sábado, 22 de novembro de 2014

Os pobrezinhos

Não sei se é porque estamos perto do natal, mas ultimamente têm aparecido imensos panfletos na faculdade sobre trabalho voluntário. Do típico trabalho com idosos ao vá-a-uma-ex-colónia-ensinar-inglês. Ora, eu, como muitas outras pessoas (maioritariamente brancas, diga-se de passagem) sofro de um ligeiro savior-complex e volta e meia tento arranjar um programa destes em que possa participar. Até agora tem sido um esforço perfeitamente em vão.
 
A tentativa deste ano começou comigo a colecionar endereços de email de organizações que trabalham com gente desfavorecida. Arrisco-me a dizer que, neste momento, deve haver cerca de 5 ou 6 cartazes diferentes afixados em cada placard lá na faculdade.
 
Alguns, aqueles que mandam pessoas para o estrangeiro, anunciavam já reuniões com os candidatos a voluntários, sendo o local de escolha de uns o colégio São João de Brito e de outros, centros paroquiais. Ora, eu sou mortalmente alérgica a colégios privados e a gente burguesa com ligações à igreja. No entanto, como sou dada a autoflagelação psicológica decidi mesmo assim informar-me mais sobre o assunto.
 
Em teoria, não tenho nada contra este tipo de coisa, tanto que até estava perfeitamente disposta a participar, mas assim que chego à parte dos testemunhos dos sites apetece-me vomitar os olhos pelas orelhas.
                                                                                                          
Eu acho muito bem que se queira ajudar pessoas. A sério que sim. Acho ótimo. Agora, o que eu não suporto é quando temos estas instituições que têm zero estatísticas (ou um pequeno estudo half-assed... ou mesmo só três parágrafos escritos por alguém que percebe mais ou menos do assunto) sobre o que fizeram para melhorar a qualidade de ensino num determinado local (a qualidade de outra coisa qualquer, nem que seja mesmo a qualidade do ar por irem expirar o seu ar ocidental e muito civilizado para o pé de gente desfavorecida), aumentar a taxa de literacia ou mesmo como é que a população local beneficiou em aprender uma segunda língua.
Todos os testemunhos são das pessoas que vão para lá trabalhar. É só sobre como a experiência foi enriquecedora para elas, como elas se sentiram, como é que aquilo as beneficiou a elas, o que portas é que aquilo lhes abriu. É tudo EU Eueueu EUEU EU EU EUUUUU. Mas eu não quero saber. Não quero mesmo. O que eu gostava de ler era o relato de uma criança qualquer que tenha usufruído do projeto, uma criança que foi para a universidade quando antes não o teria feito, ou mesmo uma criança que tenha sido influenciada positivamente seja de que forma for.
 
Estas instituições são máquinas de transformar sofrimento alheio em crescimento pessoal e são francamente nojentas. Mandar gente mal formada dois ou três meses para um sítio com um mau sistema de educação não vai ajudar em nada. Depois desses três meses estes universitários todos voltam para o conforto do seu lar e as crianças (porque são sempre crianças nestes casos) ficam lá, exatamente na mesma. Nem mais nem menos enriquecidas pela experiência. As crianças não podem por no currículo "tive aulas de inglês subpar dadas por um idiota de um país ocidental qualquer durante 3 meses" e esperar que isso a ajude nalguma coisa. 3 meses não dá para nada, gente. Como é que, em boa consciência, podem continuar a fazer "missões" destas? E muitas vezes ainda têm a lata de meter uma componente religiosa ao barulho. Não evangelizámos já que chegue? Há que saber quando deixar os hereges e os infiéis em paz. Já chega, por favor.

É que algumas nem sequer parecem ter um objetivo concreto. Só muitas buzzwords.
 
Um exemplo concreto com que me deparei nas minhas aventuras é uma coisa chamada "Equipa d'África". Ora, logo na primeira página de introdução temos uma lista dos objetivos, que incluem "sensibilizar a população local para os atuais e futuros problemas sociais", "dotar as populações locais de conhecimentos e ferramentas adequadas para o seu desenvolvimento humano e "formar os intervenientes dos projetos de valores como: justiça social, responsabilidade, cooperação e respeito".
 
Adoro. Tão vago. Tão self-righteous. Uma verdadeira obra de arte. O que é que isto quer dizer sequer? Quem sabe. Uma coisa é certa, soa pretensioso como a porra.
 
Esta gente vai a centros missionários em países em que a população feminina tem 7.3% de literacia e não são capazes de me dizer quantas mulheres/raparigas ensinaram a escrever. Só essa coisa tao simples acalmava a minha amargura.
 
Espero sinceramente que apanhem todos uma valente diarreia por lá.

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