terça-feira, 24 de março de 2015

Haja paciência


Gafes publicitárias há muitas mas volta e meia aparece uma coisa tão escandalosamente estúpida e desatualizada que uma pessoa pensa que se calhar arranjaram uma máquina do tempo para ir buscar um estudante de marketing qualquer dos anos oitenta chamado Ricardo Jorge.

 

Hoje foi esta:




Isto combina duas das coisas que me metem mais nojo neste mundo: pseudociência e sexismo. Para já, os senhores da Neurozan são terríveis e deviam sentir-se terríveis porque vendem suplementos que supostamente estimulam o cérebro mas não oferecem qualquer prova científica de que realmente funcionem e estudos peer reviewed nem por um canudo. Já tinha visto algum dos posters deles espalhados lá pela faculdade que diziam "elas gostam é dos inteligentes" o que é perfeitamente ridículo. Para já não estão sequer a tentar apelar a metade da comunidade estudantil (se calhar acham que as mulheres não estudam) e depois, vou ser muito sincera, elas não "gostam é dos inteligentes" elas gostam é que as deixem em paz e que as respeitem. Não é difícil.

 

Depois, quando uma senhora na secção dos comentários os tentou chamar à razão, foi recebida com mais uma enxurrada pseudocientífica e extremamente condescendente de quem quer que seja que gere a página do facebook destes charlatões:



O cérebro humano é uma coisa extremamente complexa e ninguém com o mínimo de senso comum seria capaz de afirmar que isto das diferenças biológicas é open and shut. É muito difícil fazer estudos fidedignos relativamente a diferenças de comportamento e há muita literatura detalhada que diz que não há diferenças significativas entre cérebros masculinos e femininos, que a diferença entre indivíduos é esmagadoramente superior a quaisquer características que se tentem aplicar a um grupo de pessoas, e que a influência das hormonas na personalidade das pessoas tem sido abundantemente sobrestimada ao longo dos anos. Eu podia pôr aqui links para os artigos mas, quando comecei este blog, decidi que não ia ser uma coisa académica e que não estava para me chatear com estas coisas. Nos dias que correm só é ignorante sobre estas coisas quem quer. Usem o tio google, que ajuda muita boa gente.  

 

Para além disso, o pessoal parece preferir anedoctal evidence por isso não acho que valha a pena estar aqui a gastar a ponta dos dedos. Sinceramente, basta dizer coisas como "não acho piadas sobre violação engraçadas" ou "acho que a indústria dos videojogos é sexista" ou ainda "patriarcado" ou "a friendzone não existe" e a maioria dos homens degenera na maior birra de sempre. É embaraçoso, a sério que sim, já vi acontecer. Depois disto ninguém me convence de que as mulheres é que são emocionais. Uma vez disse a um colega meu da faculdade que ele era ignorante e claramente não muito esperto porque achava que a Coreia do Norte tinha um sistema político à maneira e ele escreveu-me um email com 4 parágrafos sobre como eu era má e ruim e uma megera feminista muito desagradável. Já esteve mais longe da verdade.  

 

Eu pensava que por muito mal que isto andasse já não achávamos socialmente aceitável (nem factualmente correto) dizer coisas como "os homens são bons a matemática e as mulheres dão boas educadoras de infância", até porque me parece que isto já foi demonstrado ser falso vezes sem conta.

 

Há uma grande porção da população que beneficia em meter os dedos dos ouvidos e negar veementemente coisas perfeitamente normais. Acho que só quando, inevitavelmente, houver mais mulheres em STEM do que homens e os decidirmos manter apenas como estudantes de filosofia e daquelas engenharias parvas que não interessam a ninguém para os manter ocupados, é que isto acalma.
 
 

sábado, 14 de março de 2015

Blast from the past

Hoje li uma coisa muito interessante. Eu desconhecia que o senhor que a escreveu existia sequer (e agora, em retrospetiva, sentia-me muito abençoada) e que ainda havia gente assim tão reacionária, mas, enfim, vivemos num mundo cheio de surpresas.
 
Este senhor acha que enfrentamos um grande problema que passa pela destruição do conceito tradicional de família e pela recusa teimosa das mulheres em terem crianças.
 
Aparentemente as "novas famílias" são muito voláteis e instáveis. Sendo que a aparente causa desta instabilidade passa pelo facto de as mulheres já não quererem ter filhos antes dos 20 (embora esteja provado que este tipo de prática é muito pouco saudável tanto para as crianças como para as mulheres) e de só quererem andar na galderice a ser umas badalhocas. De certo que este senhor também deve achar que os temíveis gays também entram aqui na equação algures embora nem eu nem ele tenhamos a certeza relativamente ao seu papel neste caso. Ele fala muito no que é perverso e no que não é e acho que a meio do artigo já ele estava confuso.
 
Acho sempre imensa graça quando alguém escreve um artigo sobre como está tudo na desgraça e que já ninguém adere aos bons velhos costumes. É sempre hilariante ver as tentativas histéricas e vãs de homens cujas opiniões deixaram de ser relevantes há muito tempo de travar o progresso que não lhes convém e a emancipação de grupos oprimidos. O artigo parece-me todo uma birra pública bastante embaraçosa. Ninguém consegue levar a sério alguém que diz coisas como:


 
"É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens. É verdade que, em nome da liberdade sexual radical, se abandonam dignidade e equilíbrio, sacrificando essa liberdade no altar do deboche."



 
 
(Pessoalmente, eu gosto de sacrificar pelo menos três liberdades aos fins-de-semana. Mas não as minhas, as dos outros.)
Francamente. Zero self-awareness. Este senhor não compreende que o esforço que fizemos não foi tanto para sermos bem-sucedidas em coisas de homem (tipo andar à porrada? caçar ursos? cortar madeira?) mas para que reconhecessem que já éramos boas nessas coisas há muito tempo, ninguém queria era admitir.
 
Este senhor também não compreende que isto vai mais fundo do que ele pensa. Se me dissessem que a humanidade ia acabar daqui a 10 anos se eu não me conformasse a ter crianças (coisa que não está nem de perto nem de longe em risco de acontecer) eu seria a primeira a querer fazer da extinção desta puta de raça. Este tipo de retórica não me comove. Já não comove ninguém.
 
As mulheres estão finalmente a pôr-se a elas próprias em pé de igualdade com os homens e a exigir exatamente tudo aquilo que os homens sempre tiveram por direito. Se isso é "masculinizar-nos" e não "querer ser tratadas como gente" então que seja. Se as características tradicionalmente femininas são tao boas e giras então o senhor João César das Neves pode ficar com elas todas, eu não importo. Ninguém se importa. Ele pode ser dócil e fofinho e sorridente e muito maternal. A minha onda é mais outra.
(Fernanda Câncio, deusa do jornalismo e de tudo o que é bom e puro neste mundo, minha futura esposa e inspiraçao diária, tem um artigo a esburacar este senhor 10/10 recomendo)
 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Vivian

Uma das minhas grandes desilusões este ano foi o facto do documentário "Finding Vivian Maier" não ter ganho o Óscar. Verdade seja dita, não vi nenhum dos outros nomeados mas isso dificilmente é relevante neste momento.
 
A história de Vivian Maier enquanto artista é absolutamente fascinante. Viveu e morreu na obscuridade e só quando um catraio há uns anos comprou umas malas aleatórias cheias de negativos num leilão é que se descobriu que ela era uma fotógrafa extremamente talentosa.
 
Vivian Maier tem uma história digna de qualquer grande génio. Ninguém sabe ao certo se o sotaque francês dela era falso ou não, colecionava notícias de jornal e imensos nicknacks que comprava ou reservava usando um nome falso (ninguém sabe exatamente porquê), trabalhava como ama e há relatos que dizem que ela era excelente com crianças e outros que dizem que era abusiva, uma vez deu um soco a um homem e mandou-o para o hospital porque ele lhe tocou no braço. Uma heroína, portanto.
 
Vivian, apesar de ter o seu quê de bicho-do-mato, é uma verdadeira inspiração. Parece ter vivido exatamente como queria, numa sucessão de sótãos. Não era particularmente bem-educada nem agradecida às famílias para quem trabalhava. Despediu-se porque uma vez lhe estragaram os recortes de jornal. Vivian não só era horrivelmente talentosa como tinha uma abordagem extremamente inovadora à vida. Inovadora no sentido em que não queria saber de ninguém nem de nada para além dela própria e da sua arte. Vivian Maier levava crianças pequenas a matadouros, Vivian Maier tirava fotos a crianças que tinham sido atropeladas, Vivian Maier sabia que tirava boas fotos embora nunca as tivesse publicado nem tivesse qualquer input externo sobre elas.
 
Vivian Maier não queria saber. Vivian Maier era feita de ferro e de gelo.