Gosto imenso de uma boa série, mais do que um bom filme até.
Ui, aquele desenvolvimento pessoal todas das personagens. Que gostoso!
Acabei a segunda temporada de Fargo há uns dias e adorei o
último episódio. Normalmente, tenho que desligar os meus feminist-goggles antes
de ver o que quer que seja, mas Fargo sempre foi o tipo de série que convida
todo o tipo de goggles, não só os feministas. Acho que se deixa deliberadamente
aberta para todo o tipo de interpretações.
No final do último episódio há uma cena particularmente
interessante. Na parte de trás de um carro da polícia está uma moça que
atropelou acidentalmente o filho mais novo de uma família de mafiosos, raptou
outro e inadvertidamente desencadeou um massacre, sempre com o marido atrelado
como cúmplice. Coisas que acontecem.
O polícia que conduz o carro conta-lhe uma história sobre
quando estava na guerra do Vietnam e viu um homem fazer algo praticamente
impossível só para conseguir salvar a família. Ele continua dizendo que os
homens são capazes de tudo para proteger o que é deles, que compreende o marido
da moça, que o pobre coitado foi justificado no papel dele nas coisas todos
terríveis que aconteceram porque estava apenas a tentar ajudá-la, protegê-la. A
ideia é que ela foi a força motriz do massacre e ele um espectador
bem-intencionado. Que o fardo dos homens é este, que têm que usar a sua
superioridade moral, intelectual e física para proteger os mais fracos, para
protegerem as suas crianças e mulheres porque não são capazes de o fazer
sozinhas.
Mas o marido da moça morreu e ela não. Não diria que morreu por
ela mas morreu e ela sobreviveu. O dever dele enquanto marido num paradigma
tradicionalmente masculino foi cumprido no seu expoente máximo. O polícia, por
outro lado, com toda a sua competência profissional, não consegue salvar a
mulher do cancro que a está a matar. Ela vai morrer e ele vai ficar. Foi ela que
deixou a base a vida futura do marido e da filha sem ela, garantiu que vão ficar
os dois bem. E é ela também que tem um visão do futuro, em que o marido encontra
felicidade e paz em papéis que vão muito para além do estereótipo do patriarca
que governa o seu reino: a mulher, os filhos, a casa.
A tirada contra a moça no carro é uma última tentativa de se
tentar agarrar a esta narrativa, de que o seu valor está de alguma maneira
ligado à sua capacidade de protetor. De a tentar fazer ver que eles os dois são
fundamentalmente diferentes, que enquanto ela é egoísta ele continua a tentar,
embora que em vão. É um momento de honestidade profunda que poderia ser
horrorosamente sexista mas que caminha ali na linha entre o realista e o
deliberadamente ofensivo.
A resposta dela é que, antes de tudo aquilo acontecer, antes de
atropelar quem quer que fosse, ela era uma vítima primeiro. Que ele não faz
ideia do que é ser mulher, ser constantemente massacrada com ideais impossíveis
de alcançar, ser constantemente secundária aos desejos de terceiros, parte do
grande plano do marido (tal como a casa, o carro, o emprego), sem nunca ter
oportunidade para simplesmente ser uma pessoa.
E o que é engraçado é que me lembro perfeitamente de pensar no
início da temporada, a olhar para ela, anexada à narrativa de um homem como se
fosse uma decoração, que aquilo tudo (especialmente na altura, em 1979) também
era um tipo de violência. Que não nenhuma das reações dela eram tão outlandish
como pareciam à primeira vista. Quando se mantém alguém assim tão confinado,
tanto física como psicologicamente, é normal que desenvolvam algum tipo de cabin
fever. Este tipo de violência, de terrorismo raramente reconhecido, é do mais
básico que há, é a negação completa de autonomia e de humanidade que, ano após
ano, mastiga a alma de uma pessoa até já sermos outra coisa qualquer.
Acho que ela estava a tentar expressar isto quando disse que
também era uma vítima. Que os dias em que tinha que tomar a pílula às
escondidas, as revistas que acumulava de forma obsessiva, até toda a violência
que cometeu (embora não desculpável), faziam parte de uma tentativa de recuperar
algum controlo sobre a sua vida, de ser uma pessoa a sério e não uma extensão do
marido que, no meio disto tudo, era completamente ignorante relativamente à
brutalidade a que sujeitava a mulher.
O senhor polícia responde-lhe, de forma incrédula, que “pessoas
morreram”. Como se ela não soubesse, como se esse fosse o único tipo de horror a
que se pode sujeitar alguém porque é o único que ele conhece.
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