Há uns tempos, o povo francês
teve um colapso coletivo e lembrou-se que o que faltava mesmo para garantir a
segurança nacional era banir o burkini, uma vestimenta usada maioritariamente
por senhoras muçulmanas na praia para preservar a sua modéstia. Felizmente
passou-lhes depressa e rapidamente apareceram assim umas pessoas mais entendidas no assunto que refrearam a questão.
Mas a burqa, por exemplo,
continua a ser ilegal em França e as mulheres que a usam podem ser sujeitas a
uma multa substancial. Há duas grandes razões para se querer banir este tipo de
coisa e, enquanto uma é um-bocado-parva, a outra é mesmo turbo-parva.
A razão um-bocado-parva é quando
se ouve alguém dizer que é por causa dos direitos das senhoras que usam a
burqa. Mas, vamos lá ver, a burqa não existe por nenhum razão válida ou de
intenção pura, é uma ferramenta horrorosa de opressão e é profundamente
desumanizante. Se o ocidente tem a tendência a tornar o corpo da mulher
propriedade pública então a burqa mostra a tendência oposta, torna a mulher
propriedade privada do marido, pai, tio ou irmão. A mulher é propriedade de uma
maneira ou de outra, mas uma é mais insidiosa e, para a mulher ocidental, mais
facilmente navegável. A burqa é mais do estilo balls-out-nem-vou-tentar-fingir.
É uma ferramenta altamente eficaz
se se quiser negar a humanidade da mulher, quando olham para um grupo de
mulheres de burqa os homens não vêm indivíduos, vêm um grupo homogéneo, vêm um
rebanho, uma massa uniforme sem identidade própria de componentes
indistinguíveis uns dos outros. O primeiro passo para justificar a violência
contra um grupo é negar-lhe a humanidade e uniformizar-lhe a aparência seja de
que maneira for é uma estratégia bastante eficaz.
Mas, ao banir a burqa, estamos a
punir o oprimido e não o opressor. Não podemos responsabilizar as mulheres que
usam a burqa pela marca de opressão que outros lhe impõem. Não há dúvida de que
a religião favorece desproporcionalmente os homens e toda a narrativa de
subserviência feminina que se encontra nas principais religiões não surgiu do
nada e sem um interesse claro do patriarcado em arranjar uma divina
justificação para os horrores a que sempre submeteu as mulheres.
Concordo plenamente que se condene
publicamente a prática, mas não aceito que se castigue as mulheres que
participam nela. Histórica e socialmente a ideia nunca foi nossa, não foi
inventada ou posta em ação por mulheres, independentemente se agora a ajudam a
perpetuar-se ou não. Há imensos exemplos em que as mulheres, quando sujeitas à
obrigatoriedade de qualquer tipo de véu, quer institucionalizada e consagrada
na lei, quer por pressão social, se manifestaram publicamente e revindicaram o direito
a saírem-lhes de cima, obrigada.
Senhoras no Irão, 1979, manifestando a sua alegria por serem obrigadas a usar véu e terem finalmente oportunidade de ferir suscetibilidades ocidentais
Por isso pronto, não faz sentido.
Ganhem mas é juízo e parem de castigar mulheres por pelas circunstâncias em que
se encontram e pela maneira como escolheram sobreviver.
A razão turbo-parva para banir a
burqa e o burkini é a questão da segurança nacional. Em Nice quem ia a conduzir
o camião não era uma senhora de burkini, em Bruxelas não foram senhoras de
burkini que mataram mais de trinta pessoas e, em Paris, não foram senhoras
(muito menos de burkini) que andaram a aterrorizar multidões e abateram a tiro
mais de uma centena de pessoas. Chamem os bois pelos nomes: foram homens.
Querem praias e centros turísticos mais seguros? Resolvam o que quer que seja
que leva homens frustrados com os seus próprios falhanços pessoais a cometerem
atos de violência indiscritível para justificar a sua existência miserável.
A polícia francesa, praticando a muy importante tarefa de neutralizar uma muy perigosa ameaça para a segurança pública
Fazia muito mais sentido
simplesmente banir todos os homens de zonas com grandes concentrações de
pessoas. Deixava-se os moços sair de casa aí uma hora e meia para irem às
compras e pronto, se quisessem rebentar com alguma coisa rebentavam-se uns aos
outros e deixavam as senhoras que só querem levar os filhos à praia em paz.


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