segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Vam'lá ver

Ainda há muita confusão sobre a “lei do piropo”. Ainda oiço muito choro e não me agrada porque, ok, choro é uma coisa mas choro ignorante e intelectualmente desonesto é outra e irrita imenso.

A lei que passou não ilegalizou o “piropo”, ninguém vai preso por dizer “ó menina, está muito bonita hoje”. Quem insiste que sim só faz para chatear e devia parar com isso porque não estou nem aí, ok? Vamos lá ler a dita cuja para tirar isto a limpo.

Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
- Artigo 170 do código penal

Assim sim, dá para ver que é uma coisa séria. O que parece estar a confundir muita gente é aqui a parte de “formulando propostas de teor sexual”. Mas se não formos uma gosma de ser humano, até é fácil de interpretar. Quando um homem-senhor-masculino pratica a antiquíssima e muy nobre arte do piropo raramente é uma coisa que possa sequer ser interpretada como um elogio, é sempre fazia-te e acontecia-te, comia-te isto, rebentava-te aquilo. Uma loucura. Este tipo de afirmações demonstra intenção de atuar sobre outra pessoa e pôr em causa a sua segurança, tal como ameaçar alguém de morte. É por isso que se fez uma lei sobre isso, porque, quando se demonstra intenção de, sei lá, praticar atos sexuais em alguém sem consentimento está-se a ameaçar essa pessoa de, hmm, como é que se diz, ah, sim, violação. E violar alguém, meninos e meninas, é muito (mas mesmo muito) grave. São anos e anos a lidar com trauma, para não falar das moças (e moços) que são mortas no processo ou que se suicidam mais tarde, gente cuja vida é completamente hijacked por um tipo de violência profundamente desumanizante.  

E não, também não vos estão a atacar as liberdades de expressão. Continuam a poder dizer que as mulheres são umas badalhocas e que gostavam de lhes fazer isto e aquilo, só não podem dizer isso a uma senhora diretamente na rua. Será isto difícil de compreender? Um conceito tão puro, tão simples. Não manifestem intenção de molestar pessoas sexualmente! Só! Mais nada!

Observem como é fácil:

“Acho as mulheres inerentemente inferiores aos homens e deviam estar acorrentadas ao fogão. Sinto uma grande vontade de lhes bater a todas porque as suas caras são tão estúpidas e também violáveis” – Opinião deplorável mas protegida pelo direito à liberdade de expressão

“Hey! Tu aí! Fodia-te essa cona toda!!” – Ameaça de cariz sexual que pressupõe intenção de violar alguém: ilegal porque não há razão nenhuma para não ser.

“Oi gata, tens facebook?” – Excelente frase de engate, claramente legal.

Pronto. Mais claro que isto só mesmo um livro de colorir temático.

Mas em vez de sermos todos meninos crescidos e dizer que estamos a impedir que se ameace violar mulheres na rua, que é o que está a acontecer, não tenham ilusões, diz-se que o piropo é ilegal. Talvez se reformulássemos a linguagem um bocadinho as reações seriam menos “2/10 não gosto” e mais “ah pensei que isso já era assim”. A partir do momento em que começamos a formular as coisas de maneira a que parece assim mais ou menos que estamos a atacar um problema que afeta desproporcionalmente as mulheres passa-se tudo e é só “ai as minhas liberdades” para aqui e “ai que o politicamente correto me veio roubar as chinelas” para ali e eu estou saturadíssima.

Também não é uma lei que assume que as mulheres precisam de proteção ou o diabo que o valha. Não é nada disso. Quanto muito a lei assume que os homens não se sabem comportar em público porque não lhes disseram que não que chegue quando eram pequeninos e agora têm dúvidas sobre socialização básica. Se formos por aí, que isto assume que as mulheres são fraquinhas do joelhos porque precisam de mariquices como leis para as proteger, onde é que paramos? No limite, todas as leis servem para nos infantilizar. “Ah toda a gente sabe que roubar está errado, eu não roubo e se os meus filhos roubassem punha-os de castigo!” Ah pronto então ok, my bad, não é preciso nada que regule este tipo de coisa, zero. Acabem com esta parvoíce toda, fechem os tribunais, assunto encerrado.

As leis servem como guidelines sobre como nos devemos comportar em sociedade e sobretudo, minha nossa, esta lei ajuda a mostrar a muitos senhores (e senhoras também! olhem para mim, tão inclusiva) que as suas ações têm consequências. É lixado, eu sei.

O meu pai costuma dizer que os governantes de um país devem ser a sua elite intelectual, ou seja, devem ter insight que vá para além do comum mortal. Será isto elitista? Talvez. Acontece muitas vezes? Lol. Este tipo de leis anda muito nessa linha, pode até parecer incompreensível a muita gente mas tem um objetivo muito específico e pertinente, visa acabar com desigualdades sociais artificiais dizendo muito claramente “hey, fazem isto há muito tempo e nunca ninguém vos disse nada ou se disse vocês não ouviram portanto nós, o governo (olá), estamos aqui para vos informar que esta merda já não voa, se não respeitam as pessoas a bem respeitam a mal seus cornichons de um caralho”.

Sim? Ok? Posso nunca mais ter que ouvir falar disto? Obrigada.

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