segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Menos, por favor


Eu vivo num sítio com igual proporção de racistas e gente não branca. Seria de esperar que convívio prolongado uns com os outros acalmasse os racistas mas isso não parece ser o caso. Eu venho de uma família de bleeding-heart liberals que sempre me ensinaram a respeitar toda a gente e a sermos todos amigos enquanto damos as mãos e cantamos canções. Como tal, criei uma grande aversão à palavra pr*to e esforço-me para usar alternativas mais politicamente corretas (não só por uma questão de respeito mas também porque já ouvi usarem pr*to numa miríade de contextos menos agradáveis). Isto, no entanto, parece gerar reações estranhas.

 

Ontem estava a almoçar com uns colegas da faculdade quando oiço a seguinte pérola:

"...e os pr*tos estão todos a morrer de SIDA."

Zero contexto. Está uma pessoa a tentar almoçar na paz do senhor e cai-lhe uma coisa destas no colo.  

 

Tentei, na melhor das minhas capacidades, que a minha companhia de almoço compreendesse que isto não só não era um claro exemplo de humor negro (como tentaram argumentar) mas sim extremamente insensível e de muito mau gosto. Daí seguiu também o meu pedido para não dizerem pr*to à minha frente. Aprendi há algum tempo que mais vale pedir para não usarem essa linguagem porque me deixa desconfortável a mim pessoalmente do que porque é efetivamente ofensivo. As pessoas reagem melhor. Se pensarmos nisso é um bocado triste.

 

Ora, depois de demonstrarem a sua incredulidade e acharem que eu estava a gozar com eles passaram a gozar comigo. Tipo "aha és tão parva e politicamente correta". Sinto-me muito embaraçada, realmente.

 

Depois disto vem a retórica do costume "eles gostam que os tratem assim" e o clássico "então eu sou branco e eles são pr*tos, qual é o problema?". Eu sinceramente já não tenho paciência para isto, especialmente à hora de almoço. Porque, francamente chamar a alguém branco não é sequer comparável e pouco ou nada me interessa se as pessoas de cor não se importam que as tratem por pr*tos até porque isso é assumir que, primeiro, a juventude negra que lhes disse tal coisa (porque há sempre uma juventude negra possivelmente hipotética qualquer que eles dizem que conhecem que lhes disse que fica mesmo chateada se não a tratarem por pr*ta) fala por um grupo inteiro de pessoas altamente diverso e, segundo, que nunca houve uma fação da sociedade que tivesse aceitado que se referissem a ela de forma pejorativa porque, hey, não é como se fossem parar anytime soon.

 

Dizem-me também que a razão pela qual eu apoio um sistema de quotas e acho que devíamos tentar compensar os grupos que andámos a oprimir e explorar durante anos (especialmente enquanto ex-potência colonizadora) é porque eu me sinto "culpada" e estou a "vitimizar e infantilizar" estas pessoas. Até pode ser que a minha abordagem não seja a mais correta (agradecia que me corrigissem se eu estiver errada) mas a verdade é que há que tomar responsabilidade pela merda que se andou a fazer durante tanto tempo e pelos efeitos duradouros que essa merda teve.

 

Não é um conceito particularmente difícil.

 

Mas, na minha experiência, sempre que se diz a um homem branco ocidental em idade universitária que usufrui de uma grande quantidade de privilégio fica logo tudo chateado. Se falo em bolsas de estudo especiais para gente das ex-colónias acham injusto. Têm a lata de achar injusto e de me dizerem isto na cara. Injusto é ir literalmente pegar fogo a um país e depois acharmos graça ao facto de ainda terem cinzas agarradas à sola dos sapatos. E ainda tentar argumentar que não tivemos nada a ver com isso.


A mesma coisa para a quotas para mulheres. É injusto. Injusto estarmos a roubar lugares a homens "mais qualificados". Mas ninguém garante que são mais qualificados. Para além disso as suas "qualificações" são adquiridas num ecossistema criado por eles próprios que os beneficiam.  

 

Estas lágrimas de crocodilo sinceramente não me comovem. Só chateiam.

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