sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Mordam-me

Descobri recentemente na página da minha faculdade (onde se estuda ciências e pouco mais) uma estatísticas muito engraçadas, com gráficos e tudo.

Observem:

inscritos

Aqui temos a distribuição dos inscritos na minha faculdade por sexo. Como podem ver ainda não é bem 50/50 mas para lá caminhamos. As ciências e a tecnologia têm vindo a tornar-se mais acessíveis a jovens moças ao longo dos anos mas ainda não vemos a paridade que seria de esperar numa sociedade verdadeiramente igualitária. Estes gráficos não mostram nada de novo nem de surpreendente. 49/50 para os inscritos pela primeira vez numa faculdade de ciências é muito sólido e deixa-me contente. Tudo nos conformes, muito moderno, muito conveniente.

Mas agora vejam este:

diplomados

Mesmo havendo menos mulheres inscritas por ano, há mais mulheres diplomadas. Incrível.

Agora, se eu quisesse mesmo misandrar o pessoal e ser aquilo que as pessoas gostam de dizer que o feminismo é na realidade, provavelmente aproveitava esta oportunidade para dizer que as mulheres são inerentemente superiores aos homens e claramente mais inteligentes. Mas não tenciono fazer isso porque a) Não é verdade e b) Não sou estúpida.

Estou inteiramente convencida de que os homens e as mulheres enquanto grupo têm exatamente o mesmo potencial e são igualmente bons a tudo. Não há cá “os homens são melhores nas matemáticas e as mulheres são melhores em comunicação e letras”. Os meninos e as meninas são todos igualmente bons a tudo, depois diferenciam-se consoante as suas preferências e as suas experiências pessoais. Isto é o que eu acho. Vocês podem achar outras coisa mas provavelmente vão estar errados. Só para avisar.

O que eu acho que está a acontecer aqui é que, na grande sofreguidão de manter um sistema opressivo baseado na supremacia masculina, os homens deram um tiro no pé. Não sou especialista em construir e manter sistemas opressivos mas acho que é um erro comum. Coisas que acontecem, não é motivo de vergonha.

Com um sistema patriarcal vem também uma grande cultura de entitlement. Os homens acham que têm direito a tudo: a mulheres, a dinheiro, a sucesso. Às vezes o pessoal esquece-se é que, mesmo sendo homem, de vez em quanto é preciso trabalhar pelas coisas. Uma pessoa ouve desde jovem que é super especial e super esperta e depois pronto, acomoda-se. Se eu tivesse um euro por cada moço que é “muito inteligente mas preguiçoso” ou que “sabe tudo mas o/a professor/a não o quer passar” estava rica. Tão rica.

É que depois não só os meninos que usam estas coisas  para justificar o seu fracasso. É toda a gente à sua volta. Já ouvi uma moça dizer que o namorado sabia a matéria toda de uma cadeira mas que a professora era má ao ponto de o chumbar três anos seguidos de propósito. Ai miga, vais tão enganada.

Não é que eu esteja a defender o sistema de ensino (superior ou otherwise) nem os professores (Deusa sabe que eu os detesto a todos). Acho que se reformássemos o sistema de ensino ficava toda a gente mais feliz, homens e mulheres. Mas também acho que os homens se deviam responsabilizar mais pelos seus fracassos e cabe-nos a nós, mulheres, ajudar nesta nobre causa. Ou seja, nada de exacerbar o ego de meninos medíocres, nada de se referir a terceiros como génios e, sobretudo, sempre que se ouvir um gaiato que ainda nem fez cálculo I dizer que é o próximo Richard Feynman corrigi-lo com algo do estilo “está calado, Eduardo, ninguém gosta de ti e as tuas calças de fato de treino são esquisitas, vai mas é estudar os teus integrais e deixa-me em paz”.

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