domingo, 29 de novembro de 2015

Quem diz é quem é

Um dos maiores desafios com que me deparo quando estou nas minhas missões de indoctrinação feminista é convencer o pessoal de que os homens e as mulheres são efetivamente iguais. Ou seja, aqueles que acenam efusivamente quando falo de desigualdade institucional e do patriarcado começam com “isso não é bem assim” e “não vamos tão longe” quando digo que pensamento feminino e masculino não existem, que não há diferenças comportamentais pré-determinadas entre géneros. É aqui que a maioria da boa gente que com que me cruzo, gente bem-intencionada que me deixa falar ininterruptamente sobre feminismo, decide traçar a linha. É a colina onde escolhem morrer.
 
A ideia de que os géneros, a nível de comportamento, são inerentemente diferentes está tão enraizada na sociedade que, apesar de tudo, é só este ponto que faz de mim uma radical aos olhos das pessoas. A resistência que encontro à ideia de igualdade absoluta, especialmente por parte de homens, vem do facto de a identidade masculina ser construída e relevante apenas por comparação. A masculinidade não tem qualquer significado num vazio cultural.
 
O conceito tradicional de masculinidade só faz sentido quando temos o feminino como oposição. Grande parte da identidade dos homens vem simplesmente do facto de não serem mulheres. Definiram que são fortes, racionais, mais inteligentes e menos sentimentais mas, para poderem dizer que são herdeiros disso tudo sem terem que efetivamente prová-lo, tiveram que fazer passar a ideia de que são virtudes do género e não do indivíduo. Sem mulheres para serem fracas e emocionais por comparação, os homens têm que se provar individualmente. É uma questão de comodismo.
Dizem-me muitas vezes que os homens não são melhores do que as mulheres, apenas diferentes. Mas se pensarmos bem na coisa vemos que é só mais do mesmo. Os homens e as mulheres são diferentes literalmente só naquilo que interessa. Os homens são mais racionais mais dados à contemplação e ao pensamento matemático, podem ser engenheiros, físicos, filósofos, matemáticos, até escritores e poetas. Às mulheres fica reservado exatamente o quê? Educadora de infância e enfermeira? Mãe? Nada disto é por acaso, é simplesmente produto de anos e anos a tentar convencer-nos de que afinal sempre fomos tratados da mesma forma, nós é que não sabemos dar valor aos papéis que escolheram para nós, que, se fomos renegadas à irrelevância é por mero acaso, afinal, apoiar as aventuras do marido é tão bom como viver as nossas próprias. Mas trocar de papel? Isso nunca querem. A hipocrisia mete-me nojo.
 
A dualidade feminino/masculino é então construída assim, se as mulheres são fracas, emocionais, irracionais, pouco inteligentes e pouco ambiciosas, os homens terão que ser o completo oposto e aprender rapidamente a negar a individualidade das mulheres, não vá a identidade que construíram para eles próprios cair por terra. Quando um homem falha em algo como child care e lida da casa ou em socialização básica e regras de boa educação, pode também alegar que não é uma falha sua mas sim do género, evitando assim qualquer consequência pelos seus atos. E toda a gente sabe que os homens odeiam ser responsabilizados pela porcaria que fazem.
 
Os homens passam então grande parte da sua vida só a evitar ser vistos como mulheres. Para quem gosta de dizer que somos igualmente bons, apenas com aptidões naturais diferentes, despendem imensa energia a distanciar-se dessas “inclinações femininas”. São empurrados uns pelos outros a abandonar qualquer característica feminina que possam ter e a desumanizar “o outro”, a mulher, para que eles possam ascender ao estatuto de pessoa completa, o qual é reservado só para eles.
 
O problema surge quando os rapazes, ainda pequenos e cheios de potencial, sofrem uma violência horrível, tanto alheia como exercida por eles próprios, quando tentam excisar o que veem como características de mulher. Os nomes que os homens chamam uns aos outros para se humilharem mostra isto bem, são sempre nomes que visam aproximar as vítimas ao estatuto de mulher (beta, maricas, pussy, paneleiro – obviamente há uma boa dose de homofobia pelo caminho, afinal, o que há de mais feminino do que gostar de homens?). Os rapazitos acabam por aceitar que têm a escolha entre ser vítima ou agressor e passam o resto da vida a tentar não ser vítimas. É claro que, como todas as pessoas têm características tradicionalmente femininas e masculinas em proporções variáveis que em nada dependem do seu género, acabam também por ter que se auto-mutilar, arrancar bocados deles próprios que deixam cicatrizes profundas, danos irreparáveis que se traduzem em suicídios, depressão e problemas comportamentais graves.
 
Quando o feminismo estende a mão a estes homens, leva quase sempre uma palmada. Embora precisem desesperadamente da liberdade que o movimento lhes daria, estão demasiado apegados ao poder (tantas vezes envenenado) que o patriarcado lhes deu. Aceitar ideais feministas seria rebaixarem-se ao nível da mulher, se aceitarem igualdade absoluta rendem-se também à imprevisibilidade do que é ser humano, já não se podem refugiar no seu género.
No que toca a odiar homens, o feminismo não é preciso para nada. Eles já se odeiam tanto uns aos outros. 

Sem comentários:

Enviar um comentário