segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Gloria e a arte de perguntar

O feminismo passa muito por problem solving. Ou pelo menos devia.

Se vamos embarcar num movimento político para avançar a nossa posição na sociedade é bom que dê trabalho, que nos obrigue a procurar soluções tangíveis para situações concretas. Isto nem sempre é fácil. Implica compromissos e empatia e análise crítica de uma data de coisas menos agradáveis.
A Gloria Steinem, deusa a abençoe nos seus 82 anos, deu uma entrevista à Bloomberg que mostra exatamente quão importante é a capacidade de investigação e aprendizagem num contexto feminista. Uma das respostas dela sobre a sua experiência na luta contra o tráfico sexual é verdadeiramente impressionante.

“I came to see friends who live along the Zambezi River. They had arranged a meeting with a lot of women from local villages, maybe 20 or 25. […] Two women from those villages had gone to Lusaka to prostitute themselves and never came back, because they needed money for food and also for the kids’ school fees. So I said to them, what would have prevented this? They said a good maize crop. I said, what prevented a good maize crop? They said the elephants came as soon as it was up to a certain height. In the old days, there was a system with a tower with somebody up there with a drum that scared them away. So I asked, “Well, what would prevent that?” They said if they had an electrified fence. I raised—I can’t remember—I think it was under $3,000 for an electrified fence, and they cleared acres and acres by hand, which is a lot of work. When I went back the next year, there was a bumper crop. There were bags of maize under the tree. They had enough for food, security, and also enough to sell so that their kids could go to the local schools. But if someone had asked me what would prevent sex trafficking, I would not have said an electrified fence.”


 A complacência é transversalmente recompensada, mas é algo que deve ser especialmente combatido pelas mulheres. Complacência feminina é muitas vezes sinónimo de corroboração com a nossa própria opressão. Em vez de aceitar as coisas como são, colar etiquetas novas com cuspo em cima de problemas para fingir que são outra coisa, temos que aprender a olhar para nossa opressão de frente e chamar-lhe pelo nome certo.

A prostituição e o tráfico sexual são problemas graves. Não há nenhuma razão para uma mulher ter que se prostituir, não há razão nenhuma para desculpar uma sociedade que aceita que exista procura para este tipo de exploração. São sintomas que têm que ser erradicados e não repackaged como algo socialmente aceite, uma triste realidade comparável a qualquer outra que ocorre numa sociedade capitalista. 

Gloria Steinem, na sua infinita sabedoria de quem já faz isto há muito tempo, não só se propôs a tentar ajudar a encontrar uma solução como conseguiu fazê-lo realmente ouvindo a realidade das mulheres nessa posição e perguntando o que é necessário para que elas possam resolver o seu próprio problema a longo prazo.  

Temos que ter humildade para ouvir, mas também coragem para falar, como estas mulheres tiveram. Coragem de identificar aquilo que é injusto e que tem que ser mudado, custe o que custar.

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