quarta-feira, 2 de março de 2016

Coisas de gaja

A minha avó ensinou-me recentemente a tricotar. Passei os últimos dois meses a fazer gorros e cachecóis, golas e até mesmo uma luva (mas só uma). É também uma skill boa para se praticar enquanto se vê “Making a Murderer” e se tenta não chorar.

Pouco depois de ter comprado mil pares de agulhas e ter gasto uma quantidade ridícula de dinheiro em lã vi, nem por acaso, alguém a referir-se no facebook a tricot como “coisa de gaja” de forma bastante derrogatória. O simples facto de as pessoas acharem que existem efetivamente “coisas de gaja” e “coisas de gajo” é hilariante por si próprio mas vamos analisar em profundidade o que é que constitui exatamente o mundo dos interesses exclusivamente femininos: ou seja, tudo o que é costura, crochet, tricot, ponto cruz, culinária, limpezas, educação de crianças, moda, arranjos florais e, presumo eu, cake décor (que não é bem o mesmo que culinária).

O fio condutor aqui é que, embora gostem de fazer estas coisas parecer muito patetas (algumas mais do que outras), são todas bastante úteis.  A minha avó, por exemplo, uma senhora séria com quase mil anos de idade, nunca teve um Emprego™. É uma daquelas mulheres que toda a vida cozinharam e lavaram e criaram crianças (duas neste caso, uma de forma mais bem sucedida do que outra) mas que nunca trabalham per se. Senhora que, certamente, não conhece as duras realidades do mercado de trabalho e que sempre desfrutou do privilégio de ter um marido que a sustentou. Certamente! Mas, observem, a minha avó, embora um aparente fardo de uma perspetiva puramente capitalista, tem uma quantidade louvável de talentos e aptidões. Sabe cozinhar muito bem, fazer ponto cruz, tricotar, pintar, mantém uma casa de tamanho razoável sozinha e está a aprender a fazer quadros martelando cápsulas de café sabe deusa onde. Um autêntico canivete suíço.

O meu avô, que já morreu, por outro lado, trabalhava numa refinaria. Uma coisa que tinha valor tanto monetário como na grande roda da fortuna da masculinidade. Reformou-se muito cedo e, segundo me consta, passou os últimos anos da sua vida fazendo rigorosamente nada para além de azucrinar a vida da mulher e das filhas. Chegou mesmo a cortar o fio do rádio da minha avó porque não queria que ela ouvisse o “Simplesmente Maria”. Uma joia de senhor.

Mas esta é uma história comum: o homem vende a alma ao capitalismo, o capitalismo confere-lhe autoridade e status na forma de dinheiro, o homem trabalha até não poder mais, o homem deixa de ter valor depois de deixar de trabalhar, o homem descobre que confundiu “ter” com “ser”. O homem chora. Fin.

O mesmo aconteceu com o meu segundo avô, ainda vivo, que sempre se apoiou em mulheres ao longo da sua vida para lhe dizerem qual é a gaveta dos talheres e agora que já não tem nenhuma à mão para trabalhar à borla tem que contratar uma para lhe limpar a casa e é incapaz de cozinhar para si próprio. Os homens, na ânsia de mostrar que são melhores e mais capazes porque têm uma atividade sancionada pelo capitalismo, encurralaram-se à grande e à francesa. Chegam à idade da reforma e, muitas vezes, encontram-se reduzidos a uma incompetência embaraçosa. Acham-se o mestre da batata a vida toda, que tomaram o fardo do trabalho remunerado como autênticos mártires, e depois tumbas, bem-vindos à existência de fardo!

É por estas e por outras que eu acho que, embora a maioria das tarefas delegadas às mulheres pela sociedade, sejam por vezes redutoras e um pouco limitadas, não deixam de ser úteis. Imaginemos, por exemplo, que eu e um espécime do sexo masculino ficamos presos em ilhas desertas separadas mas vizinhas. Ele, coitado, nunca abriu um coco na vida, nem tirou os olhos a um ananás quanto mais descasca-lo! E, como se não bastasse passar uma fome horrível ou, pelo menos, sofrer imenso intestinalmente com os inúmeros olhos de ananás que se viu obrigado a comer, a sua roupa apodreceu toda rapidamente com o clima tropical e agora tem que andar butt naked a levar com sol escaldante em cima, a sua pobre pele branca e macilenta já toda queimada e a pelar. Uma tristeza.

Mas eu, por outro lado, estou a comer como uma rainha. Ela é fruta, ela é fibra, ela é a ocasional lagartinha para a proteína extra. O meu cabelo está espesso, a minha pele está limpa. E se a minha roupa se estragou não há drama, usa-se o fio das bananeiras para tricotar um three piece suit e uma ponte daqui até ao continente mais próximo se for preciso.

Agora imaginem que surge no horizonte um barco que, por acaso, contém uma equipa televisiva e algumas antigas paixões da minha juventude e da do senhor da ilha ao lado. Ele vai ter que sofrer a humilhação de ser visto num estado lastimoso, todo cheio de escorbuto, mas eu? Eu até recebo a minha high school crush com uma camisola que eu fiz com os meus pelos das pernas e um cocktail com álcool acabadinho de destilar.

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