Este carnaval vi imensas Elsas, criancinhas de perucas
brancas e vestidos azuis com floquinhos de neve. Ouvi dizer que este natal as
bonecas do Frozen esgotaram todas.
No meu tempo não havia coisas destas. No meu tempo não havia Elsas
nem Katnisses nem nada do género. No meu tempo havia as PowerPuff Girls e pouco
mais, tive que passar grande parte da minha infância e adolescência a
identificar-me com personagens masculinas. Quando finalmente começaram a
aparecer meninas complicadas na cultura popular já tinha tanto Samurai Jack
debaixo das unhas que foi difícil identificar-me com elas.
Mas as coisas estão diferentes. Quando eu brincava ao Harry
Potter tinha que andar à porrada para poder ser a Hermione, mas minha irmã
brinca aos Hunger Games e à Korra, fenómenos culturais que, longe de terem só
uma personagem feminina (muitas vezes secundária), giram completamente à volta
de uma senhora-juventude multifacetada e são autênticos trendsetters - é só
olhar para as pistolas nerf que, na sua incarnação pré Hunger Games, eram
inteiramente vocacionadas para rapazes mas que agora não tiveram outro remédio
se não lançar uma gama com arcos e bestas e pistolas com gráficos cor-de-rosa e
meninas a segurá-las na caixa (não é que eu aprove particularmente a parte dos
gráficos cor-de-rosa mas não se pode ter tudo).
Espero sinceramente que se pare finalmente com a mesma retórica
de sempre: que coisas com personagens femininas bem desenvolvidas não vendem,
que ninguém quer ver ou comprar coisas dessas. Acho que é mais do que
óbvio que isso não é verdade.
Não é por acaso que as bonecas do Frozen esgotaram este
natal. Há imensas bonecas de princesas, deus sabe que nos têm
enfiado princesas pela goela a baixo desde que nascemos
(são relativamente passivas e o seu caráter especial vem apenas
da sua herança genética - é uma aposta segura se se quiser manter
uma porção da população dócil e sem grandes ideias) mas nem todas são a Elsa.
As meninas estão tao esfomeadas por personagens com quem se possam identificar
que, a esta altura do campeonato, agarram-se ao que houver. Eu não sou uma
pessoa orgulhosa e não tenho problemas em admitir que comprava tudo o que
encontrasse desde que tivesse o símbolo do mockingjay impresso, felizmente para
a conta bancária até a fazer o seu próprio trabalho o capitalismo é uma merda.
Talvez compreendam num futuro próximo que as meninas têm que ter
exatamente a mesma representação que os rapazes na televisão e no cinema e nos
livros. Nem mais nem menos. Não somos princesas com caras idênticas e cabelo
com uma variação só de três tons (estou a olhar para vocês, bonecas das Winx),
nós gostamos de fazer coisas e merecemos que fomentem esse gosto natural como
fazem com os meninos, não que nos atirem migalhas à cara de vez em quando na
esperança que isso chegue para nos calar.