de família e distribuir vales de “pague um aborto ganhe dois grátis” pela população, por outro é uma warmonger sem sensibilidade humanitária ou visão política. O pior tipo de neoliberal, uma capitalista light na mão de Wall Street.

Mas e a responsabilidade eleitoral? Não se pode fazer exigências intermináveis quando se tem um papel ultralimitado na sociedade e há uma recusa profunda em sair de uma zona de conforto altamente limitada. Não se pode exigir da Hillary Clinton, ou de qualquer outro político individual, uma solução imediata e simples para anos e anos de instabilidade política fruto de uma forte presença colonial ao longo de séculos.

E sim, é tudo muito triste e deprimente e foreign policy é uma treta e se calhar a Madeline Albright não devia ter apoiado os bombardeamentos do Kosovo pela NATO mas não me vou pôr do alto da minha Torre Do Supremo Conhecimento porque, francamente, não sei mesmo se foi pelo melhor ou pelo pior (há coisas que sei mas esta em particular nem por isso).

O sistema eleitoral dos Estados Unidos é mau, o nosso apesar de ser muito melhor também não é ideal e o conceito de democracia representativa tem muito que se lhe diga mas ajudou-nos a atingir uma espécie de equilíbrio que com a quantidade ridícula de gente que existe neste shitshow de planeta eu julgaria praticamente impossível. Queixume infinito sem nenhum tipo de substância que o apoie, sem vontade de self-improvement ou noção de impacto direto na comunidade local serve exatamente de zero.

Portanto ok, querem fazer a revolução vamos fazer então a revolução, não a social que, essa sim, estou à espera que comece desde que nasci, mas a política e a económica. Eu lidero e tudo se quiserem, mas mostrem-me opções viáveis e não ideologia half-baked sem suporte académico. É que, relativamente à Hillary Clinton e ao processo eleitoral nos Estados Unidos, a única coisa que tenho visto é backtracking de quem andou a espalhar mentiras na altura em que o Bernie ainda parecia mais do que um senhor decrépito pseudossocialista com o political savvy de uma batata e apoios mornos de quem diz que ela ao menos não é literalmente fascista (é só figurativamente fascista aparentemente).

Aqui em baixo estão partes do discurso da Hillary Clinton na Democratic National Convention, onde ela refere os assuntos (problema da água contaminada em Flint, saúde universal, licença de maternidade) que tenciona abordar especificamente enquanto presidente e mostra, se não capacidade intrínseca em liderar, pelo menos algum tipo de solidariedade, ponderação e estratégia baseada em factos.




Como é que se quer chegámos a um ponto em que é possível comparar esta mulher a alguém que é essencialmente o ejaculado de uma laranja criada numa mata em Chernobyl? Como é que não se vê que, apesar de não trazer a revolução™ às costas pode trazer mudança? Pode construir sobre o que se deixou em vez de destruir tudo e começar de novo?    

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Gloria e a arte de perguntar

O feminismo passa muito por problem solving. Ou pelo menos devia.

Se vamos embarcar num movimento político para avançar a nossa posição na sociedade é bom que dê trabalho, que nos obrigue a procurar soluções tangíveis para situações concretas. Isto nem sempre é fácil. Implica compromissos e empatia e análise crítica de uma data de coisas menos agradáveis.
A Gloria Steinem, deusa a abençoe nos seus 82 anos, deu uma entrevista à Bloomberg que mostra exatamente quão importante é a capacidade de investigação e aprendizagem num contexto feminista. Uma das respostas dela sobre a sua experiência na luta contra o tráfico sexual é verdadeiramente impressionante.

“I came to see friends who live along the Zambezi River. They had arranged a meeting with a lot of women from local villages, maybe 20 or 25. […] Two women from those villages had gone to Lusaka to prostitute themselves and never came back, because they needed money for food and also for the kids’ school fees. So I said to them, what would have prevented this? They said a good maize crop. I said, what prevented a good maize crop? They said the elephants came as soon as it was up to a certain height. In the old days, there was a system with a tower with somebody up there with a drum that scared them away. So I asked, “Well, what would prevent that?” They said if they had an electrified fence. I raised—I can’t remember—I think it was under $3,000 for an electrified fence, and they cleared acres and acres by hand, which is a lot of work. When I went back the next year, there was a bumper crop. There were bags of maize under the tree. They had enough for food, security, and also enough to sell so that their kids could go to the local schools. But if someone had asked me what would prevent sex trafficking, I would not have said an electrified fence.”


 A complacência é transversalmente recompensada, mas é algo que deve ser especialmente combatido pelas mulheres. Complacência feminina é muitas vezes sinónimo de corroboração com a nossa própria opressão. Em vez de aceitar as coisas como são, colar etiquetas novas com cuspo em cima de problemas para fingir que são outra coisa, temos que aprender a olhar para nossa opressão de frente e chamar-lhe pelo nome certo.

A prostituição e o tráfico sexual são problemas graves. Não há nenhuma razão para uma mulher ter que se prostituir, não há razão nenhuma para desculpar uma sociedade que aceita que exista procura para este tipo de exploração. São sintomas que têm que ser erradicados e não repackaged como algo socialmente aceite, uma triste realidade comparável a qualquer outra que ocorre numa sociedade capitalista. 

Gloria Steinem, na sua infinita sabedoria de quem já faz isto há muito tempo, não só se propôs a tentar ajudar a encontrar uma solução como conseguiu fazê-lo realmente ouvindo a realidade das mulheres nessa posição e perguntando o que é necessário para que elas possam resolver o seu próprio problema a longo prazo.  

Temos que ter humildade para ouvir, mas também coragem para falar, como estas mulheres tiveram. Coragem de identificar aquilo que é injusto e que tem que ser mudado, custe o que custar.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Coisas boas e outras mais ou menos

Portugal, na sua longa tradição de fazer leis acertadas e surpreendentemente moderadas que ninguém gosta de reconhecer como modelos a seguir, aprovou uma série de medidas relativas à procriação medicamente assistida que podiam ter sido muito infelizes mas não são.

Ignorando o estudo em dissonância cognitiva que é o voto contra do CDS, que passa metade do tempo a tentar convencer as mulheres a ter quinze filhos e outra metade a tentar garantir que não têm condições para os ter, há uma série de particularidades que gostava de abordar.

A minha primeira reação à expressão “barriga de aluguer” é “não”. Não porque sou um Grinch da maternidade mas porque qualquer coisa que implique trocar dinheiro por partes dos corpo, especialmente no que toca a mulheres, me deixa desconfortável. Seria muito má ideia deixar-se desenvolver um sector do comércio que se baseia na troca de dinheiro por úteros. No caso da Índia, por exemplo, dá para ver que a comodificação de partes do corpo tradicionalmente femininas tem tendência a colocar mulheres com menos opções em situações de risco e fechá-las em ciclos de pobreza extrema em que toda a gente lucra exceto elas próprias.

Mas, felizmente, não é isto que ficou contemplado na lei Portuguesa. Não pode haver troca de dinheiro e só pode acontecer em situações em que a mulher é infértil por questões de saúde. Há regras a seguir.

“Quem aplicar técnicas de PMA fora dos centros autorizados é punido com pena de prisão até três anos; o beneficiário que concretizar contratos de gestação de substituição pagando – ou seja, a verdadeira barriga de aluguer – arrisca prisão até dois anos ou pena de multa até 240 dias; e a gestante que receber dinheiro por isso pode ter uma pena de multa até 240 dias.”

Isto significa que está bem assente na lei que não se pode alugar uma pessoa ou, pelo menos, parte dela. Que não se pode mitigar a dor de uma mulher à custa da autonomia corporal de outra. E isto é bom. E razoável. Pode-se avançar os direitos reprodutivos das mulheres ao mesmo tempo que se garante a sua segurança. É para isto que eu vou votar.

Mas se por um lado somos excecionalmente responsáveis aqui, expressamos visões contraditórias noutras coisas. Tenho ouvido por aí murmúrios sobre a possível legalização da prostituição dos dois lados e não estou particularmente impressionada. Como já foi observado na Alemanha, não é uma boa ideia. É mais um modelo que favorece toda a gente exceto as mulheres prostituídas.

Diz-se muitas vezes que o “trabalho do sexo” é trabalho. Não digo que não mas digo que é trabalho que ninguém quer fazer nem devia ter que fazer. Quando estamos a falar de uma “profissão” cuja idade de entrada é algures entre os 12 e os 14 anos, 90% das mulheres prostituídas quer parar e é uma ocupação de risco tão grande que é incrivelmente caro arranjar seguro para o que quer que seja mesmo quando é considerada legal, é difícil levar a sério quando me tentam convencer que é “empowering” e inteiramente baseada em livre arbítrio.

Não faz sentido que, por um lado, aceitemos que não é razoável ajudar a estabelecer uma indústria que obriga uma mulher a dissociar-se do seu corpo ao ponto de o alugar a gravidezes alheias mas que, por outro, achemos que faz sentido apoiar uma outra que basicamente sanciona violação sistematizada como modo de emprego. Se aceitamos uma temos que aceitar a outra, se achamos que é válido consagrar na lei que não faz mal alugar mulheres para sexo então temos que aceitar que é válido alugá-las para engravidar.

Relativamente a assuntos de cariz social, ultimamente temos tido um track record exemplar. Espero sinceramente que, quando se abordar a questão da prostituição, se opte por um modelo verdadeiramente inteligente, como o modelo nórdico, adotado também em França, que penaliza quem acha que faz sentido pagar para violar alguém mas descriminaliza a atividade de mulheres prostituídas.

O objetivo da lei relativa à procriação medicamente assistida é garantir que se respeita os direitos e as necessidades de todas as mulheres envolvidas. Aspiro o mesmo para qualquer enquadramento legal que se arranje para a prostituição em Portugal. Ou seja, espero que se respeite a decisão que muitas mulheres são forçadas a tomar quando se começam a prostituir mas que se declare, preto no branco, que uma sociedade saudável não permite nem aprova que se pague por sexo, que se objetifique (sobretudo) a mulher de maneira a que ela se torne um produto.

Embora qualquer maneira de escapar à violência da pobreza seja perfeitamente válida, não posso mentir e dizer que dar explicações a crianças perfeitamente adoráveis, uma ocupação que faço de bom grado e para a qual pude estudar, está no mesmo patamar de exploração que a prostituição. Isto é falso e é precisamente porque gosto do que faço que quero o mesmo para as minhas irmãs, a oportunidade de estudar e de trabalhar em algo que não é uma flagrante violação da sua autonomia corporal.

Nem todo o trabalho é criado de forma igual, nem mesmo numa sociedade capitalista, e há trabalho que surgiu claramente como produto de ódio enraizado pela mulher. Cabe-nos a nós estabelecer que, embora a oferta seja perfeitamente justificada, a procura é perfeitamente abominável.