domingo, 9 de agosto de 2015

Responsabilidades

Já há algum tempo que tenho estado a aproximar-me de uma posição mais anti-pornografia mas acho que finalmente solidifiquei a minha opinião.

A pornografia é perfeitamente aceitável na teoria, não tenho nada contra. O problema está quando passamos à prática. Recentemente vi um documentário que ilustra bem quão mal a coisa pode correr, chama-se Hot Girls Wanted e é produzido pela Rashida Jones que, para além de ser super gatona, é super inteligente e só tem boas ideias.

hotgirls

O documentário é sobre umas moças que, como muitas outras, decidem ir para Miami ser amateur porn stars. Aparentemente isto é uma coisa que acontece muito lá nas Américas. Elas são muito MUITO novas, tipo 18-anos-novas, e, embora saibam ao que vão, acabam por ser sujeitas a um monte de coisas menos agradáveis, algumas das quais apenas liminarmente consensuais.

A verdade é que elas já são maiores e vacinadas e, supostamente, entram neste tipo de indústria de livre vontade. Mas temos que reconhecer que elas (e muitas outras) foram criadas num clima muito violento de constante sexualização de mulheres, muitas vezes sem o amortecimento de pais cultos e bem equipados para servir de buffer a este tipo de coisa. Este tipo de clima, especialmente direcionado para meninas com menos acesso à educação e/ou mais pobres, cria a noção de que a única marketable skill que têm e, consequentemente, a única maneira que têm de sair da situação em que estão é usando a única coisa que a sociedade valoriza nelas: o seu sex appeal, quão fuckable são, quão dispostas estão a ser partidas em bocadinhos pequeninos e repackaged para servirem o desejo masculino.

É perfeitamente compreensível que muitas mulheres prefiram sex work à violência da pobreza e concordo que, quando tomam esta decisão, devem ser protegidas legalmente. Mas também acho que deve haver uma razão qualquer para haver tanta oferta de moças de 18 anos que querem entrar no mundo da pornografia.

Embora eu ache bem termo-nos libertado de muitas noções puritanas que só serviam para oprimir a liberdade sexual das mulheres, parece-me que a suposta revolução sexual foi reapropriada pelo patriarcado e acabou por servir exatamente para a mesma coisa. As mulheres libertaram-se de uma coisa para apenas se encontrarem presas noutra pouco depois. Não quero dizer que estávamos melhor antigamente, longe disso, mas não sei até que ponto este novo tipo de opressão será melhor.

As meninas são sexualizadas desde tão pequeninas e formatadas para pensarem que o seu valor está intrinsecamente ligado a quão sexualmente desejáveis são que não é particularmente surpreendente se começarem a expressar a sua sexualidade de maneiras menos saudáveis.

A pornografia, supostamente, deveria ser uma extensão positiva da libertação sexual das mulheres (e, consequentemente, dos homens também mas meh) mas, em vez de facilitar o discurso sobre a sexualidade e tornar a relação de toda a gente com o sexo mais saudável, temos esta abominação, este braço particularmente fálico do patriarcado que é um reflexo exagerado de todo o sexismo que já existe por aí.

É que depois forma-se um ciclo vicioso em que como a internet é tão boa e informativa, a pornografia acaba por ser ferramenta de aprendizagem relativamente à intimidade (o que poderia muito bem ser mas enfim, os homens estragam sempre tudo), mas depois a única coisa que faz é ensinar os meninos que humilhação sexual é buéde fixe e às meninas que é só isso que podem esperar dos seus parceiros sexuais, o que, por sua vez, as empurra para o mundo da pornografia mais tarde porque aprenderam desde jovens a achar este tipo de coisa excitante e perfeitamente normal.

A ideia de que a pornografia, sendo legal, é perfeitamente regulamentada é também falsa. Há pouquíssima legislação sobre pornografia e o tratamento das atrizes é perfeitamente atroz, muitas são sujeitas sem consentimento prévio a atos sexuais com os quais não estão confortáveis, desenvolvem problemas de saúde graves cujo tratamento têm que ser elas a pagar e a prevenção de DSTs e de gravidezes indesejadas é mínima…

A pornografia, portanto, não só não é inofensiva como é ativamente nociva. Não se trata apenas de fantasia uma vez que toda a violência sexual que vemos está efetivamente a acontecer a alguém. Isto não quer dizer que eu ache que devesse ser ilegal, se fosse provavelmente seria ainda pior, mas sou decididamente anti-pornografia no sentido em que não a consumo, não apoio o consumo e não acho que ninguém devesse apoiar a sua produção no paradigma atual. Sou a favor de mais leis que protejam as atrizes e de um discurso mais saudável à volta da sexualidade feminina para que as raparigas mais jovens possam tomar decisões 100% informadas e despoluídas sobre o seu futuro.

Por favor vejam o documentário, vomitem-se todos e depois juntem-se a mim numa cruzada puritana para oprimir a sexualidade masculina. Ámen.

1 comentário:

  1. O documentário completo está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=i1rfHZYnYjU (pelo menos por enquanto)

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