Aqui há uns dias li aquela notícia estúpida sobre
como algumas moças enfermeiras (e outras não enfermeiras, parece-me) estavam a
ser obrigadas a provar que ainda estavam a amamentar em frente a estranhos de
forma pouco decorosa. Supostamente, o objetivo era apanhar as badalhocas que
andavam a ludibriar o Estado afirmando ainda estar a amamentar quando na
verdade já não estavam. O escândalo. O horror.
E que incríveis regalias oferece o Estado a mães
que amamentam as suas crianças? Um Porsche? Uma máquina de extração de leite
revestida a ouro? Um marido que não é inútil e que ajuda na lida da casa? Não.
Oferece dispensa durante duas horas por dia para amamentar a dita-cuja. Duas
horas. Que luxo, não admira que esteja tudo na merda com handouts destes.
O artigo que li no Público dizia que cerca de
metade das senhoras que foram sujeitas ao teste muitíssimo preciso e científico
foram apanhadas em falso. Não sei exatamente quão fidedigno é esse resultado
mas vamos assumir que é completa e inteiramente a coisa mais verdadeira deste
mundo. Vamos assumir que metade das técnicas de saúde que dizem que estão a
amamentar as suas crianças são umas mentirosas que fabricam deceções lactantes
apenas para benefício próprio. O que é que elas estão a ganhar aqui de tao incrível?
Duas horas de descanso por dia? Isso não dá para muita coisa, dá para
beber um café, ir confortavelmente à casa de banho, fumar um cigarro e ler
aí umas cinquenta páginas de um livro qualquer. De certeza que o país não vai
ficar (mais) falido por causa disso.
O teste que se usou para determinar se as
senhoras estavam ou não a amamentar é claramente um atentado à integridade
corporal das mulheres em questão. Não me interessa se esta é a única maneira de
apanhar as mentirosas e as abusadoras. Isso aqui é zero relevante. Não se põe
em causa a autonomia corporal de quem quer que seja na esperança de apanhar uma
mão cheia de gente a abusar do sistema. Não interessa. Não interessa se
cinquenta por cento ou setenta e cinco por cento estavam a mentir. Isso
simplesmente não se faz. Não acho razoável dar esta folga de duas horas e
depois obrigar as beneficiárias a submeter-se a um teste humilhante em frente a
estranhos para garantir que a sua ganância destemperada de mãe recente não
esvazia os cofres do país. Acho que assim muita gente preferia que enfiassem as
duas horas no cu e que deixassem o pessoal em paz.
Este tipo de retórica é tão horrivelmente
recorrente. Eu desconfio que haja gente que sofre muito profundamente ao pensar
que há pessoas (especialmente mulheres) a usufruir de coisas oferecidas
pelo Estado em circunstâncias menos regulares. Um caso semelhante é o do
aborto, não há coisa que suscite mais histerismo. Há quem queira que as
mulheres olhem lá para os clusters-de-células-mais-ou-menos-humanoides nas
ecografias antes de os abortarem na esperança de despolete algum tipo de
instinto maternal até à altura adormecido pela promessa de mais sexo
desprotegido. Há quem ache (especialmente lá nas américas) que se deve fazer
mais testes invasivos (física e psicologicamente) antes de se permitir às
pobres senhoras ter um aborto.
Isto tem tudo a ver com a mesma coisa. A população
sente-se no direito de opinar em tudo no que toca à autonomia corporal das
mulheres. Como se devem vestir, com quantas pessoas devem dormir, se têm
direito a remover do seu próprio corpo clusters de células indesejados,
como se devem comportar. O corpo das mulheres é do domínio público. Não têm o
direito intrínseco à privacidade que os homens têm.
Já vi gente aparentemente iluminada dizer que
afinal, depois da legalização da coisa, o número de abortos aumentou. Assumindo
que isto é verdade (que não é), a minha questão aqui é: e depois? Oiçam, se
todas as mulheres grávidas do mundo decidissem abortar, se todas as mulheres
decidissem coletivamente que não queriam ter mais filhos nunca na vida e que,
se engravidassem, iam abortar os sacanas até ao tutano, eu ia continuar a
defender que sim senhor façam o que quiserem porque, muito sinceramente, não
interessa. Não se vai obrigar mulheres a ter filhos que não querem por
que razão seja, nem mesmo para salvar a humanidade. Estou-me a cagar. Arranjem
maneiras mais criativas de criar crianças, aqui ninguém é incubadora de
ninguém. Se o pessoal intendido traçou uma linha na areia e disse
"isto aqui é um cluster de células, aquilo ali é uma criança" então
qualquer aborto que se faça deve estar ao nível da remoção de um tumor.
Há imensas coisas que não interessam. O
pessoal gosta sempre de brinca às slippery slopes mas não interessa. Não
interessa se o movimento de fat acceptance promove obesidade ou não (deve
promover tanto ou menos como o atual paradigma promove anorexia). Não
interessa se há gente a receber o sweet sweet dinheiro do fundo de desemprego
enquanto não faz nada da vida (até porque toda a gente devia ter um rendimento
mínimo garantido independentemente se trabalha ou não mas isso são outras questões).
Não interessa se há a gente que faz três abortos num ano. Não interessa se há
gente que já não amamenta as crianças e mesmo assim passa duas horas por dia a
trabalhar no bronze no telhado do hospital. Isto são tudo coisas que não
interessam. Há muitas outras, mas estas são das que interessam menos.
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