quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Hillaryante

Se a Hillary Clinton perder as eleições será apenas e unicamente porque é mulher. Não vai ser pela sua agenda pseudo-neoliberal nem pela sua posição na altura da guerra no Iraque, que tem sido vastamente mal interpretada, nem mesmo pelas suscetibilidades que a libertinagem do marido possa ter ferido há vinte anos. Vai ser por ser mulher e quem não concordar pode literalmente lutar comigo porque é verdade e toda a gente sabe que é verdade, mas ninguém quer admitir.

Numa sociedade saudável nunca teríamos a situação com que nos deparamos agora nos Estados Unidos. Só no contexto em que vivemos é que faz sentido ter a Hillary Clinton a concorrer contra um homem que é essencialmente três oompa-loompas racistas dentro de uma gabardine roubada. Se o candidato republicano fosse outra pessoa qualquer até podia não me fazer tanta impressão, mas assim é escandalosamente óbvio que qualquer coisa que um homem faça, especialmente num meio político, é valorizado infinitas vezes mais do que a contribuição de uma mulher, por muito qualificada que seja. A situação nunca poderia ser invertida. Nunca vamos ver uma mulher com o perfil e educação do Trump chegar onde ele chegou, mesmo com uma fortuna idêntica. 

Para a maioria da população, os dois candidatos estão em pé de igualdade. Não porque são igualmente qualificados apesar de divergências ideológicas, mas porque a Hillary Clinton, apenas por virtude do seu sexo, tem sido sistematicamente rebaixada até a opinião pública a considerar ao nível do Trump. 

O que é particularmente chocante nem é que existam pessoas dispostas a votar no Trump, não é assim tão estranho querer votar em candidatos objetivamente terríveis, acontece a toda a hora. O mais triste não é quererem votar no Trump, é não quererem votar na Hillary. E não querem mesmo. Dá para ver em todos os artigos que preferem falar das baboseiras que o Trump disse do que na política séria que ela anda a tentar fazer, ou nos artigos em revistas supostamente progressivas que preferem discutir se uma experiência pessoal da Hillary Clinton será verdade ou não.

Não é que eu ache que não se deva escrutinar figuras públicas de todo, acho que é positivo e valioso, mas também me parece que, se calhar, há uma altura e um lugar para estas coisas e não estamos nem perto nem longe de estarmos por aí. A esta altura já não dá para escolher alguém “melhor” do que a Hillary, é literalmente ela ou o Trump. Mas, em vez de estarem a cerrar fileiras à volta dela, ainda está tudo numa tentativa de fingir que não há nenhuma diferença entre os dois candidatos, que o equilíbrio deve ser preservado. Haveria uma obrigação moral para ser equilibrado se um dos candidatos não fosse literalmente fascista e quisesse pôr em causa pontos importantes da constituição e da declaração universal dos direitos humanos. 

Temos uma situação inédita, em que há a oportunidade de eleger uma mulher competente e qualificada como líder de uma das nações mais poderosas do mundo, mas, em vez de haver um esforço coletivo para que isso aconteça, está tudo distraído com as gracinhas de alguém que é, essencialmente, mais de cem quilos de macarrão com queijo estragado. Se, por um lado, temos uma campanha baseada praticamente só em misoginia e em trazer o pior das pessoas ao de cima, por outro temos uma aparente maioria pouco vocal que até agora parece conseguir oferecer pouco mais do que apoio tépido e uma quantidade alarmante de artigos que só vão servir para alimentar o canhão daqueles que, numa tentativa de proteger todas (mas mesmo todas) as suas suscetibilidades de esquerda, decidiram que são demasiado bons para votar na Hillary Clinton.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Burkini Faso

Há uns tempos, o povo francês teve um colapso coletivo e lembrou-se que o que faltava mesmo para garantir a segurança nacional era banir o burkini, uma vestimenta usada maioritariamente por senhoras muçulmanas na praia para preservar a sua modéstia. Felizmente passou-lhes depressa e rapidamente apareceram assim umas pessoas mais entendidas no assunto que refrearam a questão. 

Mas a burqa, por exemplo, continua a ser ilegal em França e as mulheres que a usam podem ser sujeitas a uma multa substancial. Há duas grandes razões para se querer banir este tipo de coisa e, enquanto uma é um-bocado-parva, a outra é mesmo turbo-parva. 

A razão um-bocado-parva é quando se ouve alguém dizer que é por causa dos direitos das senhoras que usam a burqa. Mas, vamos lá ver, a burqa não existe por nenhum razão válida ou de intenção pura, é uma ferramenta horrorosa de opressão e é profundamente desumanizante. Se o ocidente tem a tendência a tornar o corpo da mulher propriedade pública então a burqa mostra a tendência oposta, torna a mulher propriedade privada do marido, pai, tio ou irmão. A mulher é propriedade de uma maneira ou de outra, mas uma é mais insidiosa e, para a mulher ocidental, mais facilmente navegável. A burqa é mais do estilo balls-out-nem-vou-tentar-fingir. 

É uma ferramenta altamente eficaz se se quiser negar a humanidade da mulher, quando olham para um grupo de mulheres de burqa os homens não vêm indivíduos, vêm um grupo homogéneo, vêm um rebanho, uma massa uniforme sem identidade própria de componentes indistinguíveis uns dos outros. O primeiro passo para justificar a violência contra um grupo é negar-lhe a humanidade e uniformizar-lhe a aparência seja de que maneira for é uma estratégia bastante eficaz. 

Mas, ao banir a burqa, estamos a punir o oprimido e não o opressor. Não podemos responsabilizar as mulheres que usam a burqa pela marca de opressão que outros lhe impõem. Não há dúvida de que a religião favorece desproporcionalmente os homens e toda a narrativa de subserviência feminina que se encontra nas principais religiões não surgiu do nada e sem um interesse claro do patriarcado em arranjar uma divina justificação para os horrores a que sempre submeteu as mulheres. 

Concordo plenamente que se condene publicamente a prática, mas não aceito que se castigue as mulheres que participam nela. Histórica e socialmente a ideia nunca foi nossa, não foi inventada ou posta em ação por mulheres, independentemente se agora a ajudam a perpetuar-se ou não. Há imensos exemplos em que as mulheres, quando sujeitas à obrigatoriedade de qualquer tipo de véu, quer institucionalizada e consagrada na lei, quer por pressão social, se manifestaram publicamente e revindicaram o direito a saírem-lhes de cima, obrigada. 



Senhoras no Irão, 1979, manifestando a sua alegria por serem obrigadas a usar véu e terem finalmente oportunidade de ferir suscetibilidades ocidentais



Por isso pronto, não faz sentido. Ganhem mas é juízo e parem de castigar mulheres por pelas circunstâncias em que se encontram e pela maneira como escolheram sobreviver. 

A razão turbo-parva para banir a burqa e o burkini é a questão da segurança nacional. Em Nice quem ia a conduzir o camião não era uma senhora de burkini, em Bruxelas não foram senhoras de burkini que mataram mais de trinta pessoas e, em Paris, não foram senhoras (muito menos de burkini) que andaram a aterrorizar multidões e abateram a tiro mais de uma centena de pessoas. Chamem os bois pelos nomes: foram homens. Querem praias e centros turísticos mais seguros? Resolvam o que quer que seja que leva homens frustrados com os seus próprios falhanços pessoais a cometerem atos de violência indiscritível para justificar a sua existência miserável. 


A polícia francesa, praticando a muy importante tarefa de neutralizar uma muy perigosa ameaça para a segurança pública


Fazia muito mais sentido simplesmente banir todos os homens de zonas com grandes concentrações de pessoas. Deixava-se os moços sair de casa aí uma hora e meia para irem às compras e pronto, se quisessem rebentar com alguma coisa rebentavam-se uns aos outros e deixavam as senhoras que só querem levar os filhos à praia em paz.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dicotomias

As pessoas mentem muito e, às vezes, se se repetir uma mentira vezes que chegue, embora esta não se torne verdade, torna-se autossuficiente e autopropagável. O que é quase a mesma coisa.

A smear campaign contra a Hillary Clinton é um bom exemplo de que se pode deturpar tudo e nada para se obter exatamente o que se quer (ou, neste caso, o que se chega à conclusão de que na verdade não se quer, mas depois já é demasiado tarde). A Hillary Clinton está muito longe de ser uma política ideal mas é uma política competente e séria, embora pareça que isso é vastamente irrelevante para a maioria das pessoas.

É que se por um lado temos a direita nossa de cada dia a cagar a sua posta de pescada, temos até mesmo os círculos liberais relutantes em apoiá-la porque atrelaram o reboque ao Bernie Sanders e a alguma ideia extremamente confusa e mal compreendida do que mudança política realmente implica e agora não podem voltar atrás.

Portanto, se por um lado ela quer híper-liberalizar os Estados Unidos, destruir o conceito tradicional de família e distribuir vales de “pague um aborto ganhe dois grátis” pela população, por outro é uma warmonger sem sensibilidade humanitária ou visão política. O pior tipo de neoliberal, uma capitalista light na mão de Wall Street.

Mas e a responsabilidade eleitoral? Não se pode fazer exigências intermináveis quando se tem um papel ultralimitado na sociedade e há uma recusa profunda em sair de uma zona de conforto altamente limitada. Não se pode exigir da Hillary Clinton, ou de qualquer outro político individual, uma solução imediata e simples para anos e anos de instabilidade política fruto de uma forte presença colonial ao longo de séculos.

E sim, é tudo muito triste e deprimente e foreign policy é uma treta e se calhar a Madeline Albright não devia ter apoiado os bombardeamentos do Kosovo pela NATO mas não me vou pôr do alto da minha Torre Do Supremo Conhecimento porque, francamente, não sei mesmo se foi pelo melhor ou pelo pior (há coisas que sei mas esta em particular nem por isso).

O sistema eleitoral dos Estados Unidos é mau, o nosso apesar de ser muito melhor também não é ideal e o conceito de democracia representativa tem muito que se lhe diga mas ajudou-nos a atingir uma espécie de equilíbrio que com a quantidade ridícula de gente que existe neste shitshow de planeta eu julgaria praticamente impossível. Queixume infinito sem nenhum tipo de substância que o apoie, sem vontade de self-improvement ou noção de impacto direto na comunidade local serve exatamente de zero.

Portanto ok, querem fazer a revolução vamos fazer então a revolução, não a social que, essa sim, estou à espera que comece desde que nasci, mas a política e a económica. Eu lidero e tudo se quiserem, mas mostrem-me opções viáveis e não ideologia half-baked sem suporte académico. É que, relativamente à Hillary Clinton e ao processo eleitoral nos Estados Unidos, a única coisa que tenho visto é backtracking de quem andou a espalhar mentiras na altura em que o Bernie ainda parecia mais do que um senhor decrépito pseudossocialista com o political savvy de uma batata e apoios mornos de quem diz que ela ao menos não é literalmente fascista (é só figurativamente fascista aparentemente).

Aqui em baixo estão partes do discurso da Hillary Clinton na Democratic National Convention, onde ela refere os assuntos (problema da água contaminada em Flint, saúde universal, licença de maternidade) que tenciona abordar especificamente enquanto presidente e mostra, se não capacidade intrínseca em liderar, pelo menos algum tipo de solidariedade, ponderação e estratégia baseada em factos.




Como é que se quer chegámos a um ponto em que é possível comparar esta mulher a alguém que é essencialmente o ejaculado de uma laranja criada numa mata em Chernobyl? Como é que não se vê que, apesar de não trazer a revolução™ às costas pode trazer mudança? Pode construir sobre o que se deixou em vez de destruir tudo e começar de novo?    

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Gloria e a arte de perguntar

O feminismo passa muito por problem solving. Ou pelo menos devia.

Se vamos embarcar num movimento político para avançar a nossa posição na sociedade é bom que dê trabalho, que nos obrigue a procurar soluções tangíveis para situações concretas. Isto nem sempre é fácil. Implica compromissos e empatia e análise crítica de uma data de coisas menos agradáveis.
A Gloria Steinem, deusa a abençoe nos seus 82 anos, deu uma entrevista à Bloomberg que mostra exatamente quão importante é a capacidade de investigação e aprendizagem num contexto feminista. Uma das respostas dela sobre a sua experiência na luta contra o tráfico sexual é verdadeiramente impressionante.

“I came to see friends who live along the Zambezi River. They had arranged a meeting with a lot of women from local villages, maybe 20 or 25. […] Two women from those villages had gone to Lusaka to prostitute themselves and never came back, because they needed money for food and also for the kids’ school fees. So I said to them, what would have prevented this? They said a good maize crop. I said, what prevented a good maize crop? They said the elephants came as soon as it was up to a certain height. In the old days, there was a system with a tower with somebody up there with a drum that scared them away. So I asked, “Well, what would prevent that?” They said if they had an electrified fence. I raised—I can’t remember—I think it was under $3,000 for an electrified fence, and they cleared acres and acres by hand, which is a lot of work. When I went back the next year, there was a bumper crop. There were bags of maize under the tree. They had enough for food, security, and also enough to sell so that their kids could go to the local schools. But if someone had asked me what would prevent sex trafficking, I would not have said an electrified fence.”


 A complacência é transversalmente recompensada, mas é algo que deve ser especialmente combatido pelas mulheres. Complacência feminina é muitas vezes sinónimo de corroboração com a nossa própria opressão. Em vez de aceitar as coisas como são, colar etiquetas novas com cuspo em cima de problemas para fingir que são outra coisa, temos que aprender a olhar para nossa opressão de frente e chamar-lhe pelo nome certo.

A prostituição e o tráfico sexual são problemas graves. Não há nenhuma razão para uma mulher ter que se prostituir, não há razão nenhuma para desculpar uma sociedade que aceita que exista procura para este tipo de exploração. São sintomas que têm que ser erradicados e não repackaged como algo socialmente aceite, uma triste realidade comparável a qualquer outra que ocorre numa sociedade capitalista. 

Gloria Steinem, na sua infinita sabedoria de quem já faz isto há muito tempo, não só se propôs a tentar ajudar a encontrar uma solução como conseguiu fazê-lo realmente ouvindo a realidade das mulheres nessa posição e perguntando o que é necessário para que elas possam resolver o seu próprio problema a longo prazo.  

Temos que ter humildade para ouvir, mas também coragem para falar, como estas mulheres tiveram. Coragem de identificar aquilo que é injusto e que tem que ser mudado, custe o que custar.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Coisas boas e outras mais ou menos

Portugal, na sua longa tradição de fazer leis acertadas e surpreendentemente moderadas que ninguém gosta de reconhecer como modelos a seguir, aprovou uma série de medidas relativas à procriação medicamente assistida que podiam ter sido muito infelizes mas não são.

Ignorando o estudo em dissonância cognitiva que é o voto contra do CDS, que passa metade do tempo a tentar convencer as mulheres a ter quinze filhos e outra metade a tentar garantir que não têm condições para os ter, há uma série de particularidades que gostava de abordar.

A minha primeira reação à expressão “barriga de aluguer” é “não”. Não porque sou um Grinch da maternidade mas porque qualquer coisa que implique trocar dinheiro por partes dos corpo, especialmente no que toca a mulheres, me deixa desconfortável. Seria muito má ideia deixar-se desenvolver um sector do comércio que se baseia na troca de dinheiro por úteros. No caso da Índia, por exemplo, dá para ver que a comodificação de partes do corpo tradicionalmente femininas tem tendência a colocar mulheres com menos opções em situações de risco e fechá-las em ciclos de pobreza extrema em que toda a gente lucra exceto elas próprias.

Mas, felizmente, não é isto que ficou contemplado na lei Portuguesa. Não pode haver troca de dinheiro e só pode acontecer em situações em que a mulher é infértil por questões de saúde. Há regras a seguir.

“Quem aplicar técnicas de PMA fora dos centros autorizados é punido com pena de prisão até três anos; o beneficiário que concretizar contratos de gestação de substituição pagando – ou seja, a verdadeira barriga de aluguer – arrisca prisão até dois anos ou pena de multa até 240 dias; e a gestante que receber dinheiro por isso pode ter uma pena de multa até 240 dias.”

Isto significa que está bem assente na lei que não se pode alugar uma pessoa ou, pelo menos, parte dela. Que não se pode mitigar a dor de uma mulher à custa da autonomia corporal de outra. E isto é bom. E razoável. Pode-se avançar os direitos reprodutivos das mulheres ao mesmo tempo que se garante a sua segurança. É para isto que eu vou votar.

Mas se por um lado somos excecionalmente responsáveis aqui, expressamos visões contraditórias noutras coisas. Tenho ouvido por aí murmúrios sobre a possível legalização da prostituição dos dois lados e não estou particularmente impressionada. Como já foi observado na Alemanha, não é uma boa ideia. É mais um modelo que favorece toda a gente exceto as mulheres prostituídas.

Diz-se muitas vezes que o “trabalho do sexo” é trabalho. Não digo que não mas digo que é trabalho que ninguém quer fazer nem devia ter que fazer. Quando estamos a falar de uma “profissão” cuja idade de entrada é algures entre os 12 e os 14 anos, 90% das mulheres prostituídas quer parar e é uma ocupação de risco tão grande que é incrivelmente caro arranjar seguro para o que quer que seja mesmo quando é considerada legal, é difícil levar a sério quando me tentam convencer que é “empowering” e inteiramente baseada em livre arbítrio.

Não faz sentido que, por um lado, aceitemos que não é razoável ajudar a estabelecer uma indústria que obriga uma mulher a dissociar-se do seu corpo ao ponto de o alugar a gravidezes alheias mas que, por outro, achemos que faz sentido apoiar uma outra que basicamente sanciona violação sistematizada como modo de emprego. Se aceitamos uma temos que aceitar a outra, se achamos que é válido consagrar na lei que não faz mal alugar mulheres para sexo então temos que aceitar que é válido alugá-las para engravidar.

Relativamente a assuntos de cariz social, ultimamente temos tido um track record exemplar. Espero sinceramente que, quando se abordar a questão da prostituição, se opte por um modelo verdadeiramente inteligente, como o modelo nórdico, adotado também em França, que penaliza quem acha que faz sentido pagar para violar alguém mas descriminaliza a atividade de mulheres prostituídas.

O objetivo da lei relativa à procriação medicamente assistida é garantir que se respeita os direitos e as necessidades de todas as mulheres envolvidas. Aspiro o mesmo para qualquer enquadramento legal que se arranje para a prostituição em Portugal. Ou seja, espero que se respeite a decisão que muitas mulheres são forçadas a tomar quando se começam a prostituir mas que se declare, preto no branco, que uma sociedade saudável não permite nem aprova que se pague por sexo, que se objetifique (sobretudo) a mulher de maneira a que ela se torne um produto.

Embora qualquer maneira de escapar à violência da pobreza seja perfeitamente válida, não posso mentir e dizer que dar explicações a crianças perfeitamente adoráveis, uma ocupação que faço de bom grado e para a qual pude estudar, está no mesmo patamar de exploração que a prostituição. Isto é falso e é precisamente porque gosto do que faço que quero o mesmo para as minhas irmãs, a oportunidade de estudar e de trabalhar em algo que não é uma flagrante violação da sua autonomia corporal.

Nem todo o trabalho é criado de forma igual, nem mesmo numa sociedade capitalista, e há trabalho que surgiu claramente como produto de ódio enraizado pela mulher. Cabe-nos a nós estabelecer que, embora a oferta seja perfeitamente justificada, a procura é perfeitamente abominável.

domingo, 24 de abril de 2016

Acessórios

Escrevi uma coisa há uns tempos sobre a importância de ter a liberdade de definir as nossas próprias experiências e como o facto de estarem a surgir montes de termos para definir diferentes géneros ser fundamentalmente bom. Mas, olhando para trás, se calhar sou capaz de ter compreendido mal a direção do movimento.  Estava convencida, na minha ingenuidade, que o end goal era abolir efetivamente o conceito de género, reconhecendo-o como uma criação patriarcal que tem como objetivo final beneficiar os homens, que estes termos novos eram uma expressão da vida interior rica de todas as mulheres por esse mundo fora, uma tentativa de explicar o que se sente e não o que se é.

O problema com o binário de género nunca foi o facto de ser limitado no sentido em que não abrange todos os géneros com que se pode nascer já hardwired mas sim o simples facto de existir, de criar uma distinção artificial baseada em mentiras. Porque, não se iludam, o patriarcado está assente apenas em mentiras. Anos e anos de mentiras que se auto-propagam apenas por interesse e uma boa dose de ignorância.

Quando se admite que o género não é binário mas que o binário em si é válido não estamos a ser progressivos. Para aceitar que ser não-binário é de certa forma essencialista e intrínseco temos que aceitar que ser binário também o é, e isso é o que o feminismo tem andado a tentar desconstruir há imenso tempo. Eu compreendo e aceito qualquer necessidade em usar descritivos como genderqueer ou genderfluir para explicar uma identidade pessoal em termos práticos mas não para determinar uma verdade imutável. O género não se sente, é uma fabricação. Eu não me sinto como uma mulher nem penso, respiro, vivo como uma mulher. Vivo como eu própria. Eu não conheço mulheres, conheço a Joana, a Ana, a Margarida. E nenhuma se experiencia a ela própria como mulher mas sim como Joana, Ana e Margarida, como sendo essencialmente seres humanos com consciências humanas, uma mistura de tudo o que viveram.

O género tem mais a ver como a maneira como nos tratam do que efetivamente com a nossa vida interior. A nossa opressão não desaparece magicamente só porque decidimos identificar-nos para fora dela, começou desde que nascemos, desde que nos disseram que éramos meninas, raparigas, mulheres. Começou na escola, na maneira como olham para nós na rua desde que temos doze anos, começou quando começámos a duvidar de nós próprias só por causa da nossa herança genética.

Li num artigo algures que a esmagadora maioria (pensem mais de 80%, migos) das pessoas que se identificam como não-binário são assigned female at birth. O que, se pensarmos bem, faz todo o sentido. Se somos nós, as mulheres, que ficámos com o raw end of the deal relativamente ao conceito de género é perfeitamente normal que queiramos escapar às suas imposições de uma maneira ou de outra. Somos de tal maneira bombardeadas com uma imagem fixa do que é ser mulher, de como é suposto sentirmos e vivermos o mundo, que quando não nos revemos em nada disso, quando vemos que grande parte da experiência humana nos está vedada simplesmente por causa da bagagem do género que nos atribuíram, a única explicação só pode ser “não sou isto, não esta coisa que dizem que eu sou”.

Mas não há nada de proprietário em ser mulher ou em ser homem, não há nada capaz de diferenciar uma coisa da outra fundamentalmente, onde interessa. A tragédia nunca foi a incapacidade de reconhecer que há um mundo para além do binário, mas sim a incapacidade de reconhecer que o binário nunca foi mais nada do que amarras para as mulheres, que tem um propósito sinistro de raiz, que nunca devia ter existido e que não devemos deixar que continue a existir.  

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Bela, recatada e missing the point de trinta maneiras diferentes

Vejo muita jovem feminista a protestar contra a glorificação da mulher tradicional em seguimento de os media terem apelidado a esposa ridiculamente nova de um político brasileiro ridiculamente sinistro de “bela, recatada e do lar”. Isto tudo, presumo eu, para descreditar Dilma Rousseff por não ser nem particularmente bela™ nem tão pouco recatada e do lar só mesmo por obrigação.

E acho muito bem. Acreditem que sim. Peguem fogo a isto tudo, peguem fogo a quem tentar pousar as mãos sobre uma irmã minha para lhe chamar algo que não seja o seu nome. Mas oiçam, a reação que está a gerar é estranha. O backlash é justo mas a maneira como está a ser expressado é curiosa. Por exemplo, olhando para este blog, é suposto eu assumir que a epítome do empowerment feminino envolve quase necessariamente algum tipo de nudez e/ou álcool? Porquê saltar de um estereótipo para outro? Não podíamos antes queimar uma bíblia?

quinta-feira, 31 de março de 2016

Comunias Utopistas

As coisas que mais aborrecem a minha mãe neste mundo inteiro são: a maneira como os curdos são tratados, o facto de já não haver mais episódios da Phryne Fisher e aquelas pessoas que assumem que os filhos devem sair de casa o mais depressa possível.

Sinto-me particularmente inclinada a concordar com esta última porque, honestamente, não tenciono ir a lado nenhum nos próximos 5 a 10 anos. Já lá vai o tempo em que achava sinceramente que ficar em casa dos pais tanto tempo era uma vergonha e um fardo terrível. Não é que não possa ser, é óbvio que há muita sanguessuga por aí, mas não é que o seja necessariamente. Só não me parece que arranjar emprego –> casar –> sair de casa –> ter filhos seja a ordem de acontecimentos mais saudável, especialmente para jovens senhoras como eu. Mas, muitas vezes, se queremos coisas diferentes é preciso viver indefinidamente com os paizinhos. Coitados, sacrificados no altar do feminismo em prol do desenvolvimento pessoal das meninas. Um ultraje.
 
Ponho ainda mais um pequeno chapéu na minha retórica: as jovens devem esforçar-se o máximo possível para viverem em comunidade e não se exilarem em círculos sociais que dependem quase exclusivamente de relações românticas. Quando digo em comunidade, digo que devem dar preferência quase idêntica a todos os laços fortes que criam e reconhecer o seu valor individual. Ou seja, em vez de termos um núcleo que se baseia no parceiro romântico com outras ligações mais periféricas, vai tudo para dentro do mesmo saco. Normalmente, espera-se que as mulheres saiam eventualmente de casa dos pais para constituírem família com um sujeito mais ou menos decente, sendo que os irmãos, pais e amigos passam a tomar um papel secundário. Não é que eu ache o casamentos uma coisa necessariamente má, mas esta de abordagem deixa-nos isoladas. Nunca vamos sair particularmente beneficiadas deste tipo de exclusividade.
 
Temos que encarar todas as interações que temos de uma forma fundamentalmente egoísta. Mas no melhor dos sentidos. Construir uma personalidade demora tempo e só arranjamos um Eu com alicerces de ferro através de relações diversificadas, se vendermos os nossos anos formativos a um único marmanjo estamos a mutilar-nos desnecessariamente. Muitas relações românticas baseiam-se na plasticidade da mulher e na sua capacidade de agradar ao parceiro quando, na verdade, deviam ser só uma experiência de enriquecimento mútuo em que se pode partilhar aquilo que se construiu individualmente.  
 
É óbvio que não devemos abdicar da nossa independência, é precisamente o contrário. Se tivermos o privilégio de ter pais definitivamente não insuportáveis com os quais podemos aprender uma coisa ou duas assim de vez em quando, por que não usar essa segurança para desperdiçar uns anitos em desenvolvimento pessoal? Tenho uma liberdade enorme que me permite fazer só aquilo de que gosto (e se não é porque gosto ao menos é porque quero) e isto implica trabalhar e estudar a tempo inteiro mas também passear o cão e regar as plantas e fazer o almoço e o jantar para a família, limpar o pó de vez em quando, tricotar gorros para toda a gente que conheço e ver séries com os irmãos. Sou necessariamente mais interessante e mais competente por causa de todas estas coisas, algumas das quais se perderiam se já vivesse sozinha. Parecendo que não, uma família grande e movimentada dá-me um apreço renovado por muitos outros aspetos da vida em sociedade e da responsabilidade individual por uma comunidade.
 
Quero então que se arranje uma rede mais ou menos igualitária que se estenda dos pais, irmãos e avós até aos amigos, que passe também pelos namorados e namoradas e que alcance as crianças a quem se dá explicações e até mesmo as mães delas (que merecem maridos melhores) e as senhoras idosas que passeiam os cães no jardim todos os dias. Há coisas tão interessantes para aprender com toda esta gente e não necessariamente sobre elas mas sim sobre nós próprias.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Indo a sítios, chorando para sempre

No passado dia internacional da mulher, decidi celebrar a coisa pegando nas perninhas e indo a um debate no pavilhão do conhecimento. Já não tinha soutiens para queimar por isso achei que a coisa mais próxima seria ir assistir a uma discussão sobre Mulheres na Ciência™. Sendo eu uma dessas senhoras, poderia ser relevante para os meus interesses. Acontece que não, para nenhum deles mesmo.

A minha mãe bem me avisou “olha que eles vão passar o tempo tempo todo a falar de como convencer as meninas a ir para ciências e ninguém vai dizer nada de produtivo”. Eu ainda ia com esperança no coração mas não se pode mesmo ignorar os conselhos de uma senhora mais-do-que-convencionalmente-atraente com mais de quarenta anos cuja paciência para estas coisas já foi testada daqui até à lua. Foi exatamente o que ela me disse que seria.

É, em partes iguais, engraçado e horrivelmente deprimente ouvir um painel de sete pessoas adultas interrogarem-se ininterruptamente, durante mais de uma hora, como convencer as mulheres a ir para STEM, se o facto de as mulheres não irem é realmente importante e, indo, por que é que se vêm embora. E não se chegou a lado nenhum! Como se estes mistérios do universo, nada estudados nem compreendidos, de um misticismo transcendente, não pudessem ser resolvidos! NUNCA.

Acontece que, como sou jovem e fui criada num vácuo de género de tal forma eficiente que me permitiu desenvolver o braggadocio e a self-assurance de um homem muito branco e moderadamente velho, consigo explicar todos estes fenómenos (e muitos outros!).

Primeiro, as meninas não vão assim tão pouco para ciências como isso. Na minha faculdade a divisão é 49/51 mas pronto, se nos focarmos em coisas como engenharia ou, sei lá, Física, há definitivamente mais senhores. Mas pronto, por que é que as mulheres estão tão mal representadas em cursos destes quando até já nos deixam ir à escola e tudo? Acontece que as meninas, desde muito jovens, são desencorajadas sistematicamente a fazê-lo! Pronto! É isto! Os homens sempre tiveram acesso preferencial à educação e às vezes estas coisas custam a arrancar! Acalmem-se! 

Diria que conseguimos sobretudo criar um foothold em ciências como biologia e química porque não são intensivamente baseadas em matemática, por isso é que a disparidade é mais acentuada nas engenharias. A matemática continua a ser a matéria mais esotérica e difícil para as crianças e, quando há dificuldades, há oportunidade para ser sexista (racista também e, se tivermos mesmo sorte, as duas ao mesmo tempo). A ideia de que as meninas são naturalmente piores a matemática ainda é muito prevalecente e, embora existam muitas pioneiras a quem nos poderíamos agarrar, não há muitas mulheres nestas áreas que os media ou a sociedade no geral gostem de glorificar de forma visível.

Temos então a semente da dúvida semeada nas pequenas meninas que têm exatamente o mesmo potencial médio que o Joãozinho ali ao lado mas que, infelizmente, não têm uma almofadinha confortável de contexto histórico e social onde se apoiar. A isto junta-se não só a discriminação nossa de cada dia na sala de aula como também pressão dos pais e amigos. Por exemplo, uma senhora cientista no painel comentou que os pais davam computadores e legos ao irmão enquanto ela só tinha direito a barbies e afins (este momento foi aproveitado pelo moderador para introduzir um bocadinho de racismo casual: como ela não era branca ele perguntou onde se tinha passado este episódio, ao que ela respondeu “em Londres”). Este tipo de desencorajamento é mais insidioso do que propriamente ativo, mas conheço uma jovem cuja mãe a impediu de estudar engenharia mecânica no IST porque havia lá demasiados rapazes e não era sítio próprio para uma senhora estar. Ou a jovem que, ao tentar convencer-me a aderir a um serviço qualquer, me perguntou em que curso estava e, descobrindo que estava na área de ciência, me disse “ah, eu gostava de ter ido para engenharia informática mas o meu pai disse que isso era curso de homem”. E há milhões de outras histórias iguais a estas que acontecem todos os dias a toda a hora.

O problema não é, então, que as raparigas não gostam de ciência. Historicamente o interesse está lá, há estudos que indicam que na escola primária o interesse dos rapazes e das raparigas nestas coisas é o mesmo, só depois é que o pessoal consegue arrancar a curiosidade das meninas à paulada. Só precisamos mesmo é que nos saiam de cima.

Depois de falarem sobre educar as jovens desde pequenas a gostar destas coisas, falou-se sobre como convencer as que realmente se formam em ciência a não abandonar o meio, ignorando completamente exatamente o que é que as faz abandoná-lo. E é muito simples, na verdade só há duas razões para isto acontecer:

a) Hostilidade e uma vida inteira a lidar com bullshit.

Se as mulheres não são ativamente assediadas pelos seus pares masculinos, então podem ter a certeza de que se vão ver mergulhadas num delicioso mundo de condescendência non-stop e uma necessidade constante de mostrar que conseguiram subir acima das suas amarras biológicas e ser realmente boas no que fazem porque se falharem vão ser automaticamente usadas como generalização para a incompetência do resto do género.

b) Têm que ir tratar da família.

A explicação que arranjam para esta prende-se com o facto de as mentalidades estarem a mudar devagar mas que não vale a pena preocupar-nos muito porque eventualmente os homens lá se decidirão a ser uma parte produtiva do household e tomar (alguma) responsabilidade pela sua própria família.

O que me irritou nisto tudo e me deixou seriamente confusa é que ninguém, no meio de tanta conversa sobre Bravery Workshops para convencer as mulheres a ficar num meio que claramente as odeia e como convencer as meninas pequenas de que a ciência até é fixe, foi capaz de dizer “esperem lá se calhar o problema aqui não são as mulheres”. Ninguém sugeriu que, talvez, se devesse educar os homens sobre estas coisas. Sei lá, promover uma noção de igualdade entre sexos desde pequenos ou ensinar os meganerds a portarem-se como gente crescida ou mesmo fazer um Don’t Be a Sexist Asshole Workshop para professores universitários! Qualquer coisa que distribua o mal pelas aldeias!

Porque o que eu tirei dali é que nós é que estamos mal. As mulheres e os seus interesses sancionados pelo patriarcado são palermas. As mulheres não vão para ciências porque a imagem do meio é muito má, não querem ser o Sheldon da “Big Bang Theory” (uma coisa dita sem ironia por gente com pelo menos um doutoramento), não gostam de armas nem de futebol e toda a área é simplesmente demasiado masculina para elas aguentarem (outra coisa dita sem ironia nas mesmas condições).

E querendo que haja mulheres no meio não é por causa de nenhum tipo de imperativo moral ou querer que todos os empregos sejam igualmente representados por homens e mulheres. Nada disso. É só porque as mulheres têm uma perspetiva feminina mística que se calhar melhorava o ambiente de trabalho e ajudava a fazer apps e possivelmente um código mais apelativo para as fêmeas. Os estudos mostram que sim. Ambientes de trabalho mistos são melhores por causa desta perspetiva feminina mística, é científico. Não tem nada a ver com o facto de um ambiente saturado de masculinidade tóxica e socialização masculina ser menos do que ideal se se quer efetivamente trabalhar.

Portanto, para terminar, deixo-vos uma foto muito famosa onde se podem divertir a tentar encontrar a Marie Curie (a solução está mais em baixo).
 
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quarta-feira, 2 de março de 2016

Coisas de gaja

A minha avó ensinou-me recentemente a tricotar. Passei os últimos dois meses a fazer gorros e cachecóis, golas e até mesmo uma luva (mas só uma). É também uma skill boa para se praticar enquanto se vê “Making a Murderer” e se tenta não chorar.

Pouco depois de ter comprado mil pares de agulhas e ter gasto uma quantidade ridícula de dinheiro em lã vi, nem por acaso, alguém a referir-se no facebook a tricot como “coisa de gaja” de forma bastante derrogatória. O simples facto de as pessoas acharem que existem efetivamente “coisas de gaja” e “coisas de gajo” é hilariante por si próprio mas vamos analisar em profundidade o que é que constitui exatamente o mundo dos interesses exclusivamente femininos: ou seja, tudo o que é costura, crochet, tricot, ponto cruz, culinária, limpezas, educação de crianças, moda, arranjos florais e, presumo eu, cake décor (que não é bem o mesmo que culinária).

O fio condutor aqui é que, embora gostem de fazer estas coisas parecer muito patetas (algumas mais do que outras), são todas bastante úteis.  A minha avó, por exemplo, uma senhora séria com quase mil anos de idade, nunca teve um Emprego™. É uma daquelas mulheres que toda a vida cozinharam e lavaram e criaram crianças (duas neste caso, uma de forma mais bem sucedida do que outra) mas que nunca trabalham per se. Senhora que, certamente, não conhece as duras realidades do mercado de trabalho e que sempre desfrutou do privilégio de ter um marido que a sustentou. Certamente! Mas, observem, a minha avó, embora um aparente fardo de uma perspetiva puramente capitalista, tem uma quantidade louvável de talentos e aptidões. Sabe cozinhar muito bem, fazer ponto cruz, tricotar, pintar, mantém uma casa de tamanho razoável sozinha e está a aprender a fazer quadros martelando cápsulas de café sabe deusa onde. Um autêntico canivete suíço.

O meu avô, que já morreu, por outro lado, trabalhava numa refinaria. Uma coisa que tinha valor tanto monetário como na grande roda da fortuna da masculinidade. Reformou-se muito cedo e, segundo me consta, passou os últimos anos da sua vida fazendo rigorosamente nada para além de azucrinar a vida da mulher e das filhas. Chegou mesmo a cortar o fio do rádio da minha avó porque não queria que ela ouvisse o “Simplesmente Maria”. Uma joia de senhor.

Mas esta é uma história comum: o homem vende a alma ao capitalismo, o capitalismo confere-lhe autoridade e status na forma de dinheiro, o homem trabalha até não poder mais, o homem deixa de ter valor depois de deixar de trabalhar, o homem descobre que confundiu “ter” com “ser”. O homem chora. Fin.

O mesmo aconteceu com o meu segundo avô, ainda vivo, que sempre se apoiou em mulheres ao longo da sua vida para lhe dizerem qual é a gaveta dos talheres e agora que já não tem nenhuma à mão para trabalhar à borla tem que contratar uma para lhe limpar a casa e é incapaz de cozinhar para si próprio. Os homens, na ânsia de mostrar que são melhores e mais capazes porque têm uma atividade sancionada pelo capitalismo, encurralaram-se à grande e à francesa. Chegam à idade da reforma e, muitas vezes, encontram-se reduzidos a uma incompetência embaraçosa. Acham-se o mestre da batata a vida toda, que tomaram o fardo do trabalho remunerado como autênticos mártires, e depois tumbas, bem-vindos à existência de fardo!

É por estas e por outras que eu acho que, embora a maioria das tarefas delegadas às mulheres pela sociedade, sejam por vezes redutoras e um pouco limitadas, não deixam de ser úteis. Imaginemos, por exemplo, que eu e um espécime do sexo masculino ficamos presos em ilhas desertas separadas mas vizinhas. Ele, coitado, nunca abriu um coco na vida, nem tirou os olhos a um ananás quanto mais descasca-lo! E, como se não bastasse passar uma fome horrível ou, pelo menos, sofrer imenso intestinalmente com os inúmeros olhos de ananás que se viu obrigado a comer, a sua roupa apodreceu toda rapidamente com o clima tropical e agora tem que andar butt naked a levar com sol escaldante em cima, a sua pobre pele branca e macilenta já toda queimada e a pelar. Uma tristeza.

Mas eu, por outro lado, estou a comer como uma rainha. Ela é fruta, ela é fibra, ela é a ocasional lagartinha para a proteína extra. O meu cabelo está espesso, a minha pele está limpa. E se a minha roupa se estragou não há drama, usa-se o fio das bananeiras para tricotar um three piece suit e uma ponte daqui até ao continente mais próximo se for preciso.

Agora imaginem que surge no horizonte um barco que, por acaso, contém uma equipa televisiva e algumas antigas paixões da minha juventude e da do senhor da ilha ao lado. Ele vai ter que sofrer a humilhação de ser visto num estado lastimoso, todo cheio de escorbuto, mas eu? Eu até recebo a minha high school crush com uma camisola que eu fiz com os meus pelos das pernas e um cocktail com álcool acabadinho de destilar.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Em defesa da terceira idade

Agora que o António Costa é primeiro ministro e estamos numa época de prosperidade e estabilidade política, posso-me preocupar com a situação de países menos afortunados, aqueles que ainda têm dúvidas relativamente ao século em que vivemos e afinal como é que esta coisa da democracia funciona. Países tipo os Estados Unidos da América.

Esses meninos lá do além-mar andam em eleições primárias e estou imensamente divertida. Há tanto por onde pegar. Eles metem os votos dentro de baldes de pipocas, eles votam num avô socialista, eles falam de feminismo, nem sei para onde me virar.

Uma vez que não é o meu país vou-me abster de tecer juízos de valor demasiado vincados sobre os candidatos democratas, até porque gosto dos dois. Embora tenha uns fanboys um bocado nojentos, o Bernie Sanders é perfeitamente razoável e ninguém lhe apontava defeitos numa eleição  europeia. Está perfeitamente alinhado com todas as minhas sensibilidades de esquerda. Bom para si, Bernie! Hilary Clinton, por outro lado, é claramente uma líder mais forte e tem o que é preciso para segurar aquela cesspool de país. Se é tão de esquerda como eu gostaria? Isso é óbvio que não mas eu não sou americana por isso estou-me um bocado a cagar e, pelo que me parece, ela está mais de acordo com o que é preciso para navegar a realidade política deles. Acho bem que queiram um socialista no governo e saúde para todos mas também não é tarde nem é cedo para terem um bocadinho de noção. O Sr. Bernie como presidente ou seria muito bom ou não seria muito diferente dos outros candidatos democratas porque o sistema governativo deles não permite outra coisa. Deviam repensar seriamente essa parte antes de virem chorar que também querem um estado social a sério.

O que me irrita profundamente é a perfeita incapacidade que muita gente tem de reconhecer que a Hilary e o Bernie têm perfis diferentes. E, sobretudo, que se pode apoiar o Bernie sem se ser um fucking asshole intelectualmente desonesto. É que o povo mais jovem encasquilhou na cabeça que é Bernie ou morte e deixou qualquer nuance a morrer num canto.

Esta história toda da Gloria Steinem e da Madeleine Albright, por exemplo, mostra quão fácil é deserdar quem quer que seja baseando-se apenas em interpretações inflexíveis de uma coisa que foi dita uma vez num contexto específico. Nada de discussão, nada de compromisso, vamos diretamente para a forquilha e para o archote. Gloria Steinem diz que as mulheres mais novas são tão ativas na campanha do Bernie Sanders porque é lá que estão os rapazes. Concordo? Não, o Bernie Sanders é um candidato viável e há imensas boas razões para o apoiar, as mulheres, como seres racionais, baseiam-se nisso na hora de escolher em quem votar e não se há ou não rapazes na sede de campanha do candidato. Mas ignorar o apelo que a classe dominante tem é simplesmente ingénuo. Se estamos num ambiente universitário em que todos os rapazolas de idade compreendida entre os 18 e os 25 anos não se calam com o Bernie fucking Sanders então é aí que o poder e influência estão por isso saiam-me de cima. Não seria a primeira nem a última vez que mulheres (especialmente mais jovens) se sentem inclinadas a tomar uma posição que agrade à classe dominante mais próxima.

A Madeleine Albright, por outro lado, diz que há um lugar especial no inferno para mulheres que não apoiam outras mulheres. Isto é verdade. A Andrea Dworkin já lá está e tudo, guardando o portão com um tridente de três metros. Atenção que ela nem disse “se não votarem na Hilary Clinton são traidoras de género, adeus e  boa tarde”. Só disse que nos devemos ajudar umas às outras. Escandaloso. Ela até referiu mais tarde que era um comentário dirigido especialmente às mulheres mais velhas e bem situadas profissionalmente que se recusam a ajudar as mais novas que estão a entrar no mercado de trabalho. Uma coisa normalíssima que ela tem dito várias vezes ao longo dos últimos 40 anos.  

A reação generalizada, no entanto, foi horrivelmente negativa. Até jovens feministas esfregaram as mãos de contentes com a pressa de as lançar à fogueira. Steinem e Albright foram acusadas de representar apenas o feminismo branco, de estarem desatualizadas, de usarem a carta do sexismo para promover a candidata política que apoiam. Até fico um bocadinho embaraçada por esta gente porque, se são tão duras com pioneiras do movimento, então minha nossa, os horrores a que se devem submeter, a auto-flagelação que devem praticar pelo menor faux pas.

Steinem e Albright, tal como Hilary Clinton, não são perfeitas nem nunca foram mas são figuras importantes no feminismo. A Gloria Steinem anda nisto há anos e anos, uma ativista política de renome que fez mais pela visibilidade do movimento e pelas mulheres do que eu alguma vez farei. A Madeleine Albright foi a primeira Secretária de Estado. A Hilary Clinton, embora neoliberal e imperialista e sabe deus mais o quê, ajudou a popularizar a ideia de que as mulheres também são pessoas na conferência em Pequim, convenceu o Bill Clinton a passar a primeira legislação referente especialmente ao tráfico humano e foi ela que tentou pela primeira vez trazer algum tipo de saúde universal aos Estados Unidos. É óbvio que fizeram muita coisa com a qual não concordo mas acho que, em vez de sermos tão horrivelmente críticas das líderes feministas mais velhas, lhes devíamos dar um desconto e agradecer o facto de os seus erros já não serem os nossos. Sabem aquela solidariedade masculina cega e um bocado palerma? Vamos tentar um bocado disso, só para ver se nos damos bem. Se não gostarmos podemos sempre voltar a petty infighting.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Desabituem-se

Faz-me imensa confusão gente que diz que fazer coisas tradicionalmente opressivas são empowering. É tudo empowering hoje em dia. Não há nada que uma mulher faça que não seja bom e excelente e claramente livre de influência externa. Usar maquilhagem é empowering, usar saltos altos é empowering, pintar as unhas, fazer implantes variados, trabalhar na indústria da pornografia, na da prostituição, tudo empowering! E quantas coisas boas deixei eu de fora!

Permitam-me oferecer um contraponto: Não.

Raras são as coisas que são empowering para mulheres na nossa sociedade. Podemos tentar reapropriar o que quisermos, podemos dizer que a escolha é nossa até ficarmos roxas mas a verdade mantém-se: muito pouco do que é estereotipicamente feminino é empowering. Não podemos reapropriar algo que nos foi enfiado pelo goela a baixo a vida toda. Não é assim que as coisas funcionam.

Para já, tudo o que é regime de beleza não é de maneira nenhuma libertador. Maquilhagem, por exemplo, não só faz mal ao poros (poupem os poros, por favor) como cria todo um mindset um bocado estranho. Não é por acaso que a maquilhagem é uma prática quase exclusivamente feminina, toda a indústria assenta em convencer as mulheres de que têm imperfeições que devem ser escondidas ou corrigidas. Vamos lá ver, é uma prática interessante que requer uma capacidade artística muito grande mas assim tal como é, não é algo que eu chamasse de, vá, bom. Não é uma coisa objetivamente positiva, acho eu. Dizer “ah mas eu gosto” já não chega, somos melhores do que isso. Gostamos porquê? Por que é que achamos que a nossa cara fica melhor com maquilhagem? Por que é que temos que esconder borbulhas e desrespeitar os nossos poros desta maneira? Não faz sentido nenhum ter uma rotina que implique aplicar maquilhagem todas as manhãs, não acho particularmente saudável. Se fosse só uma arte plástica altamente valorizada era uma coisa que se fazia esporadicamente e não estava enraizada no quotidiano de tantas mulheres.

Também há a vertente “ah mas eu uso o meu batom buéde vermelho e o meu eyeliner buéde pointy para lutar contra o patriarcado” ou mesmo “o meu batom é verde florescente por isso estou a desconstruir normas convencionais de beleza”. Isto também não funciona porque, observem, continuamos a colocar o foco no nosso aspeto. E é um bocado isso que tem que acabar, não? Os homens sempre foram vistos como pessoas, se queremos ser consideradas seres humanos temos de parar de tentar manipular as regras deles e começar a fazer as nossas próprias.

Mas não é só a maquilhagem, tudo o que é um beacon do feminino é, normalmente, terrível. Coisas como sapatos de salto alto são também inerentemente opressivas e má ideia de uma forma geral. Ninguém vê uma mulher de saltos altos como mais poderosa ou mais digna de respeito. São desconfortáveis e ridículos e fazem mal às costas. Por favor, pensem nas vossas costas. Não podemos correr neles, os saltos fininhos enfiam-se nas grades do esgoto, os dedos dos pés ficam com um aspeto todo atrofiado. São uma ferramenta para nos manter meramente decorativas e pouco funcionais, não interessa como nos fazem sentir, interessa o que são realmente.

Vi recentemente um artigo palerma no Buzzfeed sobre realidades com que as mulheres têm que lidar e fiquei francamente horrorizada. Quase todas eram relacionadas com regimes de beleza e violentas de alguma maneira. Não sabia, por exemplo, que há quem se queime a sério na testa a tentar usar ferros de enrolar o cabelo. Sabia, no entanto, que moças de cor com cabelo muito encaracolado às vezes ficam com queimaduras químicas no escalpe a tentar relaxa-lo. Também sabia que é bastante comum levar metade da perna atrás quando estamos a fazer a depilação com gillette ou, por exemplo, ficar com um bocado de pele entalado na máquina de depilação. #justgirlything

O que me traz a outro ponto. Acho que nos devíamos habituar seriamente a ter pelos no corpo. É uma coisa um bocado complicada de entrar na cabecinha mas acho que é bastante importante. Custava-me muito sair de calções ou ir à praia sem ter a depilação feita mas uma combinação mágica de preguiça e convicção ideológica obrigou-me a aceitar e agora, ui, difícil é chegarem uma gillette ao pé de mim. Mas é um processo, não é de repente que se decide estar ok com este tipo de coisa, demora-se a aceitar que não faz mal ter pernas peludas à mostra. Há imensa gente que me olha com nojo quando lhes mostro o progresso deste inverno. Outras coisas, no entanto, são mais difíceis para mim: ter pelos na cara, por exemplo, ainda me faz impressão. Mas tenho a nítida noção de que é uma coisa perfeitamente desconstruível, posso dizer que ainda tiro os pelos da cara porque “não gosto de ver” mas isso não é necessariamente verdade. Precisamos de fazer um bocadinho de soul searching e chegar à conclusão de que não há nenhuma razão para nos submetermos ao processo doloroso de arrancar pelos de forma semi-regular.

Nada disto quer dizer que eu ache que as moças que se submetem a estas coisas sejam traidoras de género ou demasiado burras para identificar a sua própria opressão. Nada disso. Quanto muito acho que o feminismo mainstream falhou-as em não conseguir oferecer-lhes alternativas viáveis a fazer o que sempre se fez, independentemente se é nocivo ou desnecessário. Também não quer dizer que eu seja uma estalinista da moda que quer que andemos todas vestidas de igual com sacas de batatas. Não há mal nenhum em ser bela e bem-cheirosa. O que eu quero que aconteça é que nos concentremos mais em deixar para trás rituais de beleza que são ativamente prejudiciais simplesmente porque nos ensinaram que é a única maneira de sermos atraentes (e se não formos atraentes, somos o quê?). Quero que paremos de nos vestir como os outros querem, como as revistas, as mães e os pais e os amigos querem, e passemos a concentrar-nos em encontrar uma forma verdadeiramente pura e autêntica de nos expressarmos. Não é uma coisa que vai acontecer de um dia para o outro, é uma viagem para uma vida inteira mas, com alguma sorte, deixamos o terreno preparado para as raparigas de 12 anos que já acham que precisam de usar maquilhagem e que recusam doces no Halloween porque não querem ser gordas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Graves problemas de cariz constitucional (parte 3687)

Ultimamente tem havido muita confusão sobre o que é que constitui humor, o que é que constitui ameaças à liberdade de expressão e o que é que distingue uma piada de uma demonstração de intuito de violar alguém num futuro mais ou menos próximo. Enfim, quem nunca confundiu tal coisa que atire a primeira pedra, não é? Acontece a todos.

Os senhores portugueses que fazem comédia, ou que tentam, deusa abençoe as suas cabecinhas de asno, volta e meia saem-se com coisas tão estapafúrdias que até fico admirada como é que conseguiram funcionar em sociedade até agora sem apanharem na boca. Se calhar o segredo é esse, não conseguiram. Há um jovem dessa laia, cujo o nome não tinha ouvido até recentemente, tal a sua relevância na cultura portuguesa, que começa por dizer que vai violar as moças que fizerem queixa dele por assédio sexual (atenção, como se isto fosse uma coisa inédita, nunca antes dita ou concretizada por ninguém) e acaba a gozar com celebridades que têm cancro da mama. Quando sujeito a críticas perfeitamente  compreensíveis, esta juventude refugia-se no “ai ui e a liberdade de expressão?” o que até seria engraçado se não fosse já tão recorrente. É Pedro e o lobo mas com Cordes e conceitos mal compreendidos da constituição. 

Ser criticado ou ter posts bloqueados pelo facebook não é nenhuma violação de direitos constitucionais. É que se querem andar a atirar “estás-me a oprimir os direitos”, eu também podia dizer que ao estarem a criticar a minha crítica estava a violar a minha liberdade de expressão e depois como é que era? Era um ciclo infinito de estupidez era o que era. Mas não faço isso porque a) sou adulta e estou habituada a que nem toda a gente concorde comigo b) não sou um whiny pissbaby.

É que nem sequer é um fenómeno português, todos os “humoristas” adoram queixar-se que o politicamente correto lhes está a arruinar a vida e o emprego e que já nem sequer conseguem suster uma ereção. Uma calamidade autêntica. O problema, no entanto, é deles e não da sociedade ou do politicamente correto. Se sentem a sua arte ameaçada porque as pessoas já não acham graça a piadas cuja punchline é basicamente “as mulheres são tão burras” ou “os pr*tos são diferentes e também inferiores” ou mesmo só “panilas” então eles simplesmente não têm graça, nem nunca tiveram. Quando apelar ao menor denominador comum deixa de funcionar, a primeira coisa que fazem não é tentarem ser realmente engraçados, é simplesmente chorar. E muito.

 Esta gente não compreende que lá porque podem ser horrivelmente ofensivos para grupos marginalizados não quer dizer que devam. Pode-se ser ofensivo, é óbvio que sim, mas porquê escolher alvos que estão já saturados de levar porrada? Porque não virar a ofensa contra opressores e não contra oprimidos?

Mas mesmo se fizermos questão de ser uns búfalos sem consciência social, a maior parte da comédia realmente engraçada não tem qualquer componente ordinária. Observem:


O que é um tromport? Por que é que este cão está a usar óculos escuros quando está claramente dentro de casa? Uma composição clássica e multifacetada.
 
Por que é que eu haveria de conhecer alguém chamado Nipples? E por que é que temos 2 amigos em comum? Aquilo é um boneco insuflável do Knuckles? Adoro.

 

Não tenho nada a acrescentar a esta, um exemplo brilhante de neo-dadaísmo que será preservado para a posteridade.

Isto tudo para ilustrar que só não é engraçado quem não é criativo. O facto de tantos comediantes assentarem os seus números em ofender mulheres e minorias a esta altura já nem sequer mexe com o meu lado humanitário, só acho desrespeitoso que cobrem dinheiro a boa gente para os ver fazer algo que não chega sequer aos calcanhares dos dankest memes que a internet tem para oferecer.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Vam'lá ver

Ainda há muita confusão sobre a “lei do piropo”. Ainda oiço muito choro e não me agrada porque, ok, choro é uma coisa mas choro ignorante e intelectualmente desonesto é outra e irrita imenso.

A lei que passou não ilegalizou o “piropo”, ninguém vai preso por dizer “ó menina, está muito bonita hoje”. Quem insiste que sim só faz para chatear e devia parar com isso porque não estou nem aí, ok? Vamos lá ler a dita cuja para tirar isto a limpo.

Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
- Artigo 170 do código penal

Assim sim, dá para ver que é uma coisa séria. O que parece estar a confundir muita gente é aqui a parte de “formulando propostas de teor sexual”. Mas se não formos uma gosma de ser humano, até é fácil de interpretar. Quando um homem-senhor-masculino pratica a antiquíssima e muy nobre arte do piropo raramente é uma coisa que possa sequer ser interpretada como um elogio, é sempre fazia-te e acontecia-te, comia-te isto, rebentava-te aquilo. Uma loucura. Este tipo de afirmações demonstra intenção de atuar sobre outra pessoa e pôr em causa a sua segurança, tal como ameaçar alguém de morte. É por isso que se fez uma lei sobre isso, porque, quando se demonstra intenção de, sei lá, praticar atos sexuais em alguém sem consentimento está-se a ameaçar essa pessoa de, hmm, como é que se diz, ah, sim, violação. E violar alguém, meninos e meninas, é muito (mas mesmo muito) grave. São anos e anos a lidar com trauma, para não falar das moças (e moços) que são mortas no processo ou que se suicidam mais tarde, gente cuja vida é completamente hijacked por um tipo de violência profundamente desumanizante.  

E não, também não vos estão a atacar as liberdades de expressão. Continuam a poder dizer que as mulheres são umas badalhocas e que gostavam de lhes fazer isto e aquilo, só não podem dizer isso a uma senhora diretamente na rua. Será isto difícil de compreender? Um conceito tão puro, tão simples. Não manifestem intenção de molestar pessoas sexualmente! Só! Mais nada!

Observem como é fácil:

“Acho as mulheres inerentemente inferiores aos homens e deviam estar acorrentadas ao fogão. Sinto uma grande vontade de lhes bater a todas porque as suas caras são tão estúpidas e também violáveis” – Opinião deplorável mas protegida pelo direito à liberdade de expressão

“Hey! Tu aí! Fodia-te essa cona toda!!” – Ameaça de cariz sexual que pressupõe intenção de violar alguém: ilegal porque não há razão nenhuma para não ser.

“Oi gata, tens facebook?” – Excelente frase de engate, claramente legal.

Pronto. Mais claro que isto só mesmo um livro de colorir temático.

Mas em vez de sermos todos meninos crescidos e dizer que estamos a impedir que se ameace violar mulheres na rua, que é o que está a acontecer, não tenham ilusões, diz-se que o piropo é ilegal. Talvez se reformulássemos a linguagem um bocadinho as reações seriam menos “2/10 não gosto” e mais “ah pensei que isso já era assim”. A partir do momento em que começamos a formular as coisas de maneira a que parece assim mais ou menos que estamos a atacar um problema que afeta desproporcionalmente as mulheres passa-se tudo e é só “ai as minhas liberdades” para aqui e “ai que o politicamente correto me veio roubar as chinelas” para ali e eu estou saturadíssima.

Também não é uma lei que assume que as mulheres precisam de proteção ou o diabo que o valha. Não é nada disso. Quanto muito a lei assume que os homens não se sabem comportar em público porque não lhes disseram que não que chegue quando eram pequeninos e agora têm dúvidas sobre socialização básica. Se formos por aí, que isto assume que as mulheres são fraquinhas do joelhos porque precisam de mariquices como leis para as proteger, onde é que paramos? No limite, todas as leis servem para nos infantilizar. “Ah toda a gente sabe que roubar está errado, eu não roubo e se os meus filhos roubassem punha-os de castigo!” Ah pronto então ok, my bad, não é preciso nada que regule este tipo de coisa, zero. Acabem com esta parvoíce toda, fechem os tribunais, assunto encerrado.

As leis servem como guidelines sobre como nos devemos comportar em sociedade e sobretudo, minha nossa, esta lei ajuda a mostrar a muitos senhores (e senhoras também! olhem para mim, tão inclusiva) que as suas ações têm consequências. É lixado, eu sei.

O meu pai costuma dizer que os governantes de um país devem ser a sua elite intelectual, ou seja, devem ter insight que vá para além do comum mortal. Será isto elitista? Talvez. Acontece muitas vezes? Lol. Este tipo de leis anda muito nessa linha, pode até parecer incompreensível a muita gente mas tem um objetivo muito específico e pertinente, visa acabar com desigualdades sociais artificiais dizendo muito claramente “hey, fazem isto há muito tempo e nunca ninguém vos disse nada ou se disse vocês não ouviram portanto nós, o governo (olá), estamos aqui para vos informar que esta merda já não voa, se não respeitam as pessoas a bem respeitam a mal seus cornichons de um caralho”.

Sim? Ok? Posso nunca mais ter que ouvir falar disto? Obrigada.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Cologne-nizando

2016 foi inaugurado com o debate mais antigo do mundo, um debate extremamente pertinente que se resume a: “ será que odiamos mais mulheres ou minorias?”. Depois de haver assédio sexual em massa em sítios como Cologne no ano novo, toda a gente se apressou a tentar distribuir a culpa. Será das mulheres? Que deviam estar em casa a cozinhar e a ter filhos, de preferência ao mesmo tempo, em vez de saírem à rua que nem umas badalhocas? Será dos refugiados? Que são todos uns animais e não se sabem comportar?

A senhora que quer distribuir um código de boa conduta às mulheres para não serem molestadas sexualmente já decidiu que aqui a culpa é claramente das suas irmãs. Assunto encerrado. Muitos outros jovens, no entanto, decidiram aproveitar esta oportunidade para demonstrar a sua superioridade cultural relativamente às populações do além-mar, dizendo coisas como “o multiculturalismo claramente não funciona, olhem como eles tratam as nossas mulheres” enquanto ignoram o facto de que não é preciso vir ninguém de fora para oprimir as “suas” mulheres, elas já estavam oprimidas que chegue antes, obrigada.

E eu? Onde é que me insiro nestas duas categorias? Como não sou nada se não consistente, não me alinho com nenhuma delas. A culpa, amigos, como não podia deixar de ser, é dos homens. Mas quais deles? Todos, como de costume. Se há coisa que isto prova é que os homens são entitled pieces of shit em qualquer lado do mundo. A única nuance é a maneira como o expressam.

Andrea Dworkin, cujos livros deviam ser estudados em formação cívica a partir do quinto ano, tem uma abordagem interessante a fenómenos destes. A ideia é que não se trata de uma coisa “cultural”, embora a religião sempre tenha desempenhado um papel fundamental na discriminação sistemática das mulheres, mas sim da resposta dos homens à sua própria, até à data inédita, opressão. Neste caso, temos a classe dominante dentro da classe dominante, o homem branco ocidental, a desempossar e a desumanizar uma outra classe que estava anteriormente no topo da hierarquia social do seu círculo.

A narrativa do homem branco ocidental sobre os refugiados é muito semelhante a que se usou (e ainda usa) contra os judeus e pessoas de cor. Não é por acaso que o Pedro Arroja diz coisas como “os negros não trabalham porque gostam muito de sexo”, o primeiro sítio que o homem ocidental ataca é o comportamento sexual das minorias. Ele só se preocupa com assédio sexual ou violação quando o afeta diretamente a ele ou à sua propriedade, quando põe em causa a sua masculinidade. As primeiras coisas que se ouviram dos círculos conservadores quando se falou na entrada dos refugiados na europa foi preocupação relativamente às mulheres brancas europeias. O que é que nos iam fazer? Iam molestar-nos por andarmos de calções no verão? Iam obrigar-nos a andar de burqa? É só preocupação superficial e calculista, no fundo o único objetivo é usar-nos como munição na sua xenofobia. Preocupação pelas mulheres de cor raramente se ouve, a não ser quando dá jeito.

Também não é por acaso que aquele jovem nos estados unidos matou oito pessoas de cor numa igreja sob o pretexto de estarem “a violar as nossas mulheres”. Este tipo de homem só expressa preocupação por mulheres quando tentar justificar o seu racismo. Está firmemente acampado no lado “odeio mulheres mas odeio mais minorias”.

O homem branco ocidental retrata o homem refugiado como violento, selvagem e violador numa tentativa de o desumanizar e de o manter inferior a si, salvaguardando a sua posição de poder. O homem refugiado, no entanto, não está habituado a estas andanças e refugia-se na única coisa que lhe deixaram, a sua masculinidade. Se ele é mais violento e mais selvagem é também mais viril e pode demonstrá-lo através da violência que comete contra mulheres, especialmente contra as que “pertencem” ao seu opressor.

Isto acontece mesmo dentro uma comunidade. No documentário da BBC “India’s Daughter”, sobre a violação e homicídio de Jyoti Singh, uma jovem estudante de medicina, falam sobre motivações semelhantes. Os homens condenados pelo crime são de uma zona extremamente pobre, especialistas alegam que os atos deles são motivados pela falta de controlo que sentem em comparação com os homens mais ricos da sua comunidade. Como não têm dinheiro nem status, cometem este tipo de crime horrendo para se sentirem ao mesmo nível dos outros homens mais acima na hierarquia social. É uma linha de pensamento extremamente mesquinha e só mostra como o patriarcado faz de tantos homens débeis mentais.

Pode parecer que estou a tentar desculpar este comportamento mas muito longe disso. O dia em que desculpar o comportamento de um homem é o dia em que inauguro uma performance piece sobre como eu seria num universo alternativo. Isto não é uma desculpa, é uma explicação. Não é a mesma coisa. Assédio sexual nunca pode ser desculpado porque não há desculpa, não há nenhuma razão para nós, as mulheres, apanharmos por tabela porque os homens às vezes se sentem inadequados. Os homens jogam os seus jogos mesquinhos e nós, quê?, somos a bola? Acho que não.

Mas, no fundo, mesmo depois de ter em consideração todo o contexto social e todas as explicações possíveis e imaginárias, as pessoas continuam a ser pessoas e a ser capazes de tomar as suas próprias decisões. Os homens em Cologne escolheram assediar sexualmente aquelas mulheres, tal como imensos outros homens tomam essa decisão todos os dias e não há nada, mesmo NADA, que justifique isso.