sábado, 13 de fevereiro de 2016

Em defesa da terceira idade

Agora que o António Costa é primeiro ministro e estamos numa época de prosperidade e estabilidade política, posso-me preocupar com a situação de países menos afortunados, aqueles que ainda têm dúvidas relativamente ao século em que vivemos e afinal como é que esta coisa da democracia funciona. Países tipo os Estados Unidos da América.

Esses meninos lá do além-mar andam em eleições primárias e estou imensamente divertida. Há tanto por onde pegar. Eles metem os votos dentro de baldes de pipocas, eles votam num avô socialista, eles falam de feminismo, nem sei para onde me virar.

Uma vez que não é o meu país vou-me abster de tecer juízos de valor demasiado vincados sobre os candidatos democratas, até porque gosto dos dois. Embora tenha uns fanboys um bocado nojentos, o Bernie Sanders é perfeitamente razoável e ninguém lhe apontava defeitos numa eleição  europeia. Está perfeitamente alinhado com todas as minhas sensibilidades de esquerda. Bom para si, Bernie! Hilary Clinton, por outro lado, é claramente uma líder mais forte e tem o que é preciso para segurar aquela cesspool de país. Se é tão de esquerda como eu gostaria? Isso é óbvio que não mas eu não sou americana por isso estou-me um bocado a cagar e, pelo que me parece, ela está mais de acordo com o que é preciso para navegar a realidade política deles. Acho bem que queiram um socialista no governo e saúde para todos mas também não é tarde nem é cedo para terem um bocadinho de noção. O Sr. Bernie como presidente ou seria muito bom ou não seria muito diferente dos outros candidatos democratas porque o sistema governativo deles não permite outra coisa. Deviam repensar seriamente essa parte antes de virem chorar que também querem um estado social a sério.

O que me irrita profundamente é a perfeita incapacidade que muita gente tem de reconhecer que a Hilary e o Bernie têm perfis diferentes. E, sobretudo, que se pode apoiar o Bernie sem se ser um fucking asshole intelectualmente desonesto. É que o povo mais jovem encasquilhou na cabeça que é Bernie ou morte e deixou qualquer nuance a morrer num canto.

Esta história toda da Gloria Steinem e da Madeleine Albright, por exemplo, mostra quão fácil é deserdar quem quer que seja baseando-se apenas em interpretações inflexíveis de uma coisa que foi dita uma vez num contexto específico. Nada de discussão, nada de compromisso, vamos diretamente para a forquilha e para o archote. Gloria Steinem diz que as mulheres mais novas são tão ativas na campanha do Bernie Sanders porque é lá que estão os rapazes. Concordo? Não, o Bernie Sanders é um candidato viável e há imensas boas razões para o apoiar, as mulheres, como seres racionais, baseiam-se nisso na hora de escolher em quem votar e não se há ou não rapazes na sede de campanha do candidato. Mas ignorar o apelo que a classe dominante tem é simplesmente ingénuo. Se estamos num ambiente universitário em que todos os rapazolas de idade compreendida entre os 18 e os 25 anos não se calam com o Bernie fucking Sanders então é aí que o poder e influência estão por isso saiam-me de cima. Não seria a primeira nem a última vez que mulheres (especialmente mais jovens) se sentem inclinadas a tomar uma posição que agrade à classe dominante mais próxima.

A Madeleine Albright, por outro lado, diz que há um lugar especial no inferno para mulheres que não apoiam outras mulheres. Isto é verdade. A Andrea Dworkin já lá está e tudo, guardando o portão com um tridente de três metros. Atenção que ela nem disse “se não votarem na Hilary Clinton são traidoras de género, adeus e  boa tarde”. Só disse que nos devemos ajudar umas às outras. Escandaloso. Ela até referiu mais tarde que era um comentário dirigido especialmente às mulheres mais velhas e bem situadas profissionalmente que se recusam a ajudar as mais novas que estão a entrar no mercado de trabalho. Uma coisa normalíssima que ela tem dito várias vezes ao longo dos últimos 40 anos.  

A reação generalizada, no entanto, foi horrivelmente negativa. Até jovens feministas esfregaram as mãos de contentes com a pressa de as lançar à fogueira. Steinem e Albright foram acusadas de representar apenas o feminismo branco, de estarem desatualizadas, de usarem a carta do sexismo para promover a candidata política que apoiam. Até fico um bocadinho embaraçada por esta gente porque, se são tão duras com pioneiras do movimento, então minha nossa, os horrores a que se devem submeter, a auto-flagelação que devem praticar pelo menor faux pas.

Steinem e Albright, tal como Hilary Clinton, não são perfeitas nem nunca foram mas são figuras importantes no feminismo. A Gloria Steinem anda nisto há anos e anos, uma ativista política de renome que fez mais pela visibilidade do movimento e pelas mulheres do que eu alguma vez farei. A Madeleine Albright foi a primeira Secretária de Estado. A Hilary Clinton, embora neoliberal e imperialista e sabe deus mais o quê, ajudou a popularizar a ideia de que as mulheres também são pessoas na conferência em Pequim, convenceu o Bill Clinton a passar a primeira legislação referente especialmente ao tráfico humano e foi ela que tentou pela primeira vez trazer algum tipo de saúde universal aos Estados Unidos. É óbvio que fizeram muita coisa com a qual não concordo mas acho que, em vez de sermos tão horrivelmente críticas das líderes feministas mais velhas, lhes devíamos dar um desconto e agradecer o facto de os seus erros já não serem os nossos. Sabem aquela solidariedade masculina cega e um bocado palerma? Vamos tentar um bocado disso, só para ver se nos damos bem. Se não gostarmos podemos sempre voltar a petty infighting.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Desabituem-se

Faz-me imensa confusão gente que diz que fazer coisas tradicionalmente opressivas são empowering. É tudo empowering hoje em dia. Não há nada que uma mulher faça que não seja bom e excelente e claramente livre de influência externa. Usar maquilhagem é empowering, usar saltos altos é empowering, pintar as unhas, fazer implantes variados, trabalhar na indústria da pornografia, na da prostituição, tudo empowering! E quantas coisas boas deixei eu de fora!

Permitam-me oferecer um contraponto: Não.

Raras são as coisas que são empowering para mulheres na nossa sociedade. Podemos tentar reapropriar o que quisermos, podemos dizer que a escolha é nossa até ficarmos roxas mas a verdade mantém-se: muito pouco do que é estereotipicamente feminino é empowering. Não podemos reapropriar algo que nos foi enfiado pelo goela a baixo a vida toda. Não é assim que as coisas funcionam.

Para já, tudo o que é regime de beleza não é de maneira nenhuma libertador. Maquilhagem, por exemplo, não só faz mal ao poros (poupem os poros, por favor) como cria todo um mindset um bocado estranho. Não é por acaso que a maquilhagem é uma prática quase exclusivamente feminina, toda a indústria assenta em convencer as mulheres de que têm imperfeições que devem ser escondidas ou corrigidas. Vamos lá ver, é uma prática interessante que requer uma capacidade artística muito grande mas assim tal como é, não é algo que eu chamasse de, vá, bom. Não é uma coisa objetivamente positiva, acho eu. Dizer “ah mas eu gosto” já não chega, somos melhores do que isso. Gostamos porquê? Por que é que achamos que a nossa cara fica melhor com maquilhagem? Por que é que temos que esconder borbulhas e desrespeitar os nossos poros desta maneira? Não faz sentido nenhum ter uma rotina que implique aplicar maquilhagem todas as manhãs, não acho particularmente saudável. Se fosse só uma arte plástica altamente valorizada era uma coisa que se fazia esporadicamente e não estava enraizada no quotidiano de tantas mulheres.

Também há a vertente “ah mas eu uso o meu batom buéde vermelho e o meu eyeliner buéde pointy para lutar contra o patriarcado” ou mesmo “o meu batom é verde florescente por isso estou a desconstruir normas convencionais de beleza”. Isto também não funciona porque, observem, continuamos a colocar o foco no nosso aspeto. E é um bocado isso que tem que acabar, não? Os homens sempre foram vistos como pessoas, se queremos ser consideradas seres humanos temos de parar de tentar manipular as regras deles e começar a fazer as nossas próprias.

Mas não é só a maquilhagem, tudo o que é um beacon do feminino é, normalmente, terrível. Coisas como sapatos de salto alto são também inerentemente opressivas e má ideia de uma forma geral. Ninguém vê uma mulher de saltos altos como mais poderosa ou mais digna de respeito. São desconfortáveis e ridículos e fazem mal às costas. Por favor, pensem nas vossas costas. Não podemos correr neles, os saltos fininhos enfiam-se nas grades do esgoto, os dedos dos pés ficam com um aspeto todo atrofiado. São uma ferramenta para nos manter meramente decorativas e pouco funcionais, não interessa como nos fazem sentir, interessa o que são realmente.

Vi recentemente um artigo palerma no Buzzfeed sobre realidades com que as mulheres têm que lidar e fiquei francamente horrorizada. Quase todas eram relacionadas com regimes de beleza e violentas de alguma maneira. Não sabia, por exemplo, que há quem se queime a sério na testa a tentar usar ferros de enrolar o cabelo. Sabia, no entanto, que moças de cor com cabelo muito encaracolado às vezes ficam com queimaduras químicas no escalpe a tentar relaxa-lo. Também sabia que é bastante comum levar metade da perna atrás quando estamos a fazer a depilação com gillette ou, por exemplo, ficar com um bocado de pele entalado na máquina de depilação. #justgirlything

O que me traz a outro ponto. Acho que nos devíamos habituar seriamente a ter pelos no corpo. É uma coisa um bocado complicada de entrar na cabecinha mas acho que é bastante importante. Custava-me muito sair de calções ou ir à praia sem ter a depilação feita mas uma combinação mágica de preguiça e convicção ideológica obrigou-me a aceitar e agora, ui, difícil é chegarem uma gillette ao pé de mim. Mas é um processo, não é de repente que se decide estar ok com este tipo de coisa, demora-se a aceitar que não faz mal ter pernas peludas à mostra. Há imensa gente que me olha com nojo quando lhes mostro o progresso deste inverno. Outras coisas, no entanto, são mais difíceis para mim: ter pelos na cara, por exemplo, ainda me faz impressão. Mas tenho a nítida noção de que é uma coisa perfeitamente desconstruível, posso dizer que ainda tiro os pelos da cara porque “não gosto de ver” mas isso não é necessariamente verdade. Precisamos de fazer um bocadinho de soul searching e chegar à conclusão de que não há nenhuma razão para nos submetermos ao processo doloroso de arrancar pelos de forma semi-regular.

Nada disto quer dizer que eu ache que as moças que se submetem a estas coisas sejam traidoras de género ou demasiado burras para identificar a sua própria opressão. Nada disso. Quanto muito acho que o feminismo mainstream falhou-as em não conseguir oferecer-lhes alternativas viáveis a fazer o que sempre se fez, independentemente se é nocivo ou desnecessário. Também não quer dizer que eu seja uma estalinista da moda que quer que andemos todas vestidas de igual com sacas de batatas. Não há mal nenhum em ser bela e bem-cheirosa. O que eu quero que aconteça é que nos concentremos mais em deixar para trás rituais de beleza que são ativamente prejudiciais simplesmente porque nos ensinaram que é a única maneira de sermos atraentes (e se não formos atraentes, somos o quê?). Quero que paremos de nos vestir como os outros querem, como as revistas, as mães e os pais e os amigos querem, e passemos a concentrar-nos em encontrar uma forma verdadeiramente pura e autêntica de nos expressarmos. Não é uma coisa que vai acontecer de um dia para o outro, é uma viagem para uma vida inteira mas, com alguma sorte, deixamos o terreno preparado para as raparigas de 12 anos que já acham que precisam de usar maquilhagem e que recusam doces no Halloween porque não querem ser gordas.