terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dicotomias

As pessoas mentem muito e, às vezes, se se repetir uma mentira vezes que chegue, embora esta não se torne verdade, torna-se autossuficiente e autopropagável. O que é quase a mesma coisa.

A smear campaign contra a Hillary Clinton é um bom exemplo de que se pode deturpar tudo e nada para se obter exatamente o que se quer (ou, neste caso, o que se chega à conclusão de que na verdade não se quer, mas depois já é demasiado tarde). A Hillary Clinton está muito longe de ser uma política ideal mas é uma política competente e séria, embora pareça que isso é vastamente irrelevante para a maioria das pessoas.

É que se por um lado temos a direita nossa de cada dia a cagar a sua posta de pescada, temos até mesmo os círculos liberais relutantes em apoiá-la porque atrelaram o reboque ao Bernie Sanders e a alguma ideia extremamente confusa e mal compreendida do que mudança política realmente implica e agora não podem voltar atrás.

Portanto, se por um lado ela quer híper-liberalizar os Estados Unidos, destruir o conceito tradicional de família e distribuir vales de “pague um aborto ganhe dois grátis” pela população, por outro é uma warmonger sem sensibilidade humanitária ou visão política. O pior tipo de neoliberal, uma capitalista light na mão de Wall Street.

Mas e a responsabilidade eleitoral? Não se pode fazer exigências intermináveis quando se tem um papel ultralimitado na sociedade e há uma recusa profunda em sair de uma zona de conforto altamente limitada. Não se pode exigir da Hillary Clinton, ou de qualquer outro político individual, uma solução imediata e simples para anos e anos de instabilidade política fruto de uma forte presença colonial ao longo de séculos.

E sim, é tudo muito triste e deprimente e foreign policy é uma treta e se calhar a Madeline Albright não devia ter apoiado os bombardeamentos do Kosovo pela NATO mas não me vou pôr do alto da minha Torre Do Supremo Conhecimento porque, francamente, não sei mesmo se foi pelo melhor ou pelo pior (há coisas que sei mas esta em particular nem por isso).

O sistema eleitoral dos Estados Unidos é mau, o nosso apesar de ser muito melhor também não é ideal e o conceito de democracia representativa tem muito que se lhe diga mas ajudou-nos a atingir uma espécie de equilíbrio que com a quantidade ridícula de gente que existe neste shitshow de planeta eu julgaria praticamente impossível. Queixume infinito sem nenhum tipo de substância que o apoie, sem vontade de self-improvement ou noção de impacto direto na comunidade local serve exatamente de zero.

Portanto ok, querem fazer a revolução vamos fazer então a revolução, não a social que, essa sim, estou à espera que comece desde que nasci, mas a política e a económica. Eu lidero e tudo se quiserem, mas mostrem-me opções viáveis e não ideologia half-baked sem suporte académico. É que, relativamente à Hillary Clinton e ao processo eleitoral nos Estados Unidos, a única coisa que tenho visto é backtracking de quem andou a espalhar mentiras na altura em que o Bernie ainda parecia mais do que um senhor decrépito pseudossocialista com o political savvy de uma batata e apoios mornos de quem diz que ela ao menos não é literalmente fascista (é só figurativamente fascista aparentemente).

Aqui em baixo estão partes do discurso da Hillary Clinton na Democratic National Convention, onde ela refere os assuntos (problema da água contaminada em Flint, saúde universal, licença de maternidade) que tenciona abordar especificamente enquanto presidente e mostra, se não capacidade intrínseca em liderar, pelo menos algum tipo de solidariedade, ponderação e estratégia baseada em factos.




Como é que se quer chegámos a um ponto em que é possível comparar esta mulher a alguém que é essencialmente o ejaculado de uma laranja criada numa mata em Chernobyl? Como é que não se vê que, apesar de não trazer a revolução™ às costas pode trazer mudança? Pode construir sobre o que se deixou em vez de destruir tudo e começar de novo?    

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Gloria e a arte de perguntar

O feminismo passa muito por problem solving. Ou pelo menos devia.

Se vamos embarcar num movimento político para avançar a nossa posição na sociedade é bom que dê trabalho, que nos obrigue a procurar soluções tangíveis para situações concretas. Isto nem sempre é fácil. Implica compromissos e empatia e análise crítica de uma data de coisas menos agradáveis.
A Gloria Steinem, deusa a abençoe nos seus 82 anos, deu uma entrevista à Bloomberg que mostra exatamente quão importante é a capacidade de investigação e aprendizagem num contexto feminista. Uma das respostas dela sobre a sua experiência na luta contra o tráfico sexual é verdadeiramente impressionante.

“I came to see friends who live along the Zambezi River. They had arranged a meeting with a lot of women from local villages, maybe 20 or 25. […] Two women from those villages had gone to Lusaka to prostitute themselves and never came back, because they needed money for food and also for the kids’ school fees. So I said to them, what would have prevented this? They said a good maize crop. I said, what prevented a good maize crop? They said the elephants came as soon as it was up to a certain height. In the old days, there was a system with a tower with somebody up there with a drum that scared them away. So I asked, “Well, what would prevent that?” They said if they had an electrified fence. I raised—I can’t remember—I think it was under $3,000 for an electrified fence, and they cleared acres and acres by hand, which is a lot of work. When I went back the next year, there was a bumper crop. There were bags of maize under the tree. They had enough for food, security, and also enough to sell so that their kids could go to the local schools. But if someone had asked me what would prevent sex trafficking, I would not have said an electrified fence.”


 A complacência é transversalmente recompensada, mas é algo que deve ser especialmente combatido pelas mulheres. Complacência feminina é muitas vezes sinónimo de corroboração com a nossa própria opressão. Em vez de aceitar as coisas como são, colar etiquetas novas com cuspo em cima de problemas para fingir que são outra coisa, temos que aprender a olhar para nossa opressão de frente e chamar-lhe pelo nome certo.

A prostituição e o tráfico sexual são problemas graves. Não há nenhuma razão para uma mulher ter que se prostituir, não há razão nenhuma para desculpar uma sociedade que aceita que exista procura para este tipo de exploração. São sintomas que têm que ser erradicados e não repackaged como algo socialmente aceite, uma triste realidade comparável a qualquer outra que ocorre numa sociedade capitalista. 

Gloria Steinem, na sua infinita sabedoria de quem já faz isto há muito tempo, não só se propôs a tentar ajudar a encontrar uma solução como conseguiu fazê-lo realmente ouvindo a realidade das mulheres nessa posição e perguntando o que é necessário para que elas possam resolver o seu próprio problema a longo prazo.  

Temos que ter humildade para ouvir, mas também coragem para falar, como estas mulheres tiveram. Coragem de identificar aquilo que é injusto e que tem que ser mudado, custe o que custar.