domingo, 17 de maio de 2015

Quase lá

Na semana passada li uma coisa na Visão sobre a situação das mulheres no mercado de trabalho. Vou prefaciar o que vou escrever a seguir com o seguinte: acho o artigo positivo, acho que faz mais bem do que mal, gostei de ver as estatísticas e os seus gráficos muy informativos. É bom, é positivo. Pronto, dito isto, agora vou achincalhar.
 
O tom do artigo não é o melhor, muito sinceramente. Começando logo pelo título: "A vantagem de contratar mulheres". Não tem que haver vantagens em contratar mulheres até porque não há nem mais nem menos vantagens em contratar mulheres versus contratar homens, a vantagem de contratar mulheres reside apenas no facto de ser um imperativo moral fazê-lo. As mulheres têm que ser tratadas exatamente da mesma maneira que os homens. Exatamente. Nem mais nem menos. Não é difícil. Não temos que andar à procura de características mágicas que as mulheres possuem coletivamente por alguma razão mística. O que o título sugere é o seguinte: temos um sistema capitalista que ajudou a fomentar e a criar gender roles artificiais que basicamente atrofiaram metade da população mas que agora, depois deste tempo todo, decidiu que o mais lucrativo seria fazer um repackaging a esses mesmos gender roles de forma a que fossem vistos como atraentes no mercado de trabalho sem se dar ao trabalho de desconstruir a merda que andou a perpetuar.
 
E isto é só o título. Admiro-me como é que nunca tive azia na vida. A alegria de ser jovem.
 
O tom do artigo é todo este: como é que características convencionalmente femininas podem ser valiosas para as empresas? Não há grande referência a mulheres enquanto indivíduos únicos que devem ser respeitados e vistos ao mesmo nível dos seus pares masculinos. É faux empowerement e soa tudo muito vagamente a algo que uma senhora de cinquenta anos que gosta de fazer piadas sobre a quantidade de vinho que consome diariamente postaria no facebook.
 
Por exemplo, no contexto de celebrar e respeitar empregadas, temos a seguinte pérola:
"No Dia da Mulher do ano passado, por exemplo, multiplicaram-se os cuidados para lá das flores, com direito a manicura, pedicura e, ainda, um workshop de maquilhagem."

Porquê? O que é isto? Alguém pegou em todos os clichés sobre mulheres e, numa tentativa bem-intencionada de fazer um gesto bonito pelas empregadas da empresa em questão, fez uma coisa borderline ofensiva que nem de perto nem de longe representa os interesses de uma porção significativa das mulheres no mercado de trabalho. Por uma questão de sanidade mental, vou simplesmente assumir que fizeram um levantamento dos gostos das mulheres da empresa e basearam-se nisso. Se não é simplesmente de mau gosto.
 
O artigo inteiro é uma poster child para coisas inicialmente bem-intencionadas que acabam por corroborar noções extremamente datadas sobre mulheres. Há uma senhora médica que diz coisas como:
 
"Primeiro: [somos] um trunfo para as empresas porque, mesmo quando dormimos mal, chegamos arranjadas ao emprego. Depois, somos multitasking porque, mal temos filhos, habituamo-nos a que todos lá em casa peçam imensa coisa ao mesmo tempo. E mais: somos extraordinárias na organização do tempo e dos horários, ao mesmo tempo que somos sensíveis e compreensíveis com os outros."

"Posso dizer ainda que, no final da especialidade, quem teve filhos durante o internato obteve melhores notas." 
 
Novamente a mesma história. Somos mais sensíveis e compreensíveis com os outros, somos boas no multitasking. UGH. Diz quem? Pessoas diferentes têm aptidões e características diferentes. As mulheres não são exceção a isto.
 
E chegar arranjada ao emprego? O que é que é suposto isso querer dizer? Ah mesmo tendo em conta o marido inútil que obriga a que a senhora esteja acordada a noite toda a tratar da criança, quando ela se levanta para ir para o emprego, tem sempre tempo de cobrir as olheiras com base e obedecer a padrões de beleza arbitrários. NICE.
 
Este artigo parte do prossuposto claramente errado de que as mulheres coletivamente têm características que não foram convenientemente aproveitadas até agora e que na verdade todos os estereótipos que nos fizeram ser vistas como bleeding-heart caretakers são perfeitamente capitalizáveis. "Afinal ser histérica e demasiado emocional e gostar de sapatos não é assim tao mau para o mercado de trabalho!". Mete-me nojo. Apaga a existência real e abundante de mulheres e homens que se desviam dos gender roles tradicionais.
 
Depois há insistência do artigo nos filhos. É verdade que é um problema óbvio que as mulheres são discriminadas se decidirem ter filhos estando no mercado de trabalho. Mas, se calhar, digo eu, se passássemos alguma responsabilidade para os homens e acabássemos com a noção de que as mulheres são as primary caretakers e que são elas que têm que tratar das crianças enquanto trabalham a tempo inteiro, isto ia ao sítio. Há um grupo de senhoras no artigo que dizem que têm um sistema de apoio muito forte no seu local de trabalho, que levam os filhos umas das outras ao médico quando é preciso. Acho curioso. Tanta criança órfã de pai.
 
Para não falar de que parece que ter filhos é absolutamente indissociável de ser mulher. É uma inevitabilidade. Estamos irrevogavelmente condenadas a ser matrioskas humanas.
 
A história e o percurso das mulheres não está nem mais nem menos ligado a crianças do que o dos homens. Quantas vezes aparece escrito coisas como "profissional, mulher, mãe", usando as crianças como desculpa para diluir a personalidade das mulheres e reduzi-las à relação que têm com outras pessoas à sua volta.
 
Este artigo está perto de ser relevante mas não chega lá, é verdade que sou uma megera feminista que nunca está contente com nada, mas nós não precisamos de mais coisas destas. De artigos frouxos sobre pequenas variações da posição tradicional da mulher. Não, nós precisamos que se mude radicalmente a maneira de pensar. Que parem completamente de pensar que mulheres são x e homens são y, precisamos que haja um upheaval completo do status quo e que se torne impensável discriminar uma porção qualquer da população só porque durante muitos anos se achou que era completamente homogénea e semelhante numa quantidade de características menos simpáticas.
 
 
 
 
 
 
 
 

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