Agora que o António Costa é primeiro ministro e estamos numa
época de prosperidade e estabilidade política, posso-me preocupar com a situação
de países menos afortunados, aqueles que ainda têm dúvidas relativamente ao
século em que vivemos e afinal como é que esta coisa da democracia funciona.
Países tipo os Estados Unidos da América.
Esses meninos lá do além-mar andam em eleições primárias e
estou imensamente divertida. Há tanto por onde pegar. Eles metem os votos dentro
de baldes de pipocas, eles votam num avô socialista, eles falam de feminismo,
nem sei para onde me virar.
Uma vez que não é o meu país vou-me abster de tecer juízos
de valor demasiado vincados sobre os candidatos democratas, até porque gosto dos
dois. Embora tenha uns fanboys um bocado nojentos, o Bernie Sanders é
perfeitamente razoável e ninguém lhe apontava defeitos numa eleição
europeia. Está perfeitamente alinhado com todas as minhas sensibilidades de
esquerda. Bom para si, Bernie! Hilary Clinton, por outro lado, é claramente uma
líder mais forte e tem o que é preciso para segurar aquela cesspool de país. Se
é tão de esquerda como eu gostaria? Isso é óbvio que não mas eu não sou
americana por isso estou-me um bocado a cagar e, pelo que me parece, ela está
mais de acordo com o que é preciso para navegar a realidade política deles. Acho
bem que queiram um socialista no governo e saúde para todos mas também não é
tarde nem é cedo para terem um bocadinho de noção. O Sr. Bernie como presidente
ou seria muito bom ou não seria muito diferente dos outros candidatos democratas
porque o sistema governativo deles não permite outra coisa. Deviam repensar
seriamente essa parte antes de virem chorar que também querem um estado social a
sério.
O que me irrita profundamente é a perfeita incapacidade que
muita gente tem de reconhecer que a Hilary e o Bernie têm perfis diferentes. E,
sobretudo, que se pode apoiar o Bernie sem se ser um fucking asshole
intelectualmente desonesto. É que o povo mais jovem encasquilhou na cabeça que é
Bernie ou morte e deixou qualquer nuance a morrer num canto.
Esta história toda da Gloria Steinem e da Madeleine Albright,
por exemplo, mostra quão fácil é deserdar quem quer que seja baseando-se
apenas em interpretações inflexíveis de uma coisa que foi dita uma vez num
contexto específico. Nada de discussão, nada de compromisso, vamos diretamente
para a forquilha e para o archote. Gloria Steinem diz que as mulheres mais novas
são tão ativas na campanha do Bernie Sanders porque é lá que estão os rapazes.
Concordo? Não, o Bernie Sanders é um candidato viável e há imensas boas razões
para o apoiar, as mulheres, como seres racionais, baseiam-se nisso na hora de
escolher em quem votar e não se há ou não rapazes na sede de campanha do
candidato. Mas ignorar o apelo que a classe dominante tem é simplesmente
ingénuo. Se estamos num ambiente universitário em que todos os rapazolas de
idade compreendida entre os 18 e os 25 anos não se calam com o Bernie fucking
Sanders então é aí que o poder e influência estão por isso saiam-me de cima. Não
seria a primeira nem a última vez que mulheres (especialmente mais jovens) se
sentem inclinadas a tomar uma posição que agrade à classe dominante mais
próxima.
A Madeleine Albright, por outro lado, diz que há um lugar
especial no inferno para mulheres que não apoiam outras mulheres. Isto é
verdade. A Andrea Dworkin já lá está e tudo, guardando o portão com um tridente
de três metros. Atenção que ela nem disse “se não votarem na Hilary Clinton são
traidoras de género, adeus e boa tarde”. Só disse que nos devemos ajudar umas
às outras. Escandaloso. Ela até referiu mais tarde que era um comentário
dirigido especialmente às mulheres mais velhas e bem situadas profissionalmente
que se recusam a ajudar as mais novas que estão a entrar no mercado de trabalho.
Uma coisa normalíssima que ela tem dito várias vezes ao longo dos últimos 40
anos.
A reação generalizada, no entanto, foi horrivelmente negativa.
Até jovens feministas esfregaram as mãos de contentes com a pressa de as lançar
à fogueira. Steinem e Albright foram acusadas de representar apenas o feminismo
branco, de estarem desatualizadas, de usarem a carta do sexismo para promover a
candidata política que apoiam. Até fico um bocadinho embaraçada por esta gente
porque, se são tão duras com pioneiras do movimento, então minha nossa, os
horrores a que se devem submeter, a auto-flagelação que devem praticar pelo
menor faux pas.
Steinem e Albright, tal como Hilary Clinton, não são perfeitas
nem nunca foram mas são figuras importantes no feminismo. A Gloria Steinem anda
nisto há anos e anos, uma ativista política de renome que fez mais pela
visibilidade do movimento e pelas mulheres do que eu alguma vez farei. A
Madeleine Albright foi a primeira Secretária de Estado. A Hilary Clinton, embora
neoliberal e imperialista e sabe deus mais o quê, ajudou a popularizar a ideia
de que as mulheres também são pessoas na conferência em Pequim, convenceu o Bill
Clinton a passar a primeira legislação referente especialmente ao tráfico humano
e foi ela que tentou pela primeira vez trazer algum tipo de saúde universal
aos Estados Unidos. É óbvio que fizeram muita coisa com a qual não concordo mas
acho que, em vez de sermos tão horrivelmente críticas das líderes feministas
mais velhas, lhes devíamos dar um desconto e agradecer o facto de os seus erros
já não serem os nossos. Sabem aquela solidariedade masculina cega e um bocado
palerma? Vamos tentar um bocado disso, só para ver se nos damos bem. Se não
gostarmos podemos sempre voltar a petty infighting.