A minha avó ensinou-me recentemente a tricotar. Passei os
últimos dois meses a fazer gorros e cachecóis, golas e até mesmo uma luva (mas
só uma). É também uma skill boa para se praticar enquanto se vê “Making a
Murderer” e se tenta não chorar.
Pouco depois de ter comprado mil pares de agulhas e ter gasto
uma quantidade ridícula de dinheiro em lã vi, nem por acaso, alguém a referir-se
no facebook a tricot como “coisa de gaja” de forma bastante derrogatória. O
simples facto de as pessoas acharem que existem efetivamente “coisas de gaja” e
“coisas de gajo” é hilariante por si próprio mas vamos analisar em profundidade
o que é que constitui exatamente o mundo dos interesses exclusivamente
femininos: ou seja, tudo o que é costura, crochet, tricot, ponto cruz,
culinária, limpezas, educação de crianças, moda, arranjos florais e, presumo eu,
cake décor (que não é bem o mesmo que culinária).
O fio condutor aqui é que, embora gostem de fazer estas coisas
parecer muito patetas (algumas mais do que outras), são todas bastante úteis. A
minha avó, por exemplo, uma senhora séria com quase mil anos de idade, nunca
teve um Emprego™. É uma daquelas mulheres que toda a vida cozinharam e lavaram e
criaram crianças (duas neste caso, uma de forma mais bem sucedida do que outra)
mas que nunca trabalham per se. Senhora que, certamente, não conhece as duras
realidades do mercado de trabalho e que sempre desfrutou do privilégio de ter um
marido que a sustentou. Certamente! Mas, observem, a minha avó, embora um
aparente fardo de uma perspetiva puramente capitalista, tem uma quantidade
louvável de talentos e aptidões. Sabe cozinhar muito bem, fazer ponto cruz,
tricotar, pintar, mantém uma casa de tamanho razoável sozinha e está a aprender
a fazer quadros martelando cápsulas de café sabe deusa onde. Um autêntico
canivete suíço.
O meu avô, que já morreu, por outro lado, trabalhava numa
refinaria. Uma coisa que tinha valor tanto monetário como na grande roda da
fortuna da masculinidade. Reformou-se muito cedo e, segundo me consta, passou os
últimos anos da sua vida fazendo rigorosamente nada para além de azucrinar a
vida da mulher e das filhas. Chegou mesmo a cortar o fio do rádio da minha avó
porque não queria que ela ouvisse o “Simplesmente Maria”. Uma joia de senhor.
Mas esta é uma história comum: o homem vende a alma ao
capitalismo, o capitalismo confere-lhe autoridade e status na forma de dinheiro,
o homem trabalha até não poder mais, o homem deixa de ter valor depois de deixar
de trabalhar, o homem descobre que confundiu “ter” com “ser”. O homem chora.
Fin.
O mesmo aconteceu com o meu segundo avô, ainda vivo, que sempre
se apoiou em mulheres ao longo da sua vida para lhe dizerem qual é a gaveta dos
talheres e agora que já não tem nenhuma à mão para trabalhar à borla tem que
contratar uma para lhe limpar a casa e é incapaz de cozinhar para si próprio. Os
homens, na ânsia de mostrar que são melhores e mais capazes porque têm uma
atividade sancionada pelo capitalismo, encurralaram-se à grande e à francesa.
Chegam à idade da reforma e, muitas vezes, encontram-se reduzidos a uma
incompetência embaraçosa. Acham-se o mestre da batata a vida toda, que tomaram o
fardo do trabalho remunerado como autênticos mártires, e depois tumbas,
bem-vindos à existência de fardo!
É por estas e por outras que eu acho que, embora a maioria das
tarefas delegadas às mulheres pela sociedade, sejam por vezes redutoras e um
pouco limitadas, não deixam de ser úteis. Imaginemos, por exemplo, que eu e um
espécime do sexo masculino ficamos presos em ilhas desertas separadas mas
vizinhas. Ele, coitado, nunca abriu um coco na vida, nem tirou os olhos a um
ananás quanto mais descasca-lo! E, como se não bastasse passar uma fome horrível
ou, pelo menos, sofrer imenso intestinalmente com os inúmeros olhos de ananás
que se viu obrigado a comer, a sua roupa apodreceu toda rapidamente com o clima
tropical e agora tem que andar butt naked a levar com sol escaldante em cima, a
sua pobre pele branca e macilenta já toda queimada e a pelar. Uma tristeza.
Mas eu, por outro lado, estou a comer como uma rainha. Ela é
fruta, ela é fibra, ela é a ocasional lagartinha para a proteína extra. O meu
cabelo está espesso, a minha pele está limpa. E se a minha roupa se estragou não
há drama, usa-se o fio das bananeiras para tricotar um three piece suit e uma
ponte daqui até ao continente mais próximo se for preciso.
Agora imaginem que surge no horizonte um barco que, por acaso,
contém uma equipa televisiva e algumas antigas paixões da minha juventude e da
do senhor da ilha ao lado. Ele vai ter que sofrer a humilhação de ser visto num
estado lastimoso, todo cheio de escorbuto, mas eu? Eu até recebo a minha high
school crush com uma camisola que eu fiz com os meus pelos das pernas e um
cocktail com álcool acabadinho de destilar.
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