Na altura em que a Emma Watson, deusa a abençoe, fez o
seu discurso sobre igualdade de género e apelou aos homens para levantarem o
rabo só ligeiramente e fazerem alguma coisa em relação ao sexismo que se vê por
essa terra fora, houve muito disto por parte da população masculina: "Mas
então e eeeeuuuuuuu? Por que é que tem que ser HeForShe, por que é que não é
SheForHe? Devíamos ser igualitários e não femininas!"
É insuportável. Quando adormeço ainda oiço o choro
incessante de man-children.
Também já ouvi dizer coisas como "o feminismo a
sério devia ser sobre igualdade de género e não só sobre os direitos dos
homens". Isto é errado. Incorreto. O feminismo é e sempre será sobre os
direitos das mulheres. Mulheres transgénero, mulheres lésbicas, mulheres bissexuais
e assexuais e heterossexuais, mulheres de cor, mulheres com
deficiências Todo o tipo de mulheres, de todas as partes do mundo. Nenhuma
destas categorias inclui homens e nunca vai incluir. A validade de um
movimento não se mede pela sua utilidade para a classe dominante.
Só há HeForShe porque a desigualdade não é
equidistante. Não há nada para compensar em termos de direitos do lado dos
homens. Se por acaso, no meio da sua rotina de opressão, tropeçaram sem querer
e caíram de boca, a responsabilidade não é das feministas de lhes limpar o
sangue da cara. Se a agenda feminista acabar por dar uma ajudinha à população
masculina, é puramente por acaso.
Por exemplo:
- Há uma
grande quantidade de meninos adolescentes e jovens adultos que se
suicidam. Se ensinarmos as crianças desde cedo a processar os seus
sentimentos de forma saudável em vez de os obrigar a corresponder a padrões
arcaicos de masculinidade se calhar ficávamos todos mais descansados.
- Os
homens não podem usar saias e as mulheres podem usar calças. Se pararmos
de demonizar características femininas então usar saias em público não
seria considerado humilhante ou fora do normal. Há coisas piores do que
ser mulher (ou parecer uma em público).
- Ouvi
dizer que os homens são muito discriminados quando querem custódia das
crianças em caso de divórcio. Para já, tipo 70% dos homens que pedem custódia
das crianças, recebem-na. Depois, se pararmos de assumir que as mulheres é
que são sempre as primary caregivers então este tipo de coisa corrige-se
sozinha.
- Os
rapazes saem-se mal na escola (esta é altamente debatível). Se eliminarmos
a cultura de entitlement que foi criada à volta dos rapazinhos brancos então
se calhar isto também vai ao sítio.
- Os
homens que são vítimas de violência sexual e doméstica não são levados a
sério. Se deixarmos de perpetuar o mito de que só as mulheres e que são
fracas e vítimas de violência/assédio isto também é resolvido. As mulheres
também podem ser agressoras, os homens também podem ser vítimas. Bem-vindos
ao futuro.
Pronto. O feminismo está aqui para ajudar toda a
gente. No entanto, se os homens beneficiassem rigorosamente zero disto tudo eu
continuava a ser extremamente feminista porque eu não quero muito saber, o
objetivo nunca foi esse.
A questão aqui não é que as struggles dos homens não
interessam. A pobreza, a guerra e a violência tocam a todos.
A questão aqui é que as struggles dos homens
relativamente à sua experiência na sociedade enquanto membros do sexo masculino
é que não interessam no grande esquema do sexismo institucionalizado.
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