A smear campaign contra a Hillary Clinton é um bom exemplo de que se
pode deturpar tudo e nada para se obter exatamente o que se quer (ou, neste
caso, o que se chega à conclusão de que na verdade não se quer, mas depois já é
demasiado tarde). A Hillary Clinton está muito longe de ser uma política ideal
mas é uma política competente e séria, embora pareça que isso é vastamente
irrelevante para a maioria das pessoas.
É que se por um lado temos a direita nossa de cada dia a cagar a sua
posta de pescada, temos até mesmo os círculos liberais relutantes em apoiá-la
porque atrelaram o reboque ao Bernie Sanders e a alguma ideia extremamente
confusa e mal compreendida do que mudança política realmente implica e agora
não podem voltar atrás.
Portanto, se por um lado ela quer híper-liberalizar os Estados Unidos,
destruir o conceito tradicional de família e distribuir vales de “pague um
aborto ganhe dois grátis” pela população, por outro é uma warmonger sem
sensibilidade humanitária ou visão política. O pior tipo de neoliberal, uma
capitalista light na mão de Wall Street.
Mas e a responsabilidade eleitoral? Não se pode fazer exigências
intermináveis quando se tem um papel ultralimitado na sociedade e há uma recusa
profunda em sair de uma zona de conforto altamente limitada. Não se pode exigir
da Hillary Clinton, ou de qualquer outro político individual, uma solução imediata
e simples para anos e anos de instabilidade política fruto de uma forte
presença colonial ao longo de séculos.
E sim, é tudo muito triste e deprimente e foreign policy é uma treta e
se calhar a Madeline Albright não devia ter apoiado os bombardeamentos do Kosovo
pela NATO mas não me vou pôr do alto da minha Torre Do Supremo Conhecimento
porque, francamente, não sei mesmo se foi pelo melhor ou pelo pior (há coisas
que sei mas esta em particular nem por isso).
O sistema eleitoral dos Estados Unidos é mau, o nosso apesar de ser
muito melhor também não é ideal e o conceito de democracia representativa tem
muito que se lhe diga mas ajudou-nos a atingir uma espécie de equilíbrio que
com a quantidade ridícula de gente que existe neste shitshow de planeta eu
julgaria praticamente impossível. Queixume infinito sem nenhum tipo de
substância que o apoie, sem vontade de self-improvement ou noção de impacto
direto na comunidade local serve exatamente de zero.
Portanto ok, querem fazer a revolução vamos fazer então a revolução,
não a social que, essa sim, estou à espera que comece desde que nasci, mas a
política e a económica. Eu lidero e tudo se quiserem, mas mostrem-me opções
viáveis e não ideologia half-baked sem suporte académico. É que, relativamente
à Hillary Clinton e ao processo eleitoral nos Estados Unidos, a única coisa que
tenho visto é backtracking de quem andou a espalhar mentiras na altura em que o
Bernie ainda parecia mais do que um senhor decrépito pseudossocialista com o
political savvy de uma batata e apoios mornos de quem diz que ela ao menos não é literalmente
fascista (é só figurativamente fascista aparentemente).
Aqui em baixo estão partes do discurso da Hillary Clinton na
Democratic National Convention, onde ela refere os assuntos (problema da água
contaminada em Flint, saúde universal, licença de maternidade) que tenciona
abordar especificamente enquanto presidente e mostra, se não capacidade
intrínseca em liderar, pelo menos algum tipo de solidariedade, ponderação e estratégia baseada em factos.
Como é que se quer chegámos a um ponto em que é possível comparar esta
mulher a alguém que é essencialmente o ejaculado de uma laranja criada numa
mata em Chernobyl? Como é que não se vê que, apesar de não trazer a
revolução™ às costas pode trazer mudança? Pode construir sobre o que se deixou
em vez de destruir tudo e começar de novo?
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