Esta história toda recente das taxas moderadoras
da interrupção voluntária da gravidez e se as senhoras devem ou não ter que me
olhar o cluster de células que vão abortar olhos nos olhos (se ele os tivesse,
claro) e assinar a ecografia faz-me lembrar o último episódio de Game of
Thrones. Quando a Cersei tem que andar nua no meio de uma multidão que lhe
cospe em cima enquanto há uma freira com um sino a dizer "shame"
ininterruptamente atrás dela.
Acho que o princípio é um bocado o mesmo. A cena
provavelmente foi escrita pelos senhores que fizeram pressão para que a IVG já não
usufruísse de isençao de taxas moderadoras e que, provavelmente, querem
atribuir uma freira e um sino a todas as mulheres que escolherem fazer um
aborto - os senhores do “Pelo Direito a Nascer”.
Se forem à página deles conseguem verificar
que não só não há ninguém que saiba programar em html decentemente nas suas
fileiras, como eles também são todos uns palermas. Eles propõem uma
lei a que chamam "lei de apoio à maternidade e à paternidade". A
sua proposta de lei é ainda mais descabida do que eu inicialmente pensava.
Dispara em todas as direções, até querem introduzir propaganda nas escolas
sobre como o aborto é muito mau e as mulheres que o praticam deviam ir todas
presas. Parecem não compreender que apoio à maternidade tem que prossupor
necessariamente apoio às mulheres uma vez que são elas que vão ter as ditas
crianças.
Independentemente do papel destes caloteiros, uma
coisa é verdade: o pessoal está muito determinado em cobrar taxas moderadoras
na IVG. A justificação oficial tem qualquer a ver com o facto de a IVG ser uma
coisa como outra qualquer que não deve ser equiparada à gravidez de nenhuma
forma e com o facto de sermos governados por uns reacionários ranhosos que não
têm vergonha na cara e que claramente odeiam mulheres.
O problema aqui é que, para a despenalização da
IVG ser relevante, tem que ser acessível a toda a gente mas, especialmente, às
mulheres mais pobres. As mulheres de classe média e por aí em diante sempre
tiveram muito mais facilidade em tomar controlo da sua saúde reprodutiva. Mesmo
quando, nalgumas partes do mundo, os métodos contracetivos eram tecnicamente
ilegais, as senhoras de posses arranjaram sempre maneiras de navegar a situação.
Quem fica sempre com o short end of the stick são os pobres, e o país como um
todo sofre com eles.
Agora temos que ouvir o bastonário da ordem dos
médicos, um senhor que provavelmente nunca terá que carregar uma criatura
dentro dele nem nunca deve ter tido grandes dificuldades na vida, dizer que há
muitas mulheres usam o aborto como contracetivo. Para já temos a seguinte questão:
não. E depois temos a questão a seguir: e se usassem?
Vamos pensar um bocadinho (é normal que o senhor
bastonário da ordem dos médicos não esteja habituado a pensar: nunca conheci um
estudante de medicina que estivesse muito para aí virado), se uma mulher usa o
aborto como método contracetivo é porque ou não está devidamente informada
sobre o assunto e, como tal, não deve ser castigada pela sua
ignorância mas sim informada de forma respeitosa para que isso não volte a
acontecer, ou então simplesmente não tem acesso a outros métodos
contracetivos e vê-se obrigada a recorrer sempre ao aborto in extremis. Pronto.
São estas as duas hipóteses. As senhoras que se escodem nos armários a esfregar
as mãos de contente porque têm os bolsos cheios de preservativos e perfeita
consciência de como os usar (e um parceiro disposto a usá-los) mas que
continuam a abortar a torto e a direito não existem numa proporção
suficientemente grande para serem relevantes.
Porque raio é que é melhor obrigar estas cachopas a ter crianças? Por que é que é melhor obrigar as mulheres a passar pela experiência física e psicologicamente traumática que é o parto? Por que é que é melhor trazer ao mundo gente para engrossar as fileiras dos pobres e desamparados?
Porque raio é que é melhor obrigar estas cachopas a ter crianças? Por que é que é melhor obrigar as mulheres a passar pela experiência física e psicologicamente traumática que é o parto? Por que é que é melhor trazer ao mundo gente para engrossar as fileiras dos pobres e desamparados?
Não é. Não é melhor para as mulheres que têm que
passar nove meses a lidar com toda uma panóplia de problemas horrorosos para
depois terem que sustentar crianças que não querem. Não é melhor para as
crianças hipotéticas que ou são dadas para adoção e passam anos num sistema
pouco caloroso ou são condenadas imediatamente a uma vida de pobreza e
oportunidades limitadas.
Limitar o acesso ao aborto não só é mau para as
mulheres como é mau para o país. É mau para toda a gente envolvida e é uma
vergonha que se tenha dado este passo atrás. É chato ainda termos que ter
esta conversa e é chato que ainda ninguém tenha pegado na mão dos senhores do “Pelo
Direito a Nascer” e lhes tenha dito “vocês são umas beldroegas mal informadas
que se deviam calar para sempre e parar de opinar sobre coisas de gente
crescida”.
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