quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Deslarguem-me

Ultimamente tenho-me sentido perseguida. Parece que está um comunista ao virar de cada esquina só para me chatear.
 
Primeiro foi um colega de faculdade, um comunista da variedade a-coreia-do-norte-não-é-assim-tão-má, que me azucrinou a cabeça o almoço todo com todo o tipo de propaganda inovadora como “o PS é a direita” e “devíamos sair da União Europeia já amanhã” e ainda “não podemos confiar em economistas”. Já ouvi isto tanta vez que sinceramente já nem gosto de discutir estas coisas, agora só quero mesmo que me deixem comer os meus fusilis com atum em paz.
 
Um ou dois dias depois desta discussão, o meu grupo de feministas no facebook andou a repostar uma notícia sobre como uns quantos comunistas tinham sido atacados à porta de um comício por neo-nazis. Ok, é uma coisa terrível, os neo-nazis são lixo e os pobres comunistas, mesmo os da variedade mais irritante, não merecem apanhar na cara porque razão seja. Mas o que me irritou aqui é que todos os posts foram acompanhados por algum tipo de afirmação megalómana como “eles nunca nos silenciarão! Temos orgulho em ser anti-racistas e feministas e nunca vamos desistir!” ou “nós é que somos verdadeiramente pelo povo! A revolução vem aí!”. Isso é que não, vamos lá ter calma.
 
Este tipo de retórica é extremamente preguiçosa. Há por aí muito comunista que acha que, como a sua ideologia é “humanista por base”, já tem a papinha toda feita, já tem o cartão de feminista e amigo das minorias e agora, pronto, já é a autoridade máxima nestas coisas. Nem tem que fazer mais nada.

 
Para já, o partido comunista foi o único a votar unanimemente, com completa disciplina de voto, contra a legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo. Depois, já ouvi muito comunista dizer-me na cara que é feminista mas que, só por acaso, também é contra o sistema quotas. Para não falar dos panfletos que a JCP andou por aí a distribuir sobre quão nobre e heroico foi o exército vermelho na segunda guerra mundial, tendo esquecido completamente os milhões de mulheres que foram violadas e mortas entre a Rússia e Berlim por eles, algumas até mesmo irmãs russas.

Agora podem-me dizer “ai mas nem toda a gente é assim, não podes generalizar ao partido todo”. Isto é 100% válido, nenhum partido é inteiramente constituído por social justice warriors com um track record perfeito mas o que não podem fazer é dizer que “ah nós somos os campeões do povo” e depois esperar que eu acredite nisso. Migos, são um partido como os outros. O PS é feito de gente boa e gente má, o BE a mesma coisa, vocês não são mais nem menos e tenho a certezinha que não foram vocês que inventaram o feminismo. Uma coisa é dizer que o partido é baseado numa ideologia intrinsecamente humanista, outra coisa é ele ser mesmo. No que toca a mulheres-e-minorias o PCP tem feito rigorosamente zero. A única coisa que os vejo fazer é esfregar as suas mãozinhas autoritárias enquanto antagonizam o PS (como se fosse esse o verdadeiro inimigo) e dizer mal da União Europeia (não que eu seja a maior fã da UE mas preciso de um bocadinho mais do que “vamos fazer eventualmente um estudo sobre como vamos sair do euro e da UE de forma sustentável depois de já termos saído” antes de votar num partido que quer, essencialmente, deixar Portugal grávido e descalço no rabo da europa).
Os tempos evoluíram, há algum tempo fazia sentido concentrar tudo nos direitos do proletariado como fação homogénea da sociedade mas agora sabemos mais e sabemos que é preciso atacar desigualdades institucionais que não se resumem só à luta de classes. Não é que eu não concorde com as posições de defesa dos trabalhadores do PCP, há muita coisa no programa eleitoral deles com que eu concordo, só acho que eles fossilizaram um bocado e que se recusam não só a oferecer soluções coerentes e estudadas para o país como tendem a ignorar (ou mesmo reescrever, que é mais grave) a realidade. 

Portanto, onde eu quero chegar é: gosto de algumas ideias comunistas mas não gosto do partido comunista nem de nenhum comunista com quem tenha alguma vez dialogado e queria mesmo que por favor saíssem de cima de mim e do meu feminismo porque não tem nada a ver com eles até porque não têm grande autoridade para falar sobre isso (na esquerda, são o único partido que não tem minorias nem mulheres para mostrar porque garantem a pés juntos que vão “fazer um governo que representa o país de forma realista”). E, por favor, se querem brincar ao revolucionários, vão antes votar no BE. Eles são muito menos revisionistas e tenho quase a certeza de que a Mariana Mortágua come burgueses ao pequeno almoço.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Mordam-me

Descobri recentemente na página da minha faculdade (onde se estuda ciências e pouco mais) uma estatísticas muito engraçadas, com gráficos e tudo.

Observem:

inscritos

Aqui temos a distribuição dos inscritos na minha faculdade por sexo. Como podem ver ainda não é bem 50/50 mas para lá caminhamos. As ciências e a tecnologia têm vindo a tornar-se mais acessíveis a jovens moças ao longo dos anos mas ainda não vemos a paridade que seria de esperar numa sociedade verdadeiramente igualitária. Estes gráficos não mostram nada de novo nem de surpreendente. 49/50 para os inscritos pela primeira vez numa faculdade de ciências é muito sólido e deixa-me contente. Tudo nos conformes, muito moderno, muito conveniente.

Mas agora vejam este:

diplomados

Mesmo havendo menos mulheres inscritas por ano, há mais mulheres diplomadas. Incrível.

Agora, se eu quisesse mesmo misandrar o pessoal e ser aquilo que as pessoas gostam de dizer que o feminismo é na realidade, provavelmente aproveitava esta oportunidade para dizer que as mulheres são inerentemente superiores aos homens e claramente mais inteligentes. Mas não tenciono fazer isso porque a) Não é verdade e b) Não sou estúpida.

Estou inteiramente convencida de que os homens e as mulheres enquanto grupo têm exatamente o mesmo potencial e são igualmente bons a tudo. Não há cá “os homens são melhores nas matemáticas e as mulheres são melhores em comunicação e letras”. Os meninos e as meninas são todos igualmente bons a tudo, depois diferenciam-se consoante as suas preferências e as suas experiências pessoais. Isto é o que eu acho. Vocês podem achar outras coisa mas provavelmente vão estar errados. Só para avisar.

O que eu acho que está a acontecer aqui é que, na grande sofreguidão de manter um sistema opressivo baseado na supremacia masculina, os homens deram um tiro no pé. Não sou especialista em construir e manter sistemas opressivos mas acho que é um erro comum. Coisas que acontecem, não é motivo de vergonha.

Com um sistema patriarcal vem também uma grande cultura de entitlement. Os homens acham que têm direito a tudo: a mulheres, a dinheiro, a sucesso. Às vezes o pessoal esquece-se é que, mesmo sendo homem, de vez em quanto é preciso trabalhar pelas coisas. Uma pessoa ouve desde jovem que é super especial e super esperta e depois pronto, acomoda-se. Se eu tivesse um euro por cada moço que é “muito inteligente mas preguiçoso” ou que “sabe tudo mas o/a professor/a não o quer passar” estava rica. Tão rica.

É que depois não só os meninos que usam estas coisas  para justificar o seu fracasso. É toda a gente à sua volta. Já ouvi uma moça dizer que o namorado sabia a matéria toda de uma cadeira mas que a professora era má ao ponto de o chumbar três anos seguidos de propósito. Ai miga, vais tão enganada.

Não é que eu esteja a defender o sistema de ensino (superior ou otherwise) nem os professores (Deusa sabe que eu os detesto a todos). Acho que se reformássemos o sistema de ensino ficava toda a gente mais feliz, homens e mulheres. Mas também acho que os homens se deviam responsabilizar mais pelos seus fracassos e cabe-nos a nós, mulheres, ajudar nesta nobre causa. Ou seja, nada de exacerbar o ego de meninos medíocres, nada de se referir a terceiros como génios e, sobretudo, sempre que se ouvir um gaiato que ainda nem fez cálculo I dizer que é o próximo Richard Feynman corrigi-lo com algo do estilo “está calado, Eduardo, ninguém gosta de ti e as tuas calças de fato de treino são esquisitas, vai mas é estudar os teus integrais e deixa-me em paz”.