No passado dia internacional da mulher, decidi celebrar a coisa
pegando nas perninhas e indo a um debate no pavilhão do conhecimento. Já não
tinha soutiens para queimar por isso achei que a coisa mais próxima seria ir
assistir a uma discussão sobre Mulheres na Ciência™. Sendo eu uma dessas
senhoras, poderia ser relevante para os meus interesses. Acontece que não, para
nenhum deles mesmo.
A minha mãe bem me avisou “olha que eles vão passar o tempo
tempo todo a falar de como convencer as meninas a ir para ciências e ninguém vai
dizer nada de produtivo”. Eu ainda ia com esperança no coração mas não se pode
mesmo ignorar os conselhos de uma senhora mais-do-que-convencionalmente-atraente
com mais de quarenta anos cuja paciência para estas coisas já foi testada daqui
até à lua. Foi exatamente o que ela me disse que seria.
É, em partes iguais, engraçado e horrivelmente deprimente ouvir
um painel de sete pessoas adultas interrogarem-se ininterruptamente, durante
mais de uma hora, como convencer as mulheres a ir para STEM, se o facto de as
mulheres não irem é realmente importante e, indo, por que é que se vêm embora. E
não se chegou a lado nenhum! Como se estes mistérios do universo, nada estudados
nem compreendidos, de um misticismo transcendente, não pudessem ser resolvidos!
NUNCA.
Acontece que, como sou jovem e fui criada num vácuo de género
de tal forma eficiente que me permitiu desenvolver o braggadocio e a
self-assurance de um homem muito branco e moderadamente velho, consigo explicar
todos estes fenómenos (e muitos outros!).
Primeiro, as meninas não vão assim tão pouco para ciências como
isso. Na minha faculdade a divisão é 49/51 mas pronto, se nos focarmos em coisas
como engenharia ou, sei lá, Física, há definitivamente mais senhores. Mas
pronto, por que é que as mulheres estão tão mal representadas em cursos destes
quando até já nos deixam ir à escola e tudo? Acontece que as meninas, desde
muito jovens, são desencorajadas sistematicamente a fazê-lo! Pronto! É isto! Os
homens sempre tiveram acesso preferencial à educação e às vezes estas coisas
custam a arrancar! Acalmem-se!
Diria que conseguimos sobretudo criar um foothold em ciências
como biologia e química porque não são intensivamente baseadas em matemática,
por isso é que a disparidade é mais acentuada nas engenharias. A matemática
continua a ser a matéria mais esotérica e difícil para as crianças e, quando há
dificuldades, há oportunidade para ser sexista (racista também e, se tivermos
mesmo sorte, as duas ao mesmo tempo). A ideia de que as meninas são
naturalmente piores a matemática ainda é muito prevalecente e, embora existam
muitas pioneiras a quem nos poderíamos agarrar, não há muitas mulheres nestas
áreas que os media ou a sociedade no geral gostem de glorificar de forma
visível.
Temos então a semente da dúvida semeada nas pequenas meninas
que têm exatamente o mesmo potencial médio que o Joãozinho ali ao lado mas que,
infelizmente, não têm uma almofadinha confortável de contexto histórico e social
onde se apoiar. A isto junta-se não só a discriminação nossa de cada dia na sala
de aula como também pressão dos pais e amigos. Por exemplo, uma senhora
cientista no painel comentou que os pais davam computadores e legos ao irmão
enquanto ela só tinha direito a barbies e afins (este momento foi aproveitado
pelo moderador para introduzir um bocadinho de racismo casual: como ela não era
branca ele perguntou onde se tinha passado este episódio, ao que ela respondeu
“em Londres”). Este tipo de desencorajamento é mais insidioso do que
propriamente ativo, mas conheço uma jovem cuja mãe a impediu de estudar
engenharia mecânica no IST porque havia lá demasiados rapazes e não era sítio
próprio para uma senhora estar. Ou a jovem que, ao tentar convencer-me a aderir
a um serviço qualquer, me perguntou em que curso estava e, descobrindo que
estava na área de ciência, me disse “ah, eu gostava de ter ido para engenharia
informática mas o meu pai disse que isso era curso de homem”. E há milhões de
outras histórias iguais a estas que acontecem todos os dias a toda a hora.
O problema não é, então, que as raparigas não gostam de
ciência. Historicamente o interesse está lá, há estudos que indicam que na
escola primária o interesse dos rapazes e das raparigas nestas coisas é o mesmo,
só depois é que o pessoal consegue arrancar a curiosidade das meninas à paulada.
Só precisamos mesmo é que nos saiam de cima.
Depois de falarem sobre educar as jovens desde pequenas a
gostar destas coisas, falou-se sobre como convencer as que realmente se formam
em ciência a não abandonar o meio, ignorando completamente exatamente o que é
que as faz abandoná-lo. E é muito simples, na verdade só há duas razões para
isto acontecer:
a) Hostilidade e uma vida inteira a lidar com bullshit.
Se as mulheres não são ativamente assediadas pelos seus pares
masculinos, então podem ter a certeza de que se vão ver mergulhadas num
delicioso mundo de condescendência non-stop e uma necessidade constante de
mostrar que conseguiram subir acima das suas amarras biológicas e ser realmente
boas no que fazem porque se falharem vão ser automaticamente usadas como
generalização para a incompetência do resto do género.
b) Têm que ir tratar da família.
A explicação que arranjam para esta prende-se com o facto de as
mentalidades estarem a mudar devagar mas que não vale a pena preocupar-nos muito
porque eventualmente os homens lá se decidirão a ser uma parte produtiva do
household e tomar (alguma) responsabilidade pela sua própria família.
O que me irritou nisto tudo e me deixou seriamente confusa é
que ninguém, no meio de tanta conversa sobre Bravery Workshops para convencer as
mulheres a ficar num meio que claramente as odeia e como convencer as meninas
pequenas de que a ciência até é fixe, foi capaz de dizer “esperem lá se calhar o
problema aqui não são as mulheres”. Ninguém sugeriu que, talvez, se devesse
educar os homens sobre estas coisas. Sei lá, promover uma noção de igualdade
entre sexos desde pequenos ou ensinar os meganerds a portarem-se como gente
crescida ou mesmo fazer um Don’t Be a Sexist Asshole Workshop para professores
universitários! Qualquer coisa que distribua o mal pelas aldeias!
Porque o que eu tirei dali é que nós é que estamos mal. As
mulheres e os seus interesses sancionados pelo patriarcado são palermas. As
mulheres não vão para ciências porque a imagem do meio é muito má, não querem
ser o Sheldon da “Big Bang Theory” (uma coisa dita sem ironia por gente com pelo
menos um doutoramento), não gostam de armas nem de futebol e toda a área é
simplesmente demasiado masculina para elas aguentarem (outra coisa dita sem
ironia nas mesmas condições).
E querendo que haja mulheres no meio não é por causa de nenhum
tipo de imperativo moral ou querer que todos os empregos sejam igualmente
representados por homens e mulheres. Nada disso. É só porque as mulheres têm uma
perspetiva feminina mística que se calhar melhorava o ambiente de trabalho e
ajudava a fazer apps e possivelmente um código mais apelativo para as fêmeas. Os
estudos mostram que sim. Ambientes de trabalho mistos são melhores por causa
desta perspetiva feminina mística, é científico. Não tem nada a ver com o facto
de um ambiente saturado de masculinidade tóxica e socialização masculina ser
menos do que ideal se se quer efetivamente trabalhar.
Portanto, para terminar, deixo-vos uma foto muito famosa onde
se podem divertir a tentar encontrar a Marie Curie (a solução está mais em
baixo).
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