segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Burkini Faso

Há uns tempos, o povo francês teve um colapso coletivo e lembrou-se que o que faltava mesmo para garantir a segurança nacional era banir o burkini, uma vestimenta usada maioritariamente por senhoras muçulmanas na praia para preservar a sua modéstia. Felizmente passou-lhes depressa e rapidamente apareceram assim umas pessoas mais entendidas no assunto que refrearam a questão. 

Mas a burqa, por exemplo, continua a ser ilegal em França e as mulheres que a usam podem ser sujeitas a uma multa substancial. Há duas grandes razões para se querer banir este tipo de coisa e, enquanto uma é um-bocado-parva, a outra é mesmo turbo-parva. 

A razão um-bocado-parva é quando se ouve alguém dizer que é por causa dos direitos das senhoras que usam a burqa. Mas, vamos lá ver, a burqa não existe por nenhum razão válida ou de intenção pura, é uma ferramenta horrorosa de opressão e é profundamente desumanizante. Se o ocidente tem a tendência a tornar o corpo da mulher propriedade pública então a burqa mostra a tendência oposta, torna a mulher propriedade privada do marido, pai, tio ou irmão. A mulher é propriedade de uma maneira ou de outra, mas uma é mais insidiosa e, para a mulher ocidental, mais facilmente navegável. A burqa é mais do estilo balls-out-nem-vou-tentar-fingir. 

É uma ferramenta altamente eficaz se se quiser negar a humanidade da mulher, quando olham para um grupo de mulheres de burqa os homens não vêm indivíduos, vêm um grupo homogéneo, vêm um rebanho, uma massa uniforme sem identidade própria de componentes indistinguíveis uns dos outros. O primeiro passo para justificar a violência contra um grupo é negar-lhe a humanidade e uniformizar-lhe a aparência seja de que maneira for é uma estratégia bastante eficaz. 

Mas, ao banir a burqa, estamos a punir o oprimido e não o opressor. Não podemos responsabilizar as mulheres que usam a burqa pela marca de opressão que outros lhe impõem. Não há dúvida de que a religião favorece desproporcionalmente os homens e toda a narrativa de subserviência feminina que se encontra nas principais religiões não surgiu do nada e sem um interesse claro do patriarcado em arranjar uma divina justificação para os horrores a que sempre submeteu as mulheres. 

Concordo plenamente que se condene publicamente a prática, mas não aceito que se castigue as mulheres que participam nela. Histórica e socialmente a ideia nunca foi nossa, não foi inventada ou posta em ação por mulheres, independentemente se agora a ajudam a perpetuar-se ou não. Há imensos exemplos em que as mulheres, quando sujeitas à obrigatoriedade de qualquer tipo de véu, quer institucionalizada e consagrada na lei, quer por pressão social, se manifestaram publicamente e revindicaram o direito a saírem-lhes de cima, obrigada. 



Senhoras no Irão, 1979, manifestando a sua alegria por serem obrigadas a usar véu e terem finalmente oportunidade de ferir suscetibilidades ocidentais



Por isso pronto, não faz sentido. Ganhem mas é juízo e parem de castigar mulheres por pelas circunstâncias em que se encontram e pela maneira como escolheram sobreviver. 

A razão turbo-parva para banir a burqa e o burkini é a questão da segurança nacional. Em Nice quem ia a conduzir o camião não era uma senhora de burkini, em Bruxelas não foram senhoras de burkini que mataram mais de trinta pessoas e, em Paris, não foram senhoras (muito menos de burkini) que andaram a aterrorizar multidões e abateram a tiro mais de uma centena de pessoas. Chamem os bois pelos nomes: foram homens. Querem praias e centros turísticos mais seguros? Resolvam o que quer que seja que leva homens frustrados com os seus próprios falhanços pessoais a cometerem atos de violência indiscritível para justificar a sua existência miserável. 


A polícia francesa, praticando a muy importante tarefa de neutralizar uma muy perigosa ameaça para a segurança pública


Fazia muito mais sentido simplesmente banir todos os homens de zonas com grandes concentrações de pessoas. Deixava-se os moços sair de casa aí uma hora e meia para irem às compras e pronto, se quisessem rebentar com alguma coisa rebentavam-se uns aos outros e deixavam as senhoras que só querem levar os filhos à praia em paz.

Sem comentários:

Enviar um comentário