Entre fazer exames e acabar de ver a
terceira temporada de Orange Is the New Black, tive tempo de andar por aí a
causar comoções em comunidades portuguesas de céticos.
"Comunidade de céticos" já é mau que
chegue, imaginem uma portuguesa. É de fugir.
Tropecei numa página de facebook dedicada ao
ceticismo há uns dias e decidi investigar. Logo o primeiro post era sobre a inquisição
dos social justice warriors (SJW) que vinha aí acabar com as nossas liberdades
pessoais e fazer-nos a todos uma lavagem ao cérebro. Bom, eu pensei "não é
tarde nem é cedo, se calhar vou praticar aqui uma pequena agitação".
Acontece que é muito fácil agitar "céticos" portugueses, até porque
eles são tao one-trick ponies (homeopatia mau, vacinas bom) que qualquer coisa
que se desvie um bocadinho daquilo que eles estão habituados a ouvir causa logo
um escagaçal enorme. É hilariante.
Eu sou da opinião que o ceticismo e o feminismo
têm que andar sempre de mão dada. Não podemos dizer que somos céticos e depois
simplesmente aceitar as age-old baboseiras sobre mulheres (e, consequentemente,
minorias). Quando eu era jovem e muito menos amarga do que sou hoje, estava
convencidíssima que era exatamente isto que acontecia: todos os céticos eram
também feministas porque, afinal, eles apoiavam tanto o aborto e diziam muito
mal do Islão porque oprimia as mulheres.
Acontece que não. Os céticos, na sua grande
maioria, são uns self-serving assholes. Notei há relativamente pouco tempo que,
quando falam no aborto, falam como se fosse uma questão religiosa e não
uma questão relacionada com os direitos das mulheres. Usam o aborto como um
cavalo de Troia particularmente macabro para poderem dizer mal da igreja
católica. Não me interpretem mal, acho muito bem que digam mal da igreja
católica, só não acho muita piada a tirarem as mulheres completamente da questão
ou, pior, a usarem a opressão das mulheres quando lhes convém para avançarem a
sua própria agenda quando, 99% do tempo, ou não querem saber, ou estão
ativamente a minar os esforços das feministas. Estamos a falar de gente que é
capaz de dizer que as pessoas muçulmanas são selvagens mas que depois é
perfeitamente incapaz de avaliar a sua posição em relação às mulheres porque
isto aqui no muy civilizado ocidente é tudo arco-íris e coelhinhos.
Os céticos com quem dialoguei, embora se achassem
iluminadíssimos e muito espertos, estavam convencidos que a wage gap não
existia porque tinham ouvido dizer por aí que já tinha sido provado que era
mentira mas, sinceramente, nunca se tinham dado ao trabalho de pesquisar.
Estavam também convencidos que as mulheres não iam para STEM porque o cérebro
delas estava programado para ser mais social enquanto o dos homens estava
programado para "estarem fechados num quarto a tentar compreender
coisas". Enfim, argumentos do arco-da-velha. Nada que eu dissesse foi capaz
de os demover. Ou pelo menos acho que não porque não recebi nenhuma resposta
direta, a desonestidade intelectual é uma coisa lixada.
Infelizmente, não é a primeira vez que me deparo com este tipo de mindset. Conheço gente com carradas de educação formal científica que depois se vira toda do avesso quando se fala em racismo ou sexismo. Gente que ainda acha que há diferenças perfeitamente quantificáveis entre os sexos e que, quando recebe fontes que provam que estão erradas, me acusa de não ser fiel ao verdadeiro método científico. Uma vez disseram-me que uma estatística publicada no Público sobre a diferença entre homens e mulheres em posições de topo em STEM era irrelevante e que o que eu tinha que fazer era ir contar o número de mulheres na página da FCT.
A história das mulheres em STEM irrita-me particularmente porque é tao demonstradamente falsa. As mulheres têm acesso à educação idêntico ao dos homens há relativamente pouco tempo mas, mesmo assim, já somos mais em coisas como biologia e bioquímica. Agora mudou-se o discurso e, de repente, esses são "cursos de gaja" (mesmo tendo sido male-dominated durante séculos). Quando finalmente atingirmos 50/50 ou 51/49 ou, mesmo, sei lá, 80/20 (#femalemasterrace) no resto dos cursos científicos como é que vão mudar o discurso? O que é que vão alegar aí?
Mostrei-lhes estatísticas que mostravam claramente que há bias contra mulheres em STEM mas continuaram a insistir que podia perfeitamente ser das hormonas (embora não haja nenhum estudo que aponte para a existência de hormonas mágicas que afastam as meninas dos computadores). Mas e as senhoras engenheiras? E as senhoras físicas e matemáticas? Serão defeituosas? Nasceram com um cérebro menos feminino? Ninguém me respondeu.
A verdade é que ouvi de tudo. Anecdotal evidence
("tenho uma amiga que está em engenharia informática que foi muito bem
recebida no curso!"), recusa em aceitar fontes ("ah mas as
universidades estão cheias de anti-intelectuais de esquerda
pós-modernistas!") e insultos sortidos ("QI de mula, comuna,
novilinguista, pós-modernista anti-intelectual, esquerdalha de merda").
Até gozaram com o meu nome do meio. Só classe.
São absolutamente incapazes de reconhecer a sua própria ignorância em relação ao que quer que seja. Havia um espécime que achava que um poster a anunciar uma feminist bakesale (os queques custavam 1 dólar para os homens e 75 cêntimos para as mulheres) era a epitome da misandria e da discriminação contra os pobres homens porque falhou em compreender a referência. Mas ir informar-se e parar de cagar postas de pescada sobre aquilo que claramente não compreende? Está quieto, isso é para plebeu.
Usam exatamente o mesmo discurso que os extremistas religiosos. Bigots são iguais em todo o lado e, enquanto os "líderes" dos movimentos de céticos não compreenderem que têm que reavaliar a direção dos seus grupos e fazer uma reestruturação dos seus core-values, o ceticismo vai continuar a ser um movimento altamente elitista que existe apenas como plataforma para um grupo restrito de homens poder jerk each other off sobre os mesmos temas ad nauseum.
São absolutamente incapazes de reconhecer a sua própria ignorância em relação ao que quer que seja. Havia um espécime que achava que um poster a anunciar uma feminist bakesale (os queques custavam 1 dólar para os homens e 75 cêntimos para as mulheres) era a epitome da misandria e da discriminação contra os pobres homens porque falhou em compreender a referência. Mas ir informar-se e parar de cagar postas de pescada sobre aquilo que claramente não compreende? Está quieto, isso é para plebeu.
Usam exatamente o mesmo discurso que os extremistas religiosos. Bigots são iguais em todo o lado e, enquanto os "líderes" dos movimentos de céticos não compreenderem que têm que reavaliar a direção dos seus grupos e fazer uma reestruturação dos seus core-values, o ceticismo vai continuar a ser um movimento altamente elitista que existe apenas como plataforma para um grupo restrito de homens poder jerk each other off sobre os mesmos temas ad nauseum.
É horrivelmente deprimente que algo que poderia
ser usado para libertar pessoas de noções pré-concebidas extremamente
nocivas seja usado para elevar um grupo em detrimento dos suspeitos do costume.
Se há coisa de que os homens brancos não precisam é de mais ferramentas para se
sentirem superiores.
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