sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Leave the kids alone

Com a época natalícia, os católicos saíram todos da toca. A faculdade está absolutamente pejada de cartazes a anunciar uma coisa que, ao início, parecia-me ser uma campanha de recolha de fluidos corporais (tipo sangue).
Olhando assim de repente é exatamente isso que parece, ou então um anúncio a medicação para a azia. É uma escolha estranha mas hey, quem sou eu para discutir com a equipa de marketing e comunicação da igreja.
 
 
 
Bem, esta "Missão País" é uma boa peça. Mas ao menos é uma peça honesta. É muito claramente católica e está muito nitidamente vocacionada para a evangelização. Diria que, de todas as coisas que a igreja podia fazer, mandar um monte de universitários evangelizar pessoal é provavelmente a pior por um número interessante de razões.
 
Primeiro, não acho que estejam a fazer esta coisa de "amar o próximo" como deve ser. Estas coisas de animação cultural que eles promovem em lares de idosos e com crianças não é grande coisa no que tocar a amar gente desfavorecida. Nos dias que correm, se querem amar o próximo ficam mais bem servidos se pagarem os impostos todos e votarem na esquerda.
 
O bom e velho catolicismo português ensina mais a amar o Sr. Jesus do que as massas mal lavadas. E isso nunca encheu a barriga a ninguém. Objetivamente falando, está claro.
 
Depois, evangelizar crianças é uma ideia muito má. Ainda compreendo que vão a lares de idosos, acho que há por aí muito idoso que precisa de companhia e que nem se importa de interagir com universitários self-righteous com demasiado tempo livre. É uma win-win situation para toda a gente envolvida. Agora, as crianças não. As crianças não merecem. Deixem-nas em paz, por favor. Entre seis testes semanais, pais chatos, professores incompetentes, ensino articulado e aulas de patinagem artística, não há espaço para o menino Jesus. Lamento. Não há. Com a carga horária que as crianças têm hoje em dia, a última coisa de que elas precisam é de um conceito metafísico estúpido que lhes pode muito bem proporcionar uma vida inteira de sentimentos de culpa perfeitamente desnecessários.
 
Para não falar do facto de pegar no instinto naturalmente curioso das crianças e basicamente cagar-lhe em cima. Deixem as crianças ouvir o tio Darwin a seu tempo e deixem-nas ficar a dormir ao fim de semana de manhã que elas bem merecem. Algumas têm ensaio de instrumento aos sábados e trabalhos de casa que nunca mais acabam que depois têm que fazer aos domingos. Tem algum jeito encarar isso tudo depois de não sei quanto tempo de catequese e/ou missa? As crianças merecem melhor. As crianças merecem dez horas de sono diário e coisas bonitas, não um monte de baboseiras mal corroboradas.
 
E as meninas? Até tremo em pensar nas coisas que esta evangelização aparentemente inócua transmite às meninas. A bíblia não é exatamente o texto mais woman-friendly que há por aí. As meninas merecem crescer em paz, merecem ter interesses tanto tipicamente masculinos como femininos, merecem dar beijinhos em rapazes (ou raparigas) quando chegar a idade certa sem se sentirem mal. Merecem ser quem é suposto serem sem terem nada a contaminar isso.
 
Por isso, por favor, antes de irem por aí evangelizar, pensem nas crianças.  

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Blunderbuss Cootiesnatch


Há uma coisa que me faz muita impressão.

 

Eu sou razoavelmente ativa no tumblr e, nos meus tempos de juventude, antes de me tornar uma bruxa amarga e coberta de verrugas, seguia muitas raparigas com 15-18 anos com fascínios perfeitamente saudáveis por uma quantidade muito diversa de séries de televisão.

 

Até aqui tudo bem.

 

O problema surge quando, com as séries surge o fascínio pelos atores. É claro que não há nada de errado em olhar para um catraio qualquer e dizer "10/10 comia". Jamais me ocorreria desincentivar tal coisa. Deusa sabe que gosto imenso de olhar para o Keanu Reeves.

 

No entanto, quando elas passam disso para uma de "ele é tao lindo e maravilhoso e nunca olharia para mim porque merece tao melhor" começo a ficar desconfortável. Para já, espero mesmo que não olhassem porque a maior parte delas são menores e isso seria uma coisa extremamente pedófila de se fazer. Depois, "merece tao melhor" é um conceito um bocado estranho. As pessoas não estão organizadas em categorias em que há umas que são claramente melhores do que outras. Não se pode atribuir valor objetivo assim às pessoas (a não ser que, sei lá, sejam neonazis e achem que o Sócrates foi mau primeiro ministro). Na dating pool do mundo não há níveis, como o nome indica, é uma piscina, está tudo a chapinhar no mesmo sítio.

 

Estas cachopas são todas pessoas mais do que satisfatórias. Gerem blogues, vão à escola e uma quantidade ridícula delas tem talento a sair-lhe pelas orelhas no desenho/pintura/escrita/whatever. As raparigas são como os cães, são todas únicas e excelentes e com uma personalidade individual perfeitamente charming. Não há razão nenhuma para achar que são indesejáveis seja de que maneira for.

 

O objeto das suas fixações deixa também um bocado a desejar. Elas elevam estes atores a um nível sobre-humano e às vezes acham que estão para além dos comuns mortais. Um exemplo notável é o Banoodle Cumberbund, ator principal na série inglesa Sherlock, que, apesar de contar como feito mais proeminente ter a capacidade de parecer um presunto mal curado a maior parte do tempo, parece ter conquistado o coração de muita gente. É aplaudido como a epítome do gentleman inglês, tão bem educado e culto, tão eloquente e belo e excelente.

 

No entanto, o Bandicoot Cucumberpatch, como muitos senhores ingleses daquela faixa etária, é um snob educado numa escola privada que acha que as pessoas pobres são pobres porque não trabalham que chegue e é, no fundo, um cocó burguês. Não há nada a fazer. São as verdades.

 

O que eu estou a tentar dizer é que as raparigas adolescentes não ouvem vezes que cheguem que são incríveis e maravilhosas e depois elevam homens perfeitamente comuns a um estatuto esquisito e praticam um tipo de hero-worship pouco saudável quando deviam estar a ponderar o facto de serem real life goddesses que merecem coisas boas na vida.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Mas que raio de porra

Há coisas que não têm graça. Eu há algum tempo seria capaz de defender humor que envolvesse racismo, sexismo, violações e outras coisas menos family friendly mas agora não só acho que esse tipo de humor é desnecessariamente ofensivo como é preguiçoso. Humor preguiçoso é o pior tipo de humor. Um verdadeiro crime. A minha irmã, uma criança, é perfeitamente capaz de identificar este tipo de coisa e dizer que não tem graça e porquê. Estamos a falar de uma criança que acha que dizer bunda é a epítome da comédia.
 
 Mas mesmo assim, é capaz de chegar ao pé de mim e dizer-me "olha, no outro dia os meus amiguinhos das aulas de música estiveram a contar piadas racistas que não tinham piada nenhuma. Nem chegavam a ser piadas". Quando lhe perguntei o que eram para ela piadas racistas ela disse-me que eram piadas em que a punchline era pura e simplesmente "as pessoas de cor são mais burras do que as brancas".
 
Isso é efetivamente muito racista. E não muito engraçado.
 
Ela disse-me também que tinha feito questão de bater com o pé no chão e dizer-lhes para pararem de ser racistas (a minha mãe criou duas princesas-guerreiras e uma alma poética muito sensível, mas o meu irmão não é para aqui chamado). Perante isto, o professor dela, que já devia ser maior e vacinado, com um bocadinho de juízo, disse-lhe que eles só eram assim ofensivos e usavam a palavra pr*to repetidamente em frente às crianças e adolescentes de cor lá da escola de música porque queriam que eles se habituassem, para que não ficassem tristes quando os tratassem assim na escola normal.
 
Devo dizer que fiquei impressionada. Nunca na vida tinha ouvido uma lógica tao retorcida e abertamente merdosa. Que tipo de besta é que tem que se ser para tratar mal propositadamente crianças com o intuito de as habituar a serem vistas como menos-que-gente? Como é que podem achar que isto é saudável?
 
Nós, europeus que sofreram na pele uma ditadura, europeus Ferguson-nunca-aconteceria-cá, ainda dizemos coisas desta. Ainda achamos normal humilhar crianças para elas saberem o lugar delas e com o que devem contar ao longo da vida. Ainda queremos normalizar o racismo para que elas cresçam a achar normal serem tratadas assim.
 
Depois venham cá dizer-me que "são eles que não se importam" que lhes chamem pr*tos.
“Eles gostam”.
 
São “eles que não se importam” ou são vocês que lhes martelam estas coisas desde pequeninos? Não pode ser as duas coisas.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Agora não

A minha mãe, fonte de inspiração constante que é, encostou-se ao radiador na semana passada e perguntou-me se podia ter um blog também. Embora gostasse, não sou a carcereira da internet. Como é óbvio, respondi-lhe sim, vai por esse mundo fora e multiplicai-vos. Diz-me ela então, extremamente entusiasmada, que gostava imenso de escrever sobre a invisibilidade das mulheres, qual paródia perfeita de uma dona de casa dos anos 50 que decide escrever uma coluna sobre ponto cruz.
 
No entanto, a minha mãe é o sol e a lua e as estrelas e, embora tenha o talento e a motivação, dificilmente tem tempo para escrever coisas e atirá-las para a internet (ou para qualquer outro lado). Por isso eu tento estar atenta a estas coisas para servir de blogger-de-aluguer. Às vezes não concordamos e eu sou um bocado uma juventude-com-a-mania-que-é-esperta mas diria que as nossas opiniões têm overlap suficiente para eu conseguir reproduzir mais ou menos o que ela acha. E uma vez que ela não disse mais nada sobre o assunto (e se calhar já se esqueceu que falou disso à minha frente) é muito possível que eu apenas consiga uma modesta aproximação do que lhe passou pela cabeça.
 
A verdade é que as mulheres andam desaparecidas, ou "desapareceram-nas" (é uma diferença muito ténue).
 
As raparigas nas salas de aula (estamos a falar do jardim de infância à universidade e de tudo o que está entre e além disso) não têm voz, são afogadas todos os dias por rapazes a quem nunca disseram que, se calhar, o que têm para dizer não interessa a ninguém. Rapazes cuja confiança nas alarvidades que dizem é inabalável, enquanto as meninas roem-se internamente mil vezes antes de falar porque para serem levadas a sério têm que ser infalíveis. Para acharem que são metade têm que ser o dobro.
 
Também não contamos na política, a não ser que subscrevam a uma visão homeopática da coisa. Não só há (relativamente) poucas mulheres na política como os nossos interesses sao representados de forma risível, coisas de fundo-de-barril legisladas por homens que pouco ou nada sabem sobre ser tratado como um cidadão de segunda categoria e que, volta e meia, ainda dão beliscões no rabo das secretárias.
 
Não temos os cargos de topo, não temos os cargos visíveis. Tudo o que as mulheres têm para mostrar foi arrancado a saca-rolhas. Não basta “merecermos”, temos que conquistar.
Quando digo que os sistemas de quotas são coisas positivas ainda me atiram à cara que estamos a roubar lugares a homens "merecedores". O problema é que eles, que nasceram com uma colher de prata enfiada em todos os orifícios corporais, acham que "merecem" coisas e as devem receber porque as "merecem". Aqui deste lado ninguém merece porra nenhuma, somos 30 cães a um osso e toda a gente tem fome.
 
As mulheres, na sua invisibilidade, vão e vêm e ninguém quer saber. Primeiras e últimas vítimas da guerra, mortas por namorados e maridos que ficam por condenar, executadas por existir, dizer que não, dizer ou fazer a coisa errada na altura errada.

Não estamos nas televisões, a não ser como decoração de fundo. Não temos representação significativa. Sim, porque para ser significativa tem que se exatamente a mesma, nem mais nem menos, que é um conceito que escapa a muita gente. Sempre que digo que não existimos nesse universo dos filmes-séries-e-jogos contam-me pelos dedos as personagens femininas "fortes" que conhecem, como se isso provasse alguma coisa. A não ser que sejam 50 centopeias coladas umas às outras não vale a pena contarem o que quer que seja com os dedos porque por cada personagem feminina merdosa colada com cuspo e escrita medíocre há 10 ou 20 personagens menos femininas que tiveram direito a representar coisas que existem realmente no mundo real.
 
Depois venham cá queixar-se que não estamos aqui e a ali quando já era mais que tempo de estarmos, fazermos e acontecermos.
É difícil ser aquilo que não se consegue ver. Algumas de nós se calhar não são nada porque não sabem ser outra coisa.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Vãomasétodosàmerdassexuais

Se olharem para a capa da edição da Vogue de Setembro deste ano vão ver escrito na capa a seguinte maravilha "E depois do metrossexual? Chega o spornossexual". Ora, como é mais do que óbvio que sou dada a ataques mais do que esporádicos de masoquismo decidi procurar deliberadamente o artigo e lê-lo.
 
Para já, acho que qualquer coisa que acabe em -sexual que não se esteja a referir a uma orientação sexual é perfeitamente estúpido. A sociedade fez dos homens tão fracos que agora se querem fazer algo que se desvia minimamente do que é convencionalmente masculino têm que ir a correr dar-lhe um nome parvo qualquer. Como se a maneira como uma pessoa se veste tivesse alguma a ver com as predileções sexuais de uma pessoa. Ajuda a alimentar o estigma e o estereótipo de que um homem que se arranja bem e não tem uma aversão mortal a desodorizante é, de alguma forma, fora do "normal" e deve ser considerado uma categoria à parte. Para além de que a história dos metrossexuais só contribuiu para aquela ideia toda de "ah eu arranjo-me e não me visto com um labrego mas não sou um desses homossexuais, sou metrossexual".
Ser metrossexual é na verdade uma subcategoria idiota da heterossexualidade para descrever um comportamento perfeitamente normal que as pessoas têm há anos mas que como os homens sofrem de uma debilidade mental e de uma insegurança tão grande teve que se arranjar um nome para este comportamento “bizarro”.  
 
Bem, mas depois da metrossexualidade surge a spornossexualidade. Para já, o nome é francamente nojento. O que é um sporno? Um spornossexual? Isto são palavras que existem? Soa tao mal, parece uma doença sexualmente transmissível ou um esporo de um cogumelo exótico. Deixa-me francamente desconfortável.
 
Aparentemente, um spornossexual é um indivíduo que vai muito ao ginásio, tem um bronzeado artificial e é agressivamente heterossexual. Foi só o que consegui extrair disto tudo. Não sei se avisaram os senhores da revista que este tipo de gente existe há algum tempo. Mas o mais interessante nem é este pseudo fenómeno. É mesmo a razão que atribuem à sua existência. Este tipo de masculinidade over the top existe porque:
 
"Os homens deixaram de saber o seu objetivo social assim que foram dispensados das suas funções de proteção, sustento ou chefia familiar (já para não falar das frentes de batalha ou de abrir a porta do carro). No fim, a única coisa que sobra - e que as mulheres continuam a querer - são os seus corpos".
 
Lindo. Verdadeira poesia.
 
Eu não tinha lá chegado, mas os homens fazem este tipo de coisa porque se sentem emasculados numa sociedade orientada para as necessidades das mulheres. Incrível. Coitados. Ninguém pensa nas necessidades deles.
 
Será que ninguém compreende que este tipo de coisa não deixa ninguém mal visto para além dos homens? Para já, não acredito que isto seja verdade. Depois, achar que isto é uma razão válida para haver um shift pseudo cultural na expressão da masculinidade é simplesmente dizer "eu acho que os homens têm todas a mentalidade de crianças de 5 anos sem qualquer tipo de adaptabilidade saudável ao ambiente em que se encontram". Ok, esta última parte é um bocado verdade mas ninguém nasce tolhido emocionalmente, é a sociedade que faz deles moles de cabeça.   
 
Talvez, em vez de criar nomes estúpidos para coisas estúpidas podíamos simplesmente parar de achar que existem papéis e maneiras de agir tipicamente masculinas e que existe um molde a que os homens têm que se conformar e deixar as pessoas expressar a sua individualidade de forma saudável e da maneira como acharem melhor. Se calhar era boa ideia. Podíamos tentar isso e depois ver se ainda havia necessidade de categorizar as coisas desta maneira. Se calhar éramos todos mais felizes.

sábado, 22 de novembro de 2014

Os probrezinhos: Parte II (Edição Nacional)

Depois das minhas tentativas frustradas de fazer parte de uma organização fina com programas no estrangeiro, cruzei-me com uma iniciativa mais doméstica. Lidava com crianças com "dificuldades no desenvolvimento pessoal", o que é por si só engraçado uma vez que me parece que todos temos dificuldades no desenvolvimento pessoal. A mim ninguém me quer oferecer tutoria e deus sabe que desde que a puberdade começou que a minha vida é um terror existencial ininterrupto.
Enfim, este desenvolvimento pessoal que fazia falta às crianças tinha mais a ver com o facto de serem pobres e de o sistema educativo português não estar particularmente bem equipado para lidar com isso. De qualquer forma, fui falar com a senhora responsável pela seleção dos voluntários. A senhora era extremamente loura e extremamente bem vestida e marcou o encontro numa parte extremamente fina de Lisboa. Ora, eu tentei manter a mente aberta e não discriminar ninguém e diria que, tendo em consideração o sítio e as circunstâncias, me portei bastante bem. Normalmente, se me chega ao nariz cheiro a yuppie dá-me logo vontade de antagonizar as pessoas.
 
Com a senhora estava um jovem com um camisolão ligeiramente náutico, um monte de livros sobre direito e um sotaque arrastado que soava um bocado a Cascais. Sentei-me ao lado dele, com os óculos embaciados e toda molhada da chuva, acabadinha de sair do metro, e ouvi-o falar das suas experiências como tutor de uma dessas crianças desfavorecidas (das quais ele só tinha ouvido falar mas com as quais nunca tinha andado na escola).
Aparentemente, ele tinha-se distraído e dado demasiada confiança à criança. Tinha-se sentado no estrado de uma sala de aula (uma daquelas estruturas de madeira que tresandam a antigo regime e que o meu pai me garante que serviam para os professores mostrarem a sua superioridade) e a criança sentou-se ao lado dele. A partir daí "estava tudo estragado". Infelizmente, não consegui apurar exatamente como é que se estragou tudo mas pareceu-me por bem não perguntar.
O grande problema de gente assim é que parece esquecer-se que, quando alguém (especialmente uma criança) é pobre e/ou tem problemas comportamentais ou educativos, não se torna automaticamente um bicho-do-mato. Continua a ter interesses de pessoa e motivações de pessoa e a fazer e a pensar as coisas que as pessoas pensam (incluindo os estudantes de direito). 
 
Esquecem-se também que as crianças são pessoas e que devem ser tratadas como tal. Se se está a tentar ensinar alguma coisa a uma pequena juventude, podem ter a certeza de que ela responde melhor a alguém que a trata como igual do que a alguém que ergue uma torre de cristal de mil metros à frente dela (por muito impressionante que isso seja). A minha mãe tratou três filhos como gente desde pequenos e, modéstia à parte, diria que funcionou bastante bem.
 
Depois disto, confesso, devia-me ter ido embora. Mas, perdido por cem, perdido por mil. Decidi ficar e ouvir o que a senhora me tinha para dizer. Ela parecia estupefacta com o estado da educação em Portugal (estamos todos) e com o facto de alguns professores ainda não terem sido colocados (apeteceu-me dizer-lhe que isso, normalmente, só acontece com governos de direita) mas queixou-se principalmente dos pais. A criança do rapaz do camisolão náutico tinha uns pais extremamente irresponsáveis que se recusavam a ir buscá-la às 19h à escola.
 
Eu sugeri que, como as crianças hoje em dia têm cargas horárias ridículas, talvez os pais achassem que ela estava a passar demasiado tempo na escola. Mas não, o problema não era esse. Os pais não tinham carro e tinham que ir buscá-la de transportes. Às 19h. Apeteceu-me chorar um bocadinho. Como é que uma pessoa gere sair do trabalho e fazer o jantar e passear o cão e ir buscar a criança às 19h sem carro? Provavelmente não gere. Mas isso não impede uma senhora loura muito bem vestida de a julgar em frente a desconhecidos num café muito fino.
 
Escusado será dizer que não participei no projeto (mais por falta de disponibilidade do que outra coisa) mas estas coisas deixa-me um bocado mal disposta.
 
Não me parece que estas crianças precisem de gente de classe média-alta a ensinarem-lhes métodos de estudo convencionais que claramente não fizeram nada por elas até agora mas sim de uma reforma profunda do sistema educativo que faça com que o percurso escolar das juventudes não se baseie apenas em aprender a lamber botas e rabos e a regurgitar informação.   
 

Os pobrezinhos

Não sei se é porque estamos perto do natal, mas ultimamente têm aparecido imensos panfletos na faculdade sobre trabalho voluntário. Do típico trabalho com idosos ao vá-a-uma-ex-colónia-ensinar-inglês. Ora, eu, como muitas outras pessoas (maioritariamente brancas, diga-se de passagem) sofro de um ligeiro savior-complex e volta e meia tento arranjar um programa destes em que possa participar. Até agora tem sido um esforço perfeitamente em vão.
 
A tentativa deste ano começou comigo a colecionar endereços de email de organizações que trabalham com gente desfavorecida. Arrisco-me a dizer que, neste momento, deve haver cerca de 5 ou 6 cartazes diferentes afixados em cada placard lá na faculdade.
 
Alguns, aqueles que mandam pessoas para o estrangeiro, anunciavam já reuniões com os candidatos a voluntários, sendo o local de escolha de uns o colégio São João de Brito e de outros, centros paroquiais. Ora, eu sou mortalmente alérgica a colégios privados e a gente burguesa com ligações à igreja. No entanto, como sou dada a autoflagelação psicológica decidi mesmo assim informar-me mais sobre o assunto.
 
Em teoria, não tenho nada contra este tipo de coisa, tanto que até estava perfeitamente disposta a participar, mas assim que chego à parte dos testemunhos dos sites apetece-me vomitar os olhos pelas orelhas.
                                                                                                          
Eu acho muito bem que se queira ajudar pessoas. A sério que sim. Acho ótimo. Agora, o que eu não suporto é quando temos estas instituições que têm zero estatísticas (ou um pequeno estudo half-assed... ou mesmo só três parágrafos escritos por alguém que percebe mais ou menos do assunto) sobre o que fizeram para melhorar a qualidade de ensino num determinado local (a qualidade de outra coisa qualquer, nem que seja mesmo a qualidade do ar por irem expirar o seu ar ocidental e muito civilizado para o pé de gente desfavorecida), aumentar a taxa de literacia ou mesmo como é que a população local beneficiou em aprender uma segunda língua.
Todos os testemunhos são das pessoas que vão para lá trabalhar. É só sobre como a experiência foi enriquecedora para elas, como elas se sentiram, como é que aquilo as beneficiou a elas, o que portas é que aquilo lhes abriu. É tudo EU Eueueu EUEU EU EU EUUUUU. Mas eu não quero saber. Não quero mesmo. O que eu gostava de ler era o relato de uma criança qualquer que tenha usufruído do projeto, uma criança que foi para a universidade quando antes não o teria feito, ou mesmo uma criança que tenha sido influenciada positivamente seja de que forma for.
 
Estas instituições são máquinas de transformar sofrimento alheio em crescimento pessoal e são francamente nojentas. Mandar gente mal formada dois ou três meses para um sítio com um mau sistema de educação não vai ajudar em nada. Depois desses três meses estes universitários todos voltam para o conforto do seu lar e as crianças (porque são sempre crianças nestes casos) ficam lá, exatamente na mesma. Nem mais nem menos enriquecidas pela experiência. As crianças não podem por no currículo "tive aulas de inglês subpar dadas por um idiota de um país ocidental qualquer durante 3 meses" e esperar que isso a ajude nalguma coisa. 3 meses não dá para nada, gente. Como é que, em boa consciência, podem continuar a fazer "missões" destas? E muitas vezes ainda têm a lata de meter uma componente religiosa ao barulho. Não evangelizámos já que chegue? Há que saber quando deixar os hereges e os infiéis em paz. Já chega, por favor.

É que algumas nem sequer parecem ter um objetivo concreto. Só muitas buzzwords.
 
Um exemplo concreto com que me deparei nas minhas aventuras é uma coisa chamada "Equipa d'África". Ora, logo na primeira página de introdução temos uma lista dos objetivos, que incluem "sensibilizar a população local para os atuais e futuros problemas sociais", "dotar as populações locais de conhecimentos e ferramentas adequadas para o seu desenvolvimento humano e "formar os intervenientes dos projetos de valores como: justiça social, responsabilidade, cooperação e respeito".
 
Adoro. Tão vago. Tão self-righteous. Uma verdadeira obra de arte. O que é que isto quer dizer sequer? Quem sabe. Uma coisa é certa, soa pretensioso como a porra.
 
Esta gente vai a centros missionários em países em que a população feminina tem 7.3% de literacia e não são capazes de me dizer quantas mulheres/raparigas ensinaram a escrever. Só essa coisa tao simples acalmava a minha amargura.
 
Espero sinceramente que apanhem todos uma valente diarreia por lá.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Menos, por favor


Eu vivo num sítio com igual proporção de racistas e gente não branca. Seria de esperar que convívio prolongado uns com os outros acalmasse os racistas mas isso não parece ser o caso. Eu venho de uma família de bleeding-heart liberals que sempre me ensinaram a respeitar toda a gente e a sermos todos amigos enquanto damos as mãos e cantamos canções. Como tal, criei uma grande aversão à palavra pr*to e esforço-me para usar alternativas mais politicamente corretas (não só por uma questão de respeito mas também porque já ouvi usarem pr*to numa miríade de contextos menos agradáveis). Isto, no entanto, parece gerar reações estranhas.

 

Ontem estava a almoçar com uns colegas da faculdade quando oiço a seguinte pérola:

"...e os pr*tos estão todos a morrer de SIDA."

Zero contexto. Está uma pessoa a tentar almoçar na paz do senhor e cai-lhe uma coisa destas no colo.  

 

Tentei, na melhor das minhas capacidades, que a minha companhia de almoço compreendesse que isto não só não era um claro exemplo de humor negro (como tentaram argumentar) mas sim extremamente insensível e de muito mau gosto. Daí seguiu também o meu pedido para não dizerem pr*to à minha frente. Aprendi há algum tempo que mais vale pedir para não usarem essa linguagem porque me deixa desconfortável a mim pessoalmente do que porque é efetivamente ofensivo. As pessoas reagem melhor. Se pensarmos nisso é um bocado triste.

 

Ora, depois de demonstrarem a sua incredulidade e acharem que eu estava a gozar com eles passaram a gozar comigo. Tipo "aha és tão parva e politicamente correta". Sinto-me muito embaraçada, realmente.

 

Depois disto vem a retórica do costume "eles gostam que os tratem assim" e o clássico "então eu sou branco e eles são pr*tos, qual é o problema?". Eu sinceramente já não tenho paciência para isto, especialmente à hora de almoço. Porque, francamente chamar a alguém branco não é sequer comparável e pouco ou nada me interessa se as pessoas de cor não se importam que as tratem por pr*tos até porque isso é assumir que, primeiro, a juventude negra que lhes disse tal coisa (porque há sempre uma juventude negra possivelmente hipotética qualquer que eles dizem que conhecem que lhes disse que fica mesmo chateada se não a tratarem por pr*ta) fala por um grupo inteiro de pessoas altamente diverso e, segundo, que nunca houve uma fação da sociedade que tivesse aceitado que se referissem a ela de forma pejorativa porque, hey, não é como se fossem parar anytime soon.

 

Dizem-me também que a razão pela qual eu apoio um sistema de quotas e acho que devíamos tentar compensar os grupos que andámos a oprimir e explorar durante anos (especialmente enquanto ex-potência colonizadora) é porque eu me sinto "culpada" e estou a "vitimizar e infantilizar" estas pessoas. Até pode ser que a minha abordagem não seja a mais correta (agradecia que me corrigissem se eu estiver errada) mas a verdade é que há que tomar responsabilidade pela merda que se andou a fazer durante tanto tempo e pelos efeitos duradouros que essa merda teve.

 

Não é um conceito particularmente difícil.

 

Mas, na minha experiência, sempre que se diz a um homem branco ocidental em idade universitária que usufrui de uma grande quantidade de privilégio fica logo tudo chateado. Se falo em bolsas de estudo especiais para gente das ex-colónias acham injusto. Têm a lata de achar injusto e de me dizerem isto na cara. Injusto é ir literalmente pegar fogo a um país e depois acharmos graça ao facto de ainda terem cinzas agarradas à sola dos sapatos. E ainda tentar argumentar que não tivemos nada a ver com isso.


A mesma coisa para a quotas para mulheres. É injusto. Injusto estarmos a roubar lugares a homens "mais qualificados". Mas ninguém garante que são mais qualificados. Para além disso as suas "qualificações" são adquiridas num ecossistema criado por eles próprios que os beneficiam.  

 

Estas lágrimas de crocodilo sinceramente não me comovem. Só chateiam.

domingo, 9 de novembro de 2014

Só sei que tenho uma módica quantia de certezas relativamente a uma menos módica quantia de assuntos


Há uns dias a minha mãe veio ter comigo e disse-me: "Estou muito chateada hoje". E eu, como boa e dedicada filha que sou, perguntei-lhe porquê e se havia alguma coisa que eu pudesse fazer para minimizar o desconforto que a vida lhe estava a provocar. Ela respondeu-me o seguinte:

 

"As mulheres se fossem espertas não se deixavam levar pelo marketing".

 

Assim, sem mais nem menos. E ainda dizem que as pessoas de meia idade são aborrecidas.

 

Já não é a primeira vez que oiço a minha mãe queixar-se que as raparigas hoje em dia se maquilham demasiado, que usam saltos altos demasiado novas e malas de senhora quando deviam usar mochilas.

Não é que ela ache que antigamente é que era bom, longe disso, ela sempre me tentou passar a ideia de que quando ela tinha a minha idade (e especialmente antes do 25 de Abril) não só era tudo péssimo, como a preto e branco (tanto literalmente como metaforicamente).

 

Eu diria que a minha mãe é uma feminista de segunda vaga (ou, pelo menos, o equivalente português/europeu da coisa). Ela nunca se deu muito a títulos ou coisas desse género mas de vez em quando diz-me que era feminista antes de eu sequer existir por isso não vale a pena armar-me em esperta. Faz-me bem ouvir estas coisas de vez em quando. Keeps me grounded.

 

Mas a verdade é que este tipo de coisa também me deixa um bocado dividida. Já passou a febre da igualdade pós 25 de Abril e agora temos que lidar com um monte de coisas que não sabíamos que existia antes da poeira assentar.

 

Por um lado, acho que muitas mulheres são apáticas relativamente à sua situação. Não sei se é porque se recusam a aceitar que são oprimidas porque têm medo que isso automaticamente lhes atribua o título de vítimas (o que não é verdade). Por outro, tenho a plena consciência de que nem toda a gente tem a minha vida para andar por aí pensar em como combater o patriarcado, uma vez que andam demasiado ocupadas a trabalhar/estudar/sobreviver.

 

Também acho que as mulheres deviam estar no seu direito de usar maquilhagem e saltos e vestidos curtos mas, ao mesmo tempo, devíamos ter mais consciência de que não vivemos num vácuo cultural e que padrões convencionais de beleza são tóxicos. Idealmente, devíamos iniciar uma guerrilha contra os cosméticos. É complicado.

 

Acho que o movimento feminista devia ser mais académico e menos "de pacotilha", menos complacente, acho que devia haver mais líderes intelectuais proeminentes. Mas também acho que isso se tornou um bocado obsoleto com a internet. Em vez de um único foco luminoso mega brilhante, temos vários mais pequeninos que brilham com intensidades variadas.

 

Muitas vezes acho que as coisas não mudam até chegar o dia em que fazemos algo drástico. Em que rapamos metade da cabeça e rosnamos aos homens que passam por nós na rua. Em que andamos com uma faca de mato no cinto, em que agarramos a sociedade pelos tomates e dizemos que ninguém vai a lado nenhum até sermos todos gente.

 

Mas também acho que devemos ser persistentes e pacientes, que está tudo a melhorar pouco a pouco. Estamos a atirar uma pedra de cada vez ao glass ceiling e o dia em que ele se desfaz completamente está para chegar.

 

Depois do último velho caquético da última instituição/partido/empresa morrer, quem vai herdar o mundo são mulheres altamente qualificadas.


Acho muita coisa e ao mesmo tempo não acho nada. Sou um autêntico Sócrates às vezes.
 
 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

God Bless

Esta semana falei com um gamergater a sério, na vida real.
Os gamergaters são apoiantes de um movimento chamado gamergate que, de acordo com eles, é sobre ética no jornalismo dos videojogos mas que, na boa tradição de arruinarem tudo, é na verdade sobre moços brancos que não querem que nada mude. Não querem mais representatividade nos seus joguinhos do computador porque isso aparentemente ameaça a sua masculinidade. Ora, este movimento basicamente não faz nada de bom e não quer que ninguém faça. É uma coisa muito fina e muito produtiva.

 
Várias senhoras jornalistas já foram ameaçadas de morte de maneiras coloridas em consequência desta parvoíce e frases como "o feminismo está a destruir o homem ocidental" foram usadas. É perfeitamente ridículo. No entanto, eu estava convencida que isto era uma coisa que só atacava a Gringolândia, lá no além-mar. Que, por muito sexistas que os portugueses fossem, tínhamos mais o bom e velho machismo de um povo tradicionalmente católico. Não estava sinceramente à espera de encontrar estas modernices por cá. Enfim, são as desvantagens da globalização.

 
De qualquer forma, lá estava eu na minha paz do senhor a tentar prestar atenção à aula quando oiço um palerma (com quem eu já tinha discutido anteriormente porque ele desrespeitou o Dragon Age II à minha frente e sinceramente eu estou na faculdade para aprender não para me faltarem ao respeito) falar com o amigo sobre uma moça que tinha dormido com cinco gajos em troca de boas críticas para o seu jogo.

 
Isto foi o que começou o movimento, um idiota qualquer fez um post num blog a dizer mal da ex-namorada e toda a gente acreditou, embora seja demonstradamente falso.

 
Eu perguntei-lhe se ele sabia de que é que estava a falar e se sabia que o que estava a dizer era mentira mas, como seria de esperar, a reação não foi a melhor. Vou-vos citar algumas pérolas que foram ditas por este mastronço:

 
"Só queremos que os vídeo jogos continuem a ser vídeo jogos"
 
"Uma vez joguei um jogo com uma protagonista feminina e não me importei, não compreendo por que é que a representatividade é assim tao importante para vocês"

 
"Somos apoiados por porn stars e por um movimento católico, como é que podemos estar errados?"

 
Esta última é francamente a minha preferida e acho que a vou usar frequentemente no meu dia-a-dia.

 
 Mas o que eu sinceramente não compreendo é por que é que é tao difícil para as pessoas aceitarem que algo está errado quando lho apontam diretamente. Se alguém do grupo mulheres-e-minorias diz "olhem lá isto não está nada bem, é francamente nojento por causa de x, y e z e gostaríamos que fosse corrigido da forma a,b e c" se calhar a melhor reação a ter não é começar aos gritos porque lhes estão a atacar as liberdades de expressão e aceitar que, se calhar, estas pessoas estão em melhor posição para avaliar se algo é ofensiva para elas ou não.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Melhor que tu


Uma das coisas que me dá mais prazer é defender a Nicki Minaj. As pessoas (em especial os cachopos com quem falo) começam a desenvolver tiques nervosos sempre que tenho esta conversa. Estão tao habituados ao circlejerk anti-Nicki que nem sequer conseguem conceber que alguém diga bem dela e da música que ela produz. É verdade que é mais fácil dizer "buh antigamente a música era melhor hoje em dia só se faz porcaria" mas é mais divertido (e mais próximo da verdade) dizer que a música hoje em dia é tao boa, se não melhor, do que há 20 ou 30 anos e que, sim, isso inclui a qualidade do pop e hip-hop e, por conseguinte, a Nicki Minaj.

Pessoalmente, não sou muito dada a ouvir a música dela mas sei dizer que é liricamente pungente e mais catchy do que pé de atleta num balneário público, sendo que devo ter ouvido o tema Anaconda cerca de três vezes e há cerca de uma semana que acordo com ela na cabeça. Podia ser pior.

Dá-me um gozo extra defender o tema Anaconda porque, para além da música, adoram dizer mal do vídeo. Há quem ache que é uma badalhoqueira desmiolada  (gente que não merece sequer consideração) mas há também quem diga que é só mais um teledisco que apela ao male gaze para ganhar popularidade e um atentado anti-feminista. Sinceramente, já estive aí mas não acho que seja o caso. Se olharem com atenção vão ver com os vossos olhos especiais que isto não é exatamente o teledisco a que estamos habituados com moças semidespidas e o olhar sedutor de um carneiro mal morto.

Anaconda é tao outrageous, é um display tao excessivo de sexualidade que se torna uma excentricidade que não pode ser nada para além do que a vontade pura da Nicki Minaj. Não serve para seduzir a audiência porque, comparado com os telediscos mainstream e a sua sexualidade softcore, roça o grotesco. É expressão puramente artística e é fantástico. É celebração do bizarro aos olhos da sociedade atual. É a normalização de ideais de beleza que não incluem ser branco e esfomeado.

Deus abençoe a Nicki Minaj e o rabo dela. Que o próximo seja ainda mais out there.
 
 

Nota: devo acrescentar também que ela tem um historial interessante de promover autoestima nas suas fãs e motivá-las a tirarem um curso superior, sendo que já disse que gosta imensos que lhe levem os diplomas para ela ver. Espero que se sintam mal por tudo o que pensaram de mal sobre ela. Eu sei que eu me sinto.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Fossas de vinte metros


Tive uma professora que, quando estava a falar de um daqueles cientistas mais ou menos importantes, mencionou que a mulher dele tinha sido bastante relevante na pesquisa dele e que muitas das descobertas creditadas única e exclusivamente ao senhor tinham sido, na verdade, uma colaboração com ela.

 

Quando este tipo de coisa acontece o meu coração gelado de demónio do sétimo círculo do inferno aquece mais meio grau em direção ao descongelamento total. Contudo, ela prefaciou esta pequena história com a seguinte pérola:

 

"Eu não sou nenhum tipo de feminista mas..."

 

Isto deixa-me muito triste. Havia uma altura em que me deixava zangada mas agora só me deixa triste. Esta senhora é professora universitária e presidente de um departamento numa faculdade de ciências, faz parte de um milhão e trezentos grupos de investigação e tem, presumo eu, à volta de mil doutoramentos. Esta senhora contou-nos como tinha um professor de álgebra que estava inteiramente convencido que as mulheres não tinha capacidade de passar à cadeira dele e chumbava-as de propósito (self-fulfilling prophecy, amirite?). Esta senhora vota e trabalha e gosta de ser respeitada e mesmo assim recusa-se a assumir o título de feminista e é por isso que de "não sou feminista mas" está cheio o caminho para a inferno.

 

Já aqui há uns tempos li uma citação de uma CEO de uma dessas empresas super-ricas-e-muito-fabulosas que dizia que as mulheres não deviam pedir promoções e simplesmente confiar no sistema. O sistema que faz com que as mulheres recebam menos que os homens pelo mesmo trabalho que tenham acesso a menos posições de poder. Riiiight... olhem para mim a pôr-me me bicos dos pés para confiar no sistema. Se nós meninas queremos alguma coisa nesta vida temos de arreganhar os dentes, agarrá-la pela jugular e esperar pelo último batimento cardíaco e só depois a podemos levar para casa. Não há aqui espaço para confiar no sistema.

 

Custa-me imenso ver mulheres bem-sucedidas a dar sapatadas na cara das suas irmãs menos sortudas. É como se achassem que há uma pool limitada de sucesso para as mulheres e que, se um outro membro do género feminino algures no mundo ascender a uma posição de poder, então o universo vai sentir-se na obrigação de corrigir isso tirando o cargo a outra moça qualquer.

 

É verdade que é difícil ser mulher no mercado de trabalho mas rebaixar outras catraias não ajuda em nada. Hoje em dia já não chega ter só uma ou duas moças por aí para mostrar que se é progressista. As mulheres não se vêm substituir umas às outras mas sim aos Zé Maneis deste mundo, com a sua falta de ética de trabalho e os seus wallpapers da Jessica Alba.

Temos que look out umas pelas outras. Há que encher a wage gap com os cadáveres de trabalhadores medíocres.  

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A bananalidade do mal


Eu sou virulentamente anti-praxe. Acho que é uma coisa horrivelmente estúpida e francamente fascista. É a epítome do fenómeno "deem um uniforme a uma módica quantia de autoridade a um grupo de pessoas aparentemente normal e vejam-nas transformarem-se nos maiores filhos da mãe na história da humanidade".

Muitas vezes chego à faculdade às oito da manha e está escuro e frio e a chover e estão juventudes com penicos na cabeça a fazer flexões na amálgama de lama-relva em frente à universidade. É triste. Não acho saudável. No entanto, se a praxe fosse só obrigar jovens a fazer exercício em condições desagradáveis e francamente pouco seguras eu provavelmente não me chateava muito. Cardio faz bem a toda a gente. Mas o aspeto fetichista da coisa incomoda-me (não que eu tenha nada contra fetichistas).

A praxe é, no fundo, um núcleo duro de misoginia e homofobia (principalmente) coberto de camadas concêntricas de, vá, merda.

Tenho amigas que tentaram ir à praxe mas que desistiram depois do primeiro dia porque foram assediadas sexualmente. Conheço gente gay que foi humilhada propositadamente na praxe por causa da sua orientação sexual. Podem tentar argumentar que a praxe é joguinhos fofinhos para serem todos amiguinhos da faculdade mas sinceramente em que plano de existência é que isso faz sentido? Por acaso é comum por aí fora as pessoas conhecerem-se simulando ter relações sexuais umas com as outras enquanto gente com autoridade sobre elas observa? É comum vestir roupa interior por cima da roupa normal e fingir-se ser-se escravo para ser vendido? Estou a ficar maluca? Isto soa sequer remotamente normal?

Depois dizem que é para preparar as juventudes para o mercado de trabalho. Fica uma mensagem para estas crianças: se alguém alguma vez tentar este tipo de coisas com vocês no vosso emprego apresentem queixa nos recursos humanos.

A verdade é que qualquer tipo de atividade que envolva treinar um grupo de indivíduos para obedecer a outro cegamente sem justificação plausível vai resultar apenas numa dinâmica muito esquisita e na destruição da individualidade das pessoas envolvidas, o que, na minha opinião, vai completamente contra aquilo que uma experiência universitária deve ser. Para não falar de, por muito que custe às pessoas admitir, a praxe fomenta uma cultura de bebedeiras e desleixo académico. Não tentem negar que não vale a pena, eu já vi gente a beber cerveja antes das aulas da tarde. Não enganam ninguém.  

A verdade é que crescer é muito doloroso, eu sei. Para não falar de que a universidade é horrivelmente assustadora no início. Dizer às juventudes que, para receberam algum tipo de orientação e camaradagem por parte dos alunos mais velhos (mesmo que, em última análise, não seja verdade), precisam de passar por um ritual esquisito de humilhação e submissão à grande e muy nobre instituição da praxe é simplesmente sádico.

Perguntam-me muitas vezes por que é que me indigno tanto se nunca fui praxada. Mas imaginem que existe um poço cheio de cobras (não muito grandes e não muito venenosas)  em frente à universidade para onde, todos os anos, se atiram uns 50 alunos. Eles atiram-se de livre e espontânea vontade (embora digam por aí que todos os cool kids se atiram e que só podes vestir um fato todo janota que te identifica como membro do clube-das-pessoas-que-se-atiram-para-poço-com-cobras se o fizeres) e alguns até se divertem no poço e arranjam por lá namorado mas volta e meia alguém se magoa a sério ou faz uma reação alérgica e morre e deixa um vazio horrível e impossível de preencher a alguém. Seria de esperar que a câmara municipal ou a própria universidade decidissem que, se calhar, era uma boa ideia vedar o poço ou mesmo realojar as cobras e cobrir tudo de terra e plantar lá um carvalho.

Mas não. O poço fica e as cobras também. Passo por elas todos os dias.

 

Fava, ervilha, etc

No final da semana passada fez um calor horrível. É um dos problemas de viver numa porra de um deserto ibérico.

 

Uma vez que não gosto de andar a patinar no meu próprio suor, decidi levar um vestido para a universidade. Um vestido preto e até aos pés (para não ter que me preocupar em fechar as pernas quando estou no autocarro, é muito complicado ser uma proper lady).

 

Quando cheguei à faculdade cumprimentei um colega meu que me disse algo que me soou a "hello". Como temos um bocado a mania que somos muito internacionais não achei particularmente estranho mas, quando me sentei ao lado dele na aula primeira do dia, ele perguntou-me "não vais responder à minha pergunta?"  ao que eu respondi "qual pergunta?" Aparentemente ele não me disse "hello" mas sim "clothes?". Como é que alguém confunde as duas coisas? Não faço ideia. Se calhar é a minha tendência para acreditar no melhor das pessoas.

 

Bem, aparentemente, o moço não gosta de vestidos e nunca me viu de vestido (embora eu use este vestido sempre que está calor) e não compreende por que é que eu decidi vestir tal coisa. Ele é livre para pensar essas coisas. É livre para pensar o que quiser. Mas acho verdadeiramente interessante que esta juventude ache que está no direito de me pedir justificações relativamente ao que eu decidi vestir. Esta é a mesma juventude que expressou o seu desagrada quando eu decidi cortar uma grande quantidade de cabelo durante o verão porque "as raparigas ficam tao bonitas de cabelo comprido".

 

Quando expressei o meu desagrado a um outro amigo ele respondeu-me "ah isso não se faz, se não tem nada de simpático a dizer mas vale estar calado. Por exemplo, eu não gosto de camisas de ganga mas não digo nada sobre isso".

 

E sim eu tinha uma camisa de ganga vestida.

 

Não sei onde é que estes energúmenos vão buscar a ideia de que a opinião deles tem algum valor.

 

(Estou a brincar, eu sei perfeitamente onde é que eles vão buscar essa ideia. A uma sociedade que lhes garante que estão à vontade para opinar sobre as escolhas que as mulheres fazem diariamente)

domingo, 5 de outubro de 2014

O mito do pós-ismos


Há muita gente que acha que vivemos numa sociedade pós-sexista, pós-racista e pós todas as coisas desagradáveis.

Já fizeram o favor às mulheres de as deixarem votar e já não é de bom-tom comentar a superioridade da raça branca nas dinner parties. Pronto. Podemos todos ir para casa. Bom trabalho!

Gente que acha isto está, no entanto, horrivelmente errada e devia sentir-se mal. Vivemos na era das microagressões, do sexismo e racismo insidioso que se esconde atrás de aparentes boas intenções. Se há coisa que me deixa à beira de um derrame é, quando estou a tentar explicar alguma coisa que eu tenha testemunhado e/ou vivido em primeira mão que envolva sexismo ou racismo ou uma dessas coisas, dizerem-me "não". Ou "isso não é bem assim" ou "nunca vi isso acontecer". Não tentam argumentar ou explicar o seu ponto de vista (porque não têm). Simplesmente negam uma coisa que me aconteceu pessoalmente ou que vi acontecer ou que aconteceu a alguém próximo de mim. Negam negam negam. Olham para mim com olhos mortiços e negam.

 

Garanto-vos que se algum dia esta gente se vier queixar que alguém lhes deu um murro na cara eu vou simplesmente dizer que não acredito e como pessoalmente nunca levei um murro na cara ou vi alguém levar um murro na cara não acho que tal coisa aconteça sequer. Talvez há 20 anos. Mas definitivamente não agora. Já ninguém leva murros na cara, é uma coisa do passado.

 

Quando me pedem exemplos de que ainda existe sexismo (como se eu tivesse que justificar a existência de uma coisa tao óbvia) ainda me dou ao trabalho de lhes falar dos senhores que me rosnam à porta do metro e que comentam alto o tamanho do meu peito, do professor de teatro do oitavo ano que para descrever passos de dança dizia às alunas para "porem a mão no clitóris" (como se ele soubesses sequer onde tal coisa fica sequer), dos professores da universidade que nunca me perguntaram o nome e que simplesmente me chamavam "coisinha fofa", que deixavam as mãos pousarem onde queriam. Conto-lhes como, quando decidi mudar para um curso tradicionalmente populado por homens, me disseram "só lésbicas vão para isso" e como vi, durante anos, rapazitos serem coroados os mais espertos e especiais da aldeia quando não eram nem uma coisa nem outra.

 

Digo-lhes também que vi auxiliares educativas (no meu tempo eram contínuas mas já ouvi dizer que agora a nomenclatura é diferente) referirem-se a alunos de cor como "estes pr*tos" e "animais" e "selvagens", vi o sistema de ensino premiar e louvar os talentos artísticos de colegas "abençoadamente" brancas e ignorar completamente o das colegas menos brancas. Mesmo na universidade já me contaram como há sussurros racistas nos elevadores e em trabalhos de grupos. Como há uma desconfiança latente em alunos e professores. Como há valores que desaparecem misteriosamente.

 

E depois disto tudo ainda me dizem "isso não é bem assim".

 

Então é como?

 

 

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Coisas que irritam

Como bons socialistas, os meus paizinhos ensinaram-me desde pequena que a caridade é para católicos com complexos de superioridade. Ok, nem sempre, mas uns sólidos 90% é para católicos com complexos de superioridade. Não tenho a certeza do que os restantes 10% andam a fazer.
 
A ideia de atirar uma mão cheia de moedas à cara de gente desfavorecida uma vez por ano com esperança que alguma cole não é definitivamente uma ideia que que eu aprove particularmente. Ensinaram-me a respeitar mais a solidariedade, sistemas que permitam às pessoas a quem o universo decidiu cuspir na cara viver com a dignidade que merecem de forma continuada.
 
Dito isto, irrita-me imenso que as pessoas das mais diversas instituições de caridade me abordem (de forma extremamente agressiva, diga-se de passagem) a caminho da faculdade. Senhores, eu sou estudante. Dá para ver pela cara e pela mochila. Acham que eu tenho disposable income para vocês? E acham que eu se eu tivesse vos dava? Eu sei lá qual é a credibilidade dos vossos projetos e a sustentabilidade da coisa e se estão efetivamente a fazer uma diferença significativa na vida das pessoas. Eu sei que não fazem por mal e que acham sinceramente que estão a fazer uma coisa bem feita e que este tipo de coisa vos eleva a um plano moral superior. Mas por favor não se ofereçam para me acompanhar à porta da sala onde vou ter aulas nem ao autocarro. Não tenho fundos para vocês e se tivesse provavelmente gastava em propinas.
 
Quando vos despacho com um "não, obrigada" não faço por mal. Tenham dó de mim.
 
 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Ca nojo

Ultimamente tenho-me cruzado com imensos anúncios do euromilhões. Estão nas paragens de autocarro, nos próprios autocarros (para o caso de não terem reparado neles enquanto estavam à espera de ir para o trabalho/escola/faculdade/whatever) e num monte de outros sítios onde normalmente há este tipo de coisa.
 
Pouco me importa o euromilhões ou como decidem publicitar as suas atividades mas desta vez não pude de deixar de reparar nos posters. Presumo que estes senhores tenham mais do que fundos suficientes para contratarem uma equipa de marketing jeitosa, mas o que estes idiotas formados num daqueles cursos que requerem usar fato e gravata para fazer apresentações PowerPoint fizeram foi isto:
 
 
A sofisticação, a classe, a originalidade. Há tanto por onde pegar.
 
Qual é a mensagem aqui exatamente? Parece-me que o bigodes ganhou o euromilhões e agora tem uma namorada toda gostosa. Pronto. O que é que eu suposto eu achar disso? Todas as mulheres são umas gold diggers badalhocas? Ninguém pegava no bigodes antes mas agora que ele é rico todas as moças jeitosas tentam entrar-lhe nas calças? Que linda mensagem, a sério.
 
Sinceramente podem tentar-me convencer que isto acontece a toda a hora e apontar para homens super ricos e velhos e asquerosos casados com super modelos mas não quero muito saber. Não acho que aconteça muitas vezes e uma rapariga jeitosa tão depressa (ou tão devagar) arranja um milionário feio como um pelo qual se sente atraída. Os feiozos não têm o monopólio da riqueza mundial. Para além disso, por que é que ter uma namorada que só se interessa por dinheiro devia ser um objetivo para o bigodes? Estão a imaginar os amigos dele? "Ahah bigodes, és rico mas a tua namorada nunca te vai amar só por ti, só pelo teu dinheiro". Maravilhoso. Uma verdadeira inspiração.  
 
É que não só estão a reduzir mulheres a idiotas sedentas de dinheiro (e a meros símbolos de status sem agência própria) como estão a dizer que o bigodes tem uma relação vazia e pouco satisfatória, sendo que isto deveria ser considerado um plus no que toca a ganhar o euromilhoes.
 
Ninguém fica aqui bem visto. Isto é um trainwreck.  

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Nem a brincar

Há uns dias um colega meu da faculdade ficou muito admirado quando eu lhe expliquei que a minha mãe não tinha tempo para me levar à universidade de carro todos os dias. Afinal, não só tenho boas pernas para andar e um passe de autocarro, como a minha mãe não tem mesmo tempo para servir de motorista privada, disse-lhe eu. O que ele respondeu a isto foi o seguinte:

 
"A tua mãe não trabalha, como é que não tem tempo?"

 
Ora, a minha mãe é dona de casa. É um nome um bocado estúpido e antiquado que acarreta um estigma mesquinho, por isso nunca foi muito bem aceite cá em casa (e com razão). É um termo redutor. Quando era mais nova tinha sempre grandes dificuldades em decidir o que escrever naquelas folhinhas de informação pessoal que distribuíam na escola que perguntavam, entre outras coisas, qual a profissão da minha mãe. Durante uns anos escrevi tradutora (coisa que fez durante algum tempo de forma mais ou menos exclusiva) mas depressa tornou-se uma definição um bocado limitativa de tudo o que a minha faz que se enquadra na categoria de trabalho. Nos meus últimos anos de ensino obrigatório comecei a escrever artista. É um título que engloba uma grande quantidade de profissões e ofícios difíceis e que requerem talento mas que são muitas vezes ignorados ou menosprezados. É um paralelo interessante. 

 
A minha mãe criou três seres humanos produtivos e razoavelmente bem integrados na sociedade, é uma metade bastante sólida do casamento mais bem-sucedido que alguma vez vi, mantém uma casa bastante grande em condições habitáveis, leva (e traz) uma quantidade variável de crianças à escola/natação/música/cinema, leva o cão à rua várias vezes ao dia, dá banho ao cão (e às vezes também a uma quantidade variável de crianças), gere as finanças do household e apoia as aventuras empresariais do meu pai desempenhando uma quantidade enorme de papeis, compra roupa para a família toda (incluindo para o cão) e cozinha todas as refeições que comemos. A minha mãe gere crises melhor que o Dr. Phil. Para não falar dos trabalhos de casa que corrigiu e dos projetos de grupo em que teve que participar (nem sempre voluntariamente) e nas associações de pais em que trabalhou.

 
Isto é apenas uma amostra das coisas que a minha mãe tem feito ao longo dos anos em que a conheci. No entanto, este tipo de atitude dismissive para com as "donas de casa" é uma coisa que é bastante generalizada. A minha mãe ouviu muitas bocas destas ao longo dos anos de gente que provavelmente imagina que as donas de casa passam o dia a ver televisão com uma caixa de chocolates ao colo e rolos no cabelo.

 
Vivemos numa sociedade tao disposta a desvalorizar tudo aquilo que é tradicionalmente feminino que nem sequer são capazes de admitir que ser "dona de casa" é efetivamente cansativo e *gasp* difícil. Vivemos numa sociedade que promove a ideia que é claro que toda a gente gostava de ficar em casa a passar tempo com os filhos porque é tão mais fácil e melhor do que trabalhar das nove às cinco e que essas pessoas é que são os verdadeiros hérois por trabalharem fora de casa. Oiçam, eu não estou a negar que é difícil trabalhar em ambientes convencionais, é óbvio que é, mas muitas vezes as pessoas esquecem-se que criar crianças e gerir um household não incluí só as partes boas e que 90% do tempo as crianças são horríveis - uns absolutos psicopatas.

 
Se ser dona de casa fosse uma profissão levada a sério, garanto-vos que a minha mãe estaria no topo 5% das donas de casa. A minha mãe é boa no que faz. Muito boa. Mas ninguém quer saber. A minha mãe tem um skill set muito raro que devia ser valorizado e ninguém quer saber. A minha mãe já fez e conquistou mais do que a average person. No entanto, um palermóide filho único que nunca trabalhou um dia na vida tem a lata de dizer que a minha mãe não trabalha e sente-se perfeitamente validado ao fazê-lo porque nunca ninguém lhe pagou para fazer o que faz.

 
E isto, meninos e meninas, é a razão pela qual noções capitalistas de trabalho são coisas muito tristes e prejudiciais na nossa sociedade.     
 
 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O mais pequeno violino do mundo

Se encostarem o ouvido ao chão neste momento conseguem ouvir o mais pequeno violino do mundo a tocar só para os utilizadores do 4chan. Aparentemente houve uma mudança de administradores e agora os utilizadores estão banidos de usar termos coloridos e carinhosos como n*gger e de publicar a morada e contactos de feministas proeminentes na comunidade do gaming. Escusado será dizer que estão todos muitíssimos aborrecidos.
Tenho tanta pena. A sério que sim. Tenho pena infinita. Deixo aqui em baixo uma representação gráfica da pena que eu tenho.
 
 
 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Of milkshakes and men

Eu digo muitas vezes "os homens são péssimos". Também gosto de dizer "blegh odeio homens". Isto normalmente suscita alguma confusão. Odeio todos os homens sem exceção? Claro que não. Tenho um pai e irmãos e amigos e colegas que são homens e gosto bastante deles. Gosto imenso de homens, gosto de olhar para eles e de algumas coisas que eles fazem de vez em quando. Isto, no entanto, em nada invalida o facto de que, no geral, os homens são péssimos e deviam ter vergonha na cara.
 
É confuso, eu sei, mas tenho uma analogia que é capaz de ajudar.
 
Imaginem que têm um batido de morango super delicioso e eu chego ao pé de vocês com uma colher de cocó. Ora, como me sinto generosa, esta colher de cocó representa apenas 10% do batido. Eu meto essa colher de cocó no vosso batido e mexo até já não dar para distinguir uma coisa da outra.
 
 
90% do batido continua a ser leite e morango e açúcar e essas coisas todas saborosas mas, no fundo, continua a ser um batido de morango? Ou será um batido de cocó?
 
É um batido de cocó, admitam.
 
 
Food for thought, crianças. 
 

Problemas caninos


Eu tenho um cão. Admito plenamente que ele não é o bicho de aspeto mais simpático, é muito grande e muito preto mas, como 99% dos cães, é um enorme palerma. Nunca fez mal a ninguém e nunca teve tal inclinação.

 

No entanto, já me aconteceu mais do que uma vez cruzar-me com gente que ameaça matar e/ou bater no meu cão simplesmente por existir. Lá está ele a ser um cão, a cheirar as suas coisas de cão e a fazer chichi em esquinas e chega um idiota qualquer e arranja uma razão qualquer para se ofender e começa a espumar da boca. É aborrecido. Não gosto que me interrompam o passeio com estas maldades.

 

Já ouvi pessoas ameaçar dar tiros em donos de cães perfeitamente pacíficos. Já ouvi gente ameaçar levar donos de cães a tribunal porque os bichos decidiram aliviar-se em sítios públicos.

 

Todas as altercações que testemunhei foram incitadas por homens brancos e (presumivelmente) heterossexuais. Com tanta coisa com que se indignarem escolhem coisas assim tao irrelevantes. É francamente ridículo.

 

Eu até ficava triste se não soubesse já que este tipo de homens só se preocupa com coisas estúpidas tipo futebol e se andam a dar direitos a mais a minorias étnicas.

 

Sim senhor, o ego masculino é muito frágil mas haja decência.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O bicho papão


Quando eu era uma proto-pessoa, os sites brasileiros eram o bicho papão. Sempre que algum professor mandava fazer um trabalho de grupo (daqueles com cartolinas feiozas porque no meu tempo PowerPoint era só para gente muito fina) havia um aviso no final: "E cuidado com os sites brasileiros que isso não vale nada e está tudo mal escrito".

 

Podemos discutir durante uma eternidade se afinal é o povo brasileiro que escreve mal ou se somos nós os portugueses que não sabemos encadear frases corretamente, até porque é bem possível que o português na altura da colonização tenha cristalizado por aqueles lados e o nosso é que se tenha tornado uma bastardização do puro e bom e muitíssimo verdadeiro português. Mas a questão aqui é outra (até porque pouco ou nada me interessa a maneira como as pessoas falam desde que se compreendam). Durante muitos anos acreditei nisto, que os sites brasileiros eram maus e ruins e não prestavam para nada. No entanto, isto é não só horrivelmente falso como muitíssimo pouco verdadeiro.

 

Há sites brasileiros maus? Pois claro mas arrisco-me a dizer que por cada site brasileiro mau há um português ainda pior. Sites portugueses há muito poucos e os que há são de uma pobreza realmente muito triste. O povo português não produz conteúdo e, aparentemente, tem raiva de quem produz. Há muito mais sites brasileiros do que portugueses e há muitos mais sites brasileiros muito melhores do que os sites portugueses (sobre muito mais coisas se não mesmo todas as coisas).

 

Eu que sou dada aos feminismos decidi andar à procura de feministas portuguesas que escrevessem coisas engraçadas (não coisas como as minhas que são muito palermas) e há muita coisa interessante mas olhem que as nossas irmãs brasileiras estão anos-luz à frente de tudo e de todos. 

Depois de anos de colonização e das consequências que daí surgem ainda por cima sofrem sexismo, violência e racismo a uma escala que nós aqui no rabo da europa nem conseguimos imaginar.  Para não falar de que incluíram mulheres trans no feminismo mainstream com imensa facilidade (que é algo que por vezes escapa até a feministas bem intencionadas).

 

Outro exemplo interessante é o da wikipedia. Quantas vezes ouvi dizer "ai a wikipedia em português é uma porcaria, está tudo escrito em brasileiro". Esta badalhoqueira foi repetida tanta vez que seria esperar que fosse obrigatório tatuá-la no rabo de todos os professores recém-formados. A wikipedia em português parece ser editada maioritariamente por utilizadores brasileiros e é piorzinha que a inglesa (não é só a versão portuguesa e desconfio que a culpa disso não seja do povo brasileiro. Desconfio) mas acham que estes palermas que gostam de dizer mal estao preparados para ir eles editar as páginas da wikipedia? Claro que não. Se os senhores da wikipedia fossem espertos não deixavam estafermos destes editar sequer um artigo sobre as unhas dos pés do Cavaco Silva mas como ainda não tiveram esse insight há literalmente zero impedimentos de irem lá preencher as muy importantes lacunas de que se queixam.

 

Como o meu paizinho dizia

 

"Não fodem nem saem de cima"

 

Há gente que não se enxerga.  

domingo, 14 de setembro de 2014

Os génios e os outros


Há relativamente pouco tempo mudei de curso. O meu primeiro tinha uma quantidade considerável de moças, o segundo, de moços.

 
No meu primeiro curso consegui amealhar um grupo substancial de raparigas ao qual durante algum tempo chamei amigas. Muitas delas tinham médias ridiculamente altas de entrada na faculdade, tipo dezoitos virgula qualquer coisa e por aí em diante. Moças inteligentes no sentido convencional do termo. Nunca em nenhuma circunstância se referiram a elas próprias como génios, inteligentes, espertas, espertinhas, boas no que fazem, dotadas, sobredotadas (que julgo ser três ou quatro passos acima de dotada) ou qualquer outra coisa que indicasse que elas se consideravam na posse de qualquer tipo de capacidade intelectual.

 
Pode ser falsa humildade? Isso pode, mas nunca me pareceu que fosse. São coisas que acontecem.


No meu atual curso tenho amigos rapazes. Como é uma mudança recente ainda tenho uma pool de amigos reduzida mais ainda assim dá para fazer umas observações interessantes. Acontece que conheço alguns que ou entraram mais cedo na universidade ou passaram um ano à frente. Os outros são juventudes que saíram do secundário com médias de catorze e dizem coisas como "sempre fui o génio da família". Estamos a falar de gente que consegue manter conversas longuíssimas sobre coisas sobre as quais sabem pouco ou nada.

 
Atenção, são bons rapazes, boa gente. E catorze é uma média sólida. O que me admira é que esta gente que passou um ano à frente muitas vezes cai de boca no chão e mal consegue passar às cadeiras. O génio acabou? O que se passa aqui? E mesmo depois de terem provas concretas de que não são isto e aquilo continuam a arranjar desculpas. "É impossível fazer esta cadeira, só palermas que passam a vida a estudar é que passam".
 

"Só palermas que passam a vida a estudar é que passam"

 
Engraçado como estes rapazolas às vezes dizem coisas acertadas.


Quando as moças têm boas notas e se saem bem academicamente é porque trabalham e, afinal, qualquer palerma consegue fazer isso. Quando acontece o mesmo com moços é porque são dotados.

 
Depois de passarem uma vida inteira a ouvir dizer que são o sol e as estrelas é um bocado tough assimilar que se calhar o rabo deles não brilha com especial intensidade nem cheira a rosas.


Enfim, eu canso-me. Fico triste. Acredito numa distribuição igualitária da bazófia. Meninos, partilhem a vossa bazófia, vá lá, por uma vez na vida não sejam fuços. Há bazófia que chegue para todos.