domingo, 6 de dezembro de 2015

Arrumando a nossa porcaria

Aqui há uns tempos tive uma discussão surreal num grupo feminista. Eu gosto imenso de discutir, admito que é um dos meus passatempos preferidos, mas normalmente é mais engraçado quando é com rapazinhos da minha idade incrivelmente mal informados  ou com professores universitários com complexos de inferioridade. Quando é com a irmandade é simplesmente deprimente.  Eu tenho uma visão muito clara do que acho que o movimento feminista deve ser e, quando surge alguém dentro da comunidade que tem ideias tão radicalmente opostas às minhas, sinto um choque muito grande.

Isto tudo começou quando vi com os meus próprios olhos uma irmã a defender que o problema da exploração dos animais era um problema feminista. Ora, a verdade é que não é e qualquer tentativa de convencer a pessoa em questão disso foi em vão. Surgiu uma thread de 200+ comentários que acabou por ser bloqueada pelos moderadores. Um autêntico shit show.

O meu problema não está no facto de outras mulheres terem visões diferentes do que o feminismo é ou deixa de ser mas sim na recusa em aceitar que factos são factos e o resto simplesmente não vale a pena. Li comentários de moças que argumentavam que o movimento feminista era a luta contra todos os tipos de opressão e que se chamava feminismo simplesmente porque tinha sido inventado por mulheres. Ora, por muito bem intencionado que isto soe, não corresponde à realidade, o que, parecendo que não, é um ponto bastante importante. É factualmente incorreto e nega toda a história do movimento. Alegar que a definição de feminismo tem vindo a evoluir de tal forma que é possível argumentar que agora pretende eliminar todos os tipos de opressão acaba por não beneficiar ninguém.

O feminismo evoluiu muito, é verdade, mas no sentido de conseguir acomodar as necessidades de todas as mulheres e lutar contra os diferentes tipos de opressão que elas sofrem. Já não nos concentramos só nos problemas das mulheres brancas de classe média, sabemos agora que temos que ter em consideração que há irmãs que sofrem outros tipos de discriminação por causa da sua etnia, classe social, orientação sexual, por serem trans, por serem gordas… Mas a palavra chave continua ser “mulher”, o feminismo sempre foi e sempre será uma luta pelo reconhecimento das mulheres enquanto iguais perante a sociedade, o seu objetivo final a abolição do patriarcado. Qualquer outro grupo que saia beneficiado é por acaso. Alegar outra coisa qualquer é simplesmente falso.

Este tipo de discurso, a aparente recusa em estabelecer um objetivo fixo e o desleixo retórico com que muitas vezes se fala de feminismo, não é grave mas é preocupante. É injusto exigir que sejamos mais académicas e menos flexíveis mas é o que precisa de acontecer. Algures no seio do movimento tem que surgir um pilar de valores morais e intelectuais inabalável, assente firmemente nos mais duros factos. Não há outra maneira.

Não se trata de elitismo da minha parte no sentido em que não quero alienar mulheres sem conhecimento académico ou inclinações intelectuais. O que eu quero é que o feminismo seja uma ferramenta para educar todas as mulheres sobre a sua própria opressão, sobre a opressão dos outros, sobre o contexto dessa opressão. A única maneira de conseguir algum tipo de dignidade é através da educação e da informação. Quero que o feminismo se torne um esforço coletivo para dar poder a mulheres e raparigas em todo o lado para se libertarem a si próprias. Neste sentido, no entanto, o feminismo popular não está a fazer um trabalho muito bom.

Li há uns meses um artigo sobre um evento feminista no Reino Unido vocacionado para raparigas nos seus late teens que tinha como atrações principais workshops sobre bruxaria e palestras sobre ethical makeup. Não é que eu não ache que deva haver espaço para este tipo de coisa mas devíamos ter uma abordagem mais didática. Há um grande interesse em feitiçaria nalguns círculos feministas  e, embora compreenda perfeitamente porquê,  partilhar feitiços e falar disso como se fosse uma coisa que existe mesmo em vez de nos concentrarmos no contexto histórico e cultural da bruxaria (e o que podemos aprender com ele) é, no mínimo, pouco aconselhável. Devíamos usar oportunidades destas para garantir que as gerações mais novas têm acesso a todo o tipo de informação que muitas vezes é negado ou simplesmente ignorado no sistema de ensino, mas em vez disso ficamos perdidas neste feminismo de pastilha elástica pontilhado muitas vezes por faux-empowerment que se traduz em rigorosamente nada na vida real. Se ajudarmos a formar raparigas aptas, inteligentes e informadas estamos também a formar futuras educadoras competentes. E assim, sem mais nem menos, metade da batalha está ganha.

Se queremos garantir a longevidade e a eficiência do movimento temos que ser especialistas na nossa própria opressão, saber de cor e salteado todas as maneiras como nos vão tentar magoar e como desconstruí-las, como nos defender. Temos que ser polymaths, metade guerrilheiras, metade intelectuais. Mas para isso temos que nos empenhar, especialmente as feministas como eu, meninas de bem com acesso ao ensino superior e paizinhos compreensivos. Temos que deixar para trás a pseudo-ciência (por muito atraente que por vezes pareça) e sermos frias, cultas e capazes de excisar este cancro da sociedade de uma vez por todas. Ninguém o fará por nós.

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