2016 foi inaugurado com o debate mais antigo do mundo, um
debate extremamente pertinente que se resume a: “ será que odiamos mais mulheres
ou minorias?”. Depois de haver assédio sexual em massa em sítios como Cologne no
ano novo, toda a gente se apressou a tentar distribuir a culpa. Será das
mulheres? Que deviam estar em casa a cozinhar e a ter filhos, de preferência ao
mesmo tempo, em vez de saírem à rua que nem umas badalhocas? Será dos
refugiados? Que são todos uns animais e não se sabem comportar?
A senhora que quer distribuir um código de boa conduta às
mulheres para não serem molestadas sexualmente já decidiu que aqui a culpa é
claramente das suas irmãs. Assunto encerrado. Muitos outros jovens, no entanto,
decidiram aproveitar esta oportunidade para demonstrar a sua superioridade
cultural relativamente às populações do além-mar, dizendo coisas como “o
multiculturalismo claramente não funciona, olhem como eles tratam as nossas
mulheres” enquanto ignoram o facto de que não é preciso vir ninguém de fora para
oprimir as “suas” mulheres, elas já estavam oprimidas que chegue antes,
obrigada.
E eu? Onde é que me insiro nestas duas categorias? Como não sou
nada se não consistente, não me alinho com nenhuma delas. A culpa, amigos, como
não podia deixar de ser, é dos homens. Mas quais deles? Todos, como de costume.
Se há coisa que isto prova é que os homens são entitled pieces of shit em
qualquer lado do mundo. A única nuance é a maneira como o expressam.
Andrea Dworkin, cujos livros deviam ser estudados em formação
cívica a partir do quinto ano, tem uma abordagem interessante a fenómenos
destes. A ideia é que não se trata de uma coisa “cultural”, embora a religião
sempre tenha desempenhado um papel fundamental na discriminação sistemática das
mulheres, mas sim da resposta dos homens à sua própria, até à data inédita,
opressão. Neste caso, temos a classe dominante dentro da classe dominante, o
homem branco ocidental, a desempossar e a desumanizar uma outra classe que
estava anteriormente no topo da hierarquia social do seu círculo.
A narrativa do homem branco ocidental sobre os refugiados é
muito semelhante a que se usou (e ainda usa) contra os judeus e pessoas de cor.
Não é por acaso que o Pedro Arroja diz coisas como “os negros não trabalham
porque gostam muito de sexo”, o primeiro sítio que o homem ocidental ataca é o
comportamento sexual das minorias. Ele só se preocupa com assédio sexual ou
violação quando o afeta diretamente a ele ou à sua propriedade, quando põe em
causa a sua masculinidade. As primeiras coisas que se ouviram dos círculos
conservadores quando se falou na entrada dos refugiados na europa foi
preocupação relativamente às mulheres brancas europeias. O que é que nos iam
fazer? Iam molestar-nos por andarmos de calções no verão? Iam obrigar-nos a
andar de burqa? É só preocupação superficial e calculista, no fundo o único
objetivo é usar-nos como munição na sua xenofobia. Preocupação pelas mulheres de
cor raramente se ouve, a não ser quando dá jeito.
Também não é por acaso que aquele jovem nos estados unidos
matou oito pessoas de cor numa igreja sob o pretexto de estarem “a violar as
nossas mulheres”. Este tipo de homem só expressa preocupação por mulheres quando
tentar justificar o seu racismo. Está firmemente acampado no lado “odeio
mulheres mas odeio mais minorias”.
O homem branco ocidental retrata o homem refugiado como
violento, selvagem e violador numa tentativa de o desumanizar e de o manter
inferior a si, salvaguardando a sua posição de poder. O homem refugiado, no
entanto, não está habituado a estas andanças e refugia-se na única coisa que lhe
deixaram, a sua masculinidade. Se ele é mais violento e mais selvagem é também
mais viril e pode demonstrá-lo através da violência que comete contra
mulheres, especialmente contra as que “pertencem” ao seu opressor.
Isto acontece mesmo dentro uma comunidade. No documentário da
BBC “India’s Daughter”, sobre a violação e homicídio de Jyoti Singh, uma jovem
estudante de medicina, falam sobre motivações semelhantes. Os homens condenados
pelo crime são de uma zona extremamente pobre, especialistas alegam que os atos
deles são motivados pela falta de controlo que sentem em comparação com os
homens mais ricos da sua comunidade. Como não têm dinheiro nem status, cometem
este tipo de crime horrendo para se sentirem ao mesmo nível dos outros homens
mais acima na hierarquia social. É uma linha de pensamento extremamente
mesquinha e só mostra como o patriarcado faz de tantos homens débeis
mentais.
Pode parecer que estou a tentar desculpar este comportamento
mas muito longe disso. O dia em que desculpar o comportamento de um homem é o
dia em que inauguro uma performance piece sobre como eu seria num universo
alternativo. Isto não é uma desculpa, é uma explicação. Não é a mesma coisa.
Assédio sexual nunca pode ser desculpado porque não há desculpa, não há nenhuma
razão para nós, as mulheres, apanharmos por tabela porque os homens às vezes se
sentem inadequados. Os homens jogam os seus jogos mesquinhos e nós, quê?, somos
a bola? Acho que não.
Mas, no fundo, mesmo depois de ter em consideração todo o
contexto social e todas as explicações possíveis e imaginárias, as pessoas
continuam a ser pessoas e a ser capazes de tomar as suas próprias decisões. Os
homens em Cologne escolheram assediar sexualmente aquelas mulheres, tal como
imensos outros homens tomam essa decisão todos os dias e não há nada, mesmo
NADA, que justifique isso.
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