Não sei se é porque estamos perto do natal, mas
ultimamente têm aparecido imensos panfletos na faculdade sobre trabalho
voluntário. Do típico trabalho com idosos ao
vá-a-uma-ex-colónia-ensinar-inglês. Ora, eu, como muitas outras pessoas
(maioritariamente brancas, diga-se de passagem) sofro de um ligeiro
savior-complex e volta e meia tento arranjar um programa destes em que possa
participar. Até agora tem sido um esforço perfeitamente em vão.
A tentativa deste ano começou comigo a colecionar
endereços de email de organizações que trabalham com gente desfavorecida.
Arrisco-me a dizer que, neste momento, deve haver cerca de 5 ou 6 cartazes
diferentes afixados em cada placard lá na faculdade.
Alguns, aqueles que mandam pessoas para o
estrangeiro, anunciavam já reuniões com os candidatos a voluntários, sendo
o local de escolha de uns o colégio São João de Brito e de outros, centros
paroquiais. Ora, eu sou mortalmente alérgica a colégios privados e a gente
burguesa com ligações à igreja. No entanto, como sou dada a autoflagelação
psicológica decidi mesmo assim informar-me mais sobre o assunto.
Em teoria, não tenho nada contra este tipo de
coisa, tanto que até estava perfeitamente disposta a participar, mas assim
que chego à parte dos testemunhos dos sites apetece-me vomitar os olhos pelas
orelhas.
Eu acho muito bem que se queira ajudar pessoas. A
sério que sim. Acho ótimo. Agora, o que eu não suporto é quando temos estas instituições
que têm zero estatísticas (ou um pequeno estudo half-assed... ou mesmo só três
parágrafos escritos por alguém que percebe mais ou menos do assunto) sobre o
que fizeram para melhorar a qualidade de ensino num determinado local (a
qualidade de outra coisa qualquer, nem que seja mesmo a qualidade do ar por
irem expirar o seu ar ocidental e muito civilizado para o pé de gente
desfavorecida), aumentar a taxa de literacia ou mesmo como é que a população
local beneficiou em aprender uma segunda língua.
Todos os testemunhos são das pessoas que vão para
lá trabalhar. É só sobre como a experiência foi enriquecedora para elas, como
elas se sentiram, como é que aquilo as beneficiou a elas, o que portas é que
aquilo lhes abriu. É tudo EU Eueueu EUEU EU EU EUUUUU. Mas eu não quero
saber. Não quero mesmo. O que eu gostava de ler era o relato de uma
criança qualquer que tenha usufruído do projeto, uma criança que foi para a
universidade quando antes não o teria feito, ou mesmo uma criança que tenha
sido influenciada positivamente seja de que forma for.
Estas instituições são máquinas
de transformar sofrimento alheio em crescimento pessoal e são
francamente nojentas. Mandar gente mal formada dois ou três meses para um
sítio com um mau sistema de educação não vai ajudar em nada. Depois desses três
meses estes universitários todos voltam para o conforto do seu lar e as
crianças (porque são sempre crianças nestes casos) ficam lá, exatamente na
mesma. Nem mais nem menos enriquecidas pela experiência. As crianças não podem
por no currículo "tive aulas de inglês subpar dadas por um idiota de um
país ocidental qualquer durante 3 meses" e esperar que isso a ajude
nalguma coisa. 3 meses não dá para nada, gente. Como é que, em boa consciência,
podem continuar a fazer "missões" destas? E muitas vezes ainda têm a
lata de meter uma componente religiosa ao barulho. Não evangelizámos
já que chegue? Há que saber quando deixar os hereges e os infiéis em paz.
Já chega, por favor.
É que algumas nem sequer parecem ter um objetivo concreto. Só muitas buzzwords.
É que algumas nem sequer parecem ter um objetivo concreto. Só muitas buzzwords.
Um exemplo concreto com que me deparei nas minhas
aventuras é uma coisa chamada "Equipa d'África".
Ora, logo na primeira página de introdução temos uma lista dos objetivos, que
incluem "sensibilizar a população local para os atuais e futuros problemas
sociais", "dotar as populações locais de conhecimentos e ferramentas
adequadas para o seu desenvolvimento humano e "formar os intervenientes
dos projetos de valores como: justiça social, responsabilidade, cooperação e
respeito".
Adoro. Tão vago. Tão self-righteous. Uma
verdadeira obra de arte. O que é que isto quer dizer sequer? Quem sabe. Uma
coisa é certa, soa pretensioso como a porra.
Esta gente vai a centros missionários em países
em que a população feminina tem 7.3% de literacia e não são capazes de me dizer
quantas mulheres/raparigas ensinaram a escrever. Só essa coisa tao simples
acalmava a minha amargura.
Espero sinceramente que apanhem todos uma valente
diarreia por lá.
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