Na semana passada li uma coisa na Visão sobre a situação das mulheres no
mercado de trabalho. Vou prefaciar o que vou escrever a seguir com o
seguinte: acho o artigo positivo, acho que faz mais bem do que mal, gostei de
ver as estatísticas e os seus gráficos muy informativos. É bom, é positivo. Pronto,
dito isto, agora vou achincalhar.
O tom do artigo não é o melhor, muito
sinceramente. Começando logo pelo título: "A vantagem de contratar
mulheres". Não tem que haver vantagens em contratar mulheres até porque não
há nem mais nem menos vantagens em contratar mulheres versus contratar homens,
a vantagem de contratar mulheres reside apenas no facto de ser um imperativo
moral fazê-lo. As mulheres têm que ser tratadas exatamente da mesma maneira que
os homens. Exatamente. Nem mais nem menos. Não é difícil. Não temos que andar à
procura de características mágicas que as mulheres possuem coletivamente por
alguma razão mística. O que o título sugere é o seguinte: temos um
sistema capitalista que ajudou a fomentar e a criar gender roles artificiais
que basicamente atrofiaram metade da população mas que agora, depois deste
tempo todo, decidiu que o mais lucrativo seria fazer um repackaging a esses
mesmos gender roles de forma a que fossem vistos como atraentes no mercado de
trabalho sem se dar ao trabalho de desconstruir a merda que andou a perpetuar.
E isto é só o título. Admiro-me como é que nunca tive
azia na vida. A alegria de ser jovem.
O tom do artigo é todo este: como é
que características convencionalmente femininas podem ser valiosas
para as empresas? Não há grande referência a mulheres enquanto indivíduos
únicos que devem ser respeitados e vistos ao mesmo nível dos seus pares
masculinos. É faux empowerement e soa tudo muito vagamente a algo que uma
senhora de cinquenta anos que gosta de fazer piadas sobre a quantidade de vinho
que consome diariamente postaria no facebook.
Por exemplo, no contexto de celebrar e respeitar
empregadas, temos a seguinte pérola:
"No Dia da Mulher do ano passado, por exemplo, multiplicaram-se os cuidados para lá das flores, com direito a manicura, pedicura e, ainda, um workshop de maquilhagem."
Porquê? O que é isto? Alguém pegou em todos os
clichés sobre mulheres e, numa tentativa bem-intencionada de fazer um gesto
bonito pelas empregadas da empresa em questão, fez uma coisa borderline
ofensiva que nem de perto nem de longe representa os interesses de uma porção
significativa das mulheres no mercado de trabalho. Por uma questão de
sanidade mental, vou simplesmente assumir que fizeram um levantamento dos
gostos das mulheres da empresa e basearam-se nisso. Se não é simplesmente de
mau gosto.
O artigo inteiro é uma poster child para coisas
inicialmente bem-intencionadas que acabam por corroborar noções extremamente
datadas sobre mulheres. Há uma senhora médica que diz coisas como:
"Primeiro: [somos] um trunfo para as empresas porque, mesmo quando dormimos mal, chegamos arranjadas ao emprego. Depois, somos multitasking porque, mal temos filhos, habituamo-nos a que todos lá em casa peçam imensa coisa ao mesmo tempo. E mais: somos extraordinárias na organização do tempo e dos horários, ao mesmo tempo que somos sensíveis e compreensíveis com os outros."
"Posso dizer ainda que, no final da especialidade, quem teve filhos durante o internato obteve melhores notas."
Novamente a mesma história. Somos mais sensíveis e
compreensíveis com os outros, somos boas no multitasking. UGH. Diz quem?
Pessoas diferentes têm aptidões e características diferentes. As mulheres não são
exceção a isto.
E chegar arranjada ao emprego? O que é que é suposto
isso querer dizer? Ah mesmo tendo em conta o marido inútil que obriga a que a
senhora esteja acordada a noite toda a tratar da criança, quando ela se levanta
para ir para o emprego, tem sempre tempo de cobrir as olheiras com base e obedecer
a padrões de beleza arbitrários. NICE.
Este artigo parte do prossuposto claramente errado de
que as mulheres coletivamente têm características que não foram
convenientemente aproveitadas até agora e que na verdade todos os estereótipos
que nos fizeram ser vistas como bleeding-heart caretakers são perfeitamente
capitalizáveis. "Afinal ser histérica e demasiado emocional e gostar de
sapatos não é assim tao mau para o mercado de trabalho!". Mete-me nojo.
Apaga a existência real e abundante de mulheres e homens que se desviam
dos gender roles tradicionais.
Depois há insistência do artigo nos filhos. É verdade
que é um problema óbvio que as mulheres são discriminadas se decidirem ter
filhos estando no mercado de trabalho. Mas, se calhar, digo eu, se passássemos
alguma responsabilidade para os homens e acabássemos com a noção de que as
mulheres são as primary caretakers e que são elas que têm que tratar das
crianças enquanto trabalham a tempo inteiro, isto ia ao sítio. Há um grupo de
senhoras no artigo que dizem que têm um sistema de apoio muito forte no seu
local de trabalho, que levam os filhos umas das outras ao médico quando é
preciso. Acho curioso. Tanta criança órfã de pai.
Para não
falar de que parece que ter filhos é absolutamente indissociável de ser mulher.
É uma inevitabilidade. Estamos irrevogavelmente condenadas a ser matrioskas
humanas.
A história e
o percurso das mulheres não está nem mais nem menos ligado a crianças do que o
dos homens. Quantas vezes aparece escrito coisas como "profissional,
mulher, mãe", usando as crianças como desculpa para diluir a personalidade
das mulheres e reduzi-las à relação que têm com outras pessoas à sua volta.
Este artigo
está perto de ser relevante mas não chega lá, é verdade que sou uma megera
feminista que nunca está contente com nada, mas nós não precisamos de mais
coisas destas. De artigos frouxos sobre pequenas variações da posição tradicional
da mulher. Não, nós precisamos que se mude radicalmente a maneira de pensar.
Que parem completamente de pensar que mulheres são x e homens são y, precisamos
que haja um upheaval completo do status quo e que se torne impensável
discriminar uma porção qualquer da população só porque durante muitos anos se
achou que era completamente homogénea e semelhante numa quantidade de
características menos simpáticas.
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