quinta-feira, 17 de março de 2016

Indo a sítios, chorando para sempre

No passado dia internacional da mulher, decidi celebrar a coisa pegando nas perninhas e indo a um debate no pavilhão do conhecimento. Já não tinha soutiens para queimar por isso achei que a coisa mais próxima seria ir assistir a uma discussão sobre Mulheres na Ciência™. Sendo eu uma dessas senhoras, poderia ser relevante para os meus interesses. Acontece que não, para nenhum deles mesmo.

A minha mãe bem me avisou “olha que eles vão passar o tempo tempo todo a falar de como convencer as meninas a ir para ciências e ninguém vai dizer nada de produtivo”. Eu ainda ia com esperança no coração mas não se pode mesmo ignorar os conselhos de uma senhora mais-do-que-convencionalmente-atraente com mais de quarenta anos cuja paciência para estas coisas já foi testada daqui até à lua. Foi exatamente o que ela me disse que seria.

É, em partes iguais, engraçado e horrivelmente deprimente ouvir um painel de sete pessoas adultas interrogarem-se ininterruptamente, durante mais de uma hora, como convencer as mulheres a ir para STEM, se o facto de as mulheres não irem é realmente importante e, indo, por que é que se vêm embora. E não se chegou a lado nenhum! Como se estes mistérios do universo, nada estudados nem compreendidos, de um misticismo transcendente, não pudessem ser resolvidos! NUNCA.

Acontece que, como sou jovem e fui criada num vácuo de género de tal forma eficiente que me permitiu desenvolver o braggadocio e a self-assurance de um homem muito branco e moderadamente velho, consigo explicar todos estes fenómenos (e muitos outros!).

Primeiro, as meninas não vão assim tão pouco para ciências como isso. Na minha faculdade a divisão é 49/51 mas pronto, se nos focarmos em coisas como engenharia ou, sei lá, Física, há definitivamente mais senhores. Mas pronto, por que é que as mulheres estão tão mal representadas em cursos destes quando até já nos deixam ir à escola e tudo? Acontece que as meninas, desde muito jovens, são desencorajadas sistematicamente a fazê-lo! Pronto! É isto! Os homens sempre tiveram acesso preferencial à educação e às vezes estas coisas custam a arrancar! Acalmem-se! 

Diria que conseguimos sobretudo criar um foothold em ciências como biologia e química porque não são intensivamente baseadas em matemática, por isso é que a disparidade é mais acentuada nas engenharias. A matemática continua a ser a matéria mais esotérica e difícil para as crianças e, quando há dificuldades, há oportunidade para ser sexista (racista também e, se tivermos mesmo sorte, as duas ao mesmo tempo). A ideia de que as meninas são naturalmente piores a matemática ainda é muito prevalecente e, embora existam muitas pioneiras a quem nos poderíamos agarrar, não há muitas mulheres nestas áreas que os media ou a sociedade no geral gostem de glorificar de forma visível.

Temos então a semente da dúvida semeada nas pequenas meninas que têm exatamente o mesmo potencial médio que o Joãozinho ali ao lado mas que, infelizmente, não têm uma almofadinha confortável de contexto histórico e social onde se apoiar. A isto junta-se não só a discriminação nossa de cada dia na sala de aula como também pressão dos pais e amigos. Por exemplo, uma senhora cientista no painel comentou que os pais davam computadores e legos ao irmão enquanto ela só tinha direito a barbies e afins (este momento foi aproveitado pelo moderador para introduzir um bocadinho de racismo casual: como ela não era branca ele perguntou onde se tinha passado este episódio, ao que ela respondeu “em Londres”). Este tipo de desencorajamento é mais insidioso do que propriamente ativo, mas conheço uma jovem cuja mãe a impediu de estudar engenharia mecânica no IST porque havia lá demasiados rapazes e não era sítio próprio para uma senhora estar. Ou a jovem que, ao tentar convencer-me a aderir a um serviço qualquer, me perguntou em que curso estava e, descobrindo que estava na área de ciência, me disse “ah, eu gostava de ter ido para engenharia informática mas o meu pai disse que isso era curso de homem”. E há milhões de outras histórias iguais a estas que acontecem todos os dias a toda a hora.

O problema não é, então, que as raparigas não gostam de ciência. Historicamente o interesse está lá, há estudos que indicam que na escola primária o interesse dos rapazes e das raparigas nestas coisas é o mesmo, só depois é que o pessoal consegue arrancar a curiosidade das meninas à paulada. Só precisamos mesmo é que nos saiam de cima.

Depois de falarem sobre educar as jovens desde pequenas a gostar destas coisas, falou-se sobre como convencer as que realmente se formam em ciência a não abandonar o meio, ignorando completamente exatamente o que é que as faz abandoná-lo. E é muito simples, na verdade só há duas razões para isto acontecer:

a) Hostilidade e uma vida inteira a lidar com bullshit.

Se as mulheres não são ativamente assediadas pelos seus pares masculinos, então podem ter a certeza de que se vão ver mergulhadas num delicioso mundo de condescendência non-stop e uma necessidade constante de mostrar que conseguiram subir acima das suas amarras biológicas e ser realmente boas no que fazem porque se falharem vão ser automaticamente usadas como generalização para a incompetência do resto do género.

b) Têm que ir tratar da família.

A explicação que arranjam para esta prende-se com o facto de as mentalidades estarem a mudar devagar mas que não vale a pena preocupar-nos muito porque eventualmente os homens lá se decidirão a ser uma parte produtiva do household e tomar (alguma) responsabilidade pela sua própria família.

O que me irritou nisto tudo e me deixou seriamente confusa é que ninguém, no meio de tanta conversa sobre Bravery Workshops para convencer as mulheres a ficar num meio que claramente as odeia e como convencer as meninas pequenas de que a ciência até é fixe, foi capaz de dizer “esperem lá se calhar o problema aqui não são as mulheres”. Ninguém sugeriu que, talvez, se devesse educar os homens sobre estas coisas. Sei lá, promover uma noção de igualdade entre sexos desde pequenos ou ensinar os meganerds a portarem-se como gente crescida ou mesmo fazer um Don’t Be a Sexist Asshole Workshop para professores universitários! Qualquer coisa que distribua o mal pelas aldeias!

Porque o que eu tirei dali é que nós é que estamos mal. As mulheres e os seus interesses sancionados pelo patriarcado são palermas. As mulheres não vão para ciências porque a imagem do meio é muito má, não querem ser o Sheldon da “Big Bang Theory” (uma coisa dita sem ironia por gente com pelo menos um doutoramento), não gostam de armas nem de futebol e toda a área é simplesmente demasiado masculina para elas aguentarem (outra coisa dita sem ironia nas mesmas condições).

E querendo que haja mulheres no meio não é por causa de nenhum tipo de imperativo moral ou querer que todos os empregos sejam igualmente representados por homens e mulheres. Nada disso. É só porque as mulheres têm uma perspetiva feminina mística que se calhar melhorava o ambiente de trabalho e ajudava a fazer apps e possivelmente um código mais apelativo para as fêmeas. Os estudos mostram que sim. Ambientes de trabalho mistos são melhores por causa desta perspetiva feminina mística, é científico. Não tem nada a ver com o facto de um ambiente saturado de masculinidade tóxica e socialização masculina ser menos do que ideal se se quer efetivamente trabalhar.

Portanto, para terminar, deixo-vos uma foto muito famosa onde se podem divertir a tentar encontrar a Marie Curie (a solução está mais em baixo).
 
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