quarta-feira, 22 de abril de 2015

Marimbando

Aqui há uns dias li aquela notícia estúpida sobre como algumas moças enfermeiras (e outras não enfermeiras, parece-me) estavam a ser obrigadas a provar que ainda estavam a amamentar em frente a estranhos de forma pouco decorosa. Supostamente, o objetivo era apanhar as badalhocas que andavam a ludibriar o Estado afirmando ainda estar a amamentar quando na verdade já não estavam. O escândalo. O horror.
 
E que incríveis regalias oferece o Estado a mães que amamentam as suas crianças? Um Porsche? Uma máquina de extração de leite revestida a ouro? Um marido que não é inútil e que ajuda na lida da casa? Não. Oferece dispensa durante duas horas por dia para amamentar a dita-cuja. Duas horas. Que luxo, não admira que esteja tudo na merda com handouts destes.
 
O artigo que li no Público dizia que cerca de metade das senhoras que foram sujeitas ao teste muitíssimo preciso e científico foram apanhadas em falso. Não sei exatamente quão fidedigno é esse resultado mas vamos assumir que é completa e inteiramente a coisa mais verdadeira deste mundo. Vamos assumir que metade das técnicas de saúde que dizem que estão a amamentar as suas crianças são umas mentirosas que fabricam deceções lactantes apenas para benefício próprio. O que é que elas estão a ganhar aqui de tao incrível? Duas horas de descanso por dia? Isso não dá para muita coisa, dá para beber um café, ir confortavelmente à casa de banho, fumar um cigarro e ler aí umas cinquenta páginas de um livro qualquer. De certeza que o país não vai ficar (mais) falido por causa disso.
 
O teste que se usou para determinar se as senhoras estavam ou não a amamentar é claramente um atentado à integridade corporal das mulheres em questão. Não me interessa se esta é a única maneira de apanhar as mentirosas e as abusadoras. Isso aqui é zero relevante. Não se põe em causa a autonomia corporal de quem quer que seja na esperança de apanhar uma mão cheia de gente a abusar do sistema. Não interessa. Não interessa se cinquenta por cento ou setenta e cinco por cento estavam a mentir. Isso simplesmente não se faz. Não acho razoável dar esta folga de duas horas e depois obrigar as beneficiárias a submeter-se a um teste humilhante em frente a estranhos para garantir que a sua ganância destemperada de mãe recente não esvazia os cofres do país. Acho que assim muita gente preferia que enfiassem as duas horas no cu e que deixassem o pessoal em paz.
 
Este tipo de retórica é tão horrivelmente recorrente. Eu desconfio que haja gente que sofre muito profundamente ao pensar que há pessoas (especialmente mulheres)  a usufruir de coisas oferecidas pelo Estado em circunstâncias menos regulares. Um caso semelhante é o do aborto, não há coisa que suscite mais histerismo. Há quem queira que as mulheres olhem lá para os clusters-de-células-mais-ou-menos-humanoides nas ecografias antes de os abortarem na esperança de despolete algum tipo de instinto maternal até à altura adormecido pela promessa de mais sexo desprotegido. Há quem ache (especialmente lá nas américas) que se deve fazer mais testes invasivos (física e psicologicamente) antes de se permitir às pobres senhoras ter um aborto.
 
Isto tem tudo a ver com a mesma coisa. A população sente-se no direito de opinar em tudo no que toca à autonomia corporal das mulheres. Como se devem vestir, com quantas pessoas devem dormir, se têm direito a remover do seu próprio corpo clusters de células indesejados, como se devem comportar. O corpo das mulheres é do domínio público. Não têm o direito intrínseco à privacidade que os homens têm.
 
Já vi gente aparentemente iluminada dizer que afinal, depois da legalização da coisa, o número de abortos aumentou. Assumindo que isto é verdade (que não é), a minha questão aqui é: e depois? Oiçam, se todas as mulheres grávidas do mundo decidissem abortar, se todas as mulheres decidissem coletivamente que não queriam ter mais filhos nunca na vida e que, se engravidassem, iam abortar os sacanas até ao tutano, eu ia continuar a defender que sim senhor façam o que quiserem porque, muito sinceramente, não interessa. Não se vai obrigar mulheres a ter filhos que não querem por que razão seja, nem mesmo para salvar a humanidade. Estou-me a cagar. Arranjem maneiras mais criativas de criar crianças, aqui ninguém é incubadora de ninguém. Se o pessoal intendido traçou uma linha na areia e disse "isto aqui é um cluster de células, aquilo ali é uma criança" então qualquer aborto que se faça deve estar ao nível da remoção de um tumor.
 
Há imensas coisas que não interessam. O pessoal gosta sempre de brinca às slippery slopes mas não interessa. Não interessa se o movimento de fat acceptance promove obesidade ou não (deve promover tanto ou menos como o atual paradigma promove anorexia). Não interessa se há gente a receber o sweet sweet dinheiro do fundo de desemprego enquanto não faz nada da vida (até porque toda a gente devia ter um rendimento mínimo garantido independentemente se trabalha ou não mas isso são outras questões). Não interessa se há a gente que faz três abortos num ano. Não interessa se há gente que já não amamenta as crianças e mesmo assim passa duas horas por dia a trabalhar no bronze no telhado do hospital. Isto são tudo coisas que não interessam. Há muitas outras, mas estas são das que interessam menos.
 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Equal opportunity

Hilary Clinton anunciou este fim-de-semana que vai ser a próxima presidente dos Estados Unidos.
 
Hilary Clinton vai ganhar estas eleições nem que eu vá pessoalmente a casa de todos os norte americanos obrigá-los a ir votar (ou melhor, a casa de todos os empregadores norte americanos, para eles deixarem os seus pobres subordinados ir votar - problemas de viver num país em desenvolvimento). A alternativa é demasiado nojenta por isso estou a assumir que já está mais do que decidido que ela vai ser presidente e o resto é só formalidades.
 
Isto não quer dizer que eu ache que Hilary Clinton seja inteiramente a salvadora da pátria, o grande catalisador que vai finalmente transformar os Estados Unidos numa utopia socialista. Nada disso. Ela não é nem de perto nem de longe tão de esquerda quanto eu gostaria. Também já ouvi gente chamar-lhe porca imperialista, se isto tem algum tipo de fundamento, admito que não sei. Parece-me que ela é extremamente competente e que tolera zero merda de quem quer que seja, para além disto não sei grande coisa (para além daquela reforma no sistema de saúde que ela tentou implementar quando era primeira-dama). Parece-me também ser uma pessoa séria e, hey, quem é que não é um bocadinho um porco imperialista nos dias que correm?
 
O que eu sei, no entanto, é que se ela for eleita então os Estados Unidos da Grande e Muitíssimo Importante Superpotência América terão elegido a sua primeira senhora presidente em 2016. Isto é um selo de incompetência de que a sociedade americana (e muitas outras) não se livra. Não há nada que apague esta vergonha. Que justificação plausível há para isto? De certeza que não é "só agora é que apareceu uma mulher competente que chegue para ser presidente" porque estamos a falar de um país que elegeu dois Bush, o Nixon e o Reagan.
 
Hilary tornar-se presidente é, em si mesmo, revolucionário. Se ela é efetivamente o céu e a lua e as estrelas não interessa muito nesse aspeto. O Obama também não fez nem aconteceu e de certeza que o prémio Nobel está na mesa-de-cabeceira a apanhar pó por isso se calhar o melhor é respirarmos todos fundo.
 
O que escapa a muita gente é que esta história da igualdade de género é um pau de dois bicos, ou melhor, é um pau e pronto. Há quem ache que é mais como um daqueles chouriços de espuma que ajudam as crianças a aprender a nadar mas garanto-vos que não é. Para termos verdadeira igualdade de género precisamos de dar espaço às mulheres para serem tao terríveis como os homens ou, pelo menos, tao average como eles. Não vale dizer abrir portas só para as mulheres que prometem ser o mais radiante exemplo do seu género. Não é assim que as coisas funcionam.
 
A fasquia relativamente a presidentes americanos é tao baixa que, muito sinceramente, a não ser que surja um catraio qualquer que seja um autoproclamado socialista que quer desmilitarizar completamente os EUA e instituir uma segurança social como deve ser, eu vou apoiar sempre a Hilary (não que interesse muito). Eu não sou uma pessoa orgulhosa, não tenho problema nenhum em admitir isto.
 
A Sarah Palin, por exemplo, era um tipo raro de terrível, não havia ali nada que se aproveitasse. Na altura não concordei (nem tenciono concordar)  com a opinião dela relativamente ao que quer que fosse. Não concordei com o cabelo dela, nem com os filhos, nem com os netos, não concordei com o hobby dela de andar a matar lobos a partir de um helicóptero, nem sequer concordei com a maneira como ela escolheu pronunciar grande maioria das palavras. No entanto, Sarah Palin foi apenas a segunda mulher a ser candidata a vice-presidente na não-muito-curta história dos EUA, mas o que a tornou realmente uma trailblazer foi mais o facto de ela ser tao péssima. Um tipo tao especial de terrível que, até recentemente, parecia estar reservado para políticos do sexo masculino (pelo menos publicamente). De certa forma, Sarah Palin ajudou no sentido em que nivelou um bocado a coisa: mostrou, sem sombra de dúvida, que há mulheres que são melhores do que a maioria dos homens a ser terríveis. Algo perfeitamente inédito, portanto.
 
 
Os EUA são uma wasteland social. O que quer que seja que aquele hellhole de país precisa para se endireitar, não vai ser uma única pessoa que o vai conseguir fazer (muito menos quando o congresso é maioritariamente republicano e, consequentemente, terminalmente estúpido). Espero sinceramente que  Hilary faça um trabalho aceitável se ganhar que, sinceramente, é o melhor que podemos esperar tendo em conta as circunstâncias.
 
É triste? Sem dúvida, mas eu saboreio as minhas vitórias onde as consigo arranjar.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pontos nos is

Na altura em que a Emma Watson, deusa a abençoe, fez o seu discurso sobre igualdade de género e apelou aos homens para levantarem o rabo só ligeiramente e fazerem alguma coisa em relação ao sexismo que se vê por essa terra fora, houve muito disto por parte da população masculina: "Mas então e eeeeuuuuuuu? Por que é que tem que ser HeForShe, por que é que não é SheForHe? Devíamos ser igualitários e não femininas!"
 
É insuportável. Quando adormeço ainda oiço o choro incessante de man-children.
 
Também já ouvi dizer coisas como "o feminismo a sério devia ser sobre igualdade de género e não só sobre os direitos dos homens". Isto é errado. Incorreto. O feminismo é e sempre será sobre os direitos das mulheres. Mulheres transgénero, mulheres lésbicas, mulheres bissexuais e assexuais e heterossexuais, mulheres de cor, mulheres com deficiências Todo o tipo de mulheres, de todas as partes do mundo. Nenhuma destas categorias inclui homens e nunca vai incluir. A validade de um movimento não se mede pela sua utilidade para a classe dominante.
 
Só há HeForShe porque a desigualdade não é equidistante. Não há nada para compensar em termos de direitos do lado dos homens. Se por acaso, no meio da sua rotina de opressão, tropeçaram sem querer e caíram de boca, a responsabilidade não é das feministas de lhes limpar o sangue da cara. Se a agenda feminista acabar por dar uma ajudinha à população masculina, é puramente por acaso.
Por exemplo:
 
  • Há uma grande quantidade de meninos adolescentes e jovens adultos que se suicidam. Se ensinarmos as crianças desde cedo a processar os seus sentimentos de forma saudável em vez de os obrigar a corresponder a padrões arcaicos de masculinidade se calhar ficávamos todos mais descansados.
 
  • Os homens não podem usar saias e as mulheres podem usar calças. Se pararmos de demonizar características femininas então usar saias em público não seria considerado humilhante ou fora do normal. Há coisas piores do que ser mulher (ou parecer uma em público).
 
  • Ouvi dizer que os homens são muito discriminados quando querem custódia das crianças em caso de divórcio. Para já, tipo 70% dos homens que pedem custódia das crianças, recebem-na. Depois, se pararmos de assumir que as mulheres é que são sempre as primary caregivers então este tipo de coisa corrige-se sozinha.
 
  • Os rapazes saem-se mal na escola (esta é altamente debatível). Se eliminarmos a cultura de entitlement que foi criada à volta dos rapazinhos brancos então se calhar isto também vai ao sítio.
 
  • Os homens que são vítimas de violência sexual e doméstica não são levados a sério. Se deixarmos de perpetuar o mito de que só as mulheres e que são fracas e vítimas de violência/assédio isto também é resolvido. As mulheres também podem ser agressoras, os homens também podem ser vítimas. Bem-vindos ao futuro.
 
Pronto. O feminismo está aqui para ajudar toda a gente. No entanto, se os homens beneficiassem rigorosamente zero disto tudo eu continuava a ser extremamente feminista porque eu não quero muito saber, o objetivo nunca foi esse.
 
A questão aqui não é que as struggles dos homens não interessam. A pobreza, a guerra e a violência tocam a todos.
 
A questão aqui é que as struggles dos homens relativamente à sua experiência na sociedade enquanto membros do sexo masculino é que não interessam no grande esquema do sexismo institucionalizado.
 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Balelas

Há coisa de 5 ou 6 anos, eu era uma fangirl do Dawkins inveterada. Tinha os livros e os pins e discutia religião com toda a gente. Era um bocado insuportável, verdade seja dita. Mas, felizmente, esta puberdade intelectual eventualmente acabou e cresci um bocado e deu para ver que o Senhor Dicky Dawkins, embora bem-intencionado e extremamente inteligente, é um snob de primeira apanha sem qualquer consciência da posição vantajosa que sempre teve na vida. Acontece aos melhores. A minha mãe diz-me para o perdoar porque ele já é velho e as coisas antigamente eram diferentes. Pessoalmente, prefiro manter uma espécie de desinteresse cultivado, sempre que vejo uma citação embaraçosa dele penso "ah este Dicky, lá está ele outra vez, que nostalgia de quando ainda era jovem e inconsequente" e depois passo à frente.
 
A coisa do antiteísmo ficou (até porque os meus pais sempre me criaram num clima de heresia muito grande) e o impulso de ladrar às medicinas alternativas também. A minha cópia anotada do "The God Delusion" ainda está na prateleira. Mas nada disto me causa grande arrependimento, sabem como é, anos formativos são uma coisa lixada. Há que aceitar estas coisas.
 
Embora eu seja leniente com o Sr. Dawkins e tente achar graça aos seus faux pas, para mim, ele tornou-se um símbolo de um grupo particularmente aborrecido: aqueles meninos que estudam/gostam de ciência e que são muito de esquerda e muito iluminados mas que depois têm zero consciência social e acham que isto do feminismo é uma parvoíce (sem nunca se terem informado particularmente bem sobre o assunto). Para gente que se acha muito esperta e muito cética, demonstram um nível de willful ignorance assustador. Descobri há pouco tempo que até há um nome para este tipo de bicho: esquerdomacho. É hilariantemente awkward de dizer em público mas acho que até é prático, bem melhor do que dizer "meninos de esquerda com zero sensibilidade social".
 
Durante os anos em que eu fazia os trabalhos de casa a ouvir entrevistas com o Dawkins e o Hitchens (que peça de senhor) reuni uma coleção de sites e blogues de gente que escrevia sobre religião e pseudociência e coisas do género que entretanto ficaram perdidos nos meus favoritos, entre links para webcomics e receitas de lasanha vegetariana. Um desses blogues chama-se "Que Treta!". É um daqueles blogues preach-to-the-choir um bocado repetitivos - Religião má, ciência boa. Não o consultava há anos mas hoje um amigo mandou-me link para um artigo sobre o discurso da Patricia Arquette nos Óscares. O discurso não é a coisa mais inspirada, admito. Nenhum grupo oprimido tem o dever de largar tudo o que está a fazer e vir em auxílio das mulheres, até porque o feminismo de primeira e segunda vaga era notoriamente racista e transfóbico e uma data de outras coisas desagradáveis. Infelizmente, o autor do blogue ignora qualquer tipo de crítica válida e passa logo à coisa típica de esquerdomacho, que se resume a não perceber nada do que se estava a tentar dizer e ignorar o contexto social das coisas.
 
Começa por comparar o salário de pessoas com empregos diferentes como se isso quisesse dizer alguma coisa (news flash, não quer). Presumo que fosse uma tentativa de mostrar como há injustiça em todo o lado e que, como tal, as mulheres têm obrigação de calar e gostar.
 
A questão do equal pay sempre teve a ver com o facto de as mulheres receberem menos do que os homens quando desempenham o mesmo papel e trabalham exatamente o mesmo. Gosta de se dizer coisas como "a wage gap é um mito!" mas se forem procurar as fontes como deve ser e não usarem uma copypasta ressequida qualquer vão ver que os fatores foram todos tido em conta e o facto de ela não ser tão grande nalguns casos não quer dizer que não exista. O simples facto de existir é o whole point, noventa e nove cêntimos para um euro chega para me deixar a cuspir veneno. Para não falar de que tem muitas agravantes, mulheres que fazem parte de uma minoria étnica ganham ainda menos em relação a um homem do que uma mulher branca e o que uma mulher ganha é inversamente proporcional ao número de filhos que tem.
 
Esta discrepância em salários é observável em todo o tipo de empregos, sendo que, se não me engano, descobriu-se há pouco tempo que até em Hollywood, onde as mulheres têm uma quantidade substancial de privilégio, elas ganham alguns milhões a menos do que os seus pares masculinos.
 
Depois, o autor saca do mais pequeno violino do mundo e lamenta o facto de, em 2012, terem morrido muito mais homens em acidentes de trabalho do que mulheres. A seguir fala de atributos como força física e disposição mais agressiva como justificação para os homens se sentirem mais atraídos por empregos perigosos. Portanto, por um lado lamenta o desperdício de vida humana masculina mas por outro ajuda a perpetuar o mito de que os homens são naturalmente predispostos a x e y e ajuda a fortalecer a noção de masculinidade tóxica que mantém tantos homens reféns. Com amigos destes...
Há mais homens nas obras porque, como sempre se achou que as mulheres são fracas e frágeis, sempre foram sistematicamente impedidas de participar em empregos labour-intensive. No entanto, historicamente, há imensas provas de que as mulheres sempre demonstraram interesse neste tipo de trabalho, sempre houve mulheres bombeiras e mineiras e whatnot.
 
 
Senhoras bombeiras em Pearl Harbor
 
 
 
 
Senhoras mineiras mais fartas desta merda do que eu
 

Mulheres que conseguem chegar sequer a desenvolver interesse neste tipo de trabalho depois de uma vida inteira a levarem na tromba que têm que ter interesses femininos acabam por ser recebidas de forma hostil quando se candidatam, recebem menos e ainda são alvo de sexismo no local de trabalho. Os homens, por outro lado, sofrem um tratamento semelhante em que são forçados a preencher papéis agressivamente masculinos na sociedade. Diria que é mais por aí que se justifica a maior quantidade de homens em empregos perigosos do que pela mumbo-jumbo pseudocientífica do costume sobre "caraterísticas biológicas".

Mas, enfim, eu gosto do sistema de quotas. Eu acho que deve haver quotas para mulheres e minorias. Se os meninos não são capazes de se portar como gente então deve-se torcer o braço até que isso aconteça. O sistema de quotas não vai produzir uma igualdade artificial em que os pobres homens extremamente qualificados são impedidos de ascender ao seu verdadeiro potencial (coitados) mas sim corrigir uma desigualdade (sendo que, essa sim, é artificial) criada por anos e anos de condicionamento social e sexismo institucionalizado (este é um exemplo não muito engraçado).
Há uns tempo li que numa orquestra qualquer só 5% dos músicos eram mulheres. Aparentemente alguém teve o insight de instituir "audições cegas" em que os músicos tocavam atrás de um ecrã para não se conseguir distinguir se o músico era uma mulher ou um homem. No entanto, o número de mulheres pouco aumentou. Depois disso puseram uma carpete no chão para não se ouvir o som dos saltos das mulheres quando entravam na sala de audições. A partir daí o número de mulheres contratadas aumentou consideravelmente.


Aos esquerdomachos e aos sexistas (de esquerda e não só) só quero dizer que espero que eventualmente consigam encontrar paz interior e que sejam capazes de abraçar a nova ordem mundial em que podemos ser todos o que quisermos e em que ninguém acha que somos escravos da biologia de pacotilha e que temos que analisar os nossos papéis na sociedade em relação a outros mamíferos (até porque depois eu vou querer ser uma spotted hyena e o caso fica mal parado).