segunda-feira, 6 de abril de 2015

Balelas

Há coisa de 5 ou 6 anos, eu era uma fangirl do Dawkins inveterada. Tinha os livros e os pins e discutia religião com toda a gente. Era um bocado insuportável, verdade seja dita. Mas, felizmente, esta puberdade intelectual eventualmente acabou e cresci um bocado e deu para ver que o Senhor Dicky Dawkins, embora bem-intencionado e extremamente inteligente, é um snob de primeira apanha sem qualquer consciência da posição vantajosa que sempre teve na vida. Acontece aos melhores. A minha mãe diz-me para o perdoar porque ele já é velho e as coisas antigamente eram diferentes. Pessoalmente, prefiro manter uma espécie de desinteresse cultivado, sempre que vejo uma citação embaraçosa dele penso "ah este Dicky, lá está ele outra vez, que nostalgia de quando ainda era jovem e inconsequente" e depois passo à frente.
 
A coisa do antiteísmo ficou (até porque os meus pais sempre me criaram num clima de heresia muito grande) e o impulso de ladrar às medicinas alternativas também. A minha cópia anotada do "The God Delusion" ainda está na prateleira. Mas nada disto me causa grande arrependimento, sabem como é, anos formativos são uma coisa lixada. Há que aceitar estas coisas.
 
Embora eu seja leniente com o Sr. Dawkins e tente achar graça aos seus faux pas, para mim, ele tornou-se um símbolo de um grupo particularmente aborrecido: aqueles meninos que estudam/gostam de ciência e que são muito de esquerda e muito iluminados mas que depois têm zero consciência social e acham que isto do feminismo é uma parvoíce (sem nunca se terem informado particularmente bem sobre o assunto). Para gente que se acha muito esperta e muito cética, demonstram um nível de willful ignorance assustador. Descobri há pouco tempo que até há um nome para este tipo de bicho: esquerdomacho. É hilariantemente awkward de dizer em público mas acho que até é prático, bem melhor do que dizer "meninos de esquerda com zero sensibilidade social".
 
Durante os anos em que eu fazia os trabalhos de casa a ouvir entrevistas com o Dawkins e o Hitchens (que peça de senhor) reuni uma coleção de sites e blogues de gente que escrevia sobre religião e pseudociência e coisas do género que entretanto ficaram perdidos nos meus favoritos, entre links para webcomics e receitas de lasanha vegetariana. Um desses blogues chama-se "Que Treta!". É um daqueles blogues preach-to-the-choir um bocado repetitivos - Religião má, ciência boa. Não o consultava há anos mas hoje um amigo mandou-me link para um artigo sobre o discurso da Patricia Arquette nos Óscares. O discurso não é a coisa mais inspirada, admito. Nenhum grupo oprimido tem o dever de largar tudo o que está a fazer e vir em auxílio das mulheres, até porque o feminismo de primeira e segunda vaga era notoriamente racista e transfóbico e uma data de outras coisas desagradáveis. Infelizmente, o autor do blogue ignora qualquer tipo de crítica válida e passa logo à coisa típica de esquerdomacho, que se resume a não perceber nada do que se estava a tentar dizer e ignorar o contexto social das coisas.
 
Começa por comparar o salário de pessoas com empregos diferentes como se isso quisesse dizer alguma coisa (news flash, não quer). Presumo que fosse uma tentativa de mostrar como há injustiça em todo o lado e que, como tal, as mulheres têm obrigação de calar e gostar.
 
A questão do equal pay sempre teve a ver com o facto de as mulheres receberem menos do que os homens quando desempenham o mesmo papel e trabalham exatamente o mesmo. Gosta de se dizer coisas como "a wage gap é um mito!" mas se forem procurar as fontes como deve ser e não usarem uma copypasta ressequida qualquer vão ver que os fatores foram todos tido em conta e o facto de ela não ser tão grande nalguns casos não quer dizer que não exista. O simples facto de existir é o whole point, noventa e nove cêntimos para um euro chega para me deixar a cuspir veneno. Para não falar de que tem muitas agravantes, mulheres que fazem parte de uma minoria étnica ganham ainda menos em relação a um homem do que uma mulher branca e o que uma mulher ganha é inversamente proporcional ao número de filhos que tem.
 
Esta discrepância em salários é observável em todo o tipo de empregos, sendo que, se não me engano, descobriu-se há pouco tempo que até em Hollywood, onde as mulheres têm uma quantidade substancial de privilégio, elas ganham alguns milhões a menos do que os seus pares masculinos.
 
Depois, o autor saca do mais pequeno violino do mundo e lamenta o facto de, em 2012, terem morrido muito mais homens em acidentes de trabalho do que mulheres. A seguir fala de atributos como força física e disposição mais agressiva como justificação para os homens se sentirem mais atraídos por empregos perigosos. Portanto, por um lado lamenta o desperdício de vida humana masculina mas por outro ajuda a perpetuar o mito de que os homens são naturalmente predispostos a x e y e ajuda a fortalecer a noção de masculinidade tóxica que mantém tantos homens reféns. Com amigos destes...
Há mais homens nas obras porque, como sempre se achou que as mulheres são fracas e frágeis, sempre foram sistematicamente impedidas de participar em empregos labour-intensive. No entanto, historicamente, há imensas provas de que as mulheres sempre demonstraram interesse neste tipo de trabalho, sempre houve mulheres bombeiras e mineiras e whatnot.
 
 
Senhoras bombeiras em Pearl Harbor
 
 
 
 
Senhoras mineiras mais fartas desta merda do que eu
 

Mulheres que conseguem chegar sequer a desenvolver interesse neste tipo de trabalho depois de uma vida inteira a levarem na tromba que têm que ter interesses femininos acabam por ser recebidas de forma hostil quando se candidatam, recebem menos e ainda são alvo de sexismo no local de trabalho. Os homens, por outro lado, sofrem um tratamento semelhante em que são forçados a preencher papéis agressivamente masculinos na sociedade. Diria que é mais por aí que se justifica a maior quantidade de homens em empregos perigosos do que pela mumbo-jumbo pseudocientífica do costume sobre "caraterísticas biológicas".

Mas, enfim, eu gosto do sistema de quotas. Eu acho que deve haver quotas para mulheres e minorias. Se os meninos não são capazes de se portar como gente então deve-se torcer o braço até que isso aconteça. O sistema de quotas não vai produzir uma igualdade artificial em que os pobres homens extremamente qualificados são impedidos de ascender ao seu verdadeiro potencial (coitados) mas sim corrigir uma desigualdade (sendo que, essa sim, é artificial) criada por anos e anos de condicionamento social e sexismo institucionalizado (este é um exemplo não muito engraçado).
Há uns tempo li que numa orquestra qualquer só 5% dos músicos eram mulheres. Aparentemente alguém teve o insight de instituir "audições cegas" em que os músicos tocavam atrás de um ecrã para não se conseguir distinguir se o músico era uma mulher ou um homem. No entanto, o número de mulheres pouco aumentou. Depois disso puseram uma carpete no chão para não se ouvir o som dos saltos das mulheres quando entravam na sala de audições. A partir daí o número de mulheres contratadas aumentou consideravelmente.


Aos esquerdomachos e aos sexistas (de esquerda e não só) só quero dizer que espero que eventualmente consigam encontrar paz interior e que sejam capazes de abraçar a nova ordem mundial em que podemos ser todos o que quisermos e em que ninguém acha que somos escravos da biologia de pacotilha e que temos que analisar os nossos papéis na sociedade em relação a outros mamíferos (até porque depois eu vou querer ser uma spotted hyena e o caso fica mal parado).




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