sábado, 17 de janeiro de 2015

Ça suffit


O meu ódio de estimação mais recente é filmes sobre homens. Homens cientistas.

 

Aparentemente agora ser um senhor cientista é muito giro e toda a gente quer ser um génio da física e/ou da matemática (ou de uma engenharia qualquer, sabem como é, tem que ser uma ciência machona). Ser geek e nerd e mais sabe deus o quê agora é fixe por isso anda tudo a cuspir filmes sobre Turings e Hawkings.

 

O que é engraçado é que ninguém se lembrou que se calhar interessante era fazer um filme sobre uma senhora cientista para ver se variamos um bocado. De senhores génios incompreendidos com vidas atribuladas estou eu farta. Estava mais interessada em ver uma coisa sobre a vida de uma mulher que não fosse uma rainha ou uma duquesa que no final do filme acaba quase sempre irremediavelmente morta. Devo dizer que o mercado de trabalho há alguns anos que não oferece muitas posições de senhora nobre ou princesa, já está na altura de modernizar a coisa.

 

Já me tentaram apontar que a razão pela qual não se faz filmes sobre senhoras muito espertas, é porque "antigamente" não havia senhoras a fazer ciência porque elas eram agrilhoadas ao fogão e obrigadas a ter 20 filhos. Embora seja verdade que para fazer ciência as mulheres tiveram muito mais dificuldades sociais do que qualquer homem, dizer que "não havia senhoras cientistas nessa altura, talvez daqui a alguns anos já se façam filmes porque agora já há mais senhoras na ciência" é simplesmente incorreto. Demonstrada e historicamente incorreto.

 

É como dizer que temos que incentivar as raparigas a gostar de ciência. Não, amigos, não temos. As raparigas e as mulheres, como qualquer ser humano, têm uma curiosidade intrínseca por fenómenos físicos e naturais. As meninas adoram estrelas e cometas e bolas de gás. As meninas adoram lagartixas e borboletas e vulcões. As meninas andam a fazer ciência há anos, apesar de nos andarem a tentar convencer do contrário. Não é preciso incentivá-las a gostar, só é preciso não as desincentivar ativamente, que é o que se tem andado a fazer.

 

O problema é que os homens são criaturas frágeis e delicadas que precisam que lhes garantam que só eles é que são especiais e capazes de fazer coisas científicas. Por causa disto, o contributo das mulheres para a ciência tem sido sistematicamente apagado ou ignorado.

 

Gostam de dizer que não há mulheres em engenharia informática mas esquecem-se de que o que é considerado o primeiro algoritmo para computador foi escrito por uma mulher chamada Ada Lovelace no século dezanove e que o próprio termo "engenheiro de software" foi cunhado por Margaret Hamilton (como o nome indica, é também uma senhora), que não só era uma gatona como foi responsável por escrever e supervisionar o código que levou o homem à lua.

O termo "debugging" foi popularizado por Grace Hopper e o primeiro compilador para uma linguagem de computador foi criado por ela. Grace Hopper tem também uma particularidade interessante: é uma mulher.
 
A engenharia informática não tem um problema de falta de interesse para mulheres, não temos que a tornar mais cativante para as mulheres. As mulheres sempre gostaram. O problema é que tem um ambiente altamente hostil para pessoas da persuasão feminina. O problema não é nosso, nunca foi.

 
 
Margaret Hamilton e as resmas de código que escreveu durante a missão Apollo
 
Grace Hopper com ar de quem provavelmente chorava de riso se alguma vez fosse ao IST
 

 
Era giro haver um filme sobre qualquer uma destas senhoras. Era mesmo. Mas pior do que ignorar será talvez usurpar deliberadamente. Por exemplo, a descoberta da estrutura do DNA é atribuída a Watson e Crick, no entanto, Rosalind Franklin descobriu de forma independente a posição dos grupos fosfato no DNA e a sua estrutura geral. Watson e Crick usaram a pesquisa dela dois anos mais tarde para formar o modelo da molécula de DNA que lhes valeu o prémio Nobel, no entanto, nem sequer é claro se ela teria  sido também nomeada se ainda fosse viva na altura.
 
Outro caso interessante é o de Cecilia Payne-Gaposchkin. Conseguiu adquirir um doutoramento em condições bastante nojentas (foi mal paga a vida toda e impedida de progredir na carreira) e foi responsável por descobrir a composição das estrelas numa altura em que ainda se achava que eram semelhantes à Terra. Quando mostrou a sua pesquisa a um superior ele convenceu-a a não a publicar, apenas para mudar de opinião quatro anos mais tarde e publicá-la ele. Mas, pobre coitado e excelente senhor, atribui-lhe crédito muito brevemente no final do seu paper. A culpa não é dele que ainda hoje lhe atribuam a descoberta de Cecilia. Ele esforçou-se tanto, claramente.
 
 Cecilia Payne-Gaposchkin a não querer saber e a ser claramente melhor do que toda a gente
 
 
Com tantos exemplos interessantes causa-me muita dor quando insistem em carregar nas mesmas teclas. De físicos e matemáticos bafientos estou eu farta. Mesmo se quisessem uma senhora mais "mainstream" podiam sempre fazer um filme sobre a Marie Curie, a única pessoa que alguma vez recebeu um prémio Nobel em dois campos científicos distintos. Se as pessoas adoram génios torturados e excêntricos porque não a Marie Curie? Não sei bem qual é pontuação dela na escala do torturado mas o seu próprio livro de receitas era radioativo. A Marie Curie deixou que a ciência a envenenasse, que a sua paixão a matasse. Não há coisa mais poética. Onde é que estão os pseudointelectuais de suspensórios nestas alturas para escreverem um argumento?
 
Para mim, esta história toda das mulheres na ciência começa a tomar contornos bizarros. A realidade é claramente esta: sempre houve e sempre vai haver mulheres inteligentes, interessadas e bem-sucedidas em todas as áreas científicas. Mas há imensa gente que simplesmente rejeita isto. Olha a realidade nos olhos e diz "não". Não diz mais nada. Só "não". Metem os dedos nos ouvidos e gritam muito alto com a esperança de que as coisas que contradizem a realidade alternativa e falsa que criaram desapareçam.
 
As mulheres que referi até agora são apenas uma fração ínfima das que foram ignoradas na ciência até hoje. Lise Meitner fazia parte da equipa que descobriu a fissão nuclear e, embora o seu colega menos talentoso tenha recebido o Nobel, ela não teve direito a nada. Emmy Noether revolucionou a álgebra abstrata e umas coisas de física teórica. Dorothy Hodgkin desenvolveu um tipo de cristalografia que permite estudar a estrutura de proteínas e confirmou a estrutura da penicilina. Rachel Carson percebeu que pesticidas causavam impactos negativos no ambiente quando andava ainda meio mundo a coçar o rabo e a forrar casas com amianto.
 
Eu compreendo que a bolacha nem sempre é grande que chegue para todos mas já lá vai o tempo em que o meu cérebro era jovem e maleável ao ponto de se conseguir enfiar em sapatos de homem. Eu sou estudante de física e às vezes é como arrancar dentes (mas no bom sentido), é inteiramente um labour of love. Mas por muita paixão e amor que eu lhe tenha às vezes é preciso um bocado de apoio externo, da confirmação de que estou no meu direito a fazer porcaria e a cair de boca no chão de vez em quando porque, afinal, não é como se eu estivesse a representar o meu género inteiro numa circunstância sem precedentes. A história das mulheres na ciência é rica e muitíssimo interessante e negá-la não vai fazer ninguém sentir-se especial, antes pelo contrário: há coisas em que ninguém quer ser pioneiro.
 
Não é justo que estejamos dispostos a fornecer uma quantidade quase ilimitada de canários a rapazinhos que querem entrar na proverbial mina que é o mundo científico quando, quando uma moça quer fazer o mesmo, damos-lhe só uma palmadinha nas costas e um "agora vê lá se não fazes merda" e um "mas tens a certeza?".
 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário