Ah, eleições! Adorei. Nunca na minha vida senti um processo eleitoral com tanta intensidade e, ui, que processo eleitoral este! Tão complexo e excitante, mesmo *UGH* forte. Não é todos os dias que surge este tipo de comoção na minha vida. Uma autêntica roller coaster de emoção.
Primeiro achei que estávamos todos condenados, que ao fim de mais 4 anos de PàF com maioria absoluta acabava a viver numa choupana com os meus pais algures na Nova Zelândia, a alimentar-me de raízes e pequenos roedores. Depois achei que, embora houvesse esperança, o PS não ia conseguir convencer nem comunistas nem bloquistas e ia acabar por ter que passar o OE abstendo-se. Mas agora? Agora, migos, estou muito satisfeita, refastelada num trono moldado a partir dos cadáveres de burgueses e capitalistas.
Não, mas a sério, vivemos tempos engraçados. Temos uma oportunidade histórica para instaurar uma utopia socialista e viver 20 anos de prosperidade ininterrupta. Há, no entanto, algumas coisas que me deixam um bocadinho nervosa.
Embora o PCP se tenha mostrado muito simpático e recetivo (um piscar de olho para ti, Jerónimo, que bem mereces), caminho que, eventualmente, o Bloco também deve tomar, preocupa-me o facto de isto parecer tudo depender única e exclusivamente do poder de empurro do António Costa. Parece-me que estamos só agora a despertar para o facto de a responsabilidade de negociar não ter obrigatoriamente que cair nos ombros do PS. Ainda admito mais ou menos a complacência do BE e o PCP em esperar ser cortejados (se até alguns bloquistas se acham no direito de se aborrecer por o PS não ter ganho as eleições, já não estranho nada) mas a da PàF começa a roçar o sórdido, tal como a do Sr. Presidente. É como se tivéssemos entrado numa twilight zone em que os partidos que têm a oportunidade de criar um governo alternativo e estável têm que lutar numa deathmatch política à margem da sociedade sem qualquer apoio constitucional enquanto a população observar, horrorizada, das bancadas. É good TV, admito, mas o meu pacote de dados não chega para eu ler o DN, o Público e o Expresso alternadamente todos os dias no autocarro.
O facto de o Aníbal não parecer inclinado a sequer considerar a legitimidade de um governo PàE (Portugal à Esquerda foi o nome que o meu irmão inventou para uma possível coligação PS+PCP+BE, ser super eloquente e engraçado corre na família) é também razoavelmente preocupante uma vez que não sei quão realista será a ideia de andarmos a encanar a perna à rã até haver eleições presidenciais. Mas podemos sempre ter esperança que o Marcelo não se arme em estafermo e saiba ao menos distinguir a boca do rabo.
E quão forte será a pressão interna, e externa (dos que ainda acham que os comunistas comem crianças) para manter o António Costa afastado dos perigosos radicais da extrema esquerda, cega ao facto de que um moderado com mão firme em radicalismo ideológico de esquerda só pode trazer sangue novo à cena política e a mudança que o povo tanto pede?
Tudo isto são coisas que me preocupam mas o que me preocupa mesmo é não saber. Ainda tenho úlceras nas paredes do estômago da correria pré-eleições e agora cai-me isto em cima. Uma esquerda unida não só é tudo o que eu para os anos e para o natal como está no meu top 5 de fetiches. Não é bonito provocar um senhora desta forma.
No fundo, independentemente do desfecho desta situação toda, só quero que retirem o seguinte deste molho de brócolos: o grande proponente da mudança não foi o BE nem o PCP nem os pequenos partidos de pseudointelectuais mas sim o António Costa que, com a determinação de vinte bois, andou de um lado para o outro a tentar colar o país com cuspo. Se tudo o resto falhar, que ao menos tomemos consolo no facto de que não houve falta de tentativas.
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