domingo, 2 de agosto de 2015

Telhados de vidro

Eu gosto tanto de dizer mal de coisas que agora até já digo mal da maneira como as pessoas dizem mal de coisas. Acho que, se alguém se vai dar ao trabalho de cagar postas de pescada, que ao menos o tente fazer de forma mais ou menos construtiva.

 
Por exemplo, eu adoro dizer e ouvir dizer mal do 50 Shades of Grey mas, ultimamente, há imensa gente (sobretudo homens, são sempre homens) que me tem arruinado este prazer muito simples. Diria que podemos distribuir os críticos em duas categorias distintas consoante a sua abordagem à coisa:
 
1. O 50 Shades of Grey é um livro estúpido escrito de uma maneira estúpida e as suas fãs são estúpidas e fúteis e só mostra como as mulheres gostam de homens alfa que as tratam mal.
 
2. Embora eu respeite as fantasias sexuais de todas as mulheres e confie inteiramente na sua capacidade de distinguir a realidade da ficção, acho que o 50 Shades of Grey só ajuda a normalizar relações abusivas e o seu sucesso é um sintoma de um sistema opressor que diz às mulheres que este tipo de coisa é desejável.

 
São coisas diferentes. Acho que a primeira abordagem vem, sobretudo, de uma falta de capacidade crónica de fazer um bocadinho de introspeção e ninguém, NINGUÉM neste mundo é menos capaz de introspeção do que o pseudo-intelectual. O meu ódio por pseudo-intelectuais corre tão fundo que, se pudesse, ressuscitava o Bukowski só para poder lutar com ele até à morte e mandá-lo direitinho de volta para a campa.
 
Há uns tempo deparei-me com declarações do Alejandro Iñarritu sobre filmes de super-heróis e o senhor basicamente catapultou para o topo da minha lista de gente com quem teria que lutar se alguma vez visse na rua por uma questão de imperativo de moral. Este senhor disse, em público e de forma totalmente não irónica, o seguinte:
“I sometimes enjoy them because they are basic and simple and go well with popcorn,the problem is that sometimes they purport to be profound, based on some Greek mythological kind of thing. And they are honestly very right wing. I always see them as killing people because they do not believe in what you believe, or they are not being who you want them to be. I hate that, and don’t respond to those characters. They have been poison, this cultural genocide, because the audience is so overexposed to plot and explosions and shit that doesn’t mean nothing about the experience of being human.”  
Nada produtivo, na minha opinião. Um típico caso 1. Incrivelmente trágico.
 
Mas o que me mata mesmo nesta situação é que, embora ele tenha razão nalguns pontos, o Birdman (que lhe valeu a adoração de sabe deus quantos basic white breads) sofre exatamente dos mesmo defeitos.
 
É que é verdade que os filmes de super-heróis são repetitivos, pouco imaginativos, culturalmente irrelevantes e horrivelmente limitados no que toca a representação de mulheres e minorias, mas o Birdman também é isso tudo e até consegue ser pior porque finge não ser. A história do homem branco cishetero que tem uma crise existencial e quer vingar no mundo não só já foi contada um milhão de vezes como foi sistematicamente contada de uma maneira tão preguiçosa e francamente masturbatória que deixou de ser culturalmente relevante há muito tempo (se é que alguma vez foi). O senhor Iñarritu pode gritar ao vento o que quiser que os filmes dele são sobre a experiência humana mas a última coisa que produziu é tão unrelatable e pretensiosa que me custa acreditar que faça alguém neste mundo pensar sobre o que quer que seja.
 
Se calhar a ideia é essa. Se calhar é tão semelhante a todos os filmes de super-heróis porque é suposto ser uma crítica ao género. Se calhar. Mas, mesmo se for, não acho bem ele ande por aí a apontar o dedo ao pessoal por fazer filmes “right wing” quando a sua crowning jewel é um pedaço de lixo apolítico com zero carga moral que, no melhor dos casos, é uma sátira convoluted e sobre produzida de um género que nunca teve pretensões a ser uma superior art form e, no pior, é a história de um homem extremamente desagradável que se acha artisticamente superior a toda a gente e a sua luta para que isto seja universalmente reconhecido (o que, pensando bem, se calhar é mais autobiográfico do que seria de esperar).
 
Até porque ele próprio diz primeiro que o problema é quando os filmes de super-heróis tentam ser profundos. O problema dele é, portanto, quando tentam fazer o que ele faz mas de uma maneira mas acessível. Depois mais no final da citação temos um backtracking parvo e afinal já é tudo sobre a juventude estar perdida e já ninguém querer ver filmes profundos. Sinceramente já não tenho paciência para isto. O pseudo-intelectual é, por definição, um cobarde e intelectualmente desonesto, ele torce tudo para caber numa narrativa estúpida que ele criou em que as massas são ovelhas por escolha própria enquanto ele faz parte dos poucos iluminados que ainda não sucumbiram ao veneno que as grandes indústrias do cinema nos querem obrigar a consumir.
 
O que o Iñarritu não consegue ver é que, se o que ele descreve é um genocídio cultural, então ele é um participante ativo. Eu pessoalmente acho que ele está só salty porque não se fazer lembrou de fazer o Mad Max antes do George Miller.

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