terça-feira, 7 de julho de 2015

J'accuse!

Esta história toda recente das taxas moderadoras da interrupção voluntária da gravidez e se as senhoras devem ou não ter que me olhar o cluster de células que vão abortar olhos nos olhos (se ele os tivesse, claro) e assinar a ecografia faz-me lembrar o último episódio de Game of Thrones. Quando a Cersei tem que andar nua no meio de uma multidão que lhe cospe em cima enquanto há uma freira com um sino a dizer "shame" ininterruptamente atrás dela.
 
Acho que o princípio é um bocado o mesmo. A cena provavelmente foi escrita pelos senhores que fizeram pressão para que a IVG já não usufruísse de isençao de taxas moderadoras e que, provavelmente, querem atribuir uma freira e um sino a todas as mulheres que escolherem fazer um aborto - os senhores do “Pelo Direito a Nascer”.
 
Se forem à página deles conseguem verificar que não só não há ninguém que saiba programar em html decentemente nas suas fileiras, como eles também são todos uns palermas. Eles propõem uma lei a que chamam "lei de apoio à maternidade e à paternidade". A sua proposta de lei é ainda mais descabida do que eu inicialmente pensava. Dispara em todas as direções, até querem introduzir propaganda nas escolas sobre como o aborto é muito mau e as mulheres que o praticam deviam ir todas presas. Parecem não compreender que apoio à maternidade tem que prossupor necessariamente apoio às mulheres uma vez que são elas que vão ter as ditas crianças.
 
Independentemente do papel destes caloteiros, uma coisa é verdade: o pessoal está muito determinado em cobrar taxas moderadoras na IVG. A justificação oficial tem qualquer a ver com o facto de a IVG ser uma coisa como outra qualquer que não deve ser equiparada à gravidez de nenhuma forma e com o facto de sermos governados por uns reacionários ranhosos que não têm vergonha na cara e que claramente odeiam mulheres.
 
O problema aqui é que, para a despenalização da IVG ser relevante, tem que ser acessível a toda a gente mas, especialmente, às mulheres mais pobres. As mulheres de classe média e por aí em diante sempre tiveram muito mais facilidade em tomar controlo da sua saúde reprodutiva. Mesmo quando, nalgumas partes do mundo, os métodos contracetivos eram tecnicamente ilegais, as senhoras de posses arranjaram sempre maneiras de navegar a situação. Quem fica sempre com o short end of the stick são os pobres, e o país como um todo sofre com eles.
 
Agora temos que ouvir o bastonário da ordem dos médicos, um senhor que provavelmente nunca terá que carregar uma criatura dentro dele nem nunca deve ter tido grandes dificuldades na vida, dizer que há muitas mulheres usam o aborto como contracetivo. Para já temos a seguinte questão: não. E depois temos a questão a seguir: e se usassem?
 
Vamos pensar um bocadinho (é normal que o senhor bastonário da ordem dos médicos não esteja habituado a pensar: nunca conheci um estudante de medicina que estivesse muito para aí virado), se uma mulher usa o aborto como método contracetivo é porque ou não está devidamente informada sobre o assunto e, como tal, não deve ser castigada pela sua ignorância mas sim informada de forma respeitosa para que isso não volte a acontecer, ou então simplesmente não tem acesso a outros métodos contracetivos e vê-se obrigada a recorrer sempre ao aborto in extremis. Pronto. São estas as duas hipóteses. As senhoras que se escodem nos armários a esfregar as mãos de contente porque têm os bolsos cheios de preservativos e perfeita consciência de como os usar (e um parceiro disposto a usá-los) mas que continuam a abortar a torto e a direito não existem numa proporção suficientemente grande para serem relevantes.

Porque raio é que é melhor obrigar estas cachopas a ter crianças? Por que é que é melhor obrigar as mulheres a passar pela experiência física e psicologicamente traumática que é o parto? Por que é que é melhor trazer ao mundo gente para engrossar as fileiras dos pobres e desamparados?
Não é. Não é melhor para as mulheres que têm que passar nove meses a lidar com toda uma panóplia de problemas horrorosos para depois terem que sustentar crianças que não querem. Não é melhor para as crianças hipotéticas que ou são dadas para adoção e passam anos num sistema pouco caloroso ou são condenadas imediatamente a uma vida de pobreza e oportunidades limitadas.
 
Limitar o acesso ao aborto não só é mau para as mulheres como é mau para o país. É mau para toda a gente envolvida e é uma vergonha que se tenha dado este passo atrás. É chato ainda termos que ter esta conversa e é chato que ainda ninguém tenha pegado na mão dos senhores do “Pelo Direito a Nascer” e lhes tenha dito “vocês são umas beldroegas mal informadas que se deviam calar para sempre e parar de opinar sobre coisas de gente crescida”.
 
 

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