sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Até nunca


2014 foi um ano anormalmente merdoso.

 

Às vezes oiço cá em casa coisas como "parece que ainda vivemos na idade média" e digo sempre que não, nada disso, olhem para esta sanita tão bonita e funcional, olhem para o meu direito ao voto, olhem para mim a ir para á universidade. 2014 foi o primeiro ano que me fez concordar.

 

Em 2014 tivemos senhores atletas que matam as namoradas e passam menos tempo na prisão do que caçadores ilegais de rinocerontes (talvez porque as mulheres ainda não estão em vias de extinção). Tivemos mais de 100 raparigas raptadas pelo Boko Haram e obrigadas a casar com homens asquerosos que nunca viram na vida. Vimos mais de 100 crianças mortas em Peshawar por extremistas religiosos. Para não falar de Ferguson e dos linchamentos legais que aparentemente andam a acontecer na gringolândia desde sempre só que nós cá deste lado não fazíamos ideia - será que as coisas estão piores ou só agora é que se sabe? E melhor, será que interessa?

 

Depois o ISIS andou por aí a abrir buracos em tudo o que é país e a escravizar mulheres a torto e a direito, a vender crianças uns aos outros enquanto a sua fação feminina servia de intermédio. Ao menos há uma coisa positiva (aha) a sair disto tudo - aprendi a usar o termo gender traitor. Ganham-se umas, perdem-se outras.  

 

Os republicanos ganharam as midterms na gringolândia e nós por cá temos pseudo-fascistas no poder e um ex-primeiro ministro de esquerda preso em circunstâncias altamente inconstitucionais.

 

O ano não acabou sem que uma rapariga trans sentisse que o mundo aberrava de tal forma a sua existência que ela tinha que se matar.

 

Surgiram (ou ganharam notoriedade)  também movimentos maioritariamente ocidentais como o GamerGate e o RedPill que demonstram claramente que, embora os senhores dos países "civilizados" gostem de dizer que são muito bons e especiais, apenas arranjaram maneiras diferentes e mais requintadas de oprimir outras gentes.

 

É fácil fazer um levantado das coisas horríveis que aconteceram ao longo de um ano, apontar o dedo e dizer "mas que grande bosta" mas sinto que este ano foi anormalmente mau. Até o meu pai, um senhor sério e normalmente calmo, diz que isto como tem estado não vai a lado nenhum pacificamente e alguma coisa vai ter que ceder eventualmente.


Não sei se vai, sinceramente. Se calhar vamos viver na mediocridade para sempre. É possível mas espero que não. Espero efetivamente que alguma coisa ceda e que haja uma enchente de justiça tão grande que, quando o pó finalmente assentar, vamos olhar para trás e interrogar-nos como é que era possível vivermos num lamaçal tão grande.

Que 2015 seja mais gentil.

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