sábado, 19 de dezembro de 2015
Perspetivas (ou: Spoilando Fargo)
domingo, 6 de dezembro de 2015
Arrumando a nossa porcaria
Aqui há uns tempos tive uma discussão surreal num grupo feminista. Eu gosto imenso de discutir, admito que é um dos meus passatempos preferidos, mas normalmente é mais engraçado quando é com rapazinhos da minha idade incrivelmente mal informados ou com professores universitários com complexos de inferioridade. Quando é com a irmandade é simplesmente deprimente. Eu tenho uma visão muito clara do que acho que o movimento feminista deve ser e, quando surge alguém dentro da comunidade que tem ideias tão radicalmente opostas às minhas, sinto um choque muito grande.
Isto tudo começou quando vi com os meus próprios olhos uma irmã a defender que o problema da exploração dos animais era um problema feminista. Ora, a verdade é que não é e qualquer tentativa de convencer a pessoa em questão disso foi em vão. Surgiu uma thread de 200+ comentários que acabou por ser bloqueada pelos moderadores. Um autêntico shit show.
O meu problema não está no facto de outras mulheres terem visões diferentes do que o feminismo é ou deixa de ser mas sim na recusa em aceitar que factos são factos e o resto simplesmente não vale a pena. Li comentários de moças que argumentavam que o movimento feminista era a luta contra todos os tipos de opressão e que se chamava feminismo simplesmente porque tinha sido inventado por mulheres. Ora, por muito bem intencionado que isto soe, não corresponde à realidade, o que, parecendo que não, é um ponto bastante importante. É factualmente incorreto e nega toda a história do movimento. Alegar que a definição de feminismo tem vindo a evoluir de tal forma que é possível argumentar que agora pretende eliminar todos os tipos de opressão acaba por não beneficiar ninguém.
O feminismo evoluiu muito, é verdade, mas no sentido de conseguir acomodar as necessidades de todas as mulheres e lutar contra os diferentes tipos de opressão que elas sofrem. Já não nos concentramos só nos problemas das mulheres brancas de classe média, sabemos agora que temos que ter em consideração que há irmãs que sofrem outros tipos de discriminação por causa da sua etnia, classe social, orientação sexual, por serem trans, por serem gordas… Mas a palavra chave continua ser “mulher”, o feminismo sempre foi e sempre será uma luta pelo reconhecimento das mulheres enquanto iguais perante a sociedade, o seu objetivo final a abolição do patriarcado. Qualquer outro grupo que saia beneficiado é por acaso. Alegar outra coisa qualquer é simplesmente falso.
Este tipo de discurso, a aparente recusa em estabelecer um objetivo fixo e o desleixo retórico com que muitas vezes se fala de feminismo, não é grave mas é preocupante. É injusto exigir que sejamos mais académicas e menos flexíveis mas é o que precisa de acontecer. Algures no seio do movimento tem que surgir um pilar de valores morais e intelectuais inabalável, assente firmemente nos mais duros factos. Não há outra maneira.
Não se trata de elitismo da minha parte no sentido em que não quero alienar mulheres sem conhecimento académico ou inclinações intelectuais. O que eu quero é que o feminismo seja uma ferramenta para educar todas as mulheres sobre a sua própria opressão, sobre a opressão dos outros, sobre o contexto dessa opressão. A única maneira de conseguir algum tipo de dignidade é através da educação e da informação. Quero que o feminismo se torne um esforço coletivo para dar poder a mulheres e raparigas em todo o lado para se libertarem a si próprias. Neste sentido, no entanto, o feminismo popular não está a fazer um trabalho muito bom.
Li há uns meses um artigo sobre um evento feminista no Reino Unido vocacionado para raparigas nos seus late teens que tinha como atrações principais workshops sobre bruxaria e palestras sobre ethical makeup. Não é que eu não ache que deva haver espaço para este tipo de coisa mas devíamos ter uma abordagem mais didática. Há um grande interesse em feitiçaria nalguns círculos feministas e, embora compreenda perfeitamente porquê, partilhar feitiços e falar disso como se fosse uma coisa que existe mesmo em vez de nos concentrarmos no contexto histórico e cultural da bruxaria (e o que podemos aprender com ele) é, no mínimo, pouco aconselhável. Devíamos usar oportunidades destas para garantir que as gerações mais novas têm acesso a todo o tipo de informação que muitas vezes é negado ou simplesmente ignorado no sistema de ensino, mas em vez disso ficamos perdidas neste feminismo de pastilha elástica pontilhado muitas vezes por faux-empowerment que se traduz em rigorosamente nada na vida real. Se ajudarmos a formar raparigas aptas, inteligentes e informadas estamos também a formar futuras educadoras competentes. E assim, sem mais nem menos, metade da batalha está ganha.
Se queremos garantir a longevidade e a eficiência do movimento temos que ser especialistas na nossa própria opressão, saber de cor e salteado todas as maneiras como nos vão tentar magoar e como desconstruí-las, como nos defender. Temos que ser polymaths, metade guerrilheiras, metade intelectuais. Mas para isso temos que nos empenhar, especialmente as feministas como eu, meninas de bem com acesso ao ensino superior e paizinhos compreensivos. Temos que deixar para trás a pseudo-ciência (por muito atraente que por vezes pareça) e sermos frias, cultas e capazes de excisar este cancro da sociedade de uma vez por todas. Ninguém o fará por nós.
domingo, 29 de novembro de 2015
Quem diz é quem é
domingo, 25 de outubro de 2015
Freak Show
Nenhuma crítica minha será sobre isso.
Já vi acontecer em primeira mão e é uma coisa horrivelmente deprimente, crianças cheias de potencial a degenerarem em adolescentes fúteis que, por sua vez, hão de degenerar em adultos irrelevantes. Assim nada muda.
domingo, 11 de outubro de 2015
Elege-me isto!
Ah, eleições! Adorei. Nunca na minha vida senti um processo eleitoral com tanta intensidade e, ui, que processo eleitoral este! Tão complexo e excitante, mesmo *UGH* forte. Não é todos os dias que surge este tipo de comoção na minha vida. Uma autêntica roller coaster de emoção.
Primeiro achei que estávamos todos condenados, que ao fim de mais 4 anos de PàF com maioria absoluta acabava a viver numa choupana com os meus pais algures na Nova Zelândia, a alimentar-me de raízes e pequenos roedores. Depois achei que, embora houvesse esperança, o PS não ia conseguir convencer nem comunistas nem bloquistas e ia acabar por ter que passar o OE abstendo-se. Mas agora? Agora, migos, estou muito satisfeita, refastelada num trono moldado a partir dos cadáveres de burgueses e capitalistas.
Não, mas a sério, vivemos tempos engraçados. Temos uma oportunidade histórica para instaurar uma utopia socialista e viver 20 anos de prosperidade ininterrupta. Há, no entanto, algumas coisas que me deixam um bocadinho nervosa.
Embora o PCP se tenha mostrado muito simpático e recetivo (um piscar de olho para ti, Jerónimo, que bem mereces), caminho que, eventualmente, o Bloco também deve tomar, preocupa-me o facto de isto parecer tudo depender única e exclusivamente do poder de empurro do António Costa. Parece-me que estamos só agora a despertar para o facto de a responsabilidade de negociar não ter obrigatoriamente que cair nos ombros do PS. Ainda admito mais ou menos a complacência do BE e o PCP em esperar ser cortejados (se até alguns bloquistas se acham no direito de se aborrecer por o PS não ter ganho as eleições, já não estranho nada) mas a da PàF começa a roçar o sórdido, tal como a do Sr. Presidente. É como se tivéssemos entrado numa twilight zone em que os partidos que têm a oportunidade de criar um governo alternativo e estável têm que lutar numa deathmatch política à margem da sociedade sem qualquer apoio constitucional enquanto a população observar, horrorizada, das bancadas. É good TV, admito, mas o meu pacote de dados não chega para eu ler o DN, o Público e o Expresso alternadamente todos os dias no autocarro.
O facto de o Aníbal não parecer inclinado a sequer considerar a legitimidade de um governo PàE (Portugal à Esquerda foi o nome que o meu irmão inventou para uma possível coligação PS+PCP+BE, ser super eloquente e engraçado corre na família) é também razoavelmente preocupante uma vez que não sei quão realista será a ideia de andarmos a encanar a perna à rã até haver eleições presidenciais. Mas podemos sempre ter esperança que o Marcelo não se arme em estafermo e saiba ao menos distinguir a boca do rabo.
E quão forte será a pressão interna, e externa (dos que ainda acham que os comunistas comem crianças) para manter o António Costa afastado dos perigosos radicais da extrema esquerda, cega ao facto de que um moderado com mão firme em radicalismo ideológico de esquerda só pode trazer sangue novo à cena política e a mudança que o povo tanto pede?
Tudo isto são coisas que me preocupam mas o que me preocupa mesmo é não saber. Ainda tenho úlceras nas paredes do estômago da correria pré-eleições e agora cai-me isto em cima. Uma esquerda unida não só é tudo o que eu para os anos e para o natal como está no meu top 5 de fetiches. Não é bonito provocar um senhora desta forma.
No fundo, independentemente do desfecho desta situação toda, só quero que retirem o seguinte deste molho de brócolos: o grande proponente da mudança não foi o BE nem o PCP nem os pequenos partidos de pseudointelectuais mas sim o António Costa que, com a determinação de vinte bois, andou de um lado para o outro a tentar colar o país com cuspo. Se tudo o resto falhar, que ao menos tomemos consolo no facto de que não houve falta de tentativas.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Deslarguem-me
Agora podem-me dizer “ai mas nem toda a gente é assim, não podes generalizar ao partido todo”. Isto é 100% válido, nenhum partido é inteiramente constituído por social justice warriors com um track record perfeito mas o que não podem fazer é dizer que “ah nós somos os campeões do povo” e depois esperar que eu acredite nisso. Migos, são um partido como os outros. O PS é feito de gente boa e gente má, o BE a mesma coisa, vocês não são mais nem menos e tenho a certezinha que não foram vocês que inventaram o feminismo. Uma coisa é dizer que o partido é baseado numa ideologia intrinsecamente humanista, outra coisa é ele ser mesmo. No que toca a mulheres-e-minorias o PCP tem feito rigorosamente zero. A única coisa que os vejo fazer é esfregar as suas mãozinhas autoritárias enquanto antagonizam o PS (como se fosse esse o verdadeiro inimigo) e dizer mal da União Europeia (não que eu seja a maior fã da UE mas preciso de um bocadinho mais do que “vamos fazer eventualmente um estudo sobre como vamos sair do euro e da UE de forma sustentável depois de já termos saído” antes de votar num partido que quer, essencialmente, deixar Portugal grávido e descalço no rabo da europa).
Portanto, onde eu quero chegar é: gosto de algumas ideias comunistas mas não gosto do partido comunista nem de nenhum comunista com quem tenha alguma vez dialogado e queria mesmo que por favor saíssem de cima de mim e do meu feminismo porque não tem nada a ver com eles até porque não têm grande autoridade para falar sobre isso (na esquerda, são o único partido que não tem minorias nem mulheres para mostrar porque garantem a pés juntos que vão “fazer um governo que representa o país de forma realista”). E, por favor, se querem brincar ao revolucionários, vão antes votar no BE. Eles são muito menos revisionistas e tenho quase a certeza de que a Mariana Mortágua come burgueses ao pequeno almoço.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Mordam-me
Descobri recentemente na página da minha faculdade (onde se estuda ciências e pouco mais) uma estatísticas muito engraçadas, com gráficos e tudo.
Observem:
Aqui temos a distribuição dos inscritos na minha faculdade por sexo. Como podem ver ainda não é bem 50/50 mas para lá caminhamos. As ciências e a tecnologia têm vindo a tornar-se mais acessíveis a jovens moças ao longo dos anos mas ainda não vemos a paridade que seria de esperar numa sociedade verdadeiramente igualitária. Estes gráficos não mostram nada de novo nem de surpreendente. 49/50 para os inscritos pela primeira vez numa faculdade de ciências é muito sólido e deixa-me contente. Tudo nos conformes, muito moderno, muito conveniente.
Mas agora vejam este:
Mesmo havendo menos mulheres inscritas por ano, há mais mulheres diplomadas. Incrível.
Agora, se eu quisesse mesmo misandrar o pessoal e ser aquilo que as pessoas gostam de dizer que o feminismo é na realidade, provavelmente aproveitava esta oportunidade para dizer que as mulheres são inerentemente superiores aos homens e claramente mais inteligentes. Mas não tenciono fazer isso porque a) Não é verdade e b) Não sou estúpida.
Estou inteiramente convencida de que os homens e as mulheres enquanto grupo têm exatamente o mesmo potencial e são igualmente bons a tudo. Não há cá “os homens são melhores nas matemáticas e as mulheres são melhores em comunicação e letras”. Os meninos e as meninas são todos igualmente bons a tudo, depois diferenciam-se consoante as suas preferências e as suas experiências pessoais. Isto é o que eu acho. Vocês podem achar outras coisa mas provavelmente vão estar errados. Só para avisar.
O que eu acho que está a acontecer aqui é que, na grande sofreguidão de manter um sistema opressivo baseado na supremacia masculina, os homens deram um tiro no pé. Não sou especialista em construir e manter sistemas opressivos mas acho que é um erro comum. Coisas que acontecem, não é motivo de vergonha.
Com um sistema patriarcal vem também uma grande cultura de entitlement. Os homens acham que têm direito a tudo: a mulheres, a dinheiro, a sucesso. Às vezes o pessoal esquece-se é que, mesmo sendo homem, de vez em quanto é preciso trabalhar pelas coisas. Uma pessoa ouve desde jovem que é super especial e super esperta e depois pronto, acomoda-se. Se eu tivesse um euro por cada moço que é “muito inteligente mas preguiçoso” ou que “sabe tudo mas o/a professor/a não o quer passar” estava rica. Tão rica.
É que depois não só os meninos que usam estas coisas para justificar o seu fracasso. É toda a gente à sua volta. Já ouvi uma moça dizer que o namorado sabia a matéria toda de uma cadeira mas que a professora era má ao ponto de o chumbar três anos seguidos de propósito. Ai miga, vais tão enganada.
Não é que eu esteja a defender o sistema de ensino (superior ou otherwise) nem os professores (Deusa sabe que eu os detesto a todos). Acho que se reformássemos o sistema de ensino ficava toda a gente mais feliz, homens e mulheres. Mas também acho que os homens se deviam responsabilizar mais pelos seus fracassos e cabe-nos a nós, mulheres, ajudar nesta nobre causa. Ou seja, nada de exacerbar o ego de meninos medíocres, nada de se referir a terceiros como génios e, sobretudo, sempre que se ouvir um gaiato que ainda nem fez cálculo I dizer que é o próximo Richard Feynman corrigi-lo com algo do estilo “está calado, Eduardo, ninguém gosta de ti e as tuas calças de fato de treino são esquisitas, vai mas é estudar os teus integrais e deixa-me em paz”.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
As peripécias das peripécias dos PT
Uma das coisas que me deixa mais triste nesta terra é quando algo demonstra ter imenso potencial e depois auto-destrói-se numa bola de merda. Então quando é produto nacional, ui, até me vem uma lágrima ao olho.
Um destes casos infelizes é a página “Peripécias dos PT”.
Embora nunca tenha sido grande fã, admito que ia lá de vez em quando e achava muita coisa francamente engraçada. Sempre foi um bocado hit and miss (há por ali muito elitismo e muita coisa a descair para o “porca” e “baleia”), mas as screenshots de comentários nojentos a fotos de moças são hilariantes e sempre adorei ver as fotos de perfil que eram fotos de fotos emolduradas de senhores da altura em que ainda andavam na guerra colonial. Brilhante. Às vezes fazia lembrar o subreddit creepyPMs e isso deixava-me muito orgulhosa.
Sinceramente não sei se só reparei agora ou se sempre foi assim mas, de qualquer forma, parece que ultimamente tem tomado uma direção que é, ao mesmo tempo, completamente previsível e muitíssimo deprimente. Agora apela consistentemente ao menor denominador comum e os responsáveis pela páginas em vez de tentarem dar uma direção apropriada à coisa parecem querer fomentar este tipo de comportamento, o que, infelizmente para eles, só vai resultar no colapso da página porque o tipo de coisa que eles têm para lá não é sustentável a longo prazo (faz lembrar aquela página das “pitas” cujo nome não me recordo mas que também desapareceu por razões semelhantes).
Os posts mais engraçados sempre foram aqueles em que o achincalhamento era dirigido para cima. Ou seja, pessoas eram buéde gross na internet para outras pessoas e depois eram achincalhadas. Fair enough. Nestes casos não há nenhum grupo oprimido a ser gozado simplesmente por fazer parte desse grupo oprimido. É clean wholesome fun para toda a família. Mas pegar em fotos de pessoas que não estão a magoar ninguém nem a ser desagradáveis e gozar com elas porque se vestem ou agem de maneira menos comum tem literalmente zero graça.
Um dos casos mais recentes é o de um jovem gay (pelo menos foi o que me pareceu pela conversa) que tem uma expressão de género mais colorida cuja foto está a ser usada como foto de perfil da página das Peripécias. A sua única ofensa é literalmente expressar a sua individualidade. O cachopo está obviamente confortável consigo próprio mas mesmo assim têm que ir cagar postas de pescada para cima dele.
Vamos ler comentários.
Demonstrámos apoio pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo e agora esta gente quer tirar fotos na paz do senhor e ter facebooks e divertir-se! When will the madness end????
Pessoalmente, nunca consigo perceber nada do que os senhores do PNR dizem porque, juro pela deusa, que sempre que um deles começa a falar só oiço isto.
Sim, por mitose e tudo. Tenham medo, tenham muito medo.
Breaking news! Opressão violenta de pessoal da comunidade LGBT é buéde fixe! E o seu comportamento pode ser corrigido! NICEEE!
Há muitos outros comentários engraçados, basta ir à página, há imenso por onde escolher. Atirem uma pedra, de certeza que acertam em merda.
Este tipo de coisa tem zero graça porque está a cagar num grupo que já está bastante habituado a que lhe caguem em cima. Nem sequer estamos a falar de “aha esta pessoa é pateta e está a fazer coisas patetas” estamos a falar de comentários violentamente homofóbicos. Dirigir o achincalhamento para baixo é o tipo mais preguiçoso de humor, o que ainda por cima é tipo o mais pequeno chapéu do mundo num bisonte de nojice. Ofende-me enquanto feminista e enquanto apreciadora de bom humor.
Gente com expressões de género diversas precisam de ser celebradas e não postas on display de forma a que possam ser gozadas por um circlejerk homofóbico em que cada um tenta mostrar o seu nojo da forma mais excessiva possível para estar in. Ninguém aprende nada com isto, é deprimente e francamente provinciano.
Depois temos um post dos senhores que gerem a página sobre como as “feminazis” (adoro quando alguém usa este termo não ironicamente porque o feminismo é LITERALMENTE o mesmo que o holocausto??? Adoro, isto sim é humor) estão a fazer muitos reports e, consequentemente, harshing os swags todos deles. Não há nenhum swag que esteja un-harshed. Não é que eu não ache o histerismo deles hilariante, é só que isto faz-me lembrar aqueles senhores de há mil anos atrás que achavam que o Thomas Edison era feiticeiro, que a matemática era bruxaria e que ficavam muito confusos com as estações do ano. Para além disso andam a partilhar a página do facebook da moça que eles acham que é responsável pelas denúncias e tenho quase a certeza que isso é uma forma qualquer de doxxing e nem o Reddit tolera coisas destas, que falta de classe.
No futuro, onde alguns de nós vivem, há consequências para este tipo de comportamento. Denunciar a página por homofobia e transfobia e todo o tipo de fobias é perfeitamente natural e civilizado, não é um atentado a nada a não ser à falta de decência e de sentido de humor.
O problema deste tipo de discurso é que fomenta a discriminação e não vale de nada igualdade perante a lei se no dia-a-dia há tanto pessoal a negar o direito à humanidade a gente com a qual não se identificam.
Espero mesmo que daqui a uns anos, quando formos todos mais crescidos, esta gente consiga olhar para trás e orgulhar-se de ter deixado de ser um trambolho. Estou a torcer por toda a gente, pela segurança das juventudes LGBT e pela sua liberdade de expressão e pelas juventudes que fazem estes comentários claramente desinformados, espero que cresçam e aprendam um bocadinho, que não se deixem levar tanto pelo que é supostamente “normal”. Ficávamos todos tão mais confortáveis.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Os bois pelos nomes
Como qualquer misandra a tempo inteiro que se preze, estou mais ou menos familiarizada com os ensinamentos da misandra-mor, mestre da opressão máxima masculina: Andrea Dworkin. Ao contrário do que se pensa, ela nunca chegou sequer a tratar os homens como os homens tratam mulheres, não é nenhum bicho-papão e está muito MUITO longe das histórias de horror que ouvi sobre ela antes de me dar ao trabalho de ler os seus livros. É verdade que tem algumas lacunas graves (por exemplo, descai-lhe muito o pé para a transfobia, que é uma marca muito triste de muitas feministas da sua geração) mas é como tudo na vida, deita-se fora o mau, fica-se com o bom e constrói-se em cima disso.
Andrea Dworkin tem ideias muito interessantes sobre muita coisa e é preciso reconhecê-lo. Uma dessas ideais tem a ver com uma das ferramentas mais eficazes na opressão das mulheres: o poder de dar nomes e definir conceitos. O homem enquanto entidade coletiva tem sido responsável por definir basicamente tudo: o que é ser mulher, o que é ser homem, o que é que é aceitável dentro desses parâmetros, o que se deve chamar aos rebeldes que se desviam do que ele próprio definiu. Enquanto não formos capazes de definir as nossas próprias experiências nos nossos próprios termos nunca seremos livres. Qualquer abordagem feminista, por muito radical que seja, estará sempre definida num contexto patriarcal e, por isso, nunca será perfeitamente eficaz.
No livro “Pornography: Men Possessing Women” há uma passagem que ilustra isso perfeitamente:
It is the naming by decree that is power over and
against those who are forbidden to name their own experience; it is
the decree backed up by violence that writes the name indelibly in
blood in male-dominated culture. The male does not merely name
women evil; he exterminates nine million women as witches
because he has named women evil. He does not merely name
women weak; he mutilates the female body, binds it up so that it
cannot move freely, uses it as toy or ornament, keeps it caged and
stunted because he has named women weak. He says that the
female wants to be raped; he rapes. She resists rape; he must beat
her, threaten her with death, forcibly carry her off, attack her in the
night, use knife or fist; and still he says she wants it, they all do.
She says no; he claims it means yes. He names her ignorant, then
forbids her education. He does not allow her to use her mind or
body rigorously, then names her intuitive and emotional. He
defines femininity and when she does not conform he names her
deviant, sick, beats her up, slices off her clitoris (repository of
pathological masculinity), tears out her womb (source of her
personality), lobotomizes or narcotizes her (perverse recognition
that she can think, though thinking in a woman is named deviant).
He names antagonism and violence, mixed in varying degrees,
“sex”; he beats her and names it variously “proof of love” (if she is
wife) or “eroticism” (if she is mistress). If she wants him sexually he
names her slut; if she does not want him he rapes her and says she
does; if she would rather study or paint he names her repressed and
brags he can cure her pathological interests with the apocryphal
“good fuck. ” He names her housewife, fit only for the house, keeps
her poor and utterly dependent, only to buy her with his money
should she leave the house and then he calls her whore. He names
her whatever suits him. He does what he wants and calls it what he
likes. He actively maintains the power of naming through force and
he justifies force through the power of naming. The world is his
because he has named everything in it, including her. She uses this
language against herself because it cannot be used any other way.
As mulheres lutam todos os dias contra isto. O direito à auto-determinação e às nossas próprias experiências é constantemente minado, seja a completa negação das estatísticas sobre violação e assédio sexual ou a recusa em aceitar aquilo que escolhemos para nós próprias: se queremos ser alguma coisa tem que ser num contexto muito específico pré-determinado.
Não podemos ser engenheiras nem matemáticas nem físicas, pelo menos não como eles nem como os seus heróis, nunca como eles porque o génio e a predisposição egomaníaca que são necessários para ser bem sucedido não tocam às mulheres. Não podemos ser artistas a não ser de uma forma detached e pouco ameaçadora porque não foi isso que eles escolheram para nós, porque não temos nada para dizer. Não podemos definir a nossa própria sexualidade, não podemos explorar a nossa identidade como quisermos porque da introspeção vem a auto-determinação e daí vem uma ameaça ao status quo.
Andrea Dworkin profetizou que as feministas terão que reclamar o direito de nomear e de definir se querem realmente libertar-se da influência de um sistema opressivo. Acho que é isso que temos agora de forma mais ou menos mainstream e isso deixa muitos homens muito irritados. Temos agora juventudes a usar palavras como demissexual, assexual, pansexual, não-binário, genderfluid, genderqueer, demigirl, demiboy, agender e muitas outras. Se estas palavras descrevem algo válido no paradigma anterior é irrelevante, trata-se de gente que vinha de uma posição em que não tinha maneira de expressar a sua identidade passar a usar linguagem que está completamente fora do controlo da classe dominante, não faz sentido tentarmos sequer julgar isto com as mesmas regras.
As mulheres transgénero são vítimas de violência e de uma ostracização particularmente cruel por razões semelhantes. Elas são a epítome da rejeição das normas do sistema patriarcal, o facto de elas ousarem afirmar que são mulheres distorce por completo a narrativa que os homens inventaram para o que é ser mulher. A violência que sofrem é prova de que apenas a sua existência, o facto de se auto-afirmarem enquanto as mulheres que são e de definirem as suas experiências nos seus próprios termos, chega para pôr em causa o seu precioso sistema. Insegurança gera medo, medo gera violência.
Encontramos oposição também quando se pega em palavras que já existem (tipo slut) que são usadas como armas de arremesso e se faz uma tentativa de as reapropriar. Pegar em algo que já foi definido pela classe dominante e redefini-lo de acordo com as necessidades de outros abre também a porta para a quebra da hierarquia estabelecida.
Se os homens deixarem de ter poder sobre o que é uma mulher, sobre como elas se veem a si mesmas e se afinal são mulheres a tempo inteiro ou nem por isso, deixam de viver de maneira privilegiada. Deixa de haver “O Homem”, o modelo para experiência humana, e os outros. Se “O Homem” deixar de ser o standard então terá que reavaliar a sua posição nesta nova sociedade, algo perfeitamente inédito.
He can theorize,
fantasize, call it science or art; whatever he says about women is
true because he says it. He is the authority on what she is because
he has made her, cut away at her as if she were a piece of stone until
the prized inanimate object is extracted.
domingo, 9 de agosto de 2015
Responsabilidades
Já há algum tempo que tenho estado a aproximar-me de uma posição mais anti-pornografia mas acho que finalmente solidifiquei a minha opinião.
A pornografia é perfeitamente aceitável na teoria, não tenho nada contra. O problema está quando passamos à prática. Recentemente vi um documentário que ilustra bem quão mal a coisa pode correr, chama-se Hot Girls Wanted e é produzido pela Rashida Jones que, para além de ser super gatona, é super inteligente e só tem boas ideias.
O documentário é sobre umas moças que, como muitas outras, decidem ir para Miami ser amateur porn stars. Aparentemente isto é uma coisa que acontece muito lá nas Américas. Elas são muito MUITO novas, tipo 18-anos-novas, e, embora saibam ao que vão, acabam por ser sujeitas a um monte de coisas menos agradáveis, algumas das quais apenas liminarmente consensuais.
A verdade é que elas já são maiores e vacinadas e, supostamente, entram neste tipo de indústria de livre vontade. Mas temos que reconhecer que elas (e muitas outras) foram criadas num clima muito violento de constante sexualização de mulheres, muitas vezes sem o amortecimento de pais cultos e bem equipados para servir de buffer a este tipo de coisa. Este tipo de clima, especialmente direcionado para meninas com menos acesso à educação e/ou mais pobres, cria a noção de que a única marketable skill que têm e, consequentemente, a única maneira que têm de sair da situação em que estão é usando a única coisa que a sociedade valoriza nelas: o seu sex appeal, quão fuckable são, quão dispostas estão a ser partidas em bocadinhos pequeninos e repackaged para servirem o desejo masculino.
É perfeitamente compreensível que muitas mulheres prefiram sex work à violência da pobreza e concordo que, quando tomam esta decisão, devem ser protegidas legalmente. Mas também acho que deve haver uma razão qualquer para haver tanta oferta de moças de 18 anos que querem entrar no mundo da pornografia.
Embora eu ache bem termo-nos libertado de muitas noções puritanas que só serviam para oprimir a liberdade sexual das mulheres, parece-me que a suposta revolução sexual foi reapropriada pelo patriarcado e acabou por servir exatamente para a mesma coisa. As mulheres libertaram-se de uma coisa para apenas se encontrarem presas noutra pouco depois. Não quero dizer que estávamos melhor antigamente, longe disso, mas não sei até que ponto este novo tipo de opressão será melhor.
As meninas são sexualizadas desde tão pequeninas e formatadas para pensarem que o seu valor está intrinsecamente ligado a quão sexualmente desejáveis são que não é particularmente surpreendente se começarem a expressar a sua sexualidade de maneiras menos saudáveis.
A pornografia, supostamente, deveria ser uma extensão positiva da libertação sexual das mulheres (e, consequentemente, dos homens também mas meh) mas, em vez de facilitar o discurso sobre a sexualidade e tornar a relação de toda a gente com o sexo mais saudável, temos esta abominação, este braço particularmente fálico do patriarcado que é um reflexo exagerado de todo o sexismo que já existe por aí.
É que depois forma-se um ciclo vicioso em que como a internet é tão boa e informativa, a pornografia acaba por ser ferramenta de aprendizagem relativamente à intimidade (o que poderia muito bem ser mas enfim, os homens estragam sempre tudo), mas depois a única coisa que faz é ensinar os meninos que humilhação sexual é buéde fixe e às meninas que é só isso que podem esperar dos seus parceiros sexuais, o que, por sua vez, as empurra para o mundo da pornografia mais tarde porque aprenderam desde jovens a achar este tipo de coisa excitante e perfeitamente normal.
A ideia de que a pornografia, sendo legal, é perfeitamente regulamentada é também falsa. Há pouquíssima legislação sobre pornografia e o tratamento das atrizes é perfeitamente atroz, muitas são sujeitas sem consentimento prévio a atos sexuais com os quais não estão confortáveis, desenvolvem problemas de saúde graves cujo tratamento têm que ser elas a pagar e a prevenção de DSTs e de gravidezes indesejadas é mínima…
A pornografia, portanto, não só não é inofensiva como é ativamente nociva. Não se trata apenas de fantasia uma vez que toda a violência sexual que vemos está efetivamente a acontecer a alguém. Isto não quer dizer que eu ache que devesse ser ilegal, se fosse provavelmente seria ainda pior, mas sou decididamente anti-pornografia no sentido em que não a consumo, não apoio o consumo e não acho que ninguém devesse apoiar a sua produção no paradigma atual. Sou a favor de mais leis que protejam as atrizes e de um discurso mais saudável à volta da sexualidade feminina para que as raparigas mais jovens possam tomar decisões 100% informadas e despoluídas sobre o seu futuro.
Por favor vejam o documentário, vomitem-se todos e depois juntem-se a mim numa cruzada puritana para oprimir a sexualidade masculina. Ámen.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Feminismos do além #1–Decoração
Há uns tempos decidi que ia fazer uma espécie de showcase de fellow feminists: basicamente tudo o que seja arte, artigos ou gravações de cantos de baleias auto-tuned usadas como peças de intervenção política…
A primeira contribuição de forças alheias chegou hoje!
“entre peças silenciosas a conversa é séria para defensores do bruto têm gostos delicados olhares ferozes gritam sobre argumentos razoáveis só com o café vêm as tréguas o café tem espírito e anda os mesmos olhos aguçados juram que tem corpo e pose a pausa é breve, retomam-se os ataques as peças dão ambiente mas a conversa é séria podem ter gostos delicados mas há que defender o bruto“
- Encontrado num guardanapo, no café da esquina
domingo, 2 de agosto de 2015
Telhados de vidro
“I sometimes enjoy them because they are basic and simple and go well with popcorn,the problem is that sometimes they purport to be profound, based on some Greek mythological kind of thing. And they are honestly very right wing. I always see them as killing people because they do not believe in what you believe, or they are not being who you want them to be. I hate that, and don’t respond to those characters. They have been poison, this cultural genocide, because the audience is so overexposed to plot and explosions and shit that doesn’t mean nothing about the experience of being human.”
domingo, 19 de julho de 2015
Ainda isto
Cansa-me a beleza escrever sobre o aborto mas, pronto, aqui estamos nós outra vez.
Talvez porque começou a ver os ratos abandonar o navio, o governo decidiu juntar uns amigos às taxas moderadoras e agora temos toda uma panóplia de coisas giras que vão ser aprovadas.
Em causa estão alterações como passar a ser obrigatório a mulher ter acompanhamento psicológico e de um técnico social quando decide interromper a gravidez. Outra das mudanças passa pela introdução de taxas moderadores na interrupção voluntária da gravidez. E os médicos objectores de consciência deixam de estar excluídos das consultas, havendo mais reserva sobre a informação relativa a essa objecção.
Eu gosto de pensar que sou uma pessoa razoável e que consigo compreender uma grande quantidade de pontos de vista mesmo que não concorde com eles. Mas às vezes, por muito que tente, não me sai nada. Nem mesmo imaginando que vivo num universo alternativo em que tudo o que é estúpido faz perfeito sentido. Esta história dos objetores de consciência é uma dessas ideias.
Se calhar é porque nunca me deparei com uma situação sequer remotamente semelhante, mas imaginem que uma pobre senhora quer abortar o squatter que vive dentro dela sem pagar renda, quando se vai submeter a quinze dias ou que raio lá é de “acompanhamento psicológico”,por acaso, calha-lhe na rifa um objetor de consciência. Quem é que fica mais enriquecido com esta experiência? A senhora não é de certeza, que tem que lidar com a resistência passiva de um médico que não lhe sai de cima da pila embora não a conheça de lado nenhum. E o senhor médico (vamos assumir que é um senhor médico embora também haja muitas senhoras médicas que gostam de denegrir as suas irmãs por causa de uma mistura de falta de auto-estima e necessidade de agradar à classe dominante), o que é que ele ganha com isto? É objetor de consciência por isso não quer ter nada a ver com abortos, nem sequer quer ouvir falar disso, mas vai dar-se ao trabalho de ir às consultas todas de acompanhamento para poder antagonizar senhoras em posições menos felizes.
O meu pai foi objetor de consciência na altura em que a tropa era obrigatória. Sabem o que é que ele fez? Ficou em casa. Sabem o que é que ele não fez? Foi à tropa na mesma só para se sentar nas bancadas a gritar com toda a gente e dizer-lhes que estavam a fazer a coisa errada e que ele tinha o moral high ground sobre toda a gente.
Eu estava convencida que os médicos estavam bound por um juramento qualquer que implicava ajudar toda a gente independentemente das opiniões pessoais (e, consequentemente, biased) que pudessem ter. Mas aparentemente não, os médicos podem escolher quando é que fazem o trabalho quando lhes compete e quando é que preferem não porque é mais importante privar mulheres da sua autonomia corporal.
Estas novas medidas só têm como objetivo castigar e infantilizar mulheres por causa do que fazem na sua vida privada (e, possivelmente, apelar a uma base de eleitores mais reacionários). Não deviam poder abortar porque têm que sofrer as consequências dos seus atos e porque ai jesus que a toda a vida é sagrada, especialmente quando a lei estipulou o contrário e podemos usar isso para ostracizar e humilhar organismos com sistemas nervosos efetivamente desenvolvidos.
É tão chato termos que falar disto quando já referendámos a questão há tanto tempo. É pena mas a democracia é mesmo assim. Eu ando a gramar com estes senhores no governo há muitos anos e nem votei neles mas respeito mais ou menos o processo. Esta gente que não está contente com a despenalização do aborto só tem que calar e gostar. Não me macem mais com isto, por favor.
terça-feira, 7 de julho de 2015
J'accuse!
Porque raio é que é melhor obrigar estas cachopas a ter crianças? Por que é que é melhor obrigar as mulheres a passar pela experiência física e psicologicamente traumática que é o parto? Por que é que é melhor trazer ao mundo gente para engrossar as fileiras dos pobres e desamparados?
sábado, 4 de julho de 2015
Com amigos destes
Infelizmente, não é a primeira vez que me deparo com este tipo de mindset. Conheço gente com carradas de educação formal científica que depois se vira toda do avesso quando se fala em racismo ou sexismo. Gente que ainda acha que há diferenças perfeitamente quantificáveis entre os sexos e que, quando recebe fontes que provam que estão erradas, me acusa de não ser fiel ao verdadeiro método científico. Uma vez disseram-me que uma estatística publicada no Público sobre a diferença entre homens e mulheres em posições de topo em STEM era irrelevante e que o que eu tinha que fazer era ir contar o número de mulheres na página da FCT.
A história das mulheres em STEM irrita-me particularmente porque é tao demonstradamente falsa. As mulheres têm acesso à educação idêntico ao dos homens há relativamente pouco tempo mas, mesmo assim, já somos mais em coisas como biologia e bioquímica. Agora mudou-se o discurso e, de repente, esses são "cursos de gaja" (mesmo tendo sido male-dominated durante séculos). Quando finalmente atingirmos 50/50 ou 51/49 ou, mesmo, sei lá, 80/20 (#femalemasterrace) no resto dos cursos científicos como é que vão mudar o discurso? O que é que vão alegar aí?
Mostrei-lhes estatísticas que mostravam claramente que há bias contra mulheres em STEM mas continuaram a insistir que podia perfeitamente ser das hormonas (embora não haja nenhum estudo que aponte para a existência de hormonas mágicas que afastam as meninas dos computadores). Mas e as senhoras engenheiras? E as senhoras físicas e matemáticas? Serão defeituosas? Nasceram com um cérebro menos feminino? Ninguém me respondeu.
São absolutamente incapazes de reconhecer a sua própria ignorância em relação ao que quer que seja. Havia um espécime que achava que um poster a anunciar uma feminist bakesale (os queques custavam 1 dólar para os homens e 75 cêntimos para as mulheres) era a epitome da misandria e da discriminação contra os pobres homens porque falhou em compreender a referência. Mas ir informar-se e parar de cagar postas de pescada sobre aquilo que claramente não compreende? Está quieto, isso é para plebeu.
Usam exatamente o mesmo discurso que os extremistas religiosos. Bigots são iguais em todo o lado e, enquanto os "líderes" dos movimentos de céticos não compreenderem que têm que reavaliar a direção dos seus grupos e fazer uma reestruturação dos seus core-values, o ceticismo vai continuar a ser um movimento altamente elitista que existe apenas como plataforma para um grupo restrito de homens poder jerk each other off sobre os mesmos temas ad nauseum.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Só os burros
Cometi um erro bastante grande. Quando escrevi sobre a Hilary disse que a ia apoiar sempre a não ser que surgisse um autointitulado socialista. O que é que sucede quase imediatamente? Aparece o Bernie Sanders. Bernie motherfucking Sanders. Bane of my existence.
Já não posso ouvir falar do Bernie Sanders. Maldito fucking Bernie Sanders. Para um senhor que parece uma batata ele deixa-me muito zangada.
domingo, 17 de maio de 2015
Quase lá
"No Dia da Mulher do ano passado, por exemplo, multiplicaram-se os cuidados para lá das flores, com direito a manicura, pedicura e, ainda, um workshop de maquilhagem."
"Primeiro: [somos] um trunfo para as empresas porque, mesmo quando dormimos mal, chegamos arranjadas ao emprego. Depois, somos multitasking porque, mal temos filhos, habituamo-nos a que todos lá em casa peçam imensa coisa ao mesmo tempo. E mais: somos extraordinárias na organização do tempo e dos horários, ao mesmo tempo que somos sensíveis e compreensíveis com os outros."
"Posso dizer ainda que, no final da especialidade, quem teve filhos durante o internato obteve melhores notas."