quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Fossas de vinte metros


Tive uma professora que, quando estava a falar de um daqueles cientistas mais ou menos importantes, mencionou que a mulher dele tinha sido bastante relevante na pesquisa dele e que muitas das descobertas creditadas única e exclusivamente ao senhor tinham sido, na verdade, uma colaboração com ela.

 

Quando este tipo de coisa acontece o meu coração gelado de demónio do sétimo círculo do inferno aquece mais meio grau em direção ao descongelamento total. Contudo, ela prefaciou esta pequena história com a seguinte pérola:

 

"Eu não sou nenhum tipo de feminista mas..."

 

Isto deixa-me muito triste. Havia uma altura em que me deixava zangada mas agora só me deixa triste. Esta senhora é professora universitária e presidente de um departamento numa faculdade de ciências, faz parte de um milhão e trezentos grupos de investigação e tem, presumo eu, à volta de mil doutoramentos. Esta senhora contou-nos como tinha um professor de álgebra que estava inteiramente convencido que as mulheres não tinha capacidade de passar à cadeira dele e chumbava-as de propósito (self-fulfilling prophecy, amirite?). Esta senhora vota e trabalha e gosta de ser respeitada e mesmo assim recusa-se a assumir o título de feminista e é por isso que de "não sou feminista mas" está cheio o caminho para a inferno.

 

Já aqui há uns tempos li uma citação de uma CEO de uma dessas empresas super-ricas-e-muito-fabulosas que dizia que as mulheres não deviam pedir promoções e simplesmente confiar no sistema. O sistema que faz com que as mulheres recebam menos que os homens pelo mesmo trabalho que tenham acesso a menos posições de poder. Riiiight... olhem para mim a pôr-me me bicos dos pés para confiar no sistema. Se nós meninas queremos alguma coisa nesta vida temos de arreganhar os dentes, agarrá-la pela jugular e esperar pelo último batimento cardíaco e só depois a podemos levar para casa. Não há aqui espaço para confiar no sistema.

 

Custa-me imenso ver mulheres bem-sucedidas a dar sapatadas na cara das suas irmãs menos sortudas. É como se achassem que há uma pool limitada de sucesso para as mulheres e que, se um outro membro do género feminino algures no mundo ascender a uma posição de poder, então o universo vai sentir-se na obrigação de corrigir isso tirando o cargo a outra moça qualquer.

 

É verdade que é difícil ser mulher no mercado de trabalho mas rebaixar outras catraias não ajuda em nada. Hoje em dia já não chega ter só uma ou duas moças por aí para mostrar que se é progressista. As mulheres não se vêm substituir umas às outras mas sim aos Zé Maneis deste mundo, com a sua falta de ética de trabalho e os seus wallpapers da Jessica Alba.

Temos que look out umas pelas outras. Há que encher a wage gap com os cadáveres de trabalhadores medíocres.  

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A bananalidade do mal


Eu sou virulentamente anti-praxe. Acho que é uma coisa horrivelmente estúpida e francamente fascista. É a epítome do fenómeno "deem um uniforme a uma módica quantia de autoridade a um grupo de pessoas aparentemente normal e vejam-nas transformarem-se nos maiores filhos da mãe na história da humanidade".

Muitas vezes chego à faculdade às oito da manha e está escuro e frio e a chover e estão juventudes com penicos na cabeça a fazer flexões na amálgama de lama-relva em frente à universidade. É triste. Não acho saudável. No entanto, se a praxe fosse só obrigar jovens a fazer exercício em condições desagradáveis e francamente pouco seguras eu provavelmente não me chateava muito. Cardio faz bem a toda a gente. Mas o aspeto fetichista da coisa incomoda-me (não que eu tenha nada contra fetichistas).

A praxe é, no fundo, um núcleo duro de misoginia e homofobia (principalmente) coberto de camadas concêntricas de, vá, merda.

Tenho amigas que tentaram ir à praxe mas que desistiram depois do primeiro dia porque foram assediadas sexualmente. Conheço gente gay que foi humilhada propositadamente na praxe por causa da sua orientação sexual. Podem tentar argumentar que a praxe é joguinhos fofinhos para serem todos amiguinhos da faculdade mas sinceramente em que plano de existência é que isso faz sentido? Por acaso é comum por aí fora as pessoas conhecerem-se simulando ter relações sexuais umas com as outras enquanto gente com autoridade sobre elas observa? É comum vestir roupa interior por cima da roupa normal e fingir-se ser-se escravo para ser vendido? Estou a ficar maluca? Isto soa sequer remotamente normal?

Depois dizem que é para preparar as juventudes para o mercado de trabalho. Fica uma mensagem para estas crianças: se alguém alguma vez tentar este tipo de coisas com vocês no vosso emprego apresentem queixa nos recursos humanos.

A verdade é que qualquer tipo de atividade que envolva treinar um grupo de indivíduos para obedecer a outro cegamente sem justificação plausível vai resultar apenas numa dinâmica muito esquisita e na destruição da individualidade das pessoas envolvidas, o que, na minha opinião, vai completamente contra aquilo que uma experiência universitária deve ser. Para não falar de, por muito que custe às pessoas admitir, a praxe fomenta uma cultura de bebedeiras e desleixo académico. Não tentem negar que não vale a pena, eu já vi gente a beber cerveja antes das aulas da tarde. Não enganam ninguém.  

A verdade é que crescer é muito doloroso, eu sei. Para não falar de que a universidade é horrivelmente assustadora no início. Dizer às juventudes que, para receberam algum tipo de orientação e camaradagem por parte dos alunos mais velhos (mesmo que, em última análise, não seja verdade), precisam de passar por um ritual esquisito de humilhação e submissão à grande e muy nobre instituição da praxe é simplesmente sádico.

Perguntam-me muitas vezes por que é que me indigno tanto se nunca fui praxada. Mas imaginem que existe um poço cheio de cobras (não muito grandes e não muito venenosas)  em frente à universidade para onde, todos os anos, se atiram uns 50 alunos. Eles atiram-se de livre e espontânea vontade (embora digam por aí que todos os cool kids se atiram e que só podes vestir um fato todo janota que te identifica como membro do clube-das-pessoas-que-se-atiram-para-poço-com-cobras se o fizeres) e alguns até se divertem no poço e arranjam por lá namorado mas volta e meia alguém se magoa a sério ou faz uma reação alérgica e morre e deixa um vazio horrível e impossível de preencher a alguém. Seria de esperar que a câmara municipal ou a própria universidade decidissem que, se calhar, era uma boa ideia vedar o poço ou mesmo realojar as cobras e cobrir tudo de terra e plantar lá um carvalho.

Mas não. O poço fica e as cobras também. Passo por elas todos os dias.

 

Fava, ervilha, etc

No final da semana passada fez um calor horrível. É um dos problemas de viver numa porra de um deserto ibérico.

 

Uma vez que não gosto de andar a patinar no meu próprio suor, decidi levar um vestido para a universidade. Um vestido preto e até aos pés (para não ter que me preocupar em fechar as pernas quando estou no autocarro, é muito complicado ser uma proper lady).

 

Quando cheguei à faculdade cumprimentei um colega meu que me disse algo que me soou a "hello". Como temos um bocado a mania que somos muito internacionais não achei particularmente estranho mas, quando me sentei ao lado dele na aula primeira do dia, ele perguntou-me "não vais responder à minha pergunta?"  ao que eu respondi "qual pergunta?" Aparentemente ele não me disse "hello" mas sim "clothes?". Como é que alguém confunde as duas coisas? Não faço ideia. Se calhar é a minha tendência para acreditar no melhor das pessoas.

 

Bem, aparentemente, o moço não gosta de vestidos e nunca me viu de vestido (embora eu use este vestido sempre que está calor) e não compreende por que é que eu decidi vestir tal coisa. Ele é livre para pensar essas coisas. É livre para pensar o que quiser. Mas acho verdadeiramente interessante que esta juventude ache que está no direito de me pedir justificações relativamente ao que eu decidi vestir. Esta é a mesma juventude que expressou o seu desagrada quando eu decidi cortar uma grande quantidade de cabelo durante o verão porque "as raparigas ficam tao bonitas de cabelo comprido".

 

Quando expressei o meu desagrado a um outro amigo ele respondeu-me "ah isso não se faz, se não tem nada de simpático a dizer mas vale estar calado. Por exemplo, eu não gosto de camisas de ganga mas não digo nada sobre isso".

 

E sim eu tinha uma camisa de ganga vestida.

 

Não sei onde é que estes energúmenos vão buscar a ideia de que a opinião deles tem algum valor.

 

(Estou a brincar, eu sei perfeitamente onde é que eles vão buscar essa ideia. A uma sociedade que lhes garante que estão à vontade para opinar sobre as escolhas que as mulheres fazem diariamente)

domingo, 5 de outubro de 2014

O mito do pós-ismos


Há muita gente que acha que vivemos numa sociedade pós-sexista, pós-racista e pós todas as coisas desagradáveis.

Já fizeram o favor às mulheres de as deixarem votar e já não é de bom-tom comentar a superioridade da raça branca nas dinner parties. Pronto. Podemos todos ir para casa. Bom trabalho!

Gente que acha isto está, no entanto, horrivelmente errada e devia sentir-se mal. Vivemos na era das microagressões, do sexismo e racismo insidioso que se esconde atrás de aparentes boas intenções. Se há coisa que me deixa à beira de um derrame é, quando estou a tentar explicar alguma coisa que eu tenha testemunhado e/ou vivido em primeira mão que envolva sexismo ou racismo ou uma dessas coisas, dizerem-me "não". Ou "isso não é bem assim" ou "nunca vi isso acontecer". Não tentam argumentar ou explicar o seu ponto de vista (porque não têm). Simplesmente negam uma coisa que me aconteceu pessoalmente ou que vi acontecer ou que aconteceu a alguém próximo de mim. Negam negam negam. Olham para mim com olhos mortiços e negam.

 

Garanto-vos que se algum dia esta gente se vier queixar que alguém lhes deu um murro na cara eu vou simplesmente dizer que não acredito e como pessoalmente nunca levei um murro na cara ou vi alguém levar um murro na cara não acho que tal coisa aconteça sequer. Talvez há 20 anos. Mas definitivamente não agora. Já ninguém leva murros na cara, é uma coisa do passado.

 

Quando me pedem exemplos de que ainda existe sexismo (como se eu tivesse que justificar a existência de uma coisa tao óbvia) ainda me dou ao trabalho de lhes falar dos senhores que me rosnam à porta do metro e que comentam alto o tamanho do meu peito, do professor de teatro do oitavo ano que para descrever passos de dança dizia às alunas para "porem a mão no clitóris" (como se ele soubesses sequer onde tal coisa fica sequer), dos professores da universidade que nunca me perguntaram o nome e que simplesmente me chamavam "coisinha fofa", que deixavam as mãos pousarem onde queriam. Conto-lhes como, quando decidi mudar para um curso tradicionalmente populado por homens, me disseram "só lésbicas vão para isso" e como vi, durante anos, rapazitos serem coroados os mais espertos e especiais da aldeia quando não eram nem uma coisa nem outra.

 

Digo-lhes também que vi auxiliares educativas (no meu tempo eram contínuas mas já ouvi dizer que agora a nomenclatura é diferente) referirem-se a alunos de cor como "estes pr*tos" e "animais" e "selvagens", vi o sistema de ensino premiar e louvar os talentos artísticos de colegas "abençoadamente" brancas e ignorar completamente o das colegas menos brancas. Mesmo na universidade já me contaram como há sussurros racistas nos elevadores e em trabalhos de grupos. Como há uma desconfiança latente em alunos e professores. Como há valores que desaparecem misteriosamente.

 

E depois disto tudo ainda me dizem "isso não é bem assim".

 

Então é como?

 

 

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Coisas que irritam

Como bons socialistas, os meus paizinhos ensinaram-me desde pequena que a caridade é para católicos com complexos de superioridade. Ok, nem sempre, mas uns sólidos 90% é para católicos com complexos de superioridade. Não tenho a certeza do que os restantes 10% andam a fazer.
 
A ideia de atirar uma mão cheia de moedas à cara de gente desfavorecida uma vez por ano com esperança que alguma cole não é definitivamente uma ideia que que eu aprove particularmente. Ensinaram-me a respeitar mais a solidariedade, sistemas que permitam às pessoas a quem o universo decidiu cuspir na cara viver com a dignidade que merecem de forma continuada.
 
Dito isto, irrita-me imenso que as pessoas das mais diversas instituições de caridade me abordem (de forma extremamente agressiva, diga-se de passagem) a caminho da faculdade. Senhores, eu sou estudante. Dá para ver pela cara e pela mochila. Acham que eu tenho disposable income para vocês? E acham que eu se eu tivesse vos dava? Eu sei lá qual é a credibilidade dos vossos projetos e a sustentabilidade da coisa e se estão efetivamente a fazer uma diferença significativa na vida das pessoas. Eu sei que não fazem por mal e que acham sinceramente que estão a fazer uma coisa bem feita e que este tipo de coisa vos eleva a um plano moral superior. Mas por favor não se ofereçam para me acompanhar à porta da sala onde vou ter aulas nem ao autocarro. Não tenho fundos para vocês e se tivesse provavelmente gastava em propinas.
 
Quando vos despacho com um "não, obrigada" não faço por mal. Tenham dó de mim.