quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Coisas que não são terríveis





Este carnaval vi imensas Elsas, criancinhas de perucas brancas e vestidos azuis com floquinhos de neve. Ouvi dizer que este natal as bonecas do Frozen esgotaram todas.

 



 

No meu tempo não havia coisas destas. No meu tempo não havia Elsas nem Katnisses nem nada do género. No meu tempo havia as PowerPuff Girls e pouco mais, tive que passar grande parte da minha infância e adolescência a identificar-me com personagens masculinas. Quando finalmente começaram a aparecer meninas complicadas na cultura popular já tinha tanto Samurai Jack debaixo das unhas que foi difícil identificar-me com elas.

 

 


 

Mas as coisas estão diferentes. Quando eu brincava ao Harry Potter tinha que andar à porrada para poder ser a Hermione, mas minha irmã brinca aos Hunger Games e à Korra, fenómenos culturais que, longe de terem só uma personagem feminina (muitas vezes secundária), giram completamente à volta de uma senhora-juventude multifacetada e são autênticos trendsetters - é só olhar para as pistolas nerf que, na sua incarnação pré Hunger Games, eram inteiramente vocacionadas para rapazes mas que agora não tiveram outro remédio se não lançar uma gama com arcos e bestas e pistolas com gráficos cor-de-rosa e meninas a segurá-las na caixa (não é que eu aprove particularmente a parte dos gráficos cor-de-rosa mas não se pode ter tudo).

 

 

Espero sinceramente que se pare finalmente com a mesma retórica de sempre: que coisas com personagens femininas bem desenvolvidas não vendem, que ninguém quer ver ou comprar coisas dessas. Acho que é mais do que óbvio que isso não é verdade.


 

Não é por acaso que as bonecas do Frozen esgotaram este natal. Há imensas bonecas de princesas, deus sabe que nos têm enfiado princesas pela goela a baixo desde que nascemos (são relativamente passivas e o seu caráter especial vem apenas da sua herança genética - é uma aposta segura se se quiser manter uma porção da população dócil e sem grandes ideias) mas nem todas são a Elsa. As meninas estão tao esfomeadas por personagens com quem se possam identificar que, a esta altura do campeonato, agarram-se ao que houver. Eu não sou uma pessoa orgulhosa e não tenho problemas em admitir que comprava tudo o que encontrasse desde que tivesse o símbolo do mockingjay impresso, felizmente para a conta bancária até a fazer o seu próprio trabalho o capitalismo é uma merda.


 

Talvez compreendam num futuro próximo que as meninas têm que ter exatamente a mesma representação que os rapazes na televisão e no cinema e nos livros. Nem mais nem menos. Não somos princesas com caras idênticas e cabelo com uma variação só de três tons (estou a olhar para vocês, bonecas das Winx), nós gostamos de fazer coisas e merecemos que fomentem esse gosto natural como fazem com os meninos, não que nos atirem migalhas à cara de vez em quando na esperança que isso chegue para nos calar.

 
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Agenda

Se aqui há uns anos me tivessem dito que achavam que as feministas eram man-haters que queriam destruir o conceito de família e formar um exército de bruxas pagãs, eu teria ficado horrorizada e ter-me-ia apressado a dizer que não, nada disso. É só igualdade de géneros. Só queremos mais uns trocos e um bocadinho de respeito.
 
Mas, sabem que mais? É exatamente isso. Não, na verdade é pior do que possam imaginar. Queremos uma sociedade em que nunca dê para distinguir a 100% homens de mulheres. Queremos o triunfo do politicamente correto. Oh sim. Queremos que o pessoal seja todo gente.
 
Quando os man-babies dizem que estamos a caminhar para uma sociedade emasculada em que os homens já não se sentem seguros na sua masculinidade, em vez de pensar que eles estão a alucinar, agora só penso "não, mas oh deus do céu, esperemos que sim".
 
 
Queremos salgar a terra e começar tudo de raiz. Tenham medo. Tenham muito medo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Soldados de palha

Acho que já é mais do que óbvio que o sistema de ensino em Portugal é péssimo. Não bom. Definitivamente menos do que excelente. Sufoca as crianças e cria indivíduos que são bons a responder a testes standard e não necessariamente que gostam de aprender e que sabem fazê-lo de forma eficiente e saudável.
 
Ninguém gosta particularmente de ir à escola e normalmente as boas experiências contam-se pelos dedos. É triste, é verdade. E é triste para toda a gente.
 
Por isso, acho positivamente hilariante quando leio coisas que dizem que o sistema de ensino está contra os rapazes. Não, oiçam, o sistema de ensino não desfavorece pessoas que têm um background de pobreza e não há racismo institucionalizado nas escolas. Não, não. Os professores também não são sexistas. O sistema de ensino apontou o dedo aos rapazes brancos de classe média e agora eles saem-se mal. Coitados. Mas são só eles. Exclusivamente.
 
Um bocado de vergonha na cara não ficava mal a ninguém.
 
Já ouvi dizer que o sistema de ensino pune comportamento tipicamente masculino e recompensa as meninas e é por isso que daqui a uns anos vamos ter muito mais mulheres na faculdade e a cabala feminista que controla secretamente o mundo vai conseguir empurrar os homens apenas para manual labor. Talvez não a parte da cabala feminista, mas o resto já ouvi. Isso garanto.
 
A minha mãe conhece uma senhora que tem um filho mais ou menos da idade da minha irmã que, juntamente com uns amiguinhos, atou uma rapariga na escola e arrastou-a mais ou menos aos gritos para a casa de banho. Isto quando andava na escola primária. A escola não puniu de forma particularmente (nem menos particularmente)  grave o catraio e a mãe pareceu orgulhosa por ter um filho tao machão. Prioridades, I guess. A senhora estava convencida também que a razão pelo qual o filho se saía tao mal na escola tinha mais a ver com o facto de ele ser muito incompreendido e menos a ver com o facto de ele ser um total fucking asshole sem qualquer tipo de limites.
 
Acho esta história perfeitamente bizarra, vou ser sincera. Como a maioria das coisas péssimas, o sistema atual de educação foi criado e legislado por homens mas agora queixam-se porque as meninas saem-se melhor? Nunca estão contentes. Se somos boas devíamos estar quietas, se somos más somos umas inúteis e só nos queremos aproveitar do trabalho árduo dos homens.
 
É claro que acho preocupante se uma porção da sociedade se está a sair mal na escola mas, neste caso em particular, não consigo arranjar pena nenhuma. As meninas na escola arranjaram maneira de sobreviver, conformando-se ao que era pedido delas porque ninguém responde de forma positiva a ser desafiado por raparigas (muito menos professores em posições de autoridade, tenho uma história gira sobre quando corrigi a pronúncia inglesa de um professor de história) e elas não se podem esconder atrás  de "é mesmo assim". Nós não temos direito a "girls will be girls". Ninguém tolera desobediência a mulheres.
 
De certeza que algures no tempo alguém parou para pensar e chegou à conclusão de que não é por acaso que os alunos mais problemáticos são sempre rapazes. É pena a opinião geral sobre assunto ser mais "os rapazes são perseguidos porque os professores gostam mais das meninas" e menos "a sociedade e os pais educam os rapazes de forma errada e, olhem para isto, agora comportam-se que nem uns animais".
 
E mais, eu dou explicações a juventudes de muitas idades e há uma diferença abismal entre rapazes e raparigas. Para já, tenho muito mais explicandas do que explicandos. As raparigas estão muito mais dispostas a pedir ajuda e a trabalhar para obter resultados (ou são mais empurradas pelos pais) e o discurso delas é muito diferente. Mesmo as mais frouxas têm uma postura de "o que é que posso fazer para melhorar?" e "isto é difícil, tenho que me esforçar mais se quero ter boa nota". O único catraio que me veio ter às mãos estava mais numa de "o professor não gosta de mim" e "não pude estudar porque isto, isto e isto". Desculpas, desculpas, desculpas. Os rapazes desresponsabilizam-se porque ninguém lhes ensinou que eles são responsáveis pelos seus próprios falhanços.
 
Uma das minhas crianças, trabalhadora e espertinha de natureza, tem sempre notas mais do que aceitáveis e compreende tudo o que lhe explico à primeira (e o que não percebe pergunta, o que é tão ou mais importante) mas diz-me que o irmão é sobredotado. O irmão que está para tirar um curso superior não muito difícil há bem mais do que 3 anos. Diz-me também que tem um colega de turma espertíssimo, igualmente sobredotado, o moço convenceu-a durante um teste a mudar uma resposta de escolha múltipla que ela tinha certa para mal. Ela acreditou porque ele lhe garantiu que tinha a certeza absoluta. E ele é muito esperto. Ela não é mas ele é. Tão esperto, está visto.
 
Nossa senhora deus me fucking acuda.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Story time (ou: eu estou muito zangada e vou spoilar o Whiplash)

Juro que a esta altura acho que não vou conseguir sobreviver a esta temporada dos Óscares. Tenho pus a sair da orelha direita há duas semanas e, muito sinceramente, começo a achar que se deve a ter ido quase todas as semanas ao cinema ver os candidatos a melhor filme. Não há outra explicação, o nojo que sinto é tal que a única maneira de que arranjou de não entrar na minha corrente sanguínea e mirrar-me o coração foi condensar-se todo no meu tímpano direito e ir exsudando bocados de nojo a pouco e pouco ao longo de 12 dias.
 
Há filmes que me ofendem pessoalmente, outros causam-me nojo. Eu tenho uma espécie de intuição parva nestas coisas e raramente me engano, quando vou ler um livro ou ver um filme consigo saber se vou adorar ou detestar. Estava a espera de não gostar de alguns mas não estava à espera do nojo.
 
Sabia que ia detestar o Birdman, o Imitation Game, o Theory of Everything (que ainda não vi e embora ache que não vai ser tao mau como o Imitation Game nao me parece que me vá agradar) e o American Sniper, que é basicamente uma paródia de si próprio. Eu também achava que sabia que ia gostar do Boyhood (e gostei), adorar o Selma (que ainda não vi mas é a minha última esperança) e que ia gostar do Whiplash.
 
Estava tão convencida de que ia gostar do Whiplash. Mesmo. Não foi como nos outros, não me podiam acusar de ir já inclinada para cuspir para o ecrã. Não senhor. Mas a minha irmã toca bateria. A minha irmã toca bateria e eu já tive um Fletcher na minha vida. Ou vá, uma versão feminina que nunca levantou a mão a ninguém embora vontade não faltasse. O nome dela começava por F e tudo e fazia as pessoas saírem a chorar do laboratório (e nem era só uma lágrima, eram várias).
 
Temos então aqui dois pontos fulcrais de nojo. Um deles é que eu já vi uma professora ser abertamente hostil, prejudicar quem lhe mostra os dentes e desfrutar de forma quase pornográfica de enxovalhar os seus alunos. O meu problema com o Whiplash é que naqueles minutos finais dá a entender que, só quando deparado com a quantidade certa de oposição, é que o ser humano é capaz de ser genial. E isto é uma mentira nojenta. O génio não é uma coisa para arrancar à dentada das pessoas. Não é uma coisa estática que precise de ser desbloqueada com a combinação certa de "incompetente, burra, preguiçosa, tens falta de brio". O génio constrói-se e pratica-se e trabalha-se e está em tudo o que se faz e se é.
Preguiçoso é achar que ou se nasce com talento ou então temos pena. É preguiçoso e cobarde. Não há cá nascer abençoado pelos astros, passa-se uma vida inteira a construir uma pessoa que, se tudo correr bem, é uma combinação perfeitamente agradável de quinquilharias que se foi apanhando pelo caminho.

Quem quer que seja que escreveu o guião não sabe nada de talento nem de inspiração e menospreza gravemente a influência que o cinema tem nas pessoas. O que me traz ao meu segundo ponto.

A minha irmã toca bateria.
 
De todos  os instrumentos que ela sabe tocar, o que mais a entusiasma é a bateria. E para além disso ela é a melhor do ano dela em percussão. Ela lê música e adora escalas e quer saber dirigir e já toca mais instrumentos do que há cores no arco-íris.
Quando cheguei a casa e disse que não tinha gostado do filme ela perguntou-me se teria gostado mais se o baterista fosse uma menina (é dos poucos casos em que provavelmente teria gostado menos) e depois perguntou-me se teria gostado mais se o baterista fosse ela. Bem. Aí apeteceu-me lavar-lhe a boca com sabão. Eu preferia que formigas carnívoras radioativas comessem o que resta do meu tímpano infetado e o substituíssem por excrementos que brilham no escuro do que ver uma figura de autoridade abusar física e psicologicamente da minha irmã  porque tem uma noção arcaica e fracamente errada do  que é ser talentoso. O talento da minha irmã é cultivado por pessoas que gostam dela e que querem vê-la ser bem-sucedida. Ela não é menos brilhante por causa disso. Ela não é menos brilhante nem vai revelar menos potencial porque não teve um homem de meia-idade com um god complex e uma clara falta de amor materno a gritar com ela. E, deusa me perdoe, eu juro que luto com quem quer que seja que queira sequer pensar que isso é verdade.
 
E uma última coisa. Que eu me lembre, apareceram duas moças em todo o filme. A primeira tocava uma corneta qualquer e apareceu no início apenas o tempo suficiente para darem a entender que apenas estava no grupo principal da banda porque era bonita. A segunda namora brevemente com o protagonista, depois acabam, depois ela arranja outro namorado. Não compreendo qual é a vantagem de terem escrito tal personagem. É como se o guionista, um homem adulto, nunca tivesse interagido com uma mulher na vida real.
 
A minha mãe ainda me perguntou se podia ter levado a minha irmã a ver o filme. Antes de ver o filme, ainda achei que fosse giro para ela mas não obrigada, não há lá nada que eu queira que ela veja. Nem o género dela a ser mastigado e cuspido nem idiotas a definirem por ela o que é sucesso. Estamos bem. Eu vou construir uma cúpula à volta dela onde tudo é excelente e as meninas pequenas que gostam de música têm acesso a filmes giros e a positive reinforcement.
 
Este ano peço ao pai natal que queime todas as cópias do Whiplash para ver se me aquece o coração. Isto anda muito mal.