domingo, 19 de julho de 2015

Ainda isto

Cansa-me a beleza  escrever sobre o aborto mas, pronto, aqui estamos nós outra vez.

Talvez porque começou a ver os ratos abandonar o navio, o governo decidiu juntar uns amigos às taxas moderadoras e agora temos toda uma panóplia de coisas giras que vão ser aprovadas.

Em causa estão alterações como passar a ser obrigatório a mulher ter acompanhamento psicológico e de um técnico social quando decide interromper a gravidez. Outra das mudanças passa pela introdução de taxas moderadores na interrupção voluntária da gravidez. E os  médicos objectores de consciência deixam de estar excluídos das consultas, havendo mais reserva sobre a informação relativa a essa objecção.

Eu gosto de pensar que sou uma pessoa razoável e que consigo compreender uma grande quantidade de pontos de vista mesmo que não concorde com eles. Mas às vezes, por muito que tente, não me sai nada. Nem mesmo imaginando que vivo num universo alternativo em que tudo o que é estúpido faz perfeito sentido. Esta história dos objetores de consciência é uma dessas ideias.

Se calhar é porque nunca me deparei com uma situação sequer remotamente semelhante, mas imaginem que uma pobre senhora quer abortar o squatter que vive dentro dela sem pagar renda, quando se vai submeter a quinze dias ou que raio lá é de “acompanhamento psicológico”,por acaso, calha-lhe na rifa um objetor de consciência. Quem é que fica mais enriquecido com esta experiência? A senhora não é de certeza, que tem que lidar com a resistência passiva de um médico que não lhe sai de cima da pila embora não a conheça de lado nenhum. E o senhor médico (vamos assumir que é um senhor médico embora também haja muitas senhoras médicas que gostam de denegrir as suas irmãs por causa de uma mistura de falta de auto-estima e necessidade de agradar à classe dominante), o que é que ele ganha com isto? É objetor de consciência por isso não quer ter nada a ver com abortos, nem sequer quer ouvir falar disso, mas vai dar-se ao trabalho de ir às consultas todas de acompanhamento para poder antagonizar senhoras em posições menos felizes.

O meu pai foi objetor de consciência na altura em que a tropa era obrigatória. Sabem o que é que ele fez? Ficou em casa. Sabem o que é que ele não fez? Foi à tropa na mesma só para se sentar nas bancadas a gritar com toda a gente e dizer-lhes que estavam a fazer a coisa errada e que ele tinha o moral high ground sobre toda a gente.

Eu estava convencida que os médicos estavam bound por um juramento qualquer que implicava ajudar toda a gente independentemente das opiniões pessoais (e, consequentemente, biased) que pudessem ter. Mas aparentemente não, os médicos podem escolher quando é que fazem o trabalho quando lhes compete e quando é que preferem não porque é mais importante privar mulheres da sua autonomia corporal.

Estas novas medidas só têm como objetivo castigar e infantilizar mulheres por causa do que fazem na sua vida privada (e, possivelmente, apelar a uma base de eleitores mais reacionários). Não deviam poder abortar porque têm que sofrer as consequências dos seus atos e porque ai jesus que a toda a vida é sagrada, especialmente quando a lei estipulou o contrário e podemos usar isso para ostracizar e humilhar organismos com sistemas nervosos efetivamente desenvolvidos.

É tão chato termos que falar disto quando já referendámos a questão há tanto tempo. É pena mas a democracia é mesmo assim. Eu ando a gramar com estes senhores no governo há muitos anos e nem votei neles mas respeito mais ou menos o processo. Esta gente que não está contente com a despenalização do aborto só tem que calar e gostar. Não me macem mais com isto, por favor.  

terça-feira, 7 de julho de 2015

J'accuse!

Esta história toda recente das taxas moderadoras da interrupção voluntária da gravidez e se as senhoras devem ou não ter que me olhar o cluster de células que vão abortar olhos nos olhos (se ele os tivesse, claro) e assinar a ecografia faz-me lembrar o último episódio de Game of Thrones. Quando a Cersei tem que andar nua no meio de uma multidão que lhe cospe em cima enquanto há uma freira com um sino a dizer "shame" ininterruptamente atrás dela.
 
Acho que o princípio é um bocado o mesmo. A cena provavelmente foi escrita pelos senhores que fizeram pressão para que a IVG já não usufruísse de isençao de taxas moderadoras e que, provavelmente, querem atribuir uma freira e um sino a todas as mulheres que escolherem fazer um aborto - os senhores do “Pelo Direito a Nascer”.
 
Se forem à página deles conseguem verificar que não só não há ninguém que saiba programar em html decentemente nas suas fileiras, como eles também são todos uns palermas. Eles propõem uma lei a que chamam "lei de apoio à maternidade e à paternidade". A sua proposta de lei é ainda mais descabida do que eu inicialmente pensava. Dispara em todas as direções, até querem introduzir propaganda nas escolas sobre como o aborto é muito mau e as mulheres que o praticam deviam ir todas presas. Parecem não compreender que apoio à maternidade tem que prossupor necessariamente apoio às mulheres uma vez que são elas que vão ter as ditas crianças.
 
Independentemente do papel destes caloteiros, uma coisa é verdade: o pessoal está muito determinado em cobrar taxas moderadoras na IVG. A justificação oficial tem qualquer a ver com o facto de a IVG ser uma coisa como outra qualquer que não deve ser equiparada à gravidez de nenhuma forma e com o facto de sermos governados por uns reacionários ranhosos que não têm vergonha na cara e que claramente odeiam mulheres.
 
O problema aqui é que, para a despenalização da IVG ser relevante, tem que ser acessível a toda a gente mas, especialmente, às mulheres mais pobres. As mulheres de classe média e por aí em diante sempre tiveram muito mais facilidade em tomar controlo da sua saúde reprodutiva. Mesmo quando, nalgumas partes do mundo, os métodos contracetivos eram tecnicamente ilegais, as senhoras de posses arranjaram sempre maneiras de navegar a situação. Quem fica sempre com o short end of the stick são os pobres, e o país como um todo sofre com eles.
 
Agora temos que ouvir o bastonário da ordem dos médicos, um senhor que provavelmente nunca terá que carregar uma criatura dentro dele nem nunca deve ter tido grandes dificuldades na vida, dizer que há muitas mulheres usam o aborto como contracetivo. Para já temos a seguinte questão: não. E depois temos a questão a seguir: e se usassem?
 
Vamos pensar um bocadinho (é normal que o senhor bastonário da ordem dos médicos não esteja habituado a pensar: nunca conheci um estudante de medicina que estivesse muito para aí virado), se uma mulher usa o aborto como método contracetivo é porque ou não está devidamente informada sobre o assunto e, como tal, não deve ser castigada pela sua ignorância mas sim informada de forma respeitosa para que isso não volte a acontecer, ou então simplesmente não tem acesso a outros métodos contracetivos e vê-se obrigada a recorrer sempre ao aborto in extremis. Pronto. São estas as duas hipóteses. As senhoras que se escodem nos armários a esfregar as mãos de contente porque têm os bolsos cheios de preservativos e perfeita consciência de como os usar (e um parceiro disposto a usá-los) mas que continuam a abortar a torto e a direito não existem numa proporção suficientemente grande para serem relevantes.

Porque raio é que é melhor obrigar estas cachopas a ter crianças? Por que é que é melhor obrigar as mulheres a passar pela experiência física e psicologicamente traumática que é o parto? Por que é que é melhor trazer ao mundo gente para engrossar as fileiras dos pobres e desamparados?
Não é. Não é melhor para as mulheres que têm que passar nove meses a lidar com toda uma panóplia de problemas horrorosos para depois terem que sustentar crianças que não querem. Não é melhor para as crianças hipotéticas que ou são dadas para adoção e passam anos num sistema pouco caloroso ou são condenadas imediatamente a uma vida de pobreza e oportunidades limitadas.
 
Limitar o acesso ao aborto não só é mau para as mulheres como é mau para o país. É mau para toda a gente envolvida e é uma vergonha que se tenha dado este passo atrás. É chato ainda termos que ter esta conversa e é chato que ainda ninguém tenha pegado na mão dos senhores do “Pelo Direito a Nascer” e lhes tenha dito “vocês são umas beldroegas mal informadas que se deviam calar para sempre e parar de opinar sobre coisas de gente crescida”.
 
 

sábado, 4 de julho de 2015

Com amigos destes

Entre fazer exames e acabar de ver a terceira temporada de Orange Is the New Black, tive tempo de andar por aí a causar comoções em comunidades portuguesas de céticos.
 
"Comunidade de céticos" já é mau que chegue, imaginem uma portuguesa. É de fugir.
 
Tropecei numa página de facebook dedicada ao ceticismo há uns dias e decidi investigar. Logo o primeiro post era sobre a inquisição dos social justice warriors (SJW) que vinha aí acabar com as nossas liberdades pessoais e fazer-nos a todos uma lavagem ao cérebro. Bom, eu pensei "não é tarde nem é cedo, se calhar vou praticar aqui uma pequena agitação". Acontece que é muito fácil agitar "céticos" portugueses, até porque eles são tao one-trick ponies (homeopatia mau, vacinas bom) que qualquer coisa que se desvie um bocadinho daquilo que eles estão habituados a ouvir causa logo um escagaçal enorme. É hilariante.
 
Eu sou da opinião que o ceticismo e o feminismo têm que andar sempre de mão dada. Não podemos dizer que somos céticos e depois simplesmente aceitar as age-old baboseiras sobre mulheres (e, consequentemente, minorias). Quando eu era jovem e muito menos amarga do que sou hoje, estava convencidíssima que era exatamente isto que acontecia: todos os céticos eram também feministas porque, afinal, eles apoiavam tanto o aborto e diziam muito mal do Islão porque oprimia as mulheres.
 
Acontece que não. Os céticos, na sua grande maioria, são uns self-serving assholes. Notei há relativamente pouco tempo que, quando falam no aborto, falam como se fosse uma questão religiosa e não uma questão relacionada com os direitos das mulheres. Usam o aborto como um cavalo de Troia particularmente macabro para poderem dizer mal da igreja católica. Não me interpretem mal, acho muito bem que digam mal da igreja católica, só não acho muita piada a tirarem as mulheres completamente da questão ou, pior, a usarem a opressão das mulheres quando lhes convém para avançarem a sua própria agenda quando, 99% do tempo, ou não querem saber, ou estão ativamente a minar os esforços das feministas. Estamos a falar de gente que é capaz de dizer que as pessoas muçulmanas são selvagens mas que depois é perfeitamente incapaz de avaliar a sua posição em relação às mulheres porque isto aqui no muy civilizado ocidente é tudo arco-íris e coelhinhos.
 
Os céticos com quem dialoguei, embora se achassem iluminadíssimos e muito espertos, estavam convencidos que a wage gap não existia porque tinham ouvido dizer por aí que já tinha sido provado que era mentira mas, sinceramente, nunca se tinham dado ao trabalho de pesquisar. Estavam também convencidos que as mulheres não iam para STEM porque o cérebro delas estava programado para ser mais social enquanto o dos homens estava programado para "estarem fechados num quarto a tentar compreender coisas". Enfim, argumentos do arco-da-velha. Nada que eu dissesse foi capaz de os demover. Ou pelo menos acho que não porque não recebi nenhuma resposta direta, a desonestidade intelectual é uma coisa lixada.

Infelizmente, não é a primeira vez que me deparo com este tipo de mindset. Conheço gente com carradas de educação formal científica que depois se vira toda do avesso quando se fala em racismo ou sexismo. Gente que ainda acha que há diferenças perfeitamente quantificáveis entre os sexos e que, quando recebe fontes que provam que estão erradas, me acusa de não ser fiel ao verdadeiro método científico. Uma vez disseram-me que uma estatística publicada no Público sobre a diferença entre homens e mulheres em posições de topo em STEM era irrelevante e que o que eu tinha que fazer era ir contar o número de mulheres na página da FCT.

A história das mulheres em STEM irrita-me particularmente porque é tao demonstradamente falsa. As mulheres têm acesso à educação idêntico ao dos homens há relativamente pouco tempo mas, mesmo assim, já somos mais em coisas como biologia e bioquímica. Agora mudou-se o discurso e, de repente, esses são "cursos de gaja" (mesmo tendo sido male-dominated durante séculos). Quando finalmente atingirmos 50/50 ou 51/49 ou, mesmo, sei lá, 80/20 (#femalemasterrace) no resto dos cursos científicos como é que vão mudar o discurso? O que é que vão alegar aí?

Mostrei-lhes estatísticas que mostravam claramente que há bias contra mulheres em STEM mas continuaram a insistir que podia perfeitamente ser das hormonas (embora não haja nenhum estudo que aponte para a existência de hormonas mágicas que afastam as meninas dos computadores). Mas e as senhoras engenheiras? E as senhoras físicas e matemáticas? Serão defeituosas? Nasceram com um cérebro menos feminino? Ninguém me respondeu.
 
A verdade é que ouvi de tudo. Anecdotal evidence ("tenho uma amiga que está em engenharia informática que foi muito bem recebida no curso!"), recusa em aceitar fontes ("ah mas as universidades estão cheias de anti-intelectuais de esquerda pós-modernistas!") e insultos sortidos ("QI de mula, comuna, novilinguista, pós-modernista anti-intelectual, esquerdalha de merda"). Até gozaram com o meu nome do meio. Só classe.

São absolutamente incapazes de reconhecer a sua própria ignorância em relação ao que quer que seja. Havia um espécime que achava que um poster a anunciar uma feminist bakesale (os queques custavam 1 dólar para os homens e 75 cêntimos para as mulheres) era a epitome da misandria e da discriminação contra os pobres homens porque falhou em compreender a referência. Mas ir informar-se e parar de cagar postas de pescada sobre aquilo que claramente não compreende? Está quieto, isso é para plebeu.

Usam exatamente o mesmo discurso que os extremistas religiosos. Bigots são iguais em todo o lado e, enquanto os "líderes" dos movimentos de céticos não compreenderem que têm que reavaliar a direção dos seus grupos e fazer uma reestruturação dos seus core-values, o ceticismo vai continuar a ser um movimento altamente elitista que existe apenas como plataforma para um grupo restrito de homens poder jerk each other off sobre os mesmos temas ad nauseum.
 
É horrivelmente deprimente que algo que poderia ser usado para libertar pessoas de noções pré-concebidas extremamente nocivas seja usado para elevar um grupo em detrimento dos suspeitos do costume. Se há coisa de que os homens brancos não precisam é de mais ferramentas para se sentirem superiores.