Como qualquer misandra a tempo inteiro que se preze, estou mais ou menos familiarizada com os ensinamentos da misandra-mor, mestre da opressão máxima masculina: Andrea Dworkin. Ao contrário do que se pensa, ela nunca chegou sequer a tratar os homens como os homens tratam mulheres, não é nenhum bicho-papão e está muito MUITO longe das histórias de horror que ouvi sobre ela antes de me dar ao trabalho de ler os seus livros. É verdade que tem algumas lacunas graves (por exemplo, descai-lhe muito o pé para a transfobia, que é uma marca muito triste de muitas feministas da sua geração) mas é como tudo na vida, deita-se fora o mau, fica-se com o bom e constrói-se em cima disso.
Andrea Dworkin tem ideias muito interessantes sobre muita coisa e é preciso reconhecê-lo. Uma dessas ideais tem a ver com uma das ferramentas mais eficazes na opressão das mulheres: o poder de dar nomes e definir conceitos. O homem enquanto entidade coletiva tem sido responsável por definir basicamente tudo: o que é ser mulher, o que é ser homem, o que é que é aceitável dentro desses parâmetros, o que se deve chamar aos rebeldes que se desviam do que ele próprio definiu. Enquanto não formos capazes de definir as nossas próprias experiências nos nossos próprios termos nunca seremos livres. Qualquer abordagem feminista, por muito radical que seja, estará sempre definida num contexto patriarcal e, por isso, nunca será perfeitamente eficaz.
No livro “Pornography: Men Possessing Women” há uma passagem que ilustra isso perfeitamente:
It is the naming by decree that is power over and
against those who are forbidden to name their own experience; it is
the decree backed up by violence that writes the name indelibly in
blood in male-dominated culture. The male does not merely name
women evil; he exterminates nine million women as witches
because he has named women evil. He does not merely name
women weak; he mutilates the female body, binds it up so that it
cannot move freely, uses it as toy or ornament, keeps it caged and
stunted because he has named women weak. He says that the
female wants to be raped; he rapes. She resists rape; he must beat
her, threaten her with death, forcibly carry her off, attack her in the
night, use knife or fist; and still he says she wants it, they all do.
She says no; he claims it means yes. He names her ignorant, then
forbids her education. He does not allow her to use her mind or
body rigorously, then names her intuitive and emotional. He
defines femininity and when she does not conform he names her
deviant, sick, beats her up, slices off her clitoris (repository of
pathological masculinity), tears out her womb (source of her
personality), lobotomizes or narcotizes her (perverse recognition
that she can think, though thinking in a woman is named deviant).
He names antagonism and violence, mixed in varying degrees,
“sex”; he beats her and names it variously “proof of love” (if she is
wife) or “eroticism” (if she is mistress). If she wants him sexually he
names her slut; if she does not want him he rapes her and says she
does; if she would rather study or paint he names her repressed and
brags he can cure her pathological interests with the apocryphal
“good fuck. ” He names her housewife, fit only for the house, keeps
her poor and utterly dependent, only to buy her with his money
should she leave the house and then he calls her whore. He names
her whatever suits him. He does what he wants and calls it what he
likes. He actively maintains the power of naming through force and
he justifies force through the power of naming. The world is his
because he has named everything in it, including her. She uses this
language against herself because it cannot be used any other way.
As mulheres lutam todos os dias contra isto. O direito à auto-determinação e às nossas próprias experiências é constantemente minado, seja a completa negação das estatísticas sobre violação e assédio sexual ou a recusa em aceitar aquilo que escolhemos para nós próprias: se queremos ser alguma coisa tem que ser num contexto muito específico pré-determinado.
Não podemos ser engenheiras nem matemáticas nem físicas, pelo menos não como eles nem como os seus heróis, nunca como eles porque o génio e a predisposição egomaníaca que são necessários para ser bem sucedido não tocam às mulheres. Não podemos ser artistas a não ser de uma forma detached e pouco ameaçadora porque não foi isso que eles escolheram para nós, porque não temos nada para dizer. Não podemos definir a nossa própria sexualidade, não podemos explorar a nossa identidade como quisermos porque da introspeção vem a auto-determinação e daí vem uma ameaça ao status quo.
Andrea Dworkin profetizou que as feministas terão que reclamar o direito de nomear e de definir se querem realmente libertar-se da influência de um sistema opressivo. Acho que é isso que temos agora de forma mais ou menos mainstream e isso deixa muitos homens muito irritados. Temos agora juventudes a usar palavras como demissexual, assexual, pansexual, não-binário, genderfluid, genderqueer, demigirl, demiboy, agender e muitas outras. Se estas palavras descrevem algo válido no paradigma anterior é irrelevante, trata-se de gente que vinha de uma posição em que não tinha maneira de expressar a sua identidade passar a usar linguagem que está completamente fora do controlo da classe dominante, não faz sentido tentarmos sequer julgar isto com as mesmas regras.
As mulheres transgénero são vítimas de violência e de uma ostracização particularmente cruel por razões semelhantes. Elas são a epítome da rejeição das normas do sistema patriarcal, o facto de elas ousarem afirmar que são mulheres distorce por completo a narrativa que os homens inventaram para o que é ser mulher. A violência que sofrem é prova de que apenas a sua existência, o facto de se auto-afirmarem enquanto as mulheres que são e de definirem as suas experiências nos seus próprios termos, chega para pôr em causa o seu precioso sistema. Insegurança gera medo, medo gera violência.
Encontramos oposição também quando se pega em palavras que já existem (tipo slut) que são usadas como armas de arremesso e se faz uma tentativa de as reapropriar. Pegar em algo que já foi definido pela classe dominante e redefini-lo de acordo com as necessidades de outros abre também a porta para a quebra da hierarquia estabelecida.
Se os homens deixarem de ter poder sobre o que é uma mulher, sobre como elas se veem a si mesmas e se afinal são mulheres a tempo inteiro ou nem por isso, deixam de viver de maneira privilegiada. Deixa de haver “O Homem”, o modelo para experiência humana, e os outros. Se “O Homem” deixar de ser o standard então terá que reavaliar a sua posição nesta nova sociedade, algo perfeitamente inédito.
He can theorize,
fantasize, call it science or art; whatever he says about women is
true because he says it. He is the authority on what she is because
he has made her, cut away at her as if she were a piece of stone until
the prized inanimate object is extracted.
Sem comentários:
Enviar um comentário