sábado, 19 de dezembro de 2015

Perspetivas (ou: Spoilando Fargo)

Gosto imenso de uma boa série, mais do que um bom filme até. Ui, aquele desenvolvimento pessoal todas das personagens. Que gostoso!

Acabei a segunda temporada de Fargo há uns dias e adorei o último episódio. Normalmente, tenho que desligar os meus feminist-goggles antes de ver o que quer que seja, mas Fargo sempre foi o tipo de série que convida todo o tipo de goggles, não só os feministas. Acho que se deixa deliberadamente aberta para todo o tipo de interpretações.

No final do último episódio há uma cena particularmente interessante. Na parte de trás de um carro da polícia está uma moça que atropelou acidentalmente o filho mais novo de uma família de mafiosos, raptou outro e inadvertidamente desencadeou um massacre, sempre com o marido atrelado como cúmplice. Coisas que acontecem.

O polícia que conduz o carro conta-lhe uma história sobre quando estava na guerra do Vietnam e viu um homem fazer algo praticamente impossível só para conseguir salvar a família. Ele continua dizendo que os homens são capazes de tudo para proteger o que é deles, que compreende o marido da moça, que o pobre coitado foi justificado no papel dele nas coisas todos terríveis que aconteceram porque estava apenas a tentar ajudá-la, protegê-la. A ideia é que ela foi a força motriz do massacre e ele um espectador bem-intencionado. Que o fardo dos homens é este, que têm que usar a sua superioridade moral, intelectual e física para proteger os mais fracos, para protegerem as suas crianças e mulheres porque não são capazes de o fazer sozinhas. 

Mas o marido da moça morreu e ela não. Não diria que morreu por ela mas morreu e ela sobreviveu. O dever dele enquanto marido num paradigma tradicionalmente masculino foi cumprido no seu expoente máximo. O polícia, por outro lado, com toda a sua competência profissional, não consegue salvar a mulher do cancro que a está a matar. Ela vai morrer e ele vai ficar. Foi ela que deixou a base a vida futura do marido e da filha sem ela, garantiu que vão ficar os dois bem. E é ela também que tem um visão do futuro, em que o marido encontra felicidade e paz em papéis que vão muito para além do estereótipo do patriarca que governa o seu reino: a mulher, os filhos, a casa.

A tirada contra a moça no carro é uma última tentativa de se tentar agarrar a esta narrativa, de que o seu valor está de alguma maneira ligado à sua capacidade de protetor. De a tentar fazer ver que eles os dois são fundamentalmente diferentes, que enquanto ela é egoísta ele continua a tentar, embora que em vão. É um momento de honestidade profunda que poderia ser horrorosamente sexista mas que caminha ali na linha entre o realista e o deliberadamente ofensivo.

A resposta dela é que, antes de tudo aquilo acontecer, antes de atropelar quem quer que fosse, ela era uma vítima primeiro. Que ele não faz ideia do que é ser mulher, ser constantemente massacrada com ideais impossíveis de alcançar, ser constantemente secundária aos desejos de terceiros, parte do grande plano do marido (tal como a casa, o carro, o emprego), sem nunca ter oportunidade para simplesmente ser uma pessoa.

E o que é engraçado é que me lembro perfeitamente de pensar no início da temporada, a olhar para ela, anexada à narrativa de um homem como se fosse uma decoração, que aquilo tudo (especialmente na altura, em 1979) também era um tipo de violência. Que não nenhuma das reações dela eram tão outlandish como pareciam à primeira vista. Quando se mantém alguém assim tão confinado, tanto física como psicologicamente, é normal que desenvolvam algum tipo de cabin fever. Este tipo de violência, de terrorismo raramente reconhecido, é do mais básico que há, é a negação completa de autonomia e de humanidade que, ano após ano, mastiga a alma de uma pessoa até já sermos outra coisa qualquer.

Acho que ela estava a tentar expressar isto quando disse que também era uma vítima. Que os dias em que tinha que tomar a pílula às escondidas, as revistas que acumulava de forma obsessiva, até toda a violência que cometeu (embora não desculpável), faziam parte de uma tentativa de recuperar algum controlo sobre a sua vida, de ser uma pessoa a sério e não uma extensão do marido que, no meio disto tudo, era completamente ignorante relativamente à brutalidade a que sujeitava a mulher.

O senhor polícia responde-lhe, de forma incrédula, que “pessoas morreram”. Como se ela não soubesse, como se esse fosse o único tipo de horror a que se pode sujeitar alguém porque é o único que ele conhece. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

Arrumando a nossa porcaria

Aqui há uns tempos tive uma discussão surreal num grupo feminista. Eu gosto imenso de discutir, admito que é um dos meus passatempos preferidos, mas normalmente é mais engraçado quando é com rapazinhos da minha idade incrivelmente mal informados  ou com professores universitários com complexos de inferioridade. Quando é com a irmandade é simplesmente deprimente.  Eu tenho uma visão muito clara do que acho que o movimento feminista deve ser e, quando surge alguém dentro da comunidade que tem ideias tão radicalmente opostas às minhas, sinto um choque muito grande.

Isto tudo começou quando vi com os meus próprios olhos uma irmã a defender que o problema da exploração dos animais era um problema feminista. Ora, a verdade é que não é e qualquer tentativa de convencer a pessoa em questão disso foi em vão. Surgiu uma thread de 200+ comentários que acabou por ser bloqueada pelos moderadores. Um autêntico shit show.

O meu problema não está no facto de outras mulheres terem visões diferentes do que o feminismo é ou deixa de ser mas sim na recusa em aceitar que factos são factos e o resto simplesmente não vale a pena. Li comentários de moças que argumentavam que o movimento feminista era a luta contra todos os tipos de opressão e que se chamava feminismo simplesmente porque tinha sido inventado por mulheres. Ora, por muito bem intencionado que isto soe, não corresponde à realidade, o que, parecendo que não, é um ponto bastante importante. É factualmente incorreto e nega toda a história do movimento. Alegar que a definição de feminismo tem vindo a evoluir de tal forma que é possível argumentar que agora pretende eliminar todos os tipos de opressão acaba por não beneficiar ninguém.

O feminismo evoluiu muito, é verdade, mas no sentido de conseguir acomodar as necessidades de todas as mulheres e lutar contra os diferentes tipos de opressão que elas sofrem. Já não nos concentramos só nos problemas das mulheres brancas de classe média, sabemos agora que temos que ter em consideração que há irmãs que sofrem outros tipos de discriminação por causa da sua etnia, classe social, orientação sexual, por serem trans, por serem gordas… Mas a palavra chave continua ser “mulher”, o feminismo sempre foi e sempre será uma luta pelo reconhecimento das mulheres enquanto iguais perante a sociedade, o seu objetivo final a abolição do patriarcado. Qualquer outro grupo que saia beneficiado é por acaso. Alegar outra coisa qualquer é simplesmente falso.

Este tipo de discurso, a aparente recusa em estabelecer um objetivo fixo e o desleixo retórico com que muitas vezes se fala de feminismo, não é grave mas é preocupante. É injusto exigir que sejamos mais académicas e menos flexíveis mas é o que precisa de acontecer. Algures no seio do movimento tem que surgir um pilar de valores morais e intelectuais inabalável, assente firmemente nos mais duros factos. Não há outra maneira.

Não se trata de elitismo da minha parte no sentido em que não quero alienar mulheres sem conhecimento académico ou inclinações intelectuais. O que eu quero é que o feminismo seja uma ferramenta para educar todas as mulheres sobre a sua própria opressão, sobre a opressão dos outros, sobre o contexto dessa opressão. A única maneira de conseguir algum tipo de dignidade é através da educação e da informação. Quero que o feminismo se torne um esforço coletivo para dar poder a mulheres e raparigas em todo o lado para se libertarem a si próprias. Neste sentido, no entanto, o feminismo popular não está a fazer um trabalho muito bom.

Li há uns meses um artigo sobre um evento feminista no Reino Unido vocacionado para raparigas nos seus late teens que tinha como atrações principais workshops sobre bruxaria e palestras sobre ethical makeup. Não é que eu não ache que deva haver espaço para este tipo de coisa mas devíamos ter uma abordagem mais didática. Há um grande interesse em feitiçaria nalguns círculos feministas  e, embora compreenda perfeitamente porquê,  partilhar feitiços e falar disso como se fosse uma coisa que existe mesmo em vez de nos concentrarmos no contexto histórico e cultural da bruxaria (e o que podemos aprender com ele) é, no mínimo, pouco aconselhável. Devíamos usar oportunidades destas para garantir que as gerações mais novas têm acesso a todo o tipo de informação que muitas vezes é negado ou simplesmente ignorado no sistema de ensino, mas em vez disso ficamos perdidas neste feminismo de pastilha elástica pontilhado muitas vezes por faux-empowerment que se traduz em rigorosamente nada na vida real. Se ajudarmos a formar raparigas aptas, inteligentes e informadas estamos também a formar futuras educadoras competentes. E assim, sem mais nem menos, metade da batalha está ganha.

Se queremos garantir a longevidade e a eficiência do movimento temos que ser especialistas na nossa própria opressão, saber de cor e salteado todas as maneiras como nos vão tentar magoar e como desconstruí-las, como nos defender. Temos que ser polymaths, metade guerrilheiras, metade intelectuais. Mas para isso temos que nos empenhar, especialmente as feministas como eu, meninas de bem com acesso ao ensino superior e paizinhos compreensivos. Temos que deixar para trás a pseudo-ciência (por muito atraente que por vezes pareça) e sermos frias, cultas e capazes de excisar este cancro da sociedade de uma vez por todas. Ninguém o fará por nós.

domingo, 29 de novembro de 2015

Quem diz é quem é

Um dos maiores desafios com que me deparo quando estou nas minhas missões de indoctrinação feminista é convencer o pessoal de que os homens e as mulheres são efetivamente iguais. Ou seja, aqueles que acenam efusivamente quando falo de desigualdade institucional e do patriarcado começam com “isso não é bem assim” e “não vamos tão longe” quando digo que pensamento feminino e masculino não existem, que não há diferenças comportamentais pré-determinadas entre géneros. É aqui que a maioria da boa gente que com que me cruzo, gente bem-intencionada que me deixa falar ininterruptamente sobre feminismo, decide traçar a linha. É a colina onde escolhem morrer.
 
A ideia de que os géneros, a nível de comportamento, são inerentemente diferentes está tão enraizada na sociedade que, apesar de tudo, é só este ponto que faz de mim uma radical aos olhos das pessoas. A resistência que encontro à ideia de igualdade absoluta, especialmente por parte de homens, vem do facto de a identidade masculina ser construída e relevante apenas por comparação. A masculinidade não tem qualquer significado num vazio cultural.
 
O conceito tradicional de masculinidade só faz sentido quando temos o feminino como oposição. Grande parte da identidade dos homens vem simplesmente do facto de não serem mulheres. Definiram que são fortes, racionais, mais inteligentes e menos sentimentais mas, para poderem dizer que são herdeiros disso tudo sem terem que efetivamente prová-lo, tiveram que fazer passar a ideia de que são virtudes do género e não do indivíduo. Sem mulheres para serem fracas e emocionais por comparação, os homens têm que se provar individualmente. É uma questão de comodismo.
Dizem-me muitas vezes que os homens não são melhores do que as mulheres, apenas diferentes. Mas se pensarmos bem na coisa vemos que é só mais do mesmo. Os homens e as mulheres são diferentes literalmente só naquilo que interessa. Os homens são mais racionais mais dados à contemplação e ao pensamento matemático, podem ser engenheiros, físicos, filósofos, matemáticos, até escritores e poetas. Às mulheres fica reservado exatamente o quê? Educadora de infância e enfermeira? Mãe? Nada disto é por acaso, é simplesmente produto de anos e anos a tentar convencer-nos de que afinal sempre fomos tratados da mesma forma, nós é que não sabemos dar valor aos papéis que escolheram para nós, que, se fomos renegadas à irrelevância é por mero acaso, afinal, apoiar as aventuras do marido é tão bom como viver as nossas próprias. Mas trocar de papel? Isso nunca querem. A hipocrisia mete-me nojo.
 
A dualidade feminino/masculino é então construída assim, se as mulheres são fracas, emocionais, irracionais, pouco inteligentes e pouco ambiciosas, os homens terão que ser o completo oposto e aprender rapidamente a negar a individualidade das mulheres, não vá a identidade que construíram para eles próprios cair por terra. Quando um homem falha em algo como child care e lida da casa ou em socialização básica e regras de boa educação, pode também alegar que não é uma falha sua mas sim do género, evitando assim qualquer consequência pelos seus atos. E toda a gente sabe que os homens odeiam ser responsabilizados pela porcaria que fazem.
 
Os homens passam então grande parte da sua vida só a evitar ser vistos como mulheres. Para quem gosta de dizer que somos igualmente bons, apenas com aptidões naturais diferentes, despendem imensa energia a distanciar-se dessas “inclinações femininas”. São empurrados uns pelos outros a abandonar qualquer característica feminina que possam ter e a desumanizar “o outro”, a mulher, para que eles possam ascender ao estatuto de pessoa completa, o qual é reservado só para eles.
 
O problema surge quando os rapazes, ainda pequenos e cheios de potencial, sofrem uma violência horrível, tanto alheia como exercida por eles próprios, quando tentam excisar o que veem como características de mulher. Os nomes que os homens chamam uns aos outros para se humilharem mostra isto bem, são sempre nomes que visam aproximar as vítimas ao estatuto de mulher (beta, maricas, pussy, paneleiro – obviamente há uma boa dose de homofobia pelo caminho, afinal, o que há de mais feminino do que gostar de homens?). Os rapazitos acabam por aceitar que têm a escolha entre ser vítima ou agressor e passam o resto da vida a tentar não ser vítimas. É claro que, como todas as pessoas têm características tradicionalmente femininas e masculinas em proporções variáveis que em nada dependem do seu género, acabam também por ter que se auto-mutilar, arrancar bocados deles próprios que deixam cicatrizes profundas, danos irreparáveis que se traduzem em suicídios, depressão e problemas comportamentais graves.
 
Quando o feminismo estende a mão a estes homens, leva quase sempre uma palmada. Embora precisem desesperadamente da liberdade que o movimento lhes daria, estão demasiado apegados ao poder (tantas vezes envenenado) que o patriarcado lhes deu. Aceitar ideais feministas seria rebaixarem-se ao nível da mulher, se aceitarem igualdade absoluta rendem-se também à imprevisibilidade do que é ser humano, já não se podem refugiar no seu género.
No que toca a odiar homens, o feminismo não é preciso para nada. Eles já se odeiam tanto uns aos outros. 

domingo, 25 de outubro de 2015

Freak Show

O algoritmo do facebook que decide o que há de anunciar é realmente uma coisa extraordinária. Deve ter um código de tal maneira sofisticado que só pode ter sido programado por um aluno de engenharia informática que ainda nem sequer passou o primeiro semestre e já acha que é o Alan Turing. Algures na internet, flutuando por aí, há um filho da mãe de um código que olhou para o meu perfil de facebook e fez as seguintes contas: mulher + idade fértil = posts sobre bebés. Mereço? Talvez. Mas preferia não.

Não é que posts sobre bebés me repugnem muito. Não são, sei lá, coisas a anunciar comícios da JSD. Sou bastante indiferente à coisa. Mas de todos os posts calhou-me na rifa um chamado “coisas que só as mães de meninos sabem”. Claramente, como sou patologicamente masoquista, fiz questão de clicar no link. E, depois de conseguir reagir ao horror que estava a ler, fiz questão de ler mais uma dezena de posts e de clicar em mais blogues e de ficar com cerca de 30 tabs abertas de mommy blogs portugueses. Moderação não é algo que me assista.

Mas pronto, este primeiro chamado My Baby Blue Blog é, aparentemente apenas a ponta do iceberg do horror show que é mommy bloggers de upper class que adoram heteronormatividade e colorcoding das crianças consoante o sexo. O post que citei tem milhares de partilhas e até tem uma sequela! E um post passivo-agressivo a dizer que lamenta que certas mães se tinham sentido ofendidas com o post original. Pessoalmente adoro este tipo de drama, até porque alimenta a minha fúria feminista. E quanto maior é a minha fúria feminista mais forte eu fico.

Assim de repente não tenho nada contra estas senhoras. A minha mãe é uma dona de casa e, embora eu ache que estas mommy bloggers parecem terem uma atitude muito pouco prática e, vá, um bocado supérflua (a minha mãe é uma dona de casa assim um bocado mais proletária), à questão toda de criar crianças e cozinhar e whatnot, não tenho nada se não respeito por mulheres que, ou decidiram ficar em casa, ou têm como interesse fundamental criar crianças e decoração de interiores. Acho que qualquer escolha que uma mulher faça, desde que seja informada, livre e em prol do seu bem-estar físico ou psicológico, é uma boa escolha.


 Nenhuma crítica minha será sobre isso.

Dito isto, estas senhoras estão completamente passadas do miolo.

Para já, as que encontrei, parecem ter desbloqueado um gene qualquer que as parece fazer só produzir rapazes ou, pelo menos, raparigas em menor quantidade. A maioria das que encontrei ou têm só meninos ou têm uma menina e o resto rapazes. Pronto ok, por mim tudo bem, a lotaria genética faz o que quer e ninguém manda nela e, mais do que secretamente, fico feliz por terem tão poucas meninas. Quando há gente que acha que ter rapazes em vez de raparigas é “muito mais dinâmico”, que subescrevem à noção de que as raparigas são x e os meninos y, que acham que as meninas são só para as barbies e para o cor-de-rosa e os meninos para os carrinhos e os dinossauros, não fico nada se não aliviada por demonstrarem tão pouco interesse no género feminino.

Estas senhoras acreditam mesmo que as meninas pequenas são espécies à parte, com interesses e temperamentos radicalmente diferentes. É-lhes inconcebível pensar que há por aí algures meninas que também se sujam e também gritam e pulam e correm e que têm uma imaginação fértil. Ah não. Para elas qualquer filha que produzissem seria algo semelhante a uma boneca: dócil e estática. Muito menos “dinâmica”, portanto. Até vão ao ponto de achar que as raparigas comem menos por design. Nunca viram, certamente, a minha irmã mais nova comer 10 salsichas de uma vez só, nem as amigas dela a comer 4 almôndegas do tamanho de um punho ao almoço.

E depois disto tudo ainda cultivam um culto da vitimização bizarro em que se queixam das inúmeras e extremamente reais (tenho a certeza) pessoas que as fazem sentir mal por só terem rapazes e lamentam a falta de conteúdo para mães de meninos na internet. Realmente é verdade, as necessidades dos meninos são tão desprezadas nesta nossa sociedade.

As que efetivamente têm raparigas são outro susto completamente diferente. É tudo princesa para aqui, “cada vez mais menina” para ali, penteados, roupas e passerelles. Perfeitamente assustador. E fotos! Fotos das meninas na praia, antes de saírem para o colégio (é sempre um colégio com esta gente), a pousarem ao pé de um cavalo, nas saídas de família. Sempre com local de compra dos ensambles em baixo, como é óbvio.

O que eu acho, muito sinceramente, é que, embora estas senhoras amem claramente as filhas, não gostam particularmente delas. Não gostam das filhas da mesma que maneira que não gostam de si mesmas. Infligem nas filhas o que a sociedade inflige nelas, qual vítima tornando-se bully. Mas temos que tomar responsabilidade pela violência que infligimos umas às outras. A minha mãe certificou-se de que se tinha libertado de todos os ideais cristãos e conservadores que lhe tinham sido incutidos antes de ensinar o que quer que fosse às filhas (e ao filho). E, tal como a minha mãe, elas têm uma responsabilidade para com as suas filhas, em protege-las de tudo o que as vão tentar obrigar a ser e a fazer. Não podem ser, em nenhuma circunstância, aliadas dos seus opressores. Não podem ser mais um agente que as mói gradualmente a vida toda.
  
Mas nem é o só o outlook em relação a diferenças entre géneros que me mete nojo. É tudo. Das fotos de batizado, da insistência em que as crianças rezem (especialmente as meninas, ai as meninas, afastem-se disso o mais depressa possível), aos desfiles de moda com crianças e à óbvio prostituição da imagem dos filhos. É bizarro.

E o pior é que, apesar da minha imagem de megacabra-3000, adoro crianças. São como os cães, muito puras e maleáveis a ideais socialistas. São boas e curiosas. O pior é quando crescem e a influência contínua dos adultos à sua volta as arruína completamente.


 Já vi acontecer em primeira mão e é uma coisa horrivelmente deprimente, crianças cheias de potencial a degenerarem em adolescentes fúteis que, por sua vez, hão de degenerar em adultos irrelevantes. Assim nada muda.

Acho que precisamos de mudar a maneira como vemos a maternidade. Temos que dar espaço às nossas irmãs para se encontrarem antes de irem por aí produzir mais gente. Ser pessoa é difícil, criar uma pessoa enquanto se tenta ser uma como deve ser deve ser ainda mais difícil. Acho que devíamos parar de empurrar as mulheres para a maternidade, mesmo que seja de uma maneira subtil. Não há nada de automaticamente louvável em ter filhos, especialmente quando, ao se revelarem ser pessoas a sério e não um sentido-da-vida™ instantâneo, frustram infinitamente as mães (e talvez os pais também mas onde é que andam esses palhaços? A julgar pelas senhoras bloggers não muito perto). Vamos cuidar dos que temos antes de ir fazer mais, pode ser? Dizer às mulheres que o seu valor depende dos seus filhos é uma violência, uma injustiça para as mães e para as crianças que nos mantém a todas sem recurso para sair do ciclo de opressão e ignorância.

domingo, 11 de outubro de 2015

Elege-me isto!

Ah, eleições! Adorei. Nunca na minha vida senti um processo eleitoral com tanta intensidade e, ui, que processo eleitoral este! Tão complexo e excitante, mesmo *UGH* forte. Não é todos os dias que surge este tipo de comoção na minha vida. Uma autêntica roller coaster de emoção.

Primeiro achei que estávamos todos condenados, que ao fim de mais 4 anos de PàF com maioria absoluta acabava a viver numa choupana com os meus pais algures na Nova Zelândia, a alimentar-me de raízes e pequenos roedores. Depois achei que, embora houvesse esperança, o PS não ia conseguir convencer nem comunistas nem bloquistas e ia acabar por ter que passar o OE abstendo-se. Mas agora? Agora, migos, estou muito satisfeita, refastelada num trono moldado a partir dos cadáveres de burgueses e capitalistas.

Não, mas a sério, vivemos tempos engraçados. Temos uma oportunidade histórica para instaurar uma utopia socialista e viver 20 anos de prosperidade ininterrupta. Há, no entanto, algumas coisas que me deixam um bocadinho nervosa.

Embora o PCP se tenha mostrado muito simpático e recetivo (um piscar de olho para ti, Jerónimo, que bem mereces), caminho que, eventualmente, o Bloco também deve tomar, preocupa-me o facto de isto parecer tudo depender única e exclusivamente do poder de empurro do António Costa. Parece-me que estamos só agora a despertar para o facto de a responsabilidade de negociar não ter obrigatoriamente que cair nos ombros do PS. Ainda admito mais ou menos a complacência do BE e o PCP em esperar ser cortejados (se até alguns bloquistas se acham no direito de se aborrecer por o PS não ter ganho as eleições, já não estranho nada) mas a da PàF começa a roçar o sórdido, tal como a do Sr. Presidente. É como se tivéssemos entrado numa twilight zone em que os partidos que têm a oportunidade de criar um governo alternativo e estável têm que lutar numa deathmatch política à margem da sociedade sem qualquer apoio constitucional enquanto a população observar, horrorizada, das bancadas. É good TV, admito, mas o meu pacote de dados não chega para eu ler o DN, o Público e o Expresso alternadamente todos os dias no autocarro.

O facto de o Aníbal não parecer inclinado a sequer considerar a legitimidade de um governo PàE (Portugal à Esquerda foi o nome que o meu irmão inventou para uma possível coligação PS+PCP+BE, ser super eloquente e engraçado corre na família) é também razoavelmente preocupante uma vez que não sei quão realista será a ideia de andarmos a encanar a perna à rã até haver eleições presidenciais. Mas podemos sempre ter esperança que o Marcelo não se arme em estafermo e saiba ao menos distinguir a boca do rabo.

E quão forte será a pressão interna, e externa (dos que ainda acham que os comunistas comem crianças) para manter o António Costa afastado dos perigosos radicais da extrema esquerda, cega ao facto de que um moderado com mão firme em radicalismo ideológico de esquerda só pode trazer sangue novo à cena política e a mudança que o povo tanto pede?

Tudo isto são coisas que me preocupam mas o que me preocupa mesmo é não saber. Ainda tenho úlceras nas paredes do estômago da correria pré-eleições e agora cai-me isto em cima. Uma esquerda unida não só é tudo o que eu para os anos e para o natal como está no meu top 5 de fetiches. Não é bonito provocar um senhora desta forma.

No fundo, independentemente do desfecho desta situação toda, só quero que retirem o seguinte deste molho de brócolos: o grande proponente da mudança não foi o BE nem o PCP nem os pequenos partidos de pseudointelectuais mas sim o António Costa que, com a determinação de vinte bois, andou de um lado para o outro a tentar colar o país com cuspo. Se tudo o resto falhar, que ao menos tomemos consolo no facto de que não houve falta de tentativas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Deslarguem-me

Ultimamente tenho-me sentido perseguida. Parece que está um comunista ao virar de cada esquina só para me chatear.
 
Primeiro foi um colega de faculdade, um comunista da variedade a-coreia-do-norte-não-é-assim-tão-má, que me azucrinou a cabeça o almoço todo com todo o tipo de propaganda inovadora como “o PS é a direita” e “devíamos sair da União Europeia já amanhã” e ainda “não podemos confiar em economistas”. Já ouvi isto tanta vez que sinceramente já nem gosto de discutir estas coisas, agora só quero mesmo que me deixem comer os meus fusilis com atum em paz.
 
Um ou dois dias depois desta discussão, o meu grupo de feministas no facebook andou a repostar uma notícia sobre como uns quantos comunistas tinham sido atacados à porta de um comício por neo-nazis. Ok, é uma coisa terrível, os neo-nazis são lixo e os pobres comunistas, mesmo os da variedade mais irritante, não merecem apanhar na cara porque razão seja. Mas o que me irritou aqui é que todos os posts foram acompanhados por algum tipo de afirmação megalómana como “eles nunca nos silenciarão! Temos orgulho em ser anti-racistas e feministas e nunca vamos desistir!” ou “nós é que somos verdadeiramente pelo povo! A revolução vem aí!”. Isso é que não, vamos lá ter calma.
 
Este tipo de retórica é extremamente preguiçosa. Há por aí muito comunista que acha que, como a sua ideologia é “humanista por base”, já tem a papinha toda feita, já tem o cartão de feminista e amigo das minorias e agora, pronto, já é a autoridade máxima nestas coisas. Nem tem que fazer mais nada.

 
Para já, o partido comunista foi o único a votar unanimemente, com completa disciplina de voto, contra a legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo. Depois, já ouvi muito comunista dizer-me na cara que é feminista mas que, só por acaso, também é contra o sistema quotas. Para não falar dos panfletos que a JCP andou por aí a distribuir sobre quão nobre e heroico foi o exército vermelho na segunda guerra mundial, tendo esquecido completamente os milhões de mulheres que foram violadas e mortas entre a Rússia e Berlim por eles, algumas até mesmo irmãs russas.

Agora podem-me dizer “ai mas nem toda a gente é assim, não podes generalizar ao partido todo”. Isto é 100% válido, nenhum partido é inteiramente constituído por social justice warriors com um track record perfeito mas o que não podem fazer é dizer que “ah nós somos os campeões do povo” e depois esperar que eu acredite nisso. Migos, são um partido como os outros. O PS é feito de gente boa e gente má, o BE a mesma coisa, vocês não são mais nem menos e tenho a certezinha que não foram vocês que inventaram o feminismo. Uma coisa é dizer que o partido é baseado numa ideologia intrinsecamente humanista, outra coisa é ele ser mesmo. No que toca a mulheres-e-minorias o PCP tem feito rigorosamente zero. A única coisa que os vejo fazer é esfregar as suas mãozinhas autoritárias enquanto antagonizam o PS (como se fosse esse o verdadeiro inimigo) e dizer mal da União Europeia (não que eu seja a maior fã da UE mas preciso de um bocadinho mais do que “vamos fazer eventualmente um estudo sobre como vamos sair do euro e da UE de forma sustentável depois de já termos saído” antes de votar num partido que quer, essencialmente, deixar Portugal grávido e descalço no rabo da europa).
Os tempos evoluíram, há algum tempo fazia sentido concentrar tudo nos direitos do proletariado como fação homogénea da sociedade mas agora sabemos mais e sabemos que é preciso atacar desigualdades institucionais que não se resumem só à luta de classes. Não é que eu não concorde com as posições de defesa dos trabalhadores do PCP, há muita coisa no programa eleitoral deles com que eu concordo, só acho que eles fossilizaram um bocado e que se recusam não só a oferecer soluções coerentes e estudadas para o país como tendem a ignorar (ou mesmo reescrever, que é mais grave) a realidade. 

Portanto, onde eu quero chegar é: gosto de algumas ideias comunistas mas não gosto do partido comunista nem de nenhum comunista com quem tenha alguma vez dialogado e queria mesmo que por favor saíssem de cima de mim e do meu feminismo porque não tem nada a ver com eles até porque não têm grande autoridade para falar sobre isso (na esquerda, são o único partido que não tem minorias nem mulheres para mostrar porque garantem a pés juntos que vão “fazer um governo que representa o país de forma realista”). E, por favor, se querem brincar ao revolucionários, vão antes votar no BE. Eles são muito menos revisionistas e tenho quase a certeza de que a Mariana Mortágua come burgueses ao pequeno almoço.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Mordam-me

Descobri recentemente na página da minha faculdade (onde se estuda ciências e pouco mais) uma estatísticas muito engraçadas, com gráficos e tudo.

Observem:

inscritos

Aqui temos a distribuição dos inscritos na minha faculdade por sexo. Como podem ver ainda não é bem 50/50 mas para lá caminhamos. As ciências e a tecnologia têm vindo a tornar-se mais acessíveis a jovens moças ao longo dos anos mas ainda não vemos a paridade que seria de esperar numa sociedade verdadeiramente igualitária. Estes gráficos não mostram nada de novo nem de surpreendente. 49/50 para os inscritos pela primeira vez numa faculdade de ciências é muito sólido e deixa-me contente. Tudo nos conformes, muito moderno, muito conveniente.

Mas agora vejam este:

diplomados

Mesmo havendo menos mulheres inscritas por ano, há mais mulheres diplomadas. Incrível.

Agora, se eu quisesse mesmo misandrar o pessoal e ser aquilo que as pessoas gostam de dizer que o feminismo é na realidade, provavelmente aproveitava esta oportunidade para dizer que as mulheres são inerentemente superiores aos homens e claramente mais inteligentes. Mas não tenciono fazer isso porque a) Não é verdade e b) Não sou estúpida.

Estou inteiramente convencida de que os homens e as mulheres enquanto grupo têm exatamente o mesmo potencial e são igualmente bons a tudo. Não há cá “os homens são melhores nas matemáticas e as mulheres são melhores em comunicação e letras”. Os meninos e as meninas são todos igualmente bons a tudo, depois diferenciam-se consoante as suas preferências e as suas experiências pessoais. Isto é o que eu acho. Vocês podem achar outras coisa mas provavelmente vão estar errados. Só para avisar.

O que eu acho que está a acontecer aqui é que, na grande sofreguidão de manter um sistema opressivo baseado na supremacia masculina, os homens deram um tiro no pé. Não sou especialista em construir e manter sistemas opressivos mas acho que é um erro comum. Coisas que acontecem, não é motivo de vergonha.

Com um sistema patriarcal vem também uma grande cultura de entitlement. Os homens acham que têm direito a tudo: a mulheres, a dinheiro, a sucesso. Às vezes o pessoal esquece-se é que, mesmo sendo homem, de vez em quanto é preciso trabalhar pelas coisas. Uma pessoa ouve desde jovem que é super especial e super esperta e depois pronto, acomoda-se. Se eu tivesse um euro por cada moço que é “muito inteligente mas preguiçoso” ou que “sabe tudo mas o/a professor/a não o quer passar” estava rica. Tão rica.

É que depois não só os meninos que usam estas coisas  para justificar o seu fracasso. É toda a gente à sua volta. Já ouvi uma moça dizer que o namorado sabia a matéria toda de uma cadeira mas que a professora era má ao ponto de o chumbar três anos seguidos de propósito. Ai miga, vais tão enganada.

Não é que eu esteja a defender o sistema de ensino (superior ou otherwise) nem os professores (Deusa sabe que eu os detesto a todos). Acho que se reformássemos o sistema de ensino ficava toda a gente mais feliz, homens e mulheres. Mas também acho que os homens se deviam responsabilizar mais pelos seus fracassos e cabe-nos a nós, mulheres, ajudar nesta nobre causa. Ou seja, nada de exacerbar o ego de meninos medíocres, nada de se referir a terceiros como génios e, sobretudo, sempre que se ouvir um gaiato que ainda nem fez cálculo I dizer que é o próximo Richard Feynman corrigi-lo com algo do estilo “está calado, Eduardo, ninguém gosta de ti e as tuas calças de fato de treino são esquisitas, vai mas é estudar os teus integrais e deixa-me em paz”.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

As peripécias das peripécias dos PT

Uma das coisas que me deixa mais triste nesta terra é quando algo demonstra ter imenso potencial e depois auto-destrói-se numa bola de merda. Então quando é produto nacional, ui, até me vem uma lágrima ao olho.

Um destes casos infelizes é a página “Peripécias dos PT”.

Embora nunca tenha sido grande fã, admito que ia lá de vez em quando e achava muita coisa francamente engraçada. Sempre foi um bocado hit and miss (há por ali muito elitismo e muita coisa a descair para o “porca” e “baleia”), mas as screenshots de comentários nojentos a  fotos de moças são hilariantes e sempre adorei ver as fotos de perfil que eram fotos de fotos emolduradas de senhores da altura em que ainda andavam na guerra colonial. Brilhante. Às vezes fazia lembrar o subreddit creepyPMs e isso deixava-me muito orgulhosa.

Sinceramente não sei se só reparei agora ou se sempre foi assim mas, de qualquer forma, parece que ultimamente tem tomado uma direção que é, ao mesmo tempo, completamente previsível e muitíssimo deprimente. Agora apela consistentemente ao menor denominador comum e os responsáveis pela páginas em vez de tentarem dar uma direção apropriada à coisa parecem querer fomentar este tipo de comportamento, o que, infelizmente para eles, só vai resultar no colapso da página porque o tipo de coisa que eles têm para lá não é sustentável a longo prazo (faz lembrar aquela página das “pitas” cujo nome não me recordo mas que também desapareceu por razões semelhantes).

Os posts mais engraçados sempre foram aqueles em que o achincalhamento era dirigido para cima. Ou seja, pessoas eram buéde gross na internet para outras pessoas e depois eram achincalhadas. Fair enough. Nestes casos não há nenhum grupo oprimido a ser gozado simplesmente por fazer parte desse grupo oprimido. É clean wholesome fun para toda a família.  Mas pegar em fotos de pessoas que não estão a magoar ninguém nem a ser desagradáveis e gozar com elas porque se vestem ou agem de maneira menos comum tem literalmente zero graça.

Um dos casos mais recentes é o de um jovem gay (pelo menos foi o que me pareceu pela conversa) que tem uma expressão de género mais colorida cuja foto está a ser usada como foto de perfil da página das Peripécias. A sua única ofensa é literalmente expressar a sua individualidade. O cachopo está obviamente confortável consigo próprio mas mesmo assim têm que ir cagar postas de pescada para cima dele.

Vamos ler comentários.

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Demonstrámos apoio pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo e agora esta gente quer tirar fotos na paz do senhor e ter facebooks e divertir-se! When will the madness end????

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Pessoalmente, nunca consigo perceber nada do que os senhores do PNR dizem porque, juro pela deusa, que sempre que um deles começa a falar só oiço isto.

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Sim, por mitose e tudo. Tenham medo, tenham muito medo.

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Breaking news! Opressão violenta de pessoal da comunidade LGBT é buéde fixe! E o seu comportamento pode ser corrigido! NICEEE!

Há muitos outros comentários engraçados, basta ir à página, há imenso por onde escolher. Atirem uma pedra, de certeza que acertam em merda.

Este tipo de coisa tem zero graça porque está a cagar num grupo que já está bastante habituado a que lhe caguem em cima. Nem sequer estamos a falar de “aha esta pessoa é pateta e está a fazer coisas patetas” estamos a falar de comentários violentamente homofóbicos. Dirigir o achincalhamento para baixo é o tipo mais preguiçoso de humor, o que ainda por cima é tipo o mais pequeno chapéu do mundo num bisonte de nojice. Ofende-me enquanto feminista e enquanto apreciadora de bom humor.

Gente com expressões de género diversas precisam de ser celebradas e não postas on display de forma a que possam ser gozadas por um circlejerk homofóbico em que cada um tenta mostrar o seu nojo da forma mais excessiva possível para estar in. Ninguém aprende nada com isto, é deprimente e francamente provinciano.

Depois temos um post dos senhores que gerem a página sobre como as “feminazis” (adoro quando alguém usa este termo não ironicamente porque o feminismo é LITERALMENTE o mesmo que o holocausto??? Adoro, isto sim é humor) estão a fazer muitos reports e, consequentemente, harshing os swags todos deles. Não há nenhum swag que esteja un-harshed. Não é que eu não ache o histerismo deles hilariante, é só que isto faz-me lembrar aqueles senhores de há mil anos atrás que achavam que o Thomas Edison era feiticeiro, que a matemática era bruxaria e que ficavam muito confusos com as estações do ano. Para além disso andam a partilhar a página do facebook da moça que eles acham que é responsável pelas denúncias e tenho quase a certeza que isso é uma forma qualquer de doxxing e nem o Reddit tolera coisas destas, que falta de classe.

No futuro, onde alguns de nós vivem, há consequências para este tipo de comportamento. Denunciar a página por homofobia e transfobia e todo o tipo de fobias é perfeitamente natural e civilizado, não é um atentado a nada a não ser à falta de decência e de sentido de humor.

O problema deste tipo de discurso é que fomenta a discriminação e não vale de nada igualdade perante a lei se no dia-a-dia há tanto pessoal a negar o direito à humanidade a gente com a qual não se identificam.

Espero mesmo que daqui a uns anos, quando formos todos mais crescidos, esta gente consiga olhar para trás e orgulhar-se de ter deixado de ser um trambolho. Estou a torcer por toda a gente, pela segurança das juventudes LGBT e pela sua liberdade de expressão e pelas juventudes que fazem estes comentários claramente desinformados, espero que cresçam e aprendam um bocadinho, que não se deixem levar tanto pelo que é supostamente “normal”. Ficávamos todos tão mais confortáveis.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Os bois pelos nomes

Como qualquer misandra a tempo inteiro que se preze, estou mais ou menos familiarizada com os ensinamentos da misandra-mor, mestre da opressão máxima masculina: Andrea Dworkin. Ao contrário do que se pensa, ela nunca chegou sequer a tratar os homens como os homens tratam mulheres, não é nenhum bicho-papão e está muito MUITO longe das histórias de horror que ouvi sobre ela antes de me dar ao trabalho de ler os seus livros. É verdade que tem algumas lacunas graves (por exemplo, descai-lhe muito o pé para a transfobia, que é uma marca muito triste de muitas feministas da sua geração) mas é como tudo na vida, deita-se fora o mau, fica-se com o bom e constrói-se em cima disso.

Andrea Dworkin tem ideias muito interessantes sobre muita coisa e é preciso reconhecê-lo. Uma dessas ideais tem a ver com uma das ferramentas mais eficazes na opressão das mulheres: o poder de dar nomes e definir conceitos. O homem enquanto entidade coletiva tem sido responsável por definir basicamente tudo: o que é ser mulher, o que é ser homem, o que é que é aceitável dentro desses parâmetros, o que se deve chamar aos rebeldes que se desviam do que ele próprio definiu. Enquanto não formos capazes de definir as nossas próprias experiências nos nossos próprios termos nunca seremos livres. Qualquer abordagem feminista, por muito radical que seja, estará sempre definida num contexto patriarcal e, por isso, nunca será perfeitamente eficaz.

No livro “Pornography: Men Possessing Women” há uma passagem que ilustra isso perfeitamente:

It is the naming by decree that is power over and
against those who are forbidden to name their own experience; it is
the decree backed up by violence that writes the name indelibly in
blood in male-dominated culture. The male does not merely name
women evil; he exterminates nine million women as witches
because he has named women evil. He does not merely name
women weak; he mutilates the female body, binds it up so that it
cannot move freely, uses it as toy or ornament, keeps it caged and
stunted because he has named women weak. He says that the
female wants to be raped; he rapes. She resists rape; he must beat
her, threaten her with death, forcibly carry her off, attack her in the
night, use knife or fist; and still he says she wants it, they all do.
She says no; he claims it means yes. He names her ignorant, then
forbids her education. He does not allow her to use her mind or
body rigorously, then names her intuitive and emotional. He
defines femininity and when she does not conform he names her
deviant, sick, beats her up, slices off her clitoris (repository of
pathological masculinity), tears out her womb (source of her
personality), lobotomizes or narcotizes her (perverse recognition
that she can think, though thinking in a woman is named deviant).
He names antagonism and violence, mixed in varying degrees,
“sex”; he beats her and names it variously “proof of love” (if she is
wife) or “eroticism” (if she is mistress). If she wants him sexually he
names her slut; if she does not want him he rapes her and says she
does; if she would rather study or paint he names her repressed and
brags he can cure her pathological interests with the apocryphal
“good fuck. ” He names her housewife, fit only for the house, keeps
her poor and utterly dependent, only to buy her with his money
should she leave the house and then he calls her whore. He names
her whatever suits him. He does what he wants and calls it what he
likes. He actively maintains the power of naming through force and
he justifies force through the power of naming. The world is his
because he has named everything in it, including her. She uses this
language against herself because it cannot be used any other way.

 

As mulheres lutam todos os dias contra isto. O direito à auto-determinação e às nossas próprias experiências é constantemente minado, seja a completa negação das estatísticas sobre violação e assédio sexual ou a recusa em aceitar aquilo que escolhemos para nós próprias: se queremos ser alguma coisa tem que ser num contexto muito específico pré-determinado.

Não podemos ser engenheiras nem matemáticas nem físicas, pelo menos não como eles nem como os seus heróis, nunca como eles porque o génio e a predisposição egomaníaca que são necessários para ser bem sucedido não tocam às mulheres. Não podemos ser artistas a não ser de uma forma detached e pouco ameaçadora porque não foi isso que eles escolheram para nós, porque não temos nada para dizer. Não podemos definir a nossa própria sexualidade, não podemos explorar a nossa identidade como quisermos porque da introspeção vem a auto-determinação e daí vem uma ameaça ao status quo.

Andrea Dworkin profetizou que as feministas terão que reclamar o direito de nomear e de definir se querem realmente libertar-se da influência de um sistema opressivo. Acho que é isso que temos agora de forma mais ou menos mainstream e isso deixa muitos homens muito irritados. Temos agora juventudes a usar palavras como demissexual, assexual, pansexual, não-binário, genderfluid, genderqueer, demigirl, demiboy, agender e muitas outras. Se estas palavras descrevem algo válido no paradigma anterior é irrelevante, trata-se de gente que vinha de uma posição em que não tinha maneira de expressar a sua identidade passar a usar linguagem que está completamente fora do controlo da classe dominante, não faz sentido tentarmos sequer julgar isto com as mesmas regras.

As mulheres transgénero são vítimas de violência e de uma ostracização particularmente cruel por razões semelhantes. Elas são a epítome da rejeição das normas do sistema patriarcal, o facto de elas ousarem afirmar que são mulheres distorce por completo a narrativa que os homens inventaram para o que é ser mulher. A violência que sofrem é prova de que apenas a sua existência, o facto de se auto-afirmarem enquanto as mulheres que são e de definirem as suas experiências nos seus próprios termos, chega para pôr em causa o seu precioso sistema. Insegurança gera medo, medo gera violência.

Encontramos oposição também quando se pega em palavras que já existem (tipo slut) que são usadas como armas de arremesso e se faz uma tentativa de as reapropriar. Pegar em algo que já foi definido pela classe dominante e redefini-lo de acordo com as necessidades de outros abre também a porta para a quebra da hierarquia estabelecida. 

Se os homens deixarem de ter poder sobre o que é uma mulher, sobre como elas se veem a si mesmas e se afinal são mulheres a tempo inteiro ou nem por isso, deixam de viver de maneira privilegiada. Deixa de haver “O Homem”, o modelo para experiência humana, e os outros. Se “O Homem” deixar de ser o standard então terá que reavaliar a sua posição nesta nova sociedade, algo perfeitamente inédito.

He can theorize,
fantasize, call it science or art; whatever he says about women is
true because he says it. He is the authority on what she is because
he has made her, cut away at her as if she were a piece of stone until
the prized inanimate object is extracted.

domingo, 9 de agosto de 2015

Responsabilidades

Já há algum tempo que tenho estado a aproximar-me de uma posição mais anti-pornografia mas acho que finalmente solidifiquei a minha opinião.

A pornografia é perfeitamente aceitável na teoria, não tenho nada contra. O problema está quando passamos à prática. Recentemente vi um documentário que ilustra bem quão mal a coisa pode correr, chama-se Hot Girls Wanted e é produzido pela Rashida Jones que, para além de ser super gatona, é super inteligente e só tem boas ideias.

hotgirls

O documentário é sobre umas moças que, como muitas outras, decidem ir para Miami ser amateur porn stars. Aparentemente isto é uma coisa que acontece muito lá nas Américas. Elas são muito MUITO novas, tipo 18-anos-novas, e, embora saibam ao que vão, acabam por ser sujeitas a um monte de coisas menos agradáveis, algumas das quais apenas liminarmente consensuais.

A verdade é que elas já são maiores e vacinadas e, supostamente, entram neste tipo de indústria de livre vontade. Mas temos que reconhecer que elas (e muitas outras) foram criadas num clima muito violento de constante sexualização de mulheres, muitas vezes sem o amortecimento de pais cultos e bem equipados para servir de buffer a este tipo de coisa. Este tipo de clima, especialmente direcionado para meninas com menos acesso à educação e/ou mais pobres, cria a noção de que a única marketable skill que têm e, consequentemente, a única maneira que têm de sair da situação em que estão é usando a única coisa que a sociedade valoriza nelas: o seu sex appeal, quão fuckable são, quão dispostas estão a ser partidas em bocadinhos pequeninos e repackaged para servirem o desejo masculino.

É perfeitamente compreensível que muitas mulheres prefiram sex work à violência da pobreza e concordo que, quando tomam esta decisão, devem ser protegidas legalmente. Mas também acho que deve haver uma razão qualquer para haver tanta oferta de moças de 18 anos que querem entrar no mundo da pornografia.

Embora eu ache bem termo-nos libertado de muitas noções puritanas que só serviam para oprimir a liberdade sexual das mulheres, parece-me que a suposta revolução sexual foi reapropriada pelo patriarcado e acabou por servir exatamente para a mesma coisa. As mulheres libertaram-se de uma coisa para apenas se encontrarem presas noutra pouco depois. Não quero dizer que estávamos melhor antigamente, longe disso, mas não sei até que ponto este novo tipo de opressão será melhor.

As meninas são sexualizadas desde tão pequeninas e formatadas para pensarem que o seu valor está intrinsecamente ligado a quão sexualmente desejáveis são que não é particularmente surpreendente se começarem a expressar a sua sexualidade de maneiras menos saudáveis.

A pornografia, supostamente, deveria ser uma extensão positiva da libertação sexual das mulheres (e, consequentemente, dos homens também mas meh) mas, em vez de facilitar o discurso sobre a sexualidade e tornar a relação de toda a gente com o sexo mais saudável, temos esta abominação, este braço particularmente fálico do patriarcado que é um reflexo exagerado de todo o sexismo que já existe por aí.

É que depois forma-se um ciclo vicioso em que como a internet é tão boa e informativa, a pornografia acaba por ser ferramenta de aprendizagem relativamente à intimidade (o que poderia muito bem ser mas enfim, os homens estragam sempre tudo), mas depois a única coisa que faz é ensinar os meninos que humilhação sexual é buéde fixe e às meninas que é só isso que podem esperar dos seus parceiros sexuais, o que, por sua vez, as empurra para o mundo da pornografia mais tarde porque aprenderam desde jovens a achar este tipo de coisa excitante e perfeitamente normal.

A ideia de que a pornografia, sendo legal, é perfeitamente regulamentada é também falsa. Há pouquíssima legislação sobre pornografia e o tratamento das atrizes é perfeitamente atroz, muitas são sujeitas sem consentimento prévio a atos sexuais com os quais não estão confortáveis, desenvolvem problemas de saúde graves cujo tratamento têm que ser elas a pagar e a prevenção de DSTs e de gravidezes indesejadas é mínima…

A pornografia, portanto, não só não é inofensiva como é ativamente nociva. Não se trata apenas de fantasia uma vez que toda a violência sexual que vemos está efetivamente a acontecer a alguém. Isto não quer dizer que eu ache que devesse ser ilegal, se fosse provavelmente seria ainda pior, mas sou decididamente anti-pornografia no sentido em que não a consumo, não apoio o consumo e não acho que ninguém devesse apoiar a sua produção no paradigma atual. Sou a favor de mais leis que protejam as atrizes e de um discurso mais saudável à volta da sexualidade feminina para que as raparigas mais jovens possam tomar decisões 100% informadas e despoluídas sobre o seu futuro.

Por favor vejam o documentário, vomitem-se todos e depois juntem-se a mim numa cruzada puritana para oprimir a sexualidade masculina. Ámen.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Feminismos do além #1–Decoração

 
Há uns tempos decidi que ia fazer uma espécie de showcase de fellow feminists: basicamente tudo o que seja arte, artigos ou gravações de cantos de baleias auto-tuned usadas como peças de intervenção política…  
A primeira contribuição de forças alheias chegou hoje! 
  
“entre peças silenciosas a conversa é séria para defensores do bruto têm gostos delicados olhares ferozes gritam sobre argumentos razoáveis só com o café vêm as tréguas o café tem espírito e anda os mesmos olhos aguçados juram que tem corpo e pose a pausa é breve, retomam-se os ataques as peças dão ambiente mas a conversa é séria podem ter gostos delicados mas há que defender o bruto“

- Encontrado num guardanapo, no café da esquina




domingo, 2 de agosto de 2015

Telhados de vidro

Eu gosto tanto de dizer mal de coisas que agora até já digo mal da maneira como as pessoas dizem mal de coisas. Acho que, se alguém se vai dar ao trabalho de cagar postas de pescada, que ao menos o tente fazer de forma mais ou menos construtiva.

 
Por exemplo, eu adoro dizer e ouvir dizer mal do 50 Shades of Grey mas, ultimamente, há imensa gente (sobretudo homens, são sempre homens) que me tem arruinado este prazer muito simples. Diria que podemos distribuir os críticos em duas categorias distintas consoante a sua abordagem à coisa:
 
1. O 50 Shades of Grey é um livro estúpido escrito de uma maneira estúpida e as suas fãs são estúpidas e fúteis e só mostra como as mulheres gostam de homens alfa que as tratam mal.
 
2. Embora eu respeite as fantasias sexuais de todas as mulheres e confie inteiramente na sua capacidade de distinguir a realidade da ficção, acho que o 50 Shades of Grey só ajuda a normalizar relações abusivas e o seu sucesso é um sintoma de um sistema opressor que diz às mulheres que este tipo de coisa é desejável.

 
São coisas diferentes. Acho que a primeira abordagem vem, sobretudo, de uma falta de capacidade crónica de fazer um bocadinho de introspeção e ninguém, NINGUÉM neste mundo é menos capaz de introspeção do que o pseudo-intelectual. O meu ódio por pseudo-intelectuais corre tão fundo que, se pudesse, ressuscitava o Bukowski só para poder lutar com ele até à morte e mandá-lo direitinho de volta para a campa.
 
Há uns tempo deparei-me com declarações do Alejandro Iñarritu sobre filmes de super-heróis e o senhor basicamente catapultou para o topo da minha lista de gente com quem teria que lutar se alguma vez visse na rua por uma questão de imperativo de moral. Este senhor disse, em público e de forma totalmente não irónica, o seguinte:
“I sometimes enjoy them because they are basic and simple and go well with popcorn,the problem is that sometimes they purport to be profound, based on some Greek mythological kind of thing. And they are honestly very right wing. I always see them as killing people because they do not believe in what you believe, or they are not being who you want them to be. I hate that, and don’t respond to those characters. They have been poison, this cultural genocide, because the audience is so overexposed to plot and explosions and shit that doesn’t mean nothing about the experience of being human.”  
Nada produtivo, na minha opinião. Um típico caso 1. Incrivelmente trágico.
 
Mas o que me mata mesmo nesta situação é que, embora ele tenha razão nalguns pontos, o Birdman (que lhe valeu a adoração de sabe deus quantos basic white breads) sofre exatamente dos mesmo defeitos.
 
É que é verdade que os filmes de super-heróis são repetitivos, pouco imaginativos, culturalmente irrelevantes e horrivelmente limitados no que toca a representação de mulheres e minorias, mas o Birdman também é isso tudo e até consegue ser pior porque finge não ser. A história do homem branco cishetero que tem uma crise existencial e quer vingar no mundo não só já foi contada um milhão de vezes como foi sistematicamente contada de uma maneira tão preguiçosa e francamente masturbatória que deixou de ser culturalmente relevante há muito tempo (se é que alguma vez foi). O senhor Iñarritu pode gritar ao vento o que quiser que os filmes dele são sobre a experiência humana mas a última coisa que produziu é tão unrelatable e pretensiosa que me custa acreditar que faça alguém neste mundo pensar sobre o que quer que seja.
 
Se calhar a ideia é essa. Se calhar é tão semelhante a todos os filmes de super-heróis porque é suposto ser uma crítica ao género. Se calhar. Mas, mesmo se for, não acho bem ele ande por aí a apontar o dedo ao pessoal por fazer filmes “right wing” quando a sua crowning jewel é um pedaço de lixo apolítico com zero carga moral que, no melhor dos casos, é uma sátira convoluted e sobre produzida de um género que nunca teve pretensões a ser uma superior art form e, no pior, é a história de um homem extremamente desagradável que se acha artisticamente superior a toda a gente e a sua luta para que isto seja universalmente reconhecido (o que, pensando bem, se calhar é mais autobiográfico do que seria de esperar).
 
Até porque ele próprio diz primeiro que o problema é quando os filmes de super-heróis tentam ser profundos. O problema dele é, portanto, quando tentam fazer o que ele faz mas de uma maneira mas acessível. Depois mais no final da citação temos um backtracking parvo e afinal já é tudo sobre a juventude estar perdida e já ninguém querer ver filmes profundos. Sinceramente já não tenho paciência para isto. O pseudo-intelectual é, por definição, um cobarde e intelectualmente desonesto, ele torce tudo para caber numa narrativa estúpida que ele criou em que as massas são ovelhas por escolha própria enquanto ele faz parte dos poucos iluminados que ainda não sucumbiram ao veneno que as grandes indústrias do cinema nos querem obrigar a consumir.
 
O que o Iñarritu não consegue ver é que, se o que ele descreve é um genocídio cultural, então ele é um participante ativo. Eu pessoalmente acho que ele está só salty porque não se fazer lembrou de fazer o Mad Max antes do George Miller.

domingo, 19 de julho de 2015

Ainda isto

Cansa-me a beleza  escrever sobre o aborto mas, pronto, aqui estamos nós outra vez.

Talvez porque começou a ver os ratos abandonar o navio, o governo decidiu juntar uns amigos às taxas moderadoras e agora temos toda uma panóplia de coisas giras que vão ser aprovadas.

Em causa estão alterações como passar a ser obrigatório a mulher ter acompanhamento psicológico e de um técnico social quando decide interromper a gravidez. Outra das mudanças passa pela introdução de taxas moderadores na interrupção voluntária da gravidez. E os  médicos objectores de consciência deixam de estar excluídos das consultas, havendo mais reserva sobre a informação relativa a essa objecção.

Eu gosto de pensar que sou uma pessoa razoável e que consigo compreender uma grande quantidade de pontos de vista mesmo que não concorde com eles. Mas às vezes, por muito que tente, não me sai nada. Nem mesmo imaginando que vivo num universo alternativo em que tudo o que é estúpido faz perfeito sentido. Esta história dos objetores de consciência é uma dessas ideias.

Se calhar é porque nunca me deparei com uma situação sequer remotamente semelhante, mas imaginem que uma pobre senhora quer abortar o squatter que vive dentro dela sem pagar renda, quando se vai submeter a quinze dias ou que raio lá é de “acompanhamento psicológico”,por acaso, calha-lhe na rifa um objetor de consciência. Quem é que fica mais enriquecido com esta experiência? A senhora não é de certeza, que tem que lidar com a resistência passiva de um médico que não lhe sai de cima da pila embora não a conheça de lado nenhum. E o senhor médico (vamos assumir que é um senhor médico embora também haja muitas senhoras médicas que gostam de denegrir as suas irmãs por causa de uma mistura de falta de auto-estima e necessidade de agradar à classe dominante), o que é que ele ganha com isto? É objetor de consciência por isso não quer ter nada a ver com abortos, nem sequer quer ouvir falar disso, mas vai dar-se ao trabalho de ir às consultas todas de acompanhamento para poder antagonizar senhoras em posições menos felizes.

O meu pai foi objetor de consciência na altura em que a tropa era obrigatória. Sabem o que é que ele fez? Ficou em casa. Sabem o que é que ele não fez? Foi à tropa na mesma só para se sentar nas bancadas a gritar com toda a gente e dizer-lhes que estavam a fazer a coisa errada e que ele tinha o moral high ground sobre toda a gente.

Eu estava convencida que os médicos estavam bound por um juramento qualquer que implicava ajudar toda a gente independentemente das opiniões pessoais (e, consequentemente, biased) que pudessem ter. Mas aparentemente não, os médicos podem escolher quando é que fazem o trabalho quando lhes compete e quando é que preferem não porque é mais importante privar mulheres da sua autonomia corporal.

Estas novas medidas só têm como objetivo castigar e infantilizar mulheres por causa do que fazem na sua vida privada (e, possivelmente, apelar a uma base de eleitores mais reacionários). Não deviam poder abortar porque têm que sofrer as consequências dos seus atos e porque ai jesus que a toda a vida é sagrada, especialmente quando a lei estipulou o contrário e podemos usar isso para ostracizar e humilhar organismos com sistemas nervosos efetivamente desenvolvidos.

É tão chato termos que falar disto quando já referendámos a questão há tanto tempo. É pena mas a democracia é mesmo assim. Eu ando a gramar com estes senhores no governo há muitos anos e nem votei neles mas respeito mais ou menos o processo. Esta gente que não está contente com a despenalização do aborto só tem que calar e gostar. Não me macem mais com isto, por favor.  

terça-feira, 7 de julho de 2015

J'accuse!

Esta história toda recente das taxas moderadoras da interrupção voluntária da gravidez e se as senhoras devem ou não ter que me olhar o cluster de células que vão abortar olhos nos olhos (se ele os tivesse, claro) e assinar a ecografia faz-me lembrar o último episódio de Game of Thrones. Quando a Cersei tem que andar nua no meio de uma multidão que lhe cospe em cima enquanto há uma freira com um sino a dizer "shame" ininterruptamente atrás dela.
 
Acho que o princípio é um bocado o mesmo. A cena provavelmente foi escrita pelos senhores que fizeram pressão para que a IVG já não usufruísse de isençao de taxas moderadoras e que, provavelmente, querem atribuir uma freira e um sino a todas as mulheres que escolherem fazer um aborto - os senhores do “Pelo Direito a Nascer”.
 
Se forem à página deles conseguem verificar que não só não há ninguém que saiba programar em html decentemente nas suas fileiras, como eles também são todos uns palermas. Eles propõem uma lei a que chamam "lei de apoio à maternidade e à paternidade". A sua proposta de lei é ainda mais descabida do que eu inicialmente pensava. Dispara em todas as direções, até querem introduzir propaganda nas escolas sobre como o aborto é muito mau e as mulheres que o praticam deviam ir todas presas. Parecem não compreender que apoio à maternidade tem que prossupor necessariamente apoio às mulheres uma vez que são elas que vão ter as ditas crianças.
 
Independentemente do papel destes caloteiros, uma coisa é verdade: o pessoal está muito determinado em cobrar taxas moderadoras na IVG. A justificação oficial tem qualquer a ver com o facto de a IVG ser uma coisa como outra qualquer que não deve ser equiparada à gravidez de nenhuma forma e com o facto de sermos governados por uns reacionários ranhosos que não têm vergonha na cara e que claramente odeiam mulheres.
 
O problema aqui é que, para a despenalização da IVG ser relevante, tem que ser acessível a toda a gente mas, especialmente, às mulheres mais pobres. As mulheres de classe média e por aí em diante sempre tiveram muito mais facilidade em tomar controlo da sua saúde reprodutiva. Mesmo quando, nalgumas partes do mundo, os métodos contracetivos eram tecnicamente ilegais, as senhoras de posses arranjaram sempre maneiras de navegar a situação. Quem fica sempre com o short end of the stick são os pobres, e o país como um todo sofre com eles.
 
Agora temos que ouvir o bastonário da ordem dos médicos, um senhor que provavelmente nunca terá que carregar uma criatura dentro dele nem nunca deve ter tido grandes dificuldades na vida, dizer que há muitas mulheres usam o aborto como contracetivo. Para já temos a seguinte questão: não. E depois temos a questão a seguir: e se usassem?
 
Vamos pensar um bocadinho (é normal que o senhor bastonário da ordem dos médicos não esteja habituado a pensar: nunca conheci um estudante de medicina que estivesse muito para aí virado), se uma mulher usa o aborto como método contracetivo é porque ou não está devidamente informada sobre o assunto e, como tal, não deve ser castigada pela sua ignorância mas sim informada de forma respeitosa para que isso não volte a acontecer, ou então simplesmente não tem acesso a outros métodos contracetivos e vê-se obrigada a recorrer sempre ao aborto in extremis. Pronto. São estas as duas hipóteses. As senhoras que se escodem nos armários a esfregar as mãos de contente porque têm os bolsos cheios de preservativos e perfeita consciência de como os usar (e um parceiro disposto a usá-los) mas que continuam a abortar a torto e a direito não existem numa proporção suficientemente grande para serem relevantes.

Porque raio é que é melhor obrigar estas cachopas a ter crianças? Por que é que é melhor obrigar as mulheres a passar pela experiência física e psicologicamente traumática que é o parto? Por que é que é melhor trazer ao mundo gente para engrossar as fileiras dos pobres e desamparados?
Não é. Não é melhor para as mulheres que têm que passar nove meses a lidar com toda uma panóplia de problemas horrorosos para depois terem que sustentar crianças que não querem. Não é melhor para as crianças hipotéticas que ou são dadas para adoção e passam anos num sistema pouco caloroso ou são condenadas imediatamente a uma vida de pobreza e oportunidades limitadas.
 
Limitar o acesso ao aborto não só é mau para as mulheres como é mau para o país. É mau para toda a gente envolvida e é uma vergonha que se tenha dado este passo atrás. É chato ainda termos que ter esta conversa e é chato que ainda ninguém tenha pegado na mão dos senhores do “Pelo Direito a Nascer” e lhes tenha dito “vocês são umas beldroegas mal informadas que se deviam calar para sempre e parar de opinar sobre coisas de gente crescida”.
 
 

sábado, 4 de julho de 2015

Com amigos destes

Entre fazer exames e acabar de ver a terceira temporada de Orange Is the New Black, tive tempo de andar por aí a causar comoções em comunidades portuguesas de céticos.
 
"Comunidade de céticos" já é mau que chegue, imaginem uma portuguesa. É de fugir.
 
Tropecei numa página de facebook dedicada ao ceticismo há uns dias e decidi investigar. Logo o primeiro post era sobre a inquisição dos social justice warriors (SJW) que vinha aí acabar com as nossas liberdades pessoais e fazer-nos a todos uma lavagem ao cérebro. Bom, eu pensei "não é tarde nem é cedo, se calhar vou praticar aqui uma pequena agitação". Acontece que é muito fácil agitar "céticos" portugueses, até porque eles são tao one-trick ponies (homeopatia mau, vacinas bom) que qualquer coisa que se desvie um bocadinho daquilo que eles estão habituados a ouvir causa logo um escagaçal enorme. É hilariante.
 
Eu sou da opinião que o ceticismo e o feminismo têm que andar sempre de mão dada. Não podemos dizer que somos céticos e depois simplesmente aceitar as age-old baboseiras sobre mulheres (e, consequentemente, minorias). Quando eu era jovem e muito menos amarga do que sou hoje, estava convencidíssima que era exatamente isto que acontecia: todos os céticos eram também feministas porque, afinal, eles apoiavam tanto o aborto e diziam muito mal do Islão porque oprimia as mulheres.
 
Acontece que não. Os céticos, na sua grande maioria, são uns self-serving assholes. Notei há relativamente pouco tempo que, quando falam no aborto, falam como se fosse uma questão religiosa e não uma questão relacionada com os direitos das mulheres. Usam o aborto como um cavalo de Troia particularmente macabro para poderem dizer mal da igreja católica. Não me interpretem mal, acho muito bem que digam mal da igreja católica, só não acho muita piada a tirarem as mulheres completamente da questão ou, pior, a usarem a opressão das mulheres quando lhes convém para avançarem a sua própria agenda quando, 99% do tempo, ou não querem saber, ou estão ativamente a minar os esforços das feministas. Estamos a falar de gente que é capaz de dizer que as pessoas muçulmanas são selvagens mas que depois é perfeitamente incapaz de avaliar a sua posição em relação às mulheres porque isto aqui no muy civilizado ocidente é tudo arco-íris e coelhinhos.
 
Os céticos com quem dialoguei, embora se achassem iluminadíssimos e muito espertos, estavam convencidos que a wage gap não existia porque tinham ouvido dizer por aí que já tinha sido provado que era mentira mas, sinceramente, nunca se tinham dado ao trabalho de pesquisar. Estavam também convencidos que as mulheres não iam para STEM porque o cérebro delas estava programado para ser mais social enquanto o dos homens estava programado para "estarem fechados num quarto a tentar compreender coisas". Enfim, argumentos do arco-da-velha. Nada que eu dissesse foi capaz de os demover. Ou pelo menos acho que não porque não recebi nenhuma resposta direta, a desonestidade intelectual é uma coisa lixada.

Infelizmente, não é a primeira vez que me deparo com este tipo de mindset. Conheço gente com carradas de educação formal científica que depois se vira toda do avesso quando se fala em racismo ou sexismo. Gente que ainda acha que há diferenças perfeitamente quantificáveis entre os sexos e que, quando recebe fontes que provam que estão erradas, me acusa de não ser fiel ao verdadeiro método científico. Uma vez disseram-me que uma estatística publicada no Público sobre a diferença entre homens e mulheres em posições de topo em STEM era irrelevante e que o que eu tinha que fazer era ir contar o número de mulheres na página da FCT.

A história das mulheres em STEM irrita-me particularmente porque é tao demonstradamente falsa. As mulheres têm acesso à educação idêntico ao dos homens há relativamente pouco tempo mas, mesmo assim, já somos mais em coisas como biologia e bioquímica. Agora mudou-se o discurso e, de repente, esses são "cursos de gaja" (mesmo tendo sido male-dominated durante séculos). Quando finalmente atingirmos 50/50 ou 51/49 ou, mesmo, sei lá, 80/20 (#femalemasterrace) no resto dos cursos científicos como é que vão mudar o discurso? O que é que vão alegar aí?

Mostrei-lhes estatísticas que mostravam claramente que há bias contra mulheres em STEM mas continuaram a insistir que podia perfeitamente ser das hormonas (embora não haja nenhum estudo que aponte para a existência de hormonas mágicas que afastam as meninas dos computadores). Mas e as senhoras engenheiras? E as senhoras físicas e matemáticas? Serão defeituosas? Nasceram com um cérebro menos feminino? Ninguém me respondeu.
 
A verdade é que ouvi de tudo. Anecdotal evidence ("tenho uma amiga que está em engenharia informática que foi muito bem recebida no curso!"), recusa em aceitar fontes ("ah mas as universidades estão cheias de anti-intelectuais de esquerda pós-modernistas!") e insultos sortidos ("QI de mula, comuna, novilinguista, pós-modernista anti-intelectual, esquerdalha de merda"). Até gozaram com o meu nome do meio. Só classe.

São absolutamente incapazes de reconhecer a sua própria ignorância em relação ao que quer que seja. Havia um espécime que achava que um poster a anunciar uma feminist bakesale (os queques custavam 1 dólar para os homens e 75 cêntimos para as mulheres) era a epitome da misandria e da discriminação contra os pobres homens porque falhou em compreender a referência. Mas ir informar-se e parar de cagar postas de pescada sobre aquilo que claramente não compreende? Está quieto, isso é para plebeu.

Usam exatamente o mesmo discurso que os extremistas religiosos. Bigots são iguais em todo o lado e, enquanto os "líderes" dos movimentos de céticos não compreenderem que têm que reavaliar a direção dos seus grupos e fazer uma reestruturação dos seus core-values, o ceticismo vai continuar a ser um movimento altamente elitista que existe apenas como plataforma para um grupo restrito de homens poder jerk each other off sobre os mesmos temas ad nauseum.
 
É horrivelmente deprimente que algo que poderia ser usado para libertar pessoas de noções pré-concebidas extremamente nocivas seja usado para elevar um grupo em detrimento dos suspeitos do costume. Se há coisa de que os homens brancos não precisam é de mais ferramentas para se sentirem superiores.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Só os burros


Cometi um erro bastante grande. Quando escrevi sobre a Hilary disse que a ia apoiar sempre a não ser que surgisse um autointitulado socialista. O que é que sucede quase imediatamente? Aparece o Bernie Sanders. Bernie motherfucking Sanders. Bane of my existence.

 

Já não posso ouvir falar do Bernie Sanders. Maldito fucking Bernie Sanders. Para um senhor que parece uma batata ele deixa-me muito zangada.

 

O problema que eu tenho com o Bernie é o mesmo que tenho, por exemplo, com o Bloco de Esquerda e com os pequenos movimentos da esquerda em Portugal. Resume-se ao seguinte: cagar postas de pescada é fácil, difícil é apresentar um plano estruturado para instituir mudança de uma forma realista.

 

Basta olhar para o AMA no Reddit do senhor para ver que, embora ele tenha as ideias todas certas, não há ali muita substância. Há buzzwords bonitas (grassroots grassroots grassroots) mas buzzwords nunca governaram um país.

 

O que me parece que falta ao Bernie é senso comum. A Hilary tem experiência na casa branca e é notoriamente determinada. O Bernie ao lado dela parece um saco de papel molhado. Duvido muito que ele saiba navegar o congresso e casa de representantes e sabe deus mais o quê de forma bem-sucedida. O simples facto de ele ter começado logo a atirar os confettis todos numa de vou fazer e acontecer demonstra que ele não tem uma visão muito realista do que é preciso fazer para efetivamente mudar alguma coisa.

 

É só olharmos para o Seguro versus o António Costa.

 

Eu votei com muita força nas primárias do PS e estou inteiramente convencida de que o António Costa é o salvador da pátria etnicamente ambíguo pelo qual todos nós esperávamos (pelo menos eu esperava). Se olharmos para as propostas de cada um na altura das primárias vemos o seguinte: o Seguro tinha uma lista enorme de coisas desconjuntadas mas objetivamente positivas que ele ia muito certamente fazer se chegasse a primeiro-ministro, como é que ele pretendia atingir cada uma delas não ficou bem claro (nem para nós nem para ele, provavelmente). O António Costa, por outro lado, tinha um plano muito bonitinho e organizado com objetivos e um outlook a longo prazo para país.

 

Há uma grande diferença entre ser um líder com uma visão clara e andar a brincar aos políticos.

 

(Para quem está com dificuldades, nesta analogia, a Hilary Clinton é o António Costa e o Bernie é o Seguro)

 

Mas pronto, eu compreendo, os jovens americanos com idade compreendida entre os 18 e os 25 tinha que arranjar de alguma maneira um homem branco um bocado passado do prazo em quem votar. Eu respeito a sua consistência. Não gosto e acho estúpido, mas respeito.

 

 

domingo, 17 de maio de 2015

Quase lá

Na semana passada li uma coisa na Visão sobre a situação das mulheres no mercado de trabalho. Vou prefaciar o que vou escrever a seguir com o seguinte: acho o artigo positivo, acho que faz mais bem do que mal, gostei de ver as estatísticas e os seus gráficos muy informativos. É bom, é positivo. Pronto, dito isto, agora vou achincalhar.
 
O tom do artigo não é o melhor, muito sinceramente. Começando logo pelo título: "A vantagem de contratar mulheres". Não tem que haver vantagens em contratar mulheres até porque não há nem mais nem menos vantagens em contratar mulheres versus contratar homens, a vantagem de contratar mulheres reside apenas no facto de ser um imperativo moral fazê-lo. As mulheres têm que ser tratadas exatamente da mesma maneira que os homens. Exatamente. Nem mais nem menos. Não é difícil. Não temos que andar à procura de características mágicas que as mulheres possuem coletivamente por alguma razão mística. O que o título sugere é o seguinte: temos um sistema capitalista que ajudou a fomentar e a criar gender roles artificiais que basicamente atrofiaram metade da população mas que agora, depois deste tempo todo, decidiu que o mais lucrativo seria fazer um repackaging a esses mesmos gender roles de forma a que fossem vistos como atraentes no mercado de trabalho sem se dar ao trabalho de desconstruir a merda que andou a perpetuar.
 
E isto é só o título. Admiro-me como é que nunca tive azia na vida. A alegria de ser jovem.
 
O tom do artigo é todo este: como é que características convencionalmente femininas podem ser valiosas para as empresas? Não há grande referência a mulheres enquanto indivíduos únicos que devem ser respeitados e vistos ao mesmo nível dos seus pares masculinos. É faux empowerement e soa tudo muito vagamente a algo que uma senhora de cinquenta anos que gosta de fazer piadas sobre a quantidade de vinho que consome diariamente postaria no facebook.
 
Por exemplo, no contexto de celebrar e respeitar empregadas, temos a seguinte pérola:
"No Dia da Mulher do ano passado, por exemplo, multiplicaram-se os cuidados para lá das flores, com direito a manicura, pedicura e, ainda, um workshop de maquilhagem."

Porquê? O que é isto? Alguém pegou em todos os clichés sobre mulheres e, numa tentativa bem-intencionada de fazer um gesto bonito pelas empregadas da empresa em questão, fez uma coisa borderline ofensiva que nem de perto nem de longe representa os interesses de uma porção significativa das mulheres no mercado de trabalho. Por uma questão de sanidade mental, vou simplesmente assumir que fizeram um levantamento dos gostos das mulheres da empresa e basearam-se nisso. Se não é simplesmente de mau gosto.
 
O artigo inteiro é uma poster child para coisas inicialmente bem-intencionadas que acabam por corroborar noções extremamente datadas sobre mulheres. Há uma senhora médica que diz coisas como:
 
"Primeiro: [somos] um trunfo para as empresas porque, mesmo quando dormimos mal, chegamos arranjadas ao emprego. Depois, somos multitasking porque, mal temos filhos, habituamo-nos a que todos lá em casa peçam imensa coisa ao mesmo tempo. E mais: somos extraordinárias na organização do tempo e dos horários, ao mesmo tempo que somos sensíveis e compreensíveis com os outros."

"Posso dizer ainda que, no final da especialidade, quem teve filhos durante o internato obteve melhores notas." 
 
Novamente a mesma história. Somos mais sensíveis e compreensíveis com os outros, somos boas no multitasking. UGH. Diz quem? Pessoas diferentes têm aptidões e características diferentes. As mulheres não são exceção a isto.
 
E chegar arranjada ao emprego? O que é que é suposto isso querer dizer? Ah mesmo tendo em conta o marido inútil que obriga a que a senhora esteja acordada a noite toda a tratar da criança, quando ela se levanta para ir para o emprego, tem sempre tempo de cobrir as olheiras com base e obedecer a padrões de beleza arbitrários. NICE.
 
Este artigo parte do prossuposto claramente errado de que as mulheres coletivamente têm características que não foram convenientemente aproveitadas até agora e que na verdade todos os estereótipos que nos fizeram ser vistas como bleeding-heart caretakers são perfeitamente capitalizáveis. "Afinal ser histérica e demasiado emocional e gostar de sapatos não é assim tao mau para o mercado de trabalho!". Mete-me nojo. Apaga a existência real e abundante de mulheres e homens que se desviam dos gender roles tradicionais.
 
Depois há insistência do artigo nos filhos. É verdade que é um problema óbvio que as mulheres são discriminadas se decidirem ter filhos estando no mercado de trabalho. Mas, se calhar, digo eu, se passássemos alguma responsabilidade para os homens e acabássemos com a noção de que as mulheres são as primary caretakers e que são elas que têm que tratar das crianças enquanto trabalham a tempo inteiro, isto ia ao sítio. Há um grupo de senhoras no artigo que dizem que têm um sistema de apoio muito forte no seu local de trabalho, que levam os filhos umas das outras ao médico quando é preciso. Acho curioso. Tanta criança órfã de pai.
 
Para não falar de que parece que ter filhos é absolutamente indissociável de ser mulher. É uma inevitabilidade. Estamos irrevogavelmente condenadas a ser matrioskas humanas.
 
A história e o percurso das mulheres não está nem mais nem menos ligado a crianças do que o dos homens. Quantas vezes aparece escrito coisas como "profissional, mulher, mãe", usando as crianças como desculpa para diluir a personalidade das mulheres e reduzi-las à relação que têm com outras pessoas à sua volta.
 
Este artigo está perto de ser relevante mas não chega lá, é verdade que sou uma megera feminista que nunca está contente com nada, mas nós não precisamos de mais coisas destas. De artigos frouxos sobre pequenas variações da posição tradicional da mulher. Não, nós precisamos que se mude radicalmente a maneira de pensar. Que parem completamente de pensar que mulheres são x e homens são y, precisamos que haja um upheaval completo do status quo e que se torne impensável discriminar uma porção qualquer da população só porque durante muitos anos se achou que era completamente homogénea e semelhante numa quantidade de características menos simpáticas.