sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pontos nos is

Na altura em que a Emma Watson, deusa a abençoe, fez o seu discurso sobre igualdade de género e apelou aos homens para levantarem o rabo só ligeiramente e fazerem alguma coisa em relação ao sexismo que se vê por essa terra fora, houve muito disto por parte da população masculina: "Mas então e eeeeuuuuuuu? Por que é que tem que ser HeForShe, por que é que não é SheForHe? Devíamos ser igualitários e não femininas!"
 
É insuportável. Quando adormeço ainda oiço o choro incessante de man-children.
 
Também já ouvi dizer coisas como "o feminismo a sério devia ser sobre igualdade de género e não só sobre os direitos dos homens". Isto é errado. Incorreto. O feminismo é e sempre será sobre os direitos das mulheres. Mulheres transgénero, mulheres lésbicas, mulheres bissexuais e assexuais e heterossexuais, mulheres de cor, mulheres com deficiências Todo o tipo de mulheres, de todas as partes do mundo. Nenhuma destas categorias inclui homens e nunca vai incluir. A validade de um movimento não se mede pela sua utilidade para a classe dominante.
 
Só há HeForShe porque a desigualdade não é equidistante. Não há nada para compensar em termos de direitos do lado dos homens. Se por acaso, no meio da sua rotina de opressão, tropeçaram sem querer e caíram de boca, a responsabilidade não é das feministas de lhes limpar o sangue da cara. Se a agenda feminista acabar por dar uma ajudinha à população masculina, é puramente por acaso.
Por exemplo:
 
  • Há uma grande quantidade de meninos adolescentes e jovens adultos que se suicidam. Se ensinarmos as crianças desde cedo a processar os seus sentimentos de forma saudável em vez de os obrigar a corresponder a padrões arcaicos de masculinidade se calhar ficávamos todos mais descansados.
 
  • Os homens não podem usar saias e as mulheres podem usar calças. Se pararmos de demonizar características femininas então usar saias em público não seria considerado humilhante ou fora do normal. Há coisas piores do que ser mulher (ou parecer uma em público).
 
  • Ouvi dizer que os homens são muito discriminados quando querem custódia das crianças em caso de divórcio. Para já, tipo 70% dos homens que pedem custódia das crianças, recebem-na. Depois, se pararmos de assumir que as mulheres é que são sempre as primary caregivers então este tipo de coisa corrige-se sozinha.
 
  • Os rapazes saem-se mal na escola (esta é altamente debatível). Se eliminarmos a cultura de entitlement que foi criada à volta dos rapazinhos brancos então se calhar isto também vai ao sítio.
 
  • Os homens que são vítimas de violência sexual e doméstica não são levados a sério. Se deixarmos de perpetuar o mito de que só as mulheres e que são fracas e vítimas de violência/assédio isto também é resolvido. As mulheres também podem ser agressoras, os homens também podem ser vítimas. Bem-vindos ao futuro.
 
Pronto. O feminismo está aqui para ajudar toda a gente. No entanto, se os homens beneficiassem rigorosamente zero disto tudo eu continuava a ser extremamente feminista porque eu não quero muito saber, o objetivo nunca foi esse.
 
A questão aqui não é que as struggles dos homens não interessam. A pobreza, a guerra e a violência tocam a todos.
 
A questão aqui é que as struggles dos homens relativamente à sua experiência na sociedade enquanto membros do sexo masculino é que não interessam no grande esquema do sexismo institucionalizado.
 

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