domingo, 24 de abril de 2016

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Escrevi uma coisa há uns tempos sobre a importância de ter a liberdade de definir as nossas próprias experiências e como o facto de estarem a surgir montes de termos para definir diferentes géneros ser fundamentalmente bom. Mas, olhando para trás, se calhar sou capaz de ter compreendido mal a direção do movimento.  Estava convencida, na minha ingenuidade, que o end goal era abolir efetivamente o conceito de género, reconhecendo-o como uma criação patriarcal que tem como objetivo final beneficiar os homens, que estes termos novos eram uma expressão da vida interior rica de todas as mulheres por esse mundo fora, uma tentativa de explicar o que se sente e não o que se é.

O problema com o binário de género nunca foi o facto de ser limitado no sentido em que não abrange todos os géneros com que se pode nascer já hardwired mas sim o simples facto de existir, de criar uma distinção artificial baseada em mentiras. Porque, não se iludam, o patriarcado está assente apenas em mentiras. Anos e anos de mentiras que se auto-propagam apenas por interesse e uma boa dose de ignorância.

Quando se admite que o género não é binário mas que o binário em si é válido não estamos a ser progressivos. Para aceitar que ser não-binário é de certa forma essencialista e intrínseco temos que aceitar que ser binário também o é, e isso é o que o feminismo tem andado a tentar desconstruir há imenso tempo. Eu compreendo e aceito qualquer necessidade em usar descritivos como genderqueer ou genderfluir para explicar uma identidade pessoal em termos práticos mas não para determinar uma verdade imutável. O género não se sente, é uma fabricação. Eu não me sinto como uma mulher nem penso, respiro, vivo como uma mulher. Vivo como eu própria. Eu não conheço mulheres, conheço a Joana, a Ana, a Margarida. E nenhuma se experiencia a ela própria como mulher mas sim como Joana, Ana e Margarida, como sendo essencialmente seres humanos com consciências humanas, uma mistura de tudo o que viveram.

O género tem mais a ver como a maneira como nos tratam do que efetivamente com a nossa vida interior. A nossa opressão não desaparece magicamente só porque decidimos identificar-nos para fora dela, começou desde que nascemos, desde que nos disseram que éramos meninas, raparigas, mulheres. Começou na escola, na maneira como olham para nós na rua desde que temos doze anos, começou quando começámos a duvidar de nós próprias só por causa da nossa herança genética.

Li num artigo algures que a esmagadora maioria (pensem mais de 80%, migos) das pessoas que se identificam como não-binário são assigned female at birth. O que, se pensarmos bem, faz todo o sentido. Se somos nós, as mulheres, que ficámos com o raw end of the deal relativamente ao conceito de género é perfeitamente normal que queiramos escapar às suas imposições de uma maneira ou de outra. Somos de tal maneira bombardeadas com uma imagem fixa do que é ser mulher, de como é suposto sentirmos e vivermos o mundo, que quando não nos revemos em nada disso, quando vemos que grande parte da experiência humana nos está vedada simplesmente por causa da bagagem do género que nos atribuíram, a única explicação só pode ser “não sou isto, não esta coisa que dizem que eu sou”.

Mas não há nada de proprietário em ser mulher ou em ser homem, não há nada capaz de diferenciar uma coisa da outra fundamentalmente, onde interessa. A tragédia nunca foi a incapacidade de reconhecer que há um mundo para além do binário, mas sim a incapacidade de reconhecer que o binário nunca foi mais nada do que amarras para as mulheres, que tem um propósito sinistro de raiz, que nunca devia ter existido e que não devemos deixar que continue a existir.  

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