sábado, 19 de dezembro de 2015

Perspetivas (ou: Spoilando Fargo)

Gosto imenso de uma boa série, mais do que um bom filme até. Ui, aquele desenvolvimento pessoal todas das personagens. Que gostoso!

Acabei a segunda temporada de Fargo há uns dias e adorei o último episódio. Normalmente, tenho que desligar os meus feminist-goggles antes de ver o que quer que seja, mas Fargo sempre foi o tipo de série que convida todo o tipo de goggles, não só os feministas. Acho que se deixa deliberadamente aberta para todo o tipo de interpretações.

No final do último episódio há uma cena particularmente interessante. Na parte de trás de um carro da polícia está uma moça que atropelou acidentalmente o filho mais novo de uma família de mafiosos, raptou outro e inadvertidamente desencadeou um massacre, sempre com o marido atrelado como cúmplice. Coisas que acontecem.

O polícia que conduz o carro conta-lhe uma história sobre quando estava na guerra do Vietnam e viu um homem fazer algo praticamente impossível só para conseguir salvar a família. Ele continua dizendo que os homens são capazes de tudo para proteger o que é deles, que compreende o marido da moça, que o pobre coitado foi justificado no papel dele nas coisas todos terríveis que aconteceram porque estava apenas a tentar ajudá-la, protegê-la. A ideia é que ela foi a força motriz do massacre e ele um espectador bem-intencionado. Que o fardo dos homens é este, que têm que usar a sua superioridade moral, intelectual e física para proteger os mais fracos, para protegerem as suas crianças e mulheres porque não são capazes de o fazer sozinhas. 

Mas o marido da moça morreu e ela não. Não diria que morreu por ela mas morreu e ela sobreviveu. O dever dele enquanto marido num paradigma tradicionalmente masculino foi cumprido no seu expoente máximo. O polícia, por outro lado, com toda a sua competência profissional, não consegue salvar a mulher do cancro que a está a matar. Ela vai morrer e ele vai ficar. Foi ela que deixou a base a vida futura do marido e da filha sem ela, garantiu que vão ficar os dois bem. E é ela também que tem um visão do futuro, em que o marido encontra felicidade e paz em papéis que vão muito para além do estereótipo do patriarca que governa o seu reino: a mulher, os filhos, a casa.

A tirada contra a moça no carro é uma última tentativa de se tentar agarrar a esta narrativa, de que o seu valor está de alguma maneira ligado à sua capacidade de protetor. De a tentar fazer ver que eles os dois são fundamentalmente diferentes, que enquanto ela é egoísta ele continua a tentar, embora que em vão. É um momento de honestidade profunda que poderia ser horrorosamente sexista mas que caminha ali na linha entre o realista e o deliberadamente ofensivo.

A resposta dela é que, antes de tudo aquilo acontecer, antes de atropelar quem quer que fosse, ela era uma vítima primeiro. Que ele não faz ideia do que é ser mulher, ser constantemente massacrada com ideais impossíveis de alcançar, ser constantemente secundária aos desejos de terceiros, parte do grande plano do marido (tal como a casa, o carro, o emprego), sem nunca ter oportunidade para simplesmente ser uma pessoa.

E o que é engraçado é que me lembro perfeitamente de pensar no início da temporada, a olhar para ela, anexada à narrativa de um homem como se fosse uma decoração, que aquilo tudo (especialmente na altura, em 1979) também era um tipo de violência. Que não nenhuma das reações dela eram tão outlandish como pareciam à primeira vista. Quando se mantém alguém assim tão confinado, tanto física como psicologicamente, é normal que desenvolvam algum tipo de cabin fever. Este tipo de violência, de terrorismo raramente reconhecido, é do mais básico que há, é a negação completa de autonomia e de humanidade que, ano após ano, mastiga a alma de uma pessoa até já sermos outra coisa qualquer.

Acho que ela estava a tentar expressar isto quando disse que também era uma vítima. Que os dias em que tinha que tomar a pílula às escondidas, as revistas que acumulava de forma obsessiva, até toda a violência que cometeu (embora não desculpável), faziam parte de uma tentativa de recuperar algum controlo sobre a sua vida, de ser uma pessoa a sério e não uma extensão do marido que, no meio disto tudo, era completamente ignorante relativamente à brutalidade a que sujeitava a mulher.

O senhor polícia responde-lhe, de forma incrédula, que “pessoas morreram”. Como se ela não soubesse, como se esse fosse o único tipo de horror a que se pode sujeitar alguém porque é o único que ele conhece. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

Arrumando a nossa porcaria

Aqui há uns tempos tive uma discussão surreal num grupo feminista. Eu gosto imenso de discutir, admito que é um dos meus passatempos preferidos, mas normalmente é mais engraçado quando é com rapazinhos da minha idade incrivelmente mal informados  ou com professores universitários com complexos de inferioridade. Quando é com a irmandade é simplesmente deprimente.  Eu tenho uma visão muito clara do que acho que o movimento feminista deve ser e, quando surge alguém dentro da comunidade que tem ideias tão radicalmente opostas às minhas, sinto um choque muito grande.

Isto tudo começou quando vi com os meus próprios olhos uma irmã a defender que o problema da exploração dos animais era um problema feminista. Ora, a verdade é que não é e qualquer tentativa de convencer a pessoa em questão disso foi em vão. Surgiu uma thread de 200+ comentários que acabou por ser bloqueada pelos moderadores. Um autêntico shit show.

O meu problema não está no facto de outras mulheres terem visões diferentes do que o feminismo é ou deixa de ser mas sim na recusa em aceitar que factos são factos e o resto simplesmente não vale a pena. Li comentários de moças que argumentavam que o movimento feminista era a luta contra todos os tipos de opressão e que se chamava feminismo simplesmente porque tinha sido inventado por mulheres. Ora, por muito bem intencionado que isto soe, não corresponde à realidade, o que, parecendo que não, é um ponto bastante importante. É factualmente incorreto e nega toda a história do movimento. Alegar que a definição de feminismo tem vindo a evoluir de tal forma que é possível argumentar que agora pretende eliminar todos os tipos de opressão acaba por não beneficiar ninguém.

O feminismo evoluiu muito, é verdade, mas no sentido de conseguir acomodar as necessidades de todas as mulheres e lutar contra os diferentes tipos de opressão que elas sofrem. Já não nos concentramos só nos problemas das mulheres brancas de classe média, sabemos agora que temos que ter em consideração que há irmãs que sofrem outros tipos de discriminação por causa da sua etnia, classe social, orientação sexual, por serem trans, por serem gordas… Mas a palavra chave continua ser “mulher”, o feminismo sempre foi e sempre será uma luta pelo reconhecimento das mulheres enquanto iguais perante a sociedade, o seu objetivo final a abolição do patriarcado. Qualquer outro grupo que saia beneficiado é por acaso. Alegar outra coisa qualquer é simplesmente falso.

Este tipo de discurso, a aparente recusa em estabelecer um objetivo fixo e o desleixo retórico com que muitas vezes se fala de feminismo, não é grave mas é preocupante. É injusto exigir que sejamos mais académicas e menos flexíveis mas é o que precisa de acontecer. Algures no seio do movimento tem que surgir um pilar de valores morais e intelectuais inabalável, assente firmemente nos mais duros factos. Não há outra maneira.

Não se trata de elitismo da minha parte no sentido em que não quero alienar mulheres sem conhecimento académico ou inclinações intelectuais. O que eu quero é que o feminismo seja uma ferramenta para educar todas as mulheres sobre a sua própria opressão, sobre a opressão dos outros, sobre o contexto dessa opressão. A única maneira de conseguir algum tipo de dignidade é através da educação e da informação. Quero que o feminismo se torne um esforço coletivo para dar poder a mulheres e raparigas em todo o lado para se libertarem a si próprias. Neste sentido, no entanto, o feminismo popular não está a fazer um trabalho muito bom.

Li há uns meses um artigo sobre um evento feminista no Reino Unido vocacionado para raparigas nos seus late teens que tinha como atrações principais workshops sobre bruxaria e palestras sobre ethical makeup. Não é que eu não ache que deva haver espaço para este tipo de coisa mas devíamos ter uma abordagem mais didática. Há um grande interesse em feitiçaria nalguns círculos feministas  e, embora compreenda perfeitamente porquê,  partilhar feitiços e falar disso como se fosse uma coisa que existe mesmo em vez de nos concentrarmos no contexto histórico e cultural da bruxaria (e o que podemos aprender com ele) é, no mínimo, pouco aconselhável. Devíamos usar oportunidades destas para garantir que as gerações mais novas têm acesso a todo o tipo de informação que muitas vezes é negado ou simplesmente ignorado no sistema de ensino, mas em vez disso ficamos perdidas neste feminismo de pastilha elástica pontilhado muitas vezes por faux-empowerment que se traduz em rigorosamente nada na vida real. Se ajudarmos a formar raparigas aptas, inteligentes e informadas estamos também a formar futuras educadoras competentes. E assim, sem mais nem menos, metade da batalha está ganha.

Se queremos garantir a longevidade e a eficiência do movimento temos que ser especialistas na nossa própria opressão, saber de cor e salteado todas as maneiras como nos vão tentar magoar e como desconstruí-las, como nos defender. Temos que ser polymaths, metade guerrilheiras, metade intelectuais. Mas para isso temos que nos empenhar, especialmente as feministas como eu, meninas de bem com acesso ao ensino superior e paizinhos compreensivos. Temos que deixar para trás a pseudo-ciência (por muito atraente que por vezes pareça) e sermos frias, cultas e capazes de excisar este cancro da sociedade de uma vez por todas. Ninguém o fará por nós.