quinta-feira, 31 de março de 2016

Comunias Utopistas

As coisas que mais aborrecem a minha mãe neste mundo inteiro são: a maneira como os curdos são tratados, o facto de já não haver mais episódios da Phryne Fisher e aquelas pessoas que assumem que os filhos devem sair de casa o mais depressa possível.

Sinto-me particularmente inclinada a concordar com esta última porque, honestamente, não tenciono ir a lado nenhum nos próximos 5 a 10 anos. Já lá vai o tempo em que achava sinceramente que ficar em casa dos pais tanto tempo era uma vergonha e um fardo terrível. Não é que não possa ser, é óbvio que há muita sanguessuga por aí, mas não é que o seja necessariamente. Só não me parece que arranjar emprego –> casar –> sair de casa –> ter filhos seja a ordem de acontecimentos mais saudável, especialmente para jovens senhoras como eu. Mas, muitas vezes, se queremos coisas diferentes é preciso viver indefinidamente com os paizinhos. Coitados, sacrificados no altar do feminismo em prol do desenvolvimento pessoal das meninas. Um ultraje.
 
Ponho ainda mais um pequeno chapéu na minha retórica: as jovens devem esforçar-se o máximo possível para viverem em comunidade e não se exilarem em círculos sociais que dependem quase exclusivamente de relações românticas. Quando digo em comunidade, digo que devem dar preferência quase idêntica a todos os laços fortes que criam e reconhecer o seu valor individual. Ou seja, em vez de termos um núcleo que se baseia no parceiro romântico com outras ligações mais periféricas, vai tudo para dentro do mesmo saco. Normalmente, espera-se que as mulheres saiam eventualmente de casa dos pais para constituírem família com um sujeito mais ou menos decente, sendo que os irmãos, pais e amigos passam a tomar um papel secundário. Não é que eu ache o casamentos uma coisa necessariamente má, mas esta de abordagem deixa-nos isoladas. Nunca vamos sair particularmente beneficiadas deste tipo de exclusividade.
 
Temos que encarar todas as interações que temos de uma forma fundamentalmente egoísta. Mas no melhor dos sentidos. Construir uma personalidade demora tempo e só arranjamos um Eu com alicerces de ferro através de relações diversificadas, se vendermos os nossos anos formativos a um único marmanjo estamos a mutilar-nos desnecessariamente. Muitas relações românticas baseiam-se na plasticidade da mulher e na sua capacidade de agradar ao parceiro quando, na verdade, deviam ser só uma experiência de enriquecimento mútuo em que se pode partilhar aquilo que se construiu individualmente.  
 
É óbvio que não devemos abdicar da nossa independência, é precisamente o contrário. Se tivermos o privilégio de ter pais definitivamente não insuportáveis com os quais podemos aprender uma coisa ou duas assim de vez em quando, por que não usar essa segurança para desperdiçar uns anitos em desenvolvimento pessoal? Tenho uma liberdade enorme que me permite fazer só aquilo de que gosto (e se não é porque gosto ao menos é porque quero) e isto implica trabalhar e estudar a tempo inteiro mas também passear o cão e regar as plantas e fazer o almoço e o jantar para a família, limpar o pó de vez em quando, tricotar gorros para toda a gente que conheço e ver séries com os irmãos. Sou necessariamente mais interessante e mais competente por causa de todas estas coisas, algumas das quais se perderiam se já vivesse sozinha. Parecendo que não, uma família grande e movimentada dá-me um apreço renovado por muitos outros aspetos da vida em sociedade e da responsabilidade individual por uma comunidade.
 
Quero então que se arranje uma rede mais ou menos igualitária que se estenda dos pais, irmãos e avós até aos amigos, que passe também pelos namorados e namoradas e que alcance as crianças a quem se dá explicações e até mesmo as mães delas (que merecem maridos melhores) e as senhoras idosas que passeiam os cães no jardim todos os dias. Há coisas tão interessantes para aprender com toda esta gente e não necessariamente sobre elas mas sim sobre nós próprias.

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