sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Vãomasétodosàmerdassexuais

Se olharem para a capa da edição da Vogue de Setembro deste ano vão ver escrito na capa a seguinte maravilha "E depois do metrossexual? Chega o spornossexual". Ora, como é mais do que óbvio que sou dada a ataques mais do que esporádicos de masoquismo decidi procurar deliberadamente o artigo e lê-lo.
 
Para já, acho que qualquer coisa que acabe em -sexual que não se esteja a referir a uma orientação sexual é perfeitamente estúpido. A sociedade fez dos homens tão fracos que agora se querem fazer algo que se desvia minimamente do que é convencionalmente masculino têm que ir a correr dar-lhe um nome parvo qualquer. Como se a maneira como uma pessoa se veste tivesse alguma a ver com as predileções sexuais de uma pessoa. Ajuda a alimentar o estigma e o estereótipo de que um homem que se arranja bem e não tem uma aversão mortal a desodorizante é, de alguma forma, fora do "normal" e deve ser considerado uma categoria à parte. Para além de que a história dos metrossexuais só contribuiu para aquela ideia toda de "ah eu arranjo-me e não me visto com um labrego mas não sou um desses homossexuais, sou metrossexual".
Ser metrossexual é na verdade uma subcategoria idiota da heterossexualidade para descrever um comportamento perfeitamente normal que as pessoas têm há anos mas que como os homens sofrem de uma debilidade mental e de uma insegurança tão grande teve que se arranjar um nome para este comportamento “bizarro”.  
 
Bem, mas depois da metrossexualidade surge a spornossexualidade. Para já, o nome é francamente nojento. O que é um sporno? Um spornossexual? Isto são palavras que existem? Soa tao mal, parece uma doença sexualmente transmissível ou um esporo de um cogumelo exótico. Deixa-me francamente desconfortável.
 
Aparentemente, um spornossexual é um indivíduo que vai muito ao ginásio, tem um bronzeado artificial e é agressivamente heterossexual. Foi só o que consegui extrair disto tudo. Não sei se avisaram os senhores da revista que este tipo de gente existe há algum tempo. Mas o mais interessante nem é este pseudo fenómeno. É mesmo a razão que atribuem à sua existência. Este tipo de masculinidade over the top existe porque:
 
"Os homens deixaram de saber o seu objetivo social assim que foram dispensados das suas funções de proteção, sustento ou chefia familiar (já para não falar das frentes de batalha ou de abrir a porta do carro). No fim, a única coisa que sobra - e que as mulheres continuam a querer - são os seus corpos".
 
Lindo. Verdadeira poesia.
 
Eu não tinha lá chegado, mas os homens fazem este tipo de coisa porque se sentem emasculados numa sociedade orientada para as necessidades das mulheres. Incrível. Coitados. Ninguém pensa nas necessidades deles.
 
Será que ninguém compreende que este tipo de coisa não deixa ninguém mal visto para além dos homens? Para já, não acredito que isto seja verdade. Depois, achar que isto é uma razão válida para haver um shift pseudo cultural na expressão da masculinidade é simplesmente dizer "eu acho que os homens têm todas a mentalidade de crianças de 5 anos sem qualquer tipo de adaptabilidade saudável ao ambiente em que se encontram". Ok, esta última parte é um bocado verdade mas ninguém nasce tolhido emocionalmente, é a sociedade que faz deles moles de cabeça.   
 
Talvez, em vez de criar nomes estúpidos para coisas estúpidas podíamos simplesmente parar de achar que existem papéis e maneiras de agir tipicamente masculinas e que existe um molde a que os homens têm que se conformar e deixar as pessoas expressar a sua individualidade de forma saudável e da maneira como acharem melhor. Se calhar era boa ideia. Podíamos tentar isso e depois ver se ainda havia necessidade de categorizar as coisas desta maneira. Se calhar éramos todos mais felizes.

sábado, 22 de novembro de 2014

Os probrezinhos: Parte II (Edição Nacional)

Depois das minhas tentativas frustradas de fazer parte de uma organização fina com programas no estrangeiro, cruzei-me com uma iniciativa mais doméstica. Lidava com crianças com "dificuldades no desenvolvimento pessoal", o que é por si só engraçado uma vez que me parece que todos temos dificuldades no desenvolvimento pessoal. A mim ninguém me quer oferecer tutoria e deus sabe que desde que a puberdade começou que a minha vida é um terror existencial ininterrupto.
Enfim, este desenvolvimento pessoal que fazia falta às crianças tinha mais a ver com o facto de serem pobres e de o sistema educativo português não estar particularmente bem equipado para lidar com isso. De qualquer forma, fui falar com a senhora responsável pela seleção dos voluntários. A senhora era extremamente loura e extremamente bem vestida e marcou o encontro numa parte extremamente fina de Lisboa. Ora, eu tentei manter a mente aberta e não discriminar ninguém e diria que, tendo em consideração o sítio e as circunstâncias, me portei bastante bem. Normalmente, se me chega ao nariz cheiro a yuppie dá-me logo vontade de antagonizar as pessoas.
 
Com a senhora estava um jovem com um camisolão ligeiramente náutico, um monte de livros sobre direito e um sotaque arrastado que soava um bocado a Cascais. Sentei-me ao lado dele, com os óculos embaciados e toda molhada da chuva, acabadinha de sair do metro, e ouvi-o falar das suas experiências como tutor de uma dessas crianças desfavorecidas (das quais ele só tinha ouvido falar mas com as quais nunca tinha andado na escola).
Aparentemente, ele tinha-se distraído e dado demasiada confiança à criança. Tinha-se sentado no estrado de uma sala de aula (uma daquelas estruturas de madeira que tresandam a antigo regime e que o meu pai me garante que serviam para os professores mostrarem a sua superioridade) e a criança sentou-se ao lado dele. A partir daí "estava tudo estragado". Infelizmente, não consegui apurar exatamente como é que se estragou tudo mas pareceu-me por bem não perguntar.
O grande problema de gente assim é que parece esquecer-se que, quando alguém (especialmente uma criança) é pobre e/ou tem problemas comportamentais ou educativos, não se torna automaticamente um bicho-do-mato. Continua a ter interesses de pessoa e motivações de pessoa e a fazer e a pensar as coisas que as pessoas pensam (incluindo os estudantes de direito). 
 
Esquecem-se também que as crianças são pessoas e que devem ser tratadas como tal. Se se está a tentar ensinar alguma coisa a uma pequena juventude, podem ter a certeza de que ela responde melhor a alguém que a trata como igual do que a alguém que ergue uma torre de cristal de mil metros à frente dela (por muito impressionante que isso seja). A minha mãe tratou três filhos como gente desde pequenos e, modéstia à parte, diria que funcionou bastante bem.
 
Depois disto, confesso, devia-me ter ido embora. Mas, perdido por cem, perdido por mil. Decidi ficar e ouvir o que a senhora me tinha para dizer. Ela parecia estupefacta com o estado da educação em Portugal (estamos todos) e com o facto de alguns professores ainda não terem sido colocados (apeteceu-me dizer-lhe que isso, normalmente, só acontece com governos de direita) mas queixou-se principalmente dos pais. A criança do rapaz do camisolão náutico tinha uns pais extremamente irresponsáveis que se recusavam a ir buscá-la às 19h à escola.
 
Eu sugeri que, como as crianças hoje em dia têm cargas horárias ridículas, talvez os pais achassem que ela estava a passar demasiado tempo na escola. Mas não, o problema não era esse. Os pais não tinham carro e tinham que ir buscá-la de transportes. Às 19h. Apeteceu-me chorar um bocadinho. Como é que uma pessoa gere sair do trabalho e fazer o jantar e passear o cão e ir buscar a criança às 19h sem carro? Provavelmente não gere. Mas isso não impede uma senhora loura muito bem vestida de a julgar em frente a desconhecidos num café muito fino.
 
Escusado será dizer que não participei no projeto (mais por falta de disponibilidade do que outra coisa) mas estas coisas deixa-me um bocado mal disposta.
 
Não me parece que estas crianças precisem de gente de classe média-alta a ensinarem-lhes métodos de estudo convencionais que claramente não fizeram nada por elas até agora mas sim de uma reforma profunda do sistema educativo que faça com que o percurso escolar das juventudes não se baseie apenas em aprender a lamber botas e rabos e a regurgitar informação.   
 

Os pobrezinhos

Não sei se é porque estamos perto do natal, mas ultimamente têm aparecido imensos panfletos na faculdade sobre trabalho voluntário. Do típico trabalho com idosos ao vá-a-uma-ex-colónia-ensinar-inglês. Ora, eu, como muitas outras pessoas (maioritariamente brancas, diga-se de passagem) sofro de um ligeiro savior-complex e volta e meia tento arranjar um programa destes em que possa participar. Até agora tem sido um esforço perfeitamente em vão.
 
A tentativa deste ano começou comigo a colecionar endereços de email de organizações que trabalham com gente desfavorecida. Arrisco-me a dizer que, neste momento, deve haver cerca de 5 ou 6 cartazes diferentes afixados em cada placard lá na faculdade.
 
Alguns, aqueles que mandam pessoas para o estrangeiro, anunciavam já reuniões com os candidatos a voluntários, sendo o local de escolha de uns o colégio São João de Brito e de outros, centros paroquiais. Ora, eu sou mortalmente alérgica a colégios privados e a gente burguesa com ligações à igreja. No entanto, como sou dada a autoflagelação psicológica decidi mesmo assim informar-me mais sobre o assunto.
 
Em teoria, não tenho nada contra este tipo de coisa, tanto que até estava perfeitamente disposta a participar, mas assim que chego à parte dos testemunhos dos sites apetece-me vomitar os olhos pelas orelhas.
                                                                                                          
Eu acho muito bem que se queira ajudar pessoas. A sério que sim. Acho ótimo. Agora, o que eu não suporto é quando temos estas instituições que têm zero estatísticas (ou um pequeno estudo half-assed... ou mesmo só três parágrafos escritos por alguém que percebe mais ou menos do assunto) sobre o que fizeram para melhorar a qualidade de ensino num determinado local (a qualidade de outra coisa qualquer, nem que seja mesmo a qualidade do ar por irem expirar o seu ar ocidental e muito civilizado para o pé de gente desfavorecida), aumentar a taxa de literacia ou mesmo como é que a população local beneficiou em aprender uma segunda língua.
Todos os testemunhos são das pessoas que vão para lá trabalhar. É só sobre como a experiência foi enriquecedora para elas, como elas se sentiram, como é que aquilo as beneficiou a elas, o que portas é que aquilo lhes abriu. É tudo EU Eueueu EUEU EU EU EUUUUU. Mas eu não quero saber. Não quero mesmo. O que eu gostava de ler era o relato de uma criança qualquer que tenha usufruído do projeto, uma criança que foi para a universidade quando antes não o teria feito, ou mesmo uma criança que tenha sido influenciada positivamente seja de que forma for.
 
Estas instituições são máquinas de transformar sofrimento alheio em crescimento pessoal e são francamente nojentas. Mandar gente mal formada dois ou três meses para um sítio com um mau sistema de educação não vai ajudar em nada. Depois desses três meses estes universitários todos voltam para o conforto do seu lar e as crianças (porque são sempre crianças nestes casos) ficam lá, exatamente na mesma. Nem mais nem menos enriquecidas pela experiência. As crianças não podem por no currículo "tive aulas de inglês subpar dadas por um idiota de um país ocidental qualquer durante 3 meses" e esperar que isso a ajude nalguma coisa. 3 meses não dá para nada, gente. Como é que, em boa consciência, podem continuar a fazer "missões" destas? E muitas vezes ainda têm a lata de meter uma componente religiosa ao barulho. Não evangelizámos já que chegue? Há que saber quando deixar os hereges e os infiéis em paz. Já chega, por favor.

É que algumas nem sequer parecem ter um objetivo concreto. Só muitas buzzwords.
 
Um exemplo concreto com que me deparei nas minhas aventuras é uma coisa chamada "Equipa d'África". Ora, logo na primeira página de introdução temos uma lista dos objetivos, que incluem "sensibilizar a população local para os atuais e futuros problemas sociais", "dotar as populações locais de conhecimentos e ferramentas adequadas para o seu desenvolvimento humano e "formar os intervenientes dos projetos de valores como: justiça social, responsabilidade, cooperação e respeito".
 
Adoro. Tão vago. Tão self-righteous. Uma verdadeira obra de arte. O que é que isto quer dizer sequer? Quem sabe. Uma coisa é certa, soa pretensioso como a porra.
 
Esta gente vai a centros missionários em países em que a população feminina tem 7.3% de literacia e não são capazes de me dizer quantas mulheres/raparigas ensinaram a escrever. Só essa coisa tao simples acalmava a minha amargura.
 
Espero sinceramente que apanhem todos uma valente diarreia por lá.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Menos, por favor


Eu vivo num sítio com igual proporção de racistas e gente não branca. Seria de esperar que convívio prolongado uns com os outros acalmasse os racistas mas isso não parece ser o caso. Eu venho de uma família de bleeding-heart liberals que sempre me ensinaram a respeitar toda a gente e a sermos todos amigos enquanto damos as mãos e cantamos canções. Como tal, criei uma grande aversão à palavra pr*to e esforço-me para usar alternativas mais politicamente corretas (não só por uma questão de respeito mas também porque já ouvi usarem pr*to numa miríade de contextos menos agradáveis). Isto, no entanto, parece gerar reações estranhas.

 

Ontem estava a almoçar com uns colegas da faculdade quando oiço a seguinte pérola:

"...e os pr*tos estão todos a morrer de SIDA."

Zero contexto. Está uma pessoa a tentar almoçar na paz do senhor e cai-lhe uma coisa destas no colo.  

 

Tentei, na melhor das minhas capacidades, que a minha companhia de almoço compreendesse que isto não só não era um claro exemplo de humor negro (como tentaram argumentar) mas sim extremamente insensível e de muito mau gosto. Daí seguiu também o meu pedido para não dizerem pr*to à minha frente. Aprendi há algum tempo que mais vale pedir para não usarem essa linguagem porque me deixa desconfortável a mim pessoalmente do que porque é efetivamente ofensivo. As pessoas reagem melhor. Se pensarmos nisso é um bocado triste.

 

Ora, depois de demonstrarem a sua incredulidade e acharem que eu estava a gozar com eles passaram a gozar comigo. Tipo "aha és tão parva e politicamente correta". Sinto-me muito embaraçada, realmente.

 

Depois disto vem a retórica do costume "eles gostam que os tratem assim" e o clássico "então eu sou branco e eles são pr*tos, qual é o problema?". Eu sinceramente já não tenho paciência para isto, especialmente à hora de almoço. Porque, francamente chamar a alguém branco não é sequer comparável e pouco ou nada me interessa se as pessoas de cor não se importam que as tratem por pr*tos até porque isso é assumir que, primeiro, a juventude negra que lhes disse tal coisa (porque há sempre uma juventude negra possivelmente hipotética qualquer que eles dizem que conhecem que lhes disse que fica mesmo chateada se não a tratarem por pr*ta) fala por um grupo inteiro de pessoas altamente diverso e, segundo, que nunca houve uma fação da sociedade que tivesse aceitado que se referissem a ela de forma pejorativa porque, hey, não é como se fossem parar anytime soon.

 

Dizem-me também que a razão pela qual eu apoio um sistema de quotas e acho que devíamos tentar compensar os grupos que andámos a oprimir e explorar durante anos (especialmente enquanto ex-potência colonizadora) é porque eu me sinto "culpada" e estou a "vitimizar e infantilizar" estas pessoas. Até pode ser que a minha abordagem não seja a mais correta (agradecia que me corrigissem se eu estiver errada) mas a verdade é que há que tomar responsabilidade pela merda que se andou a fazer durante tanto tempo e pelos efeitos duradouros que essa merda teve.

 

Não é um conceito particularmente difícil.

 

Mas, na minha experiência, sempre que se diz a um homem branco ocidental em idade universitária que usufrui de uma grande quantidade de privilégio fica logo tudo chateado. Se falo em bolsas de estudo especiais para gente das ex-colónias acham injusto. Têm a lata de achar injusto e de me dizerem isto na cara. Injusto é ir literalmente pegar fogo a um país e depois acharmos graça ao facto de ainda terem cinzas agarradas à sola dos sapatos. E ainda tentar argumentar que não tivemos nada a ver com isso.


A mesma coisa para a quotas para mulheres. É injusto. Injusto estarmos a roubar lugares a homens "mais qualificados". Mas ninguém garante que são mais qualificados. Para além disso as suas "qualificações" são adquiridas num ecossistema criado por eles próprios que os beneficiam.  

 

Estas lágrimas de crocodilo sinceramente não me comovem. Só chateiam.

domingo, 9 de novembro de 2014

Só sei que tenho uma módica quantia de certezas relativamente a uma menos módica quantia de assuntos


Há uns dias a minha mãe veio ter comigo e disse-me: "Estou muito chateada hoje". E eu, como boa e dedicada filha que sou, perguntei-lhe porquê e se havia alguma coisa que eu pudesse fazer para minimizar o desconforto que a vida lhe estava a provocar. Ela respondeu-me o seguinte:

 

"As mulheres se fossem espertas não se deixavam levar pelo marketing".

 

Assim, sem mais nem menos. E ainda dizem que as pessoas de meia idade são aborrecidas.

 

Já não é a primeira vez que oiço a minha mãe queixar-se que as raparigas hoje em dia se maquilham demasiado, que usam saltos altos demasiado novas e malas de senhora quando deviam usar mochilas.

Não é que ela ache que antigamente é que era bom, longe disso, ela sempre me tentou passar a ideia de que quando ela tinha a minha idade (e especialmente antes do 25 de Abril) não só era tudo péssimo, como a preto e branco (tanto literalmente como metaforicamente).

 

Eu diria que a minha mãe é uma feminista de segunda vaga (ou, pelo menos, o equivalente português/europeu da coisa). Ela nunca se deu muito a títulos ou coisas desse género mas de vez em quando diz-me que era feminista antes de eu sequer existir por isso não vale a pena armar-me em esperta. Faz-me bem ouvir estas coisas de vez em quando. Keeps me grounded.

 

Mas a verdade é que este tipo de coisa também me deixa um bocado dividida. Já passou a febre da igualdade pós 25 de Abril e agora temos que lidar com um monte de coisas que não sabíamos que existia antes da poeira assentar.

 

Por um lado, acho que muitas mulheres são apáticas relativamente à sua situação. Não sei se é porque se recusam a aceitar que são oprimidas porque têm medo que isso automaticamente lhes atribua o título de vítimas (o que não é verdade). Por outro, tenho a plena consciência de que nem toda a gente tem a minha vida para andar por aí pensar em como combater o patriarcado, uma vez que andam demasiado ocupadas a trabalhar/estudar/sobreviver.

 

Também acho que as mulheres deviam estar no seu direito de usar maquilhagem e saltos e vestidos curtos mas, ao mesmo tempo, devíamos ter mais consciência de que não vivemos num vácuo cultural e que padrões convencionais de beleza são tóxicos. Idealmente, devíamos iniciar uma guerrilha contra os cosméticos. É complicado.

 

Acho que o movimento feminista devia ser mais académico e menos "de pacotilha", menos complacente, acho que devia haver mais líderes intelectuais proeminentes. Mas também acho que isso se tornou um bocado obsoleto com a internet. Em vez de um único foco luminoso mega brilhante, temos vários mais pequeninos que brilham com intensidades variadas.

 

Muitas vezes acho que as coisas não mudam até chegar o dia em que fazemos algo drástico. Em que rapamos metade da cabeça e rosnamos aos homens que passam por nós na rua. Em que andamos com uma faca de mato no cinto, em que agarramos a sociedade pelos tomates e dizemos que ninguém vai a lado nenhum até sermos todos gente.

 

Mas também acho que devemos ser persistentes e pacientes, que está tudo a melhorar pouco a pouco. Estamos a atirar uma pedra de cada vez ao glass ceiling e o dia em que ele se desfaz completamente está para chegar.

 

Depois do último velho caquético da última instituição/partido/empresa morrer, quem vai herdar o mundo são mulheres altamente qualificadas.


Acho muita coisa e ao mesmo tempo não acho nada. Sou um autêntico Sócrates às vezes.
 
 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

God Bless

Esta semana falei com um gamergater a sério, na vida real.
Os gamergaters são apoiantes de um movimento chamado gamergate que, de acordo com eles, é sobre ética no jornalismo dos videojogos mas que, na boa tradição de arruinarem tudo, é na verdade sobre moços brancos que não querem que nada mude. Não querem mais representatividade nos seus joguinhos do computador porque isso aparentemente ameaça a sua masculinidade. Ora, este movimento basicamente não faz nada de bom e não quer que ninguém faça. É uma coisa muito fina e muito produtiva.

 
Várias senhoras jornalistas já foram ameaçadas de morte de maneiras coloridas em consequência desta parvoíce e frases como "o feminismo está a destruir o homem ocidental" foram usadas. É perfeitamente ridículo. No entanto, eu estava convencida que isto era uma coisa que só atacava a Gringolândia, lá no além-mar. Que, por muito sexistas que os portugueses fossem, tínhamos mais o bom e velho machismo de um povo tradicionalmente católico. Não estava sinceramente à espera de encontrar estas modernices por cá. Enfim, são as desvantagens da globalização.

 
De qualquer forma, lá estava eu na minha paz do senhor a tentar prestar atenção à aula quando oiço um palerma (com quem eu já tinha discutido anteriormente porque ele desrespeitou o Dragon Age II à minha frente e sinceramente eu estou na faculdade para aprender não para me faltarem ao respeito) falar com o amigo sobre uma moça que tinha dormido com cinco gajos em troca de boas críticas para o seu jogo.

 
Isto foi o que começou o movimento, um idiota qualquer fez um post num blog a dizer mal da ex-namorada e toda a gente acreditou, embora seja demonstradamente falso.

 
Eu perguntei-lhe se ele sabia de que é que estava a falar e se sabia que o que estava a dizer era mentira mas, como seria de esperar, a reação não foi a melhor. Vou-vos citar algumas pérolas que foram ditas por este mastronço:

 
"Só queremos que os vídeo jogos continuem a ser vídeo jogos"
 
"Uma vez joguei um jogo com uma protagonista feminina e não me importei, não compreendo por que é que a representatividade é assim tao importante para vocês"

 
"Somos apoiados por porn stars e por um movimento católico, como é que podemos estar errados?"

 
Esta última é francamente a minha preferida e acho que a vou usar frequentemente no meu dia-a-dia.

 
 Mas o que eu sinceramente não compreendo é por que é que é tao difícil para as pessoas aceitarem que algo está errado quando lho apontam diretamente. Se alguém do grupo mulheres-e-minorias diz "olhem lá isto não está nada bem, é francamente nojento por causa de x, y e z e gostaríamos que fosse corrigido da forma a,b e c" se calhar a melhor reação a ter não é começar aos gritos porque lhes estão a atacar as liberdades de expressão e aceitar que, se calhar, estas pessoas estão em melhor posição para avaliar se algo é ofensiva para elas ou não.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Melhor que tu


Uma das coisas que me dá mais prazer é defender a Nicki Minaj. As pessoas (em especial os cachopos com quem falo) começam a desenvolver tiques nervosos sempre que tenho esta conversa. Estão tao habituados ao circlejerk anti-Nicki que nem sequer conseguem conceber que alguém diga bem dela e da música que ela produz. É verdade que é mais fácil dizer "buh antigamente a música era melhor hoje em dia só se faz porcaria" mas é mais divertido (e mais próximo da verdade) dizer que a música hoje em dia é tao boa, se não melhor, do que há 20 ou 30 anos e que, sim, isso inclui a qualidade do pop e hip-hop e, por conseguinte, a Nicki Minaj.

Pessoalmente, não sou muito dada a ouvir a música dela mas sei dizer que é liricamente pungente e mais catchy do que pé de atleta num balneário público, sendo que devo ter ouvido o tema Anaconda cerca de três vezes e há cerca de uma semana que acordo com ela na cabeça. Podia ser pior.

Dá-me um gozo extra defender o tema Anaconda porque, para além da música, adoram dizer mal do vídeo. Há quem ache que é uma badalhoqueira desmiolada  (gente que não merece sequer consideração) mas há também quem diga que é só mais um teledisco que apela ao male gaze para ganhar popularidade e um atentado anti-feminista. Sinceramente, já estive aí mas não acho que seja o caso. Se olharem com atenção vão ver com os vossos olhos especiais que isto não é exatamente o teledisco a que estamos habituados com moças semidespidas e o olhar sedutor de um carneiro mal morto.

Anaconda é tao outrageous, é um display tao excessivo de sexualidade que se torna uma excentricidade que não pode ser nada para além do que a vontade pura da Nicki Minaj. Não serve para seduzir a audiência porque, comparado com os telediscos mainstream e a sua sexualidade softcore, roça o grotesco. É expressão puramente artística e é fantástico. É celebração do bizarro aos olhos da sociedade atual. É a normalização de ideais de beleza que não incluem ser branco e esfomeado.

Deus abençoe a Nicki Minaj e o rabo dela. Que o próximo seja ainda mais out there.
 
 

Nota: devo acrescentar também que ela tem um historial interessante de promover autoestima nas suas fãs e motivá-las a tirarem um curso superior, sendo que já disse que gosta imensos que lhe levem os diplomas para ela ver. Espero que se sintam mal por tudo o que pensaram de mal sobre ela. Eu sei que eu me sinto.