sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Ca nojo

Ultimamente tenho-me cruzado com imensos anúncios do euromilhões. Estão nas paragens de autocarro, nos próprios autocarros (para o caso de não terem reparado neles enquanto estavam à espera de ir para o trabalho/escola/faculdade/whatever) e num monte de outros sítios onde normalmente há este tipo de coisa.
 
Pouco me importa o euromilhões ou como decidem publicitar as suas atividades mas desta vez não pude de deixar de reparar nos posters. Presumo que estes senhores tenham mais do que fundos suficientes para contratarem uma equipa de marketing jeitosa, mas o que estes idiotas formados num daqueles cursos que requerem usar fato e gravata para fazer apresentações PowerPoint fizeram foi isto:
 
 
A sofisticação, a classe, a originalidade. Há tanto por onde pegar.
 
Qual é a mensagem aqui exatamente? Parece-me que o bigodes ganhou o euromilhões e agora tem uma namorada toda gostosa. Pronto. O que é que eu suposto eu achar disso? Todas as mulheres são umas gold diggers badalhocas? Ninguém pegava no bigodes antes mas agora que ele é rico todas as moças jeitosas tentam entrar-lhe nas calças? Que linda mensagem, a sério.
 
Sinceramente podem tentar-me convencer que isto acontece a toda a hora e apontar para homens super ricos e velhos e asquerosos casados com super modelos mas não quero muito saber. Não acho que aconteça muitas vezes e uma rapariga jeitosa tão depressa (ou tão devagar) arranja um milionário feio como um pelo qual se sente atraída. Os feiozos não têm o monopólio da riqueza mundial. Para além disso, por que é que ter uma namorada que só se interessa por dinheiro devia ser um objetivo para o bigodes? Estão a imaginar os amigos dele? "Ahah bigodes, és rico mas a tua namorada nunca te vai amar só por ti, só pelo teu dinheiro". Maravilhoso. Uma verdadeira inspiração.  
 
É que não só estão a reduzir mulheres a idiotas sedentas de dinheiro (e a meros símbolos de status sem agência própria) como estão a dizer que o bigodes tem uma relação vazia e pouco satisfatória, sendo que isto deveria ser considerado um plus no que toca a ganhar o euromilhoes.
 
Ninguém fica aqui bem visto. Isto é um trainwreck.  

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Nem a brincar

Há uns dias um colega meu da faculdade ficou muito admirado quando eu lhe expliquei que a minha mãe não tinha tempo para me levar à universidade de carro todos os dias. Afinal, não só tenho boas pernas para andar e um passe de autocarro, como a minha mãe não tem mesmo tempo para servir de motorista privada, disse-lhe eu. O que ele respondeu a isto foi o seguinte:

 
"A tua mãe não trabalha, como é que não tem tempo?"

 
Ora, a minha mãe é dona de casa. É um nome um bocado estúpido e antiquado que acarreta um estigma mesquinho, por isso nunca foi muito bem aceite cá em casa (e com razão). É um termo redutor. Quando era mais nova tinha sempre grandes dificuldades em decidir o que escrever naquelas folhinhas de informação pessoal que distribuíam na escola que perguntavam, entre outras coisas, qual a profissão da minha mãe. Durante uns anos escrevi tradutora (coisa que fez durante algum tempo de forma mais ou menos exclusiva) mas depressa tornou-se uma definição um bocado limitativa de tudo o que a minha faz que se enquadra na categoria de trabalho. Nos meus últimos anos de ensino obrigatório comecei a escrever artista. É um título que engloba uma grande quantidade de profissões e ofícios difíceis e que requerem talento mas que são muitas vezes ignorados ou menosprezados. É um paralelo interessante. 

 
A minha mãe criou três seres humanos produtivos e razoavelmente bem integrados na sociedade, é uma metade bastante sólida do casamento mais bem-sucedido que alguma vez vi, mantém uma casa bastante grande em condições habitáveis, leva (e traz) uma quantidade variável de crianças à escola/natação/música/cinema, leva o cão à rua várias vezes ao dia, dá banho ao cão (e às vezes também a uma quantidade variável de crianças), gere as finanças do household e apoia as aventuras empresariais do meu pai desempenhando uma quantidade enorme de papeis, compra roupa para a família toda (incluindo para o cão) e cozinha todas as refeições que comemos. A minha mãe gere crises melhor que o Dr. Phil. Para não falar dos trabalhos de casa que corrigiu e dos projetos de grupo em que teve que participar (nem sempre voluntariamente) e nas associações de pais em que trabalhou.

 
Isto é apenas uma amostra das coisas que a minha mãe tem feito ao longo dos anos em que a conheci. No entanto, este tipo de atitude dismissive para com as "donas de casa" é uma coisa que é bastante generalizada. A minha mãe ouviu muitas bocas destas ao longo dos anos de gente que provavelmente imagina que as donas de casa passam o dia a ver televisão com uma caixa de chocolates ao colo e rolos no cabelo.

 
Vivemos numa sociedade tao disposta a desvalorizar tudo aquilo que é tradicionalmente feminino que nem sequer são capazes de admitir que ser "dona de casa" é efetivamente cansativo e *gasp* difícil. Vivemos numa sociedade que promove a ideia que é claro que toda a gente gostava de ficar em casa a passar tempo com os filhos porque é tão mais fácil e melhor do que trabalhar das nove às cinco e que essas pessoas é que são os verdadeiros hérois por trabalharem fora de casa. Oiçam, eu não estou a negar que é difícil trabalhar em ambientes convencionais, é óbvio que é, mas muitas vezes as pessoas esquecem-se que criar crianças e gerir um household não incluí só as partes boas e que 90% do tempo as crianças são horríveis - uns absolutos psicopatas.

 
Se ser dona de casa fosse uma profissão levada a sério, garanto-vos que a minha mãe estaria no topo 5% das donas de casa. A minha mãe é boa no que faz. Muito boa. Mas ninguém quer saber. A minha mãe tem um skill set muito raro que devia ser valorizado e ninguém quer saber. A minha mãe já fez e conquistou mais do que a average person. No entanto, um palermóide filho único que nunca trabalhou um dia na vida tem a lata de dizer que a minha mãe não trabalha e sente-se perfeitamente validado ao fazê-lo porque nunca ninguém lhe pagou para fazer o que faz.

 
E isto, meninos e meninas, é a razão pela qual noções capitalistas de trabalho são coisas muito tristes e prejudiciais na nossa sociedade.     
 
 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O mais pequeno violino do mundo

Se encostarem o ouvido ao chão neste momento conseguem ouvir o mais pequeno violino do mundo a tocar só para os utilizadores do 4chan. Aparentemente houve uma mudança de administradores e agora os utilizadores estão banidos de usar termos coloridos e carinhosos como n*gger e de publicar a morada e contactos de feministas proeminentes na comunidade do gaming. Escusado será dizer que estão todos muitíssimos aborrecidos.
Tenho tanta pena. A sério que sim. Tenho pena infinita. Deixo aqui em baixo uma representação gráfica da pena que eu tenho.
 
 
 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Of milkshakes and men

Eu digo muitas vezes "os homens são péssimos". Também gosto de dizer "blegh odeio homens". Isto normalmente suscita alguma confusão. Odeio todos os homens sem exceção? Claro que não. Tenho um pai e irmãos e amigos e colegas que são homens e gosto bastante deles. Gosto imenso de homens, gosto de olhar para eles e de algumas coisas que eles fazem de vez em quando. Isto, no entanto, em nada invalida o facto de que, no geral, os homens são péssimos e deviam ter vergonha na cara.
 
É confuso, eu sei, mas tenho uma analogia que é capaz de ajudar.
 
Imaginem que têm um batido de morango super delicioso e eu chego ao pé de vocês com uma colher de cocó. Ora, como me sinto generosa, esta colher de cocó representa apenas 10% do batido. Eu meto essa colher de cocó no vosso batido e mexo até já não dar para distinguir uma coisa da outra.
 
 
90% do batido continua a ser leite e morango e açúcar e essas coisas todas saborosas mas, no fundo, continua a ser um batido de morango? Ou será um batido de cocó?
 
É um batido de cocó, admitam.
 
 
Food for thought, crianças. 
 

Problemas caninos


Eu tenho um cão. Admito plenamente que ele não é o bicho de aspeto mais simpático, é muito grande e muito preto mas, como 99% dos cães, é um enorme palerma. Nunca fez mal a ninguém e nunca teve tal inclinação.

 

No entanto, já me aconteceu mais do que uma vez cruzar-me com gente que ameaça matar e/ou bater no meu cão simplesmente por existir. Lá está ele a ser um cão, a cheirar as suas coisas de cão e a fazer chichi em esquinas e chega um idiota qualquer e arranja uma razão qualquer para se ofender e começa a espumar da boca. É aborrecido. Não gosto que me interrompam o passeio com estas maldades.

 

Já ouvi pessoas ameaçar dar tiros em donos de cães perfeitamente pacíficos. Já ouvi gente ameaçar levar donos de cães a tribunal porque os bichos decidiram aliviar-se em sítios públicos.

 

Todas as altercações que testemunhei foram incitadas por homens brancos e (presumivelmente) heterossexuais. Com tanta coisa com que se indignarem escolhem coisas assim tao irrelevantes. É francamente ridículo.

 

Eu até ficava triste se não soubesse já que este tipo de homens só se preocupa com coisas estúpidas tipo futebol e se andam a dar direitos a mais a minorias étnicas.

 

Sim senhor, o ego masculino é muito frágil mas haja decência.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O bicho papão


Quando eu era uma proto-pessoa, os sites brasileiros eram o bicho papão. Sempre que algum professor mandava fazer um trabalho de grupo (daqueles com cartolinas feiozas porque no meu tempo PowerPoint era só para gente muito fina) havia um aviso no final: "E cuidado com os sites brasileiros que isso não vale nada e está tudo mal escrito".

 

Podemos discutir durante uma eternidade se afinal é o povo brasileiro que escreve mal ou se somos nós os portugueses que não sabemos encadear frases corretamente, até porque é bem possível que o português na altura da colonização tenha cristalizado por aqueles lados e o nosso é que se tenha tornado uma bastardização do puro e bom e muitíssimo verdadeiro português. Mas a questão aqui é outra (até porque pouco ou nada me interessa a maneira como as pessoas falam desde que se compreendam). Durante muitos anos acreditei nisto, que os sites brasileiros eram maus e ruins e não prestavam para nada. No entanto, isto é não só horrivelmente falso como muitíssimo pouco verdadeiro.

 

Há sites brasileiros maus? Pois claro mas arrisco-me a dizer que por cada site brasileiro mau há um português ainda pior. Sites portugueses há muito poucos e os que há são de uma pobreza realmente muito triste. O povo português não produz conteúdo e, aparentemente, tem raiva de quem produz. Há muito mais sites brasileiros do que portugueses e há muitos mais sites brasileiros muito melhores do que os sites portugueses (sobre muito mais coisas se não mesmo todas as coisas).

 

Eu que sou dada aos feminismos decidi andar à procura de feministas portuguesas que escrevessem coisas engraçadas (não coisas como as minhas que são muito palermas) e há muita coisa interessante mas olhem que as nossas irmãs brasileiras estão anos-luz à frente de tudo e de todos. 

Depois de anos de colonização e das consequências que daí surgem ainda por cima sofrem sexismo, violência e racismo a uma escala que nós aqui no rabo da europa nem conseguimos imaginar.  Para não falar de que incluíram mulheres trans no feminismo mainstream com imensa facilidade (que é algo que por vezes escapa até a feministas bem intencionadas).

 

Outro exemplo interessante é o da wikipedia. Quantas vezes ouvi dizer "ai a wikipedia em português é uma porcaria, está tudo escrito em brasileiro". Esta badalhoqueira foi repetida tanta vez que seria esperar que fosse obrigatório tatuá-la no rabo de todos os professores recém-formados. A wikipedia em português parece ser editada maioritariamente por utilizadores brasileiros e é piorzinha que a inglesa (não é só a versão portuguesa e desconfio que a culpa disso não seja do povo brasileiro. Desconfio) mas acham que estes palermas que gostam de dizer mal estao preparados para ir eles editar as páginas da wikipedia? Claro que não. Se os senhores da wikipedia fossem espertos não deixavam estafermos destes editar sequer um artigo sobre as unhas dos pés do Cavaco Silva mas como ainda não tiveram esse insight há literalmente zero impedimentos de irem lá preencher as muy importantes lacunas de que se queixam.

 

Como o meu paizinho dizia

 

"Não fodem nem saem de cima"

 

Há gente que não se enxerga.  

domingo, 14 de setembro de 2014

Os génios e os outros


Há relativamente pouco tempo mudei de curso. O meu primeiro tinha uma quantidade considerável de moças, o segundo, de moços.

 
No meu primeiro curso consegui amealhar um grupo substancial de raparigas ao qual durante algum tempo chamei amigas. Muitas delas tinham médias ridiculamente altas de entrada na faculdade, tipo dezoitos virgula qualquer coisa e por aí em diante. Moças inteligentes no sentido convencional do termo. Nunca em nenhuma circunstância se referiram a elas próprias como génios, inteligentes, espertas, espertinhas, boas no que fazem, dotadas, sobredotadas (que julgo ser três ou quatro passos acima de dotada) ou qualquer outra coisa que indicasse que elas se consideravam na posse de qualquer tipo de capacidade intelectual.

 
Pode ser falsa humildade? Isso pode, mas nunca me pareceu que fosse. São coisas que acontecem.


No meu atual curso tenho amigos rapazes. Como é uma mudança recente ainda tenho uma pool de amigos reduzida mais ainda assim dá para fazer umas observações interessantes. Acontece que conheço alguns que ou entraram mais cedo na universidade ou passaram um ano à frente. Os outros são juventudes que saíram do secundário com médias de catorze e dizem coisas como "sempre fui o génio da família". Estamos a falar de gente que consegue manter conversas longuíssimas sobre coisas sobre as quais sabem pouco ou nada.

 
Atenção, são bons rapazes, boa gente. E catorze é uma média sólida. O que me admira é que esta gente que passou um ano à frente muitas vezes cai de boca no chão e mal consegue passar às cadeiras. O génio acabou? O que se passa aqui? E mesmo depois de terem provas concretas de que não são isto e aquilo continuam a arranjar desculpas. "É impossível fazer esta cadeira, só palermas que passam a vida a estudar é que passam".
 

"Só palermas que passam a vida a estudar é que passam"

 
Engraçado como estes rapazolas às vezes dizem coisas acertadas.


Quando as moças têm boas notas e se saem bem academicamente é porque trabalham e, afinal, qualquer palerma consegue fazer isso. Quando acontece o mesmo com moços é porque são dotados.

 
Depois de passarem uma vida inteira a ouvir dizer que são o sol e as estrelas é um bocado tough assimilar que se calhar o rabo deles não brilha com especial intensidade nem cheira a rosas.


Enfim, eu canso-me. Fico triste. Acredito numa distribuição igualitária da bazófia. Meninos, partilhem a vossa bazófia, vá lá, por uma vez na vida não sejam fuços. Há bazófia que chegue para todos.