As coisas que mais aborrecem a minha mãe neste mundo inteiro
são: a maneira como os curdos são tratados, o facto de já não haver mais
episódios da Phryne Fisher e aquelas pessoas que assumem que os filhos devem
sair de casa o mais depressa possível.
Sinto-me particularmente inclinada a concordar com esta última
porque, honestamente, não tenciono ir a lado nenhum nos próximos 5 a 10 anos. Já
lá vai o tempo em que achava sinceramente que ficar em casa dos pais tanto tempo
era uma vergonha e um fardo terrível. Não é que não possa ser, é óbvio que há
muita sanguessuga por aí, mas não é que o seja necessariamente. Só não me parece
que arranjar emprego –> casar –> sair de casa –> ter filhos seja
a ordem de acontecimentos mais saudável, especialmente para jovens senhoras como
eu. Mas, muitas vezes, se queremos coisas diferentes é preciso viver
indefinidamente com os paizinhos. Coitados, sacrificados no altar do feminismo
em prol do desenvolvimento pessoal das meninas. Um ultraje.
Ponho ainda mais um pequeno chapéu na minha retórica: as jovens
devem esforçar-se o máximo possível para viverem em comunidade e não se exilarem
em círculos sociais que dependem quase exclusivamente de relações românticas.
Quando digo em comunidade, digo que devem dar preferência quase idêntica a todos
os laços fortes que criam e reconhecer o seu valor individual. Ou seja, em vez
de termos um núcleo que se baseia no parceiro romântico com outras ligações mais
periféricas, vai tudo para dentro do mesmo saco. Normalmente, espera-se que as
mulheres saiam eventualmente de casa dos pais para constituírem família com um
sujeito mais ou menos decente, sendo que os irmãos, pais e amigos passam a tomar
um papel secundário. Não é que eu ache o casamentos uma coisa necessariamente
má, mas esta de abordagem deixa-nos isoladas. Nunca vamos sair particularmente
beneficiadas deste tipo de exclusividade.
Temos que encarar todas as interações que temos de uma forma
fundamentalmente egoísta. Mas no melhor dos sentidos. Construir uma
personalidade demora tempo e só arranjamos um Eu com alicerces de ferro através
de relações diversificadas, se vendermos os nossos anos formativos a um único
marmanjo estamos a mutilar-nos desnecessariamente. Muitas relações românticas
baseiam-se na plasticidade da mulher e na sua capacidade de agradar ao parceiro
quando, na verdade, deviam ser só uma experiência de enriquecimento mútuo em que
se pode partilhar aquilo que se construiu individualmente.
É óbvio que não devemos abdicar da nossa independência, é
precisamente o contrário. Se tivermos o privilégio de ter pais definitivamente
não insuportáveis com os quais podemos aprender uma coisa ou duas assim de vez
em quando, por que não usar essa segurança para desperdiçar uns anitos em
desenvolvimento pessoal? Tenho uma liberdade enorme que me permite fazer só
aquilo de que gosto (e se não é porque gosto ao menos é porque quero) e isto
implica trabalhar e estudar a tempo inteiro mas também passear o cão e regar as
plantas e fazer o almoço e o jantar para a família, limpar o pó de vez em quando,
tricotar gorros para toda a gente que conheço e ver séries com os irmãos. Sou necessariamente mais
interessante e mais competente por causa de todas estas coisas, algumas das
quais se perderiam se já vivesse sozinha. Parecendo que não, uma família grande
e movimentada dá-me um apreço renovado por muitos outros aspetos da vida em
sociedade e da responsabilidade individual por uma comunidade.
Quero então que se arranje uma rede mais ou menos igualitária
que se estenda dos pais, irmãos e avós até aos amigos, que passe também pelos
namorados e namoradas e que alcance as crianças a quem se dá explicações e até
mesmo as mães delas (que merecem maridos melhores) e as senhoras idosas que
passeiam os cães no jardim todos os dias. Há coisas tão interessantes para
aprender com toda esta gente e não necessariamente sobre elas mas sim sobre nós
próprias.

